Entre os mitos disseminados no meio religioso-musical, um dos mais repetidos é aquele que diz que o rock nasceu dos tambores vodus. Assim, o rock seria uma música com poder de falar com os espíritos caídos, seria um estilo que atrairia os demônios para as reuniões religiosas. Tem coisas no rock que devem ter sido idéia de um espírito caído estética e musicalmente: existe algo mais sem-noção do que o Kiss e suas quinquilharias marketeiro-satânicas ou do que a pose de roqueiros enfezados gritando "odeio muito tudo isso (mas não deixem de comprar nosso último cd niilista)"? Ou então é coisa de espírito de porco mesmo (como o death metal).
Entretanto, palestras bem-intencionadas não levarão o rock ao inferno. O rock não é nenhum filho bastardo de um casamento espúrio entre o branco-de-olhos-azuis e os tambores vodus. O rock nasceu de uma mistura do gospel, do country e do blues, sendo conhecido antes da fama como rythm and blues. Os acordes básicos, a simplicidade inicial, pelo menos (Elvis Presley, Little Richard, Bill Haley), têm raízes no country. A batida e a melodia tiveram influência do gospel e do blues.
Hã? Como assim do gospel? Poucas sociedades modernas foram tão orientadas por valores protestantes como a sociedade norte-americana. Eu disse orientadas por e não obedientes aos. Lembre-se o caso de Elvis Presley, que dizia que sua voz calcava-se no estilo vocal do cantor gospel Jake Hess, mas cujo rebolado era considerado sensual demais até para a TV. Contraditório? Incompreendido? Então, imagine uma estrela pop que imitasse a voz de Larnelle Harris e dançasse como Sidney Magal?
Certa vez, durante uma palestra, cantei com um quarteto a música "Swing Down, Chariot" (da qual há uma gravação antológica do Heritage Singers) para explicar a transição do spiritual para o gospel. Ao final da palestra, alguém me perguntou, indignado: "Mas isso não é um rock"? Eu deveria ter sido mais claro, pois antes de cantar já tinha explicado que o rock é que teve origem no gospel. Relembrando: apenas nos primeiros anos do rock e do soul. Os eventos de Woodstock, os Beatles e sua fase lisérgica e indiana, as diatribes eruditas de Frank Zappa, a surf music, o rock progressivo, o punk, o heavy e outras variações nada mais têm a ver com o gospel.
O samba, este sim, nasceu de cantos dos momentos de lazer ou de culto dos negros tornados escravos no Brasil. O contato de classes sociais distintas com o samba e o desenvolvimento da tecnologia e das mídias são alguns dos fatores que levaram o samba, digamos, do morro para o asfalto, modificando-o, remodelando-o. Mas a percussão dos cultos de religiões de matriz africana não floresceu nos EUA. A conversão em massa ao protestantismo deu aos afro-americanos novas melodias e ritmos. Isso levou o spiritual (gênero de origem rural) a produzir melodias de difícil classificação: se são afro ou se são de ascendência anglófona.
Toda segregação étnica se dá no campo cultural também. Os primeiros observadores dos cultos e diversões afro enfatizaram alguns aspectos musicais mais desenvolvidos na Europa (melodia, harmonia, contraponto) como "superiores" à música que não conheciam. Ou seja, mais uma vez, a ignorância sobre o "outro" gerava preconceito, contribuindo para rascunhar o "outro" como exótico e toda a sua música como "primitiva", "bárbara", "primária". É provável que se tenha derivado o mito de que os tambores per se são do mal a partir da visão eurocêntrica que nivela todas as culturas musicais pela cultura estética anglo-saxã.
Há motivos para um cristão desgostar do rock ou do samba, mas não será pela particularidade da origem rítmica. Roqueiros e sambistas podem animar um auditório, mas terão dificuldades para elevar em espírito e em verdade uma congregação. Há razões para não se legitimar oficialmente os tambores (a bateria) em algumas igrejas protestantes, mas não será a difusão de experimentos "sonoro-científicos" com ratos e plantas ou o terrorismo em relação a uma forma musical que ajudará na orientação do que é apropriado ou não para a música na igreja.
A discussão sobre a presença de instrumentos de percussão (ou de bateria) no acompanhamento da música congregacional carece de contextualidade social e histórica, sim. No entanto, creio que a palavra bíblica é o melhor caminho para aqueles que professam a crença na divina revelação. Dela, lembro que "todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam" (I Coríntios 10:23). Penso que esses versos valem para a música e sua conjunção de letra, arranjo, estilos e, também, instrumentos.
Entretanto, palestras bem-intencionadas não levarão o rock ao inferno. O rock não é nenhum filho bastardo de um casamento espúrio entre o branco-de-olhos-azuis e os tambores vodus. O rock nasceu de uma mistura do gospel, do country e do blues, sendo conhecido antes da fama como rythm and blues. Os acordes básicos, a simplicidade inicial, pelo menos (Elvis Presley, Little Richard, Bill Haley), têm raízes no country. A batida e a melodia tiveram influência do gospel e do blues.
Hã? Como assim do gospel? Poucas sociedades modernas foram tão orientadas por valores protestantes como a sociedade norte-americana. Eu disse orientadas por e não obedientes aos. Lembre-se o caso de Elvis Presley, que dizia que sua voz calcava-se no estilo vocal do cantor gospel Jake Hess, mas cujo rebolado era considerado sensual demais até para a TV. Contraditório? Incompreendido? Então, imagine uma estrela pop que imitasse a voz de Larnelle Harris e dançasse como Sidney Magal?
Certa vez, durante uma palestra, cantei com um quarteto a música "Swing Down, Chariot" (da qual há uma gravação antológica do Heritage Singers) para explicar a transição do spiritual para o gospel. Ao final da palestra, alguém me perguntou, indignado: "Mas isso não é um rock"? Eu deveria ter sido mais claro, pois antes de cantar já tinha explicado que o rock é que teve origem no gospel. Relembrando: apenas nos primeiros anos do rock e do soul. Os eventos de Woodstock, os Beatles e sua fase lisérgica e indiana, as diatribes eruditas de Frank Zappa, a surf music, o rock progressivo, o punk, o heavy e outras variações nada mais têm a ver com o gospel.
O samba, este sim, nasceu de cantos dos momentos de lazer ou de culto dos negros tornados escravos no Brasil. O contato de classes sociais distintas com o samba e o desenvolvimento da tecnologia e das mídias são alguns dos fatores que levaram o samba, digamos, do morro para o asfalto, modificando-o, remodelando-o. Mas a percussão dos cultos de religiões de matriz africana não floresceu nos EUA. A conversão em massa ao protestantismo deu aos afro-americanos novas melodias e ritmos. Isso levou o spiritual (gênero de origem rural) a produzir melodias de difícil classificação: se são afro ou se são de ascendência anglófona.
Toda segregação étnica se dá no campo cultural também. Os primeiros observadores dos cultos e diversões afro enfatizaram alguns aspectos musicais mais desenvolvidos na Europa (melodia, harmonia, contraponto) como "superiores" à música que não conheciam. Ou seja, mais uma vez, a ignorância sobre o "outro" gerava preconceito, contribuindo para rascunhar o "outro" como exótico e toda a sua música como "primitiva", "bárbara", "primária". É provável que se tenha derivado o mito de que os tambores per se são do mal a partir da visão eurocêntrica que nivela todas as culturas musicais pela cultura estética anglo-saxã.
Há motivos para um cristão desgostar do rock ou do samba, mas não será pela particularidade da origem rítmica. Roqueiros e sambistas podem animar um auditório, mas terão dificuldades para elevar em espírito e em verdade uma congregação. Há razões para não se legitimar oficialmente os tambores (a bateria) em algumas igrejas protestantes, mas não será a difusão de experimentos "sonoro-científicos" com ratos e plantas ou o terrorismo em relação a uma forma musical que ajudará na orientação do que é apropriado ou não para a música na igreja.
A discussão sobre a presença de instrumentos de percussão (ou de bateria) no acompanhamento da música congregacional carece de contextualidade social e histórica, sim. No entanto, creio que a palavra bíblica é o melhor caminho para aqueles que professam a crença na divina revelação. Dela, lembro que "todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam" (I Coríntios 10:23). Penso que esses versos valem para a música e sua conjunção de letra, arranjo, estilos e, também, instrumentos.
Talvez, partindo dessa referência, possamos criar pontes entre gostos que reforçam mitos e gerações que alimentam a dissensão e passar a questionar e afastar tanto os extremos do culto formalista quanto a irreverência da adoração liberal.

11 comentários:
Gostei do seu texto Joêzer, e acho que ele vai ao cerne da questão nesse momento crucial para algumas igrejas protestantes que não sabem mais o que fazer com o assunto da bateria e percussão. Creio que o seu blog venha a ser uma constante contribuição para criar pontes entre este e aquele ponto, completando o cenário.
Infelizmente o conhecimento de história da música e todas as implicações que ele traz para detrimento dos argumentos estreitos e superficiais que vemos em blogs mil continua sendo altamente elitizado.
Para ajudar, a cultura católico-ditatorial do Brasil faz com que as grandes massas dos morros e da subúrbia tenham preguiça de pensar por si mesmas ou criem o gosto pela pesquisa e acabem aceitando de "mão beijada" as decisões e "votos" da hierarquia inconspícua, seja esta política ou religiosa. Isso está mudando com a ubiquidade da internet, para espanto daqueles que vêem o conhecimento como desmancha-prazer.
Eu abordei a demonização da bateria, como vc gostar de dizer, no artigo sobre a bateria e a música adventista, por exemplo:
"Outros argumentos citam a resposta de plantas à música rock, a percussão sendo usada em rituais satânicos ou a influência do ritmo em alterar batimentos cardíacos, entre muitos outros. Mas plantas não são gente e os batimentos cardíacos se alteram constantemente durante o dia quando levantamos, sentamos, corremos, dormimos, e até mesmo quando ouvimos música clássica. Condenar a percussão porque é usada em rituais satânicos, xamânicos etc., é equivalente a condenar o uso da TV para evangelismo porque ela é usada secularmente para promover a violência e a pornografia. Afinal, ninguém está usando a percussão na música cristã para promover possessões demoníacas ou rituais satânicos. Também problemático é o repúdio do estilo de vida de roqueiros e músicos seculares para demonizar a bateria e percussão. O fato é que, com poucas exceções, os compositores da música erudita dos séculos 17-20, que é tida como única aceitável na adoração hoje por muitos, tiveram vida desregrada, espiritualística e promíscua também. Parece que há grande necessidade de repensar as implicações dos argumentos usados contra a percussão." (Ellen White era Contra a Bateria?, p. 8) Podemos adicionar à culpa por associação os microfones, a língua portuguesa, cadeiras e por aí vai...
Tenho até ouvido a expressão "som poluído" da bateria o que me dá arrepios de desgosto. Como dizia um professor do seminário, "A ignorância é atrevida!" (bem lembrado por André Gonçalves).
Será que a mera frequência da onda sonora de um tambor de alguma forma entra nos meus ouvidos com intenções malignas, como pequenos Gremlins diabólico-musicais querendo infernizar meus santos ouvidos?
Mas o que dizer do som poluído dos pianos mal tocados em igrejas mil por aí, esses não contam?
Ou não seria a pessoa que está tocando que tem em si mesma alguma poluição, seja por ignorância, exibição ou pura irresponsabilidade?
Um martelo pode pregar um prego ou esmiuçar uma janela de vidro. É o uso que se faz dele que define sua utilidade ou insanidade.
Líderes de música sacra interessados em afinar seu louvor e chegar mais perto do louvor bíblico do Salmo 150, precisam entender que instrumentos musicais são amorais, não são e não podem ser maus por natureza. E que deixem pra lá o desejo incontido de controlar uma suposta conspiração neófita para destruir o bom e confortável tradicional.
Espero finalmente que o reconhecimento da influência secular sobre a música sacra nos últimos 20, 30 .... 6000 anos possa deixar de ser um conhecimento da elite musical e influencie decisões bem informadas, e não tendenciosas sobre o que é lícito e convém no culto a Deus.
Ainda estou à procura daquela partitura que escorregou do céu quando Elias foi arrebatado, aquela que não tinha ritmos, síncopes, tritons e muito menos, tambores...
caro andré,
assim como no campo da ciência há aqueles que distorcem fatos e criam mitos a favor do evolucionismo ou do criacionismo, na esfera da música sacra há quem faça malabarismos hermenêuticos com a Bíblia e com a inspiração profética (ou com a história da música)a fim de defender seu ponto de vista a favor ou contra estilos ou instrumentos musicais.
não sou nenhum ardoroso defensor do acompanhamento no canto congregacional, por exemplo. mas não podemos mais usar de cientificismo e inverdades sócio-históricas para defender nosso ponto de vista, repito, seja este contra ou a favor.
todos precisamos mesmo é nos ater ao bom senso, ao equilíbrio e à busca de uma adoração menos centrada na experiência e mais motivada pela obediência. e é preciso discutir se isso inclui a adoção ou a recusa dos instrumentos de percussão e por quais razões isso porventura se fará.
espero que os leitores amigos desse blog façam a diferença para a edificação da igreja.
um abraço
adoração envolve obediência e experiência. as duas coisas caminham sempre juntas biblicamente e diariamente. adoração são mais do que as horas de culto. reduzir adoração e, em especial, a música a esfera do culto é reduzir o relacionamento com D-S.
o que gosto sempre nos seus artigos e comentários sobre música e igreja é sua proposta de quebrar mitos e estabelecer uma busca por respostas reais as escolhas que devem ser feitas no campo do culto e não da adoração...
shalom
edson
obs: parabéns!
acertadíssimo, edson,
adoração tem menos a ver com formas de culto e mais com o espírito de consagração aceito por Deus.
Parabéns pela seriedade no assunto.
Serei um leitor frequente de seus textos.
Deus te abencoe.
ruben,
sua leitura será sempre muito bem-vinda. a casa é nossa.
Muito sensato, sereno, direto e certeiro seus argumentos, Joêzer. Já virei seu seguidor do blog.
abs
Prazer em conhecer. É a primeira vez que encontro um texto com tantas "avenidas" para raciocinarmos. No entanto, gostaria de expor algumas questões, se permitir. Aí vão elas:
- O rock foi considerado inimigo do cristão por tempos. Por quê agora essa ânsia de se usar uma linguagem extrememente conectada com estilos de vida não aconselháveis - como é o caso deste ritmo relacionando-se com os nomes que você mesmo citou (Elvis, Litlle Richard...) - para o evangelismo? Não estariam o estilo pregando um evangelho e a letra, outro? Qual a vantagem de se "batizar" o rock, levando em conta que, por muito tempo, mesmo entre nós ASD havia o consenso de que esse ritmo/estilo era prejudicial, a ponto de ser mencionado mesmo no Manual da Igreja?
- Como você vê o atual momento da música adventista que "constrói pontes entre diversas denominações através da música, mas não se interessa - ao menos à primeira olhada - em comunicar os valores teológicos a esse público admirador de nossa música, mas oponente ferrenho de nossa teologia? È como se estivéssemos tornando comum nossa cultura musical para alcançar públicos ainda não alcançados... não estaríamos perdendo nossa identidade ao abrirmos tanto o leque musical a ponto de aceitarmos o rock de bom grado?
caro BEM Nascimento,
obrigado pela leitura. você é muito bem-vindo.
abraço
ótimas questões, meu caro.
vamos lá em busca de uma boa resposta:
sobre a questão 1:
também não creio que o rock seja a melhor opção musical para o louvor. como você viu, meu texto não discorda da orientação denominacional contra a presença do rock na liturgia. mas discordo das argumentações usadas por alguns palestrantes para desqualificar o rock enquanto estilo apropriado para a adoração.
o rock (e suas tantas variantes: metal, punk, soft, glam, etc) trazem consigo uma grande carga de referência externa, que pode causar interferência na adoração. mesmo entre os jovens adventistas, o rock não tem adeptos tão ardorosos a ponto de introduzi-lo em suas igrejas. não sei se porque também percebem que a letra pode estar falando de uma coisa, mas o impacto musical é sempre mais forte e pode ser negativo para muita gente.
2- sobre as pontes construídas para ligar a igreja a novos conversos, penso que deveríamos avançar tanto na pesquisa bíblico-teológica quanto na pesquisa de novas formas musicais. se a teologia adventista andar ligada às formas de composição musical, então o músico será capaz de adotar ou recusar ritmos e estilos pelo motivo correto, seja o motivo teológico, histórico ou musicológico.
como nem sempre temos músicos treinados na pesquisa, e alguns são disciplicentes quanto ao estudo teológico, então haverá compositores que abaixarão a qualidade da letra e da qualidade da adoração em favor do estilo segundo o hit musical do momento, sem refletir nas consequências de seu trabalho.
é isso
abraço
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