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Mostrando postagens de Março, 2008

O gênero musical do novo século - II

No início do ano, postei um texto sobre o gênero musical do novo século , onde eu tomava como referência um artigo do site People Listen to it , escrito pelo musicólogo Gabriel Solis. O site americano é de estudantes, compositores e professores da área de música da Universidade de Illinois. Pois bem. Este site descobriu o meu artigo sobre o tema e fez uma atualização onde dá o link para meu texto no blog Nota na Pauta e diz que também aponto um processo de síntese de gêneros em algumas produções musicais brasileiras de hoje, à semelhança do que Solis percebe na música norte-americana. Abaixo, amplio alguns dos exemplos que citei no meu artigo. As fronteiras entre a cultura erudita e a cultura popular parecem estar bastante atenuadas em um certo universo musical que comporta compositores do mundo todo, cujas experimentações sonoras expandem os limites da escuta. Um trabalho representativo no Brasil é o de André Mehmari, jovem compositor-residente da Banda Sinfônica de São Paulo. Seus

As bem-aventuranças segundo Bush

Como lembrança pela passagem do quinto ano da presença dos EUA no Iraque , rabisquei esta singela e-missiva pela efeméride tão trágica para as milhares de famílias iraquianas e americanas despedaçadas diariamente. O plenipotenciário global, George W. Bush, em seus atributos de comandante-em-chefe da ignorância política e da violência econômica, esteve passando em revista as tropas israelenses no começo do ano. Segundo os jornais, o american president foi à região para tentar acelerar o processo de paz. Não me digam! Será que em vez de Bush, o Jack Bauer de Guantánamo, ele quer sair do Salão Oval para entrar na história como Bush, o pacificador? Não que eu queira viver no "mundo encantado de Saddam ou Bin Laden", mas veja como funciona a história nesse admirável mundo novo. Primeiro, Bush Filho vem a público qual um profeta hebreu dizer que ouviu a voz de Deus . A menos que o Senhor intervenha e desmascare esse baalim travestido de pacificador, será o apocalypse now . Valh

A odisséia de Arthur C. Clarke

Arthur C. Clarke , escritor de ficção científica, acabou ficando muito mais conhecido por uma história que escreveu para o cinema, em parceria com o cineasta Stanley Kubrick: 2001 – Uma odisséia no espaço , marco histórico da arte em qualquer tempo (embora o filme seja também adaptação de outro conto de Clarke, “A Sentinela”). 2001 é reflexivo e lento demais para muita gente – alguns o acham muito pretensioso, outros preferem menos filosofia e mais ação. De fato, 2001 não é fácil, mas as discussões propostas pelo filme, a origem e o sentido da existência humana, o homem prisioneiro da tecnologia, o mistério do monólito, que seria uma representação da incomunicabilidade entre o sobrenatural e o homem, tudo isso parece vir da mão de Clarke, autor de uma ficção científica humanista. O escritor também deixa como legado as Três Leis de Clarke , um conjunto de provocações à ciência e à ficção científica, publicadas em “Profiles of the Future” (1962): 1) Quando um cientista mais velho e di

Globo e Record: a novela da vida irreal

O mais recente capítulo da disputa via satélite entre Globo e Record foi ao ar na semana passada. Como de costume, uma das redes de televisão sentiu-se ofendida e, machucada em seu ego continental, partiu para o contra-ataque. O conflito entre ambos as redes começa em tom jornalístico, mas no fim das contas, toma feitio de folhetim. Mas o que foi que aconteceu mesmo? Na novela Duas Caras , da Globo, há um núcleo evangélico do “mal” (segundo o autor da novela, há outro núcleo, o do “bem”). Pois este grupo de crentes, liderados por uma fanática, se insurgiu num dos capítulos contra um triângulo amoroso formado por um homossexual, uma ex-drogada e um garçom. A tal evangélica, liderando a turba, fez soar as trombetas de Jericó, invadiu uma casa, atirou pedra na ex-drogada como se não tivesse pecados, depredou uma cama, ameaçou matar uma grávida que carregaria a própria besta do Apocalipse. Enfim, foi um Baal-nos-acuda, um cruzamento de A Profecia com As Bruxas de Salem . A reação da Rec

A Muralha

Em tempos de BBBoçais na TV, o Canal Futura está reapresentando a minissérie A Muralha . A minissérie aborda diversas facetas do Brasil-Colônia, como o trabalho dos jesuítas, a escravidão indígena, a incipiente luta contra o autoritarismo português, a corrupção dos oficiais instituídos pela metrópole, a luta das mulheres que ficavam em casa enquanto os maridos saíam para desbravar as matas. Importa dizer que o programa que exibe a minissérie se chama “Faixa Comentada”, e antes de cada segmento apresentado há uma entrevista com os atores, cenógrafos, roteiristas e diretores da obra. Mas também há entrevistas com especialistas acadêmicos, professores e historiadores, como Eduardo Bueno, sobre costumes culturais e práticas comerciais e religiosas da época, o que acaba sendo bastante esclarecedor. A reconstituição dos lugares do período colonial, situado no local de estabelecimento do que viria a ser a futura cidade de São Paulo, é cuidadosa, sendo que a taba dos índios foi construída p

Fábulas Menores de Moral Mínima - 3

BREVÍSSIMO RELATO DO HORRENDO LABOR DE UM BISPO-DEPUTADO E DE SUA IMOLAÇÃO PESSOAL EM FAVOR ILÍCITO OU NÃO DOS SEMELHANTES "A vida de um parlamentar é muito ruim, um sacrifício. Chega de manhã e sai à noite. Se você vai a um casamento, tem que abraçar 100 pessoas que você não conhece. Se você está em casa com a família, tem que atender a um pedido político ou até mesmo ir a um enterro de eleitor. É um sacrifício pessoal". Isto é parte do depoimento do Bispo Rodrigues à Justiça Federal do Rio de Janeiro. Ele é réu no processo do mensalão. No dicionário dos 40 acusados, réu é aquele político inocentemente envolvido em teorias conspiratórias da oposição; e, mensalão, bem, mensalão não existe, é só um esquema de financiamento de parlamentares governistas e aliados que dá nas cabeças dos juízes do STF. E não está mais aqui quem perguntou o que uma frase do “Bispo” da Universal está fazendo na seção dedicada à fábulas menores de moral mínima. SOBRE MENINOS E LOBOS Numa era in

De Bach em Bach

O que é um homem sem sua peruca barroca, não? Desprovido desse acessório, Johann Sebastian ficou parecendo o carroceiro da praça em frente da igreja onde tocava. Sem nenhum demérito aos valorosos e anônimos carroceiros de Leipzig. Na reconstituição do rosto de Bach (confira mais detalhes aqui ), parece que o compositor ganhou mais melanina, o que o torna um tanto moreno demais para os padrões germânicos desde sempre. Já pensou, o pai da música erudita-ocidental-cristã não ser tão branco como pintaram? Se isso for verdade, o processo de ‘branqueamento’ dos ícones culturais já vem de longe mesmo. Não faz muito tempo que aqui no Brasil se tinha retratos de Carlos Gomes e Machado de Assis (há outros e muitos) “lavados e enxaguados” em Omo progress do tipo sua pele nunca mais será a mesma. Também se conta que a Globo embranqueceu Chiquinha Gonzaga naquela minissérie em que a maior compositora popular brasileira foi vivida pelas “morenas” Regina e Gabriela Duarte. Branco ou moreno, feio