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Mostrando postagens com o rótulo cem palavras

a ateia sem recalques e o filósofo atento

Perguntada se um milagre divino teria lhe dado a reação rápida para salvar sua filha de 19 meses da destruição causada pelo tornado em Oklahoma, Rebecca Vitsmun diz ao constrangido repórter que é ateia, e completa simpaticamente: “Não culpo ninguém por agradecer ao Senhor”. Está aí uma ateia sem recalques e que respeita aqueles que creem na intervenção de Deus. Mas o filósofo Michel de Montaine, em 1592, percebia que havia alguns ateus nada simpáticos que manifestavam o costume tão humano de manejar o que lê em favor de suas ideias preconcebidas. “Estamos sempre dispostos a atribuir aos escritos dos outros sentidos que favoreçam as nossas opiniões sedimentadas: um ateu se orgulha de fazer com que todos os autores reforcem a causa do ateísmo. Ele envenena com sua própria peçonha o mais inocente pensamento” ( The complete essays , Londres, edição de 1991, p. 500).

100 palavras: em busca da igreja perdida

a sua semana começa assim?

cem palavras: o "eu-ísmo"

Há 25 anos, uma equipe liderada por Robert Bellah, da Universidade da Califórnia, pesquisou as crenças e valores dominantes das classes médias norte-americanas. Os resultados da pesquisa foram analisados e publicados no influente livro Habits of the Heart (Hábitos do Coração, tradução livre). Segundo o livro, a sociedade é incrivelmente individualista em seu estilo de vida. Mesmo a religião é vista como algo não-comunitário e totalmente de cunho privado. Para os autores, uma entrevista presente no livro resume bem o que é a religião americana. Na entrevista, uma jovem de nome Sheila disse com franqueza:  "Eu acredito em Deus. Mas não sou uma fanática religiosa. Nem lembro da última vez que fui a uma igreja. A fé que me leva é o 'Sheilaísmo'. Somente a minha própria voz". (Citado em Marsden, George. Religion and American Culture , 1990, p. 257)

cem palavras: com quanto glacê se faz um blockbuster

A tradução brasileira para cinema blockbuster é “filme arrasa-quarteirão”. Nesse tipo de filme, tudo vira terra arrasada mesmo. Na verdade, eles costumam é arrasar nas bilheterias. São filmes em que a maior fatia do orçamento se destina ao cachê dos astros e/ou à equipe de CGI (a computação gráfica). A imagem acima é do filme 2012 , um legítimo (e medíocre) "arrasa-planeta". Tirando as honrosas exceções de praxe, esses filmes normalmente são como bolo de casamento: muito glacê e nenhum valor nutritivo . Com a palavra: Os blockbusters globais geralmente mostram “magos; mulheres insinuantes de poucas palavras; homens de poucas palavras que podem dirigir com esperteza qualquer veículo, destruir espetacularmente qualquer coisa e saltar ilesos do alto de qualquer coisa; personagens de história em quadrinhos; a história do mundo baseada em livros escolares da sexta série; explosões; um fenômeno da ciência desconhecido; uma encarnação do mal; mais explosões” (Louis Menand, The New...

como você percebe a música

Um dos melhores livros que pude ler nesse ano tem 167 páginas e se chama "A Música Desperta o Tempo" , do maestro e pianista Daniel Barenboim. Mais do que falar de música, ele fala da nossa vida com música: "Infelizmente, o ser humano tem a tendência de impregnar objetos com autoridade moral, de modo a não assumir responsabilidades para si mesmo. A faca é um objeto com o qual se pode cometer um assassinato - sendo, por isso, imoral - ou é um objeto que pode cortar o pão que alimentará alguém - sendo, por isso, um instrumento da generosidade humana? É o uso destinado a ela pelo homem que determina suas qualidades morais" (p.44). "Um ouvido educado desenvolve a capacidade de separar o conteúdo da música das sensações que se aprende a associar a ela (p. 109)". "Na verdade, não há nenhuma justificativa para privar as pessoas que afortunadamente não sofrem dessas terríveis associações da possibilidade de ouvir a sua música" (p. 113). "Numa...

cem palavras: a infantilização da vida

"Eu não quero crescer. Quero ser para sempre um menino e me divertir" . Peter Pan, fugindo para a Terra do Nunca "A adolescência começa antes da puberdade e, para alguns, dura para sempre [...] a negação da idade está em toda parte". Robert J. Samuelson (Adventures in Agelessness, Newsweek ) "Na indústria da moda, os vendedores visam a mãe que tenta parecer que tem 15 anos, ao mesmo tempo que a criança é enfeitada para parecer que tem 40 anos". Ginia Bellafante (Dressing up, New York Times ) "Leitores adultos debandando para Harry Potter (quando não estão abandonando completamente o hábito da leitura); filmes inspirados em quadrinhos e videogames dominando o mercado do entretenimento" [...] "As marcas da infância perpétua são impressas em adultos que são atraídos por: roupas sem formalidade, sexo sem reprodução, trabalho sem disciplina, aquisição sem propósito, certeza sem dúvida e narcisismo até a idade avançada [...] Na época em qu...

cem palavras: nosso lar, o filme

O filme Nosso Lar está sendo visto por multidões. Filmes com temática religiosa fazem milagres na bilheteria dos cinemas. Como não vi esse filme, invoco, quer dizer, convoco a pena virtual de críticos vivos e bem vivos. Como disse um escriba do site Omelete , já é difícil criticar um filme que tem fãs, imagine então os que tem devotos. Luiz Zanin : Vê-lo [ o filme Nosso Lar] , em sessão de imprensa hoje de manhã, foi das experiências mais desagradáveis de um ano marcado pelos lançamentos espíritas por causa do centenário de Chico Xavier. O visual kitsch, os diálogos declamados, a falta de qualquer noção cinematográfica – tudo isso que parecia abolido do cinema brasileiro ressurge na tela como assombração. Não vai aqui qualquer reparo à religião dos outros. Não tenho nada a ver com a crença alheia e eu, que não tenho nenhuma, respeito a todas. Essa consideração é apenas cinematográfica. Não conheço o livro, supostamente psicografado por Chico Xavier e, parece, um dos maiores sucessos...

cem palavras: revoluções

Revolução costumava ser uma palavra doce como mel que logo amargava como fel. Não custa lembrar que até o golpe militar tupiniquim de 1964 exibia-se vistosamente aos 31 de março de cada ano com o lustroso nome de Dia da Revolução. Os oficiais de caserna apropriaram-se do termo para, em nome da liberdade, tolher liberdades. Assim, ninguém era livre para falar em liberdade. Se ainda hoje vigorasse oficialmente a ditadura, aquela canção que diz “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade...” seria censurada ainda no berçário das composições bregomânticas. Havendo revolução, logo há contrarrevolução. E os contrarrevolucionários não queriam outra coisa que não fosse outra tal liberdade. Eles queriam instaurar seu reino marxista de paz e amor do mesmo jeito que os militares chegaram ao governo: na base da força. No governo dos “revolucionários de direita”, a oposição era reprimida e todos eram ensinados a cantar os versos “esse é um país que vai pra frente”. No país do contragolp...

cem palavras: o tempo e o dever

Há algo mais necessário hoje do que o uso sábio do tempo? Para tudo temos a resposta pronta "Não tenho tempo". Nunca temos tempo para nada porque o tempo nos tem. A falta de tempo não janta com os amigos nem folheia livros grossos; a falta de tempo não brinca de carrinho no tapete, o que torna o pai mais íntimo do William Bonner que dos filhos. Há mais necessidade de gente que, mais do que cumprir dignamente o dever, cumpra deveres dignos. É o que aprendo com Hillel: Se eu não for por mim, quem o será? E quando sou por mim, o que sou? E se não for agora, quando será? Não digais, quando eu tiver um tempo livre, vou estudar - talvez, jamais tereis um tempo livre . Onde não houver homens, esforçai-vos para agir como um homem . E para quem tem muita iniciativa no tempo, mas pouca "acabativa" no dever, servem as palavras do rabino Tarphon: Não sois obrigado a concluir a obra, mas tampouco estais livre para desistir dela .

cem palavras: o ódio a Deus

Há uns dois anos, em conversa sobre religiões, um dos interlocutores falou sobre Deus assim: "Esse Deus fica exigindo reverência e adoração só pra Ele, quer que todo mundo se humilhe e grita: se ajoelhem!" Houve um silêncio na roda, eu fiquei impressionado com a súbita cólera na fala do amigo e me faltou palavras pra dizer a ele que essa não é a ideia que tenho de Deus. O prazer do cristão deve ser andar humildemente com seu Senhor, como diz a Bíblia. Cristãos genuínos gostam de servir a Deus e, para eles, adorá-lO nada mais é que reconhecer e ser grato pelos atos poderosos de salvação dos quais se consideram não merecedores. O jornalista português João Pereira Coutinho, na Folha de S. Paulo (4/11/09), identifica que alguns intelectuais são sistematicamente agressivos em relação às religiões (e regularmente acintosos quanto ao cristianismo) não porque descreem simplesmente na existência do Deus bíblico, mas porque desenvolveram um ódio ao Deus bíblico, e acabam falando de De...

cem palavras: fama para todos

Este "cem palavras" de hoje será o mais twitter, digo, o mais curto de todos o que já postei. Com menos de 140 caracteres, dois aforismos separados por 30 anos que apontam os rumos da democratização da fama: No futuro, todo mundo será famoso por quinze minutos. Andy Warhol Na internet, todo mundo será famoso para quinze pessoas. Justin Hall

cem palavras: viver a vida

Não, caríssimo antinoveleiro, não vou falar das velhas peripécias noturnas globais, ou recordais, sbtais. Vou citar uma entrevista de um professor que li recentemente na Gazeta do Povo , jornal paranaense. Trata simplesmente de qual é nossa postura e atitude diante da vida. Serei eu herói da minha própria vida? - David Copperfield (by Charles Dickens). Eu digo o seguinte: a maioria das pessoas é náufraga na própria vida. – Newton Carneiro Affonso da Costa, matemático e filósofo.

cem palavras: se eu tivesse amor

Se tivéssemos amor, não precisaríamos da moral. Sendo esse amor autêntico, ele torna supérfluo todo imperativo categórico, regras de respeito mútuo. André Comte-Sponville, Petit Traité des Grandes Vertus (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes) Ora, ora, se isso não se assemelha aos arrazoados de Paulo em I Coríntios 13 ou à resposta de Cristo a quem lhe indagava sobre qual o maior mandamento da Lei: Ama ao Senhor Teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, com todo o entendimento. Este é o primeiro e maior de todos os mandamentos. O segundo é: Ama teu próximo como a ti mesmo. Ver o contexto no livro de Mateus 22:34 a 40 Cristo não estava inventando uma nova lei, mas somente resumindo e reforçando o que já tinha sido revelado: o que Ele disse está em Deuteronômio 6:5 e Levítico 19:18. Se a gente sai a dizer que o cristianismo é amor e a suprema Lei de Cristo é o amor, há quem insista em nos contrapor mostrando os lados mais desprezíveis da religião. Mas se é um filósofo que fal...

cem palavras: a fé e a esperança

A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou. Pois o humor sempre há de mudar, qualquer que seja o ponto de vista da razão. Agora que sou cristão, há dias em que tudo na religião parece muito improvável. Quando eu era ateu, porém, passava por fases em que o cristianismo parecia probabilíssimo. A rebelião dos humores contra o nosso eu verdadeiro virá de um jeito ou de outro. E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na verdade, da qualidade do clima ou da sua digestão naquele dia. Conseqüentemente, temos de formar o hábito da fé. A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pensa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas ...

cem palavras: a feiura do ódio

O cristianismo é uma religião de amor tão radical que não apenas recomenda aos seguidores para que amem a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. É preciso, ainda, que amemos os inimigos e oremos pelos que nos perseguem. Pra muita gente já é difícil corresponder ao amor alheio, imagine então amar quem nos odeia, querer bem a quem preferiria que nem existíssemos. A sabedoria bíblica já disse por outros versos o que você lerá na citação mais abaixo: que o coração alegre aformoseia o rosto, que a tristeza faz secar os ossos, que a palavra branda desvia o curso da ira, e outros conselhos simples e necessários. Às vezes, parece que é preciso que outros digam a mesma coisa, mas de outra maneira, para que se repense o modo de relacionar-se consigo e com os outros seres humanos: “Uma vez, na televisão, o Miguel Sousa Tavares perguntou-me porque é que eu não tinha inimigos. Eu respondi que um inimigo dá muito trabalho. Quando nas andanças da vida, alguém é desagradável comigo, ...

cem palavras: 4 possibilidades

A seção "Cem Palavras" volta hoje. Escolhi um texto de Ed Renê Kivitz. Tenho cá minhas restrições quanto à "imanência" como única possibilidade de encontro com o divino, principalmente devido ao extremismo que provém da compreensão de um Deus imanente-dentro-da-gente. Sou atraído pelo ponto de tensão entre transcendência e imanência na relação homem-divindade. Mas para refletir a partir de um texto como esse não é preciso concordar com todas as suas vírgulas. Continue lendo: "Acabo de ler O espírito do ateísmo , onde André Comte-Sponville propõe uma espiritualidade para ateus, isto é, uma metafísica sem Deus, e demonstra uma sobriedade ausente entre os recentes “religiofóbicos”, como Richard Dawkins, Michel Onfray e Christopher Hitchens. Ao final de sua argumentação, conta que na adolescência, após ler o Eclesiastes, escreveu no caderno de notas: “Das duas uma. Ou Deus existe, e então nada tem importância. Ou Deus não existe, e então nada tem importância”. Na v...

cem palavras: os homens menos sábios

Não é de hoje que nossa geração é intitulada "a menos sábia de todas as épocas". O novo século ainda nem completou uma década mas parecemos nos orgulhar de termos cada vez mais informação, menos conhecimento e nenhuma sabedoria. Escalamos um Himalaia de assuntos e novidades enquanto nem subimos uma colina de reflexão sobre o que estamos aprendendo. Aliás, estamos de fato aprendendo ou só estamos acumulando símbolos, sons e imagens ininterruptas que são facilmente trocáveis? Será que, de tanto vagarmos como metamorfoses ambulantes, arrastados como caniços por qualquer brisa de doutrina insana, não estamos desacreditando as velhas opiniões formadas sobre tudo? Essas velhas opiniões não poderiam servir às vezes de peneira a fim de coar, de joeirar o caldo grosso de tudo que lemos, vemos, ouvimos e procuramos? “[No início dos tempos] era a fome que trazia a morte; agora, ao contrário, é a abundância que nos destrói. Naquela época, os homens muitas vezes ingeriam veneno por ignorâ...

cem palavras: fé e música

Minha fé é o grande drama da minha vida. Eu sou um crente, assim canto palavras de Deus para aqueles que não têm fé. Dou canções de pássaros para aqueles que moram nas cidades e nunca as ouviram, faço ritmos para aqueles que só conhecem marchas militares ou jazz, e pinto cores para que não vê cor alguma. Olivier Messiaen (1908-1992)

cem palavras: Gandhi e a questão judaico-palestina

A seção Cem Palavras, além de tosco trocadilho, é uma desculpa para transcrever as palavras de quem realmente sabe usá-las. Passo a vez para o Manifesto de Mahatma Gandhi (1869-1948) sobre a questão judaico-palestina: Harijan, em 26 de novembro de 1938. “Recebi muitas cartas solicitando a minha opinião sobre a questão judaico-palestina e sobre a perseguição aos judeus na Alemanha. Não é sem hesitação que ouso expor o meu ponto-de-vista. Na Alemanha as minhas simpatias estão todas com os judeus. Eu os conheci intimamente na África do Sul. Alguns deles se tornaram grandes amigos. Através destes amigos aprendi muito sobre as perseguições que sofreram. Eles têm sido os “intocáveis” do cristianismo; há um paralelo entre eles, e os “intocáveis” dos hindus. Sanções religiosas foram invocadas nos dois casos para justificar o tratamento dispensado a eles. Afora as amizades, há a mais universal razão para a minha simpatia pelos judeus. No entanto, a minha simpatia não me cega para a necessidade...