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Mostrando postagens com o rótulo leonardo gonçalves

Princípio (ao vivo): a imagem, o som e a Palavra

Se uma imagem vale mil palavras, quanto vale uma imagem (e uma sonoridade) que comunica a Palavra? Nessa perspectiva, um álbum cristão que, por algum tempo, ultrapasse em vendas as coletâneas de Michael Jackson, Elton John e Madonna e o mais recente trabalho de Taylor Swift tem um inegável simbolismo. Não, isso não representa a o triunfo do gospel sobre o mundo pop como gostariam de dizer os levitas mais afoitos. Até porque o pop e o gospel estão em amigável interação. Esse 1º lugar, ainda que temporário, mostra para a indústria fonográfica a força do mercado cristão. Há evangélicos que abominam a expressão “mercado cristão” - e o fazem de forma tão depreciativa e ingênua quanto alguns detratores esquerdistas repudiam o “mercado capitalista”. No entanto, verdade seja dita, nota-se um estímulo desenfreado ao consumo de artigos que ganham a alcunha de cristão somente porque são comercializados por empresários cristãos. Daí a existência de pulseira cristã, capa de celular e...

meus livros e músicas de 2012

Comecei a postar essas listas anuais na época em que comecei o mestrado. Desde então (e ainda agora no doutorado), o tempo para leitura de ficção ficou menor diante das obrigações de leituras acadêmicas e ensaios literários.  Meus livros do ano: Beethoven (Lewis Lockwood) – obra de fôlego que analisa a vida e a música do meu compositor preferido há muito tempo,desde as aulas com o mestre Jael Enéas. Os amigos preferiam me ouvir tocando a "Pour Elise", mas meu espírito gostava mesmo era da "Sonata ao Luar". A reinvenção do mundo: um adeus ao século XX (Jean-Claude Guillebaud) – a nova mentalidade social, a tecnologia, a cultura e nós que vivemos em meio a tudo isso. Para não renunciar à mudança por causa do passado e nem aprovar o novo só porque é o futuro. A new song for an old world (Calvin Stapert) – nos primeiros séculos do cristianismo, pensadores da estirpe de Clemente de Alexandria, Tertuliano, João Crisóstomo e Agostinho escrevera...

um estudo sobre o cd Princípio e Fim

As congregações evangélicas, de um modo geral, foram acostumadas a um modelo musical de melodias firmes, poesia simples e teologia direta. Isso pode explicar o apreço pelos dois primeiros CDs de Leonardo Gonçalves, nos quais há músicas que se consolidaram no repertório evangélico dos últimos anos (“Getsêmani”, “Volta”, “Moriá”, “Ele Virá”, são algumas). O 1º CD, "Poemas e Canções", apresentava temas gerais do cristianismo. O segundo, "Viver e Cantar", pôs em sequência teológica as doutrinas cristãs centrais. O terceiro, "Avinu Malkenu" , relaciona a tradição musical e teológica judaica à compreensão teológica  cristã. O CD  “Princípio e Fim”  diverge dos anteriores nos aspectos musicais e poéticos. E também é diferente no viés teológico. Vamos aos aspectos musicais. Ouvindo musicalmente As músicas deste CD se adequam mais à reflexão pessoal do que à performance pública, isso chega a ser reconfortante. Esta é uma produção que não buscou a f...

o lugar da voz e a voz no lugar

A técnica do melisma ainda divide opiniões. Alguns acreditam que é um recurso de ornamentação da melodia que mostra o domínio técnico do cantor; outros pensam que se trata meramente de exibicionismo vocal. Particularmente, acho que a técnica do melisma está ficando cansada. Em bom português, já deu o que tinha que dar. Não estou dizendo que o melisma será abandonado. Mas o esgotamento da técnica talvez possa aparar as arestas e deixar o canto mais límpido e simples. O ponto central para o cantor é o lugar da voz, é onde inserir um recurso técnico. Os maus imitadores não sabem aonde colocar a voz e abusam do melisma. E aí, cada fim de frase, é um volteio; cada curva, uma cantada de pneu. O melisma vem de longe. A música judaica é cheia de melismas. O canto gregoriano é também um canto melismático (como na gravura acima). O melisma árabe ou o melisma da black music americana podem ser usados na música cristã? Sim. O melisma pode se tornar um maneirismo chato e abusivo? Si...

a ética e a estética de Avinu Malkenu

Quando ouvi o CD Avinu Malkenu pela primeira vez, estranhei do jeito que se estranha uma novidade. Apesar da beleza do propósito, tudo me pareceu fora de lugar. Dias depois, ouvi o cd outra vez, e me vieram à mente apenas duas palavras: diálogo e origem. A intenção dos produtores do CD (Leonardo Gonçalves e Edson Nunes Jr) é a busca de diálogo com outras culturas, com outras pessoas, ligadas ou não a uma religião. Mas esse diálogo é estabelecido com um profundo arraigamento à própria identidade religiosa. A busca de diálogo é feita a partir da raiz. Não por acaso, a capa do CD é uma raiz. E uma raiz cresce, vira planta, vira árvore, aparece junto com outras árvores, forma floresta, mas seu tronco, suas folhas e seus frutos são só as partes visíveis da raiz que deu origem a tudo o mais. Algumas das músicas de Avinu Malkenu estão enraizadas na tradição litúrgica do judaísmo. Ao mesmo tempo, algumas de suas letras enfatizam aspectos do cristianismo, particularmente do adventismo. Algu...

a ética e a estética de Avinu Malkenu - parte 2

Nenhuma cultura está pronta e acabada para sempre. As expressões culturais são dinâmicas, se renovam ao agregar influências de outras culturas. A música judaica influenciou a música ibérica de 10 séculos atrás, fazendo surgir a tradição musical moura. Por outro lado, músicos judeus longe de Israel absorveram a cultura local para renovar a tradição. Assim, ouvindo a festiva canção “L’shana habaa” percebe-se a raiz da música moura/ibérica e como sua percussão está a um passo da música caribenha. Nesse contexto de interação cultural, ouvimos o shofar e o alaúde e também o piano elétrico. Ouvimos a tradição no estilo de Uzi Hitman, compositor de “Adon olam”, e também a modernidade de Nurit Hirsh, regente e também compositora de mais de mil canções, autora de “Osse shalom”, originalmente composta para um festival de Música Chadíssica, de 1969, que se tornou parte da liturgia em sinagogas e comunidades judaicas no mundo inteiro. A simplicidade melódica das canções esconde a sofisticação do...

a tradição do novo e a novidade do velho

Há duas semanas assisti a uma apresentação do cantor adventista Leonardo Gonçalves no sábado à tarde. Muita gente veio assisti-lo também. Seus poemas e canções são fartamente conhecidos. Sua voz com melismas e agudos, também. O que, talvez, algumas pessoas ainda não conheciam era o modelo bastante espiritual de sua apresentação daquele dia. Quem foi assistir a um show acabou participando de um culto. O repertório alternava as canções com a leitura e comentários de trechos bíblicos. Aliás, a Bíblia esteve o tempo todo aberta em uma estante a frente do cantor. Antes da última música, ele falou/pregou à congregação, fez um apelo e terminou com uma oração cantada, o que inibiu completamente qualquer manifestação de histeria de fã. Sua capacidade de atração jovem é notável, porém, mais notável ainda foi sua postura de mensageiro da Palavra. Algumas palavras de um cantor às vezes têm mais repercussão na mente de um jovem do que o sermão inteiro de um pastor. É grande a responsabilidade dos ...

Leonardo Gonçalves e a Sony Gospel Music

A Sony Music, plugada nas novas configurações do mercado fonográfico, abriu uma linha de produção de música gospel. A Sony quer pregar o evangelho do reino a todo o mundo? Claro que não. A Sony quer mais gente comprando os CDs que produz. Isso tem pouco de ética protestante, mas bastante do espírito do capitalismo. Em entrevista à revista Rolling Stone Brasil (ed. 42), Alexandre Schiavo, presidente da Sony, disse: “Em 12 meses, estaremos entre as 3 maiores gravadoras do segmento [gospel] e espero que alcancemos a liderança em pouco mais de 2 anos”. É uma frase que poderia ser dita como aposta na produção de qualquer produto, de sapato a sabonete. Mas só a Sony tem a ganhar com essa empreitada? A caixa registradora da Sony está interessada no potencial de lucro que determinado cantor tem dentro de um nicho de mercado. Por isso, além de contratar um experiente produtor do ramo gospel, Maurício Soares, investiu na diversidade musical gospel – Aline Barros, Marcelo Aguiar (sertanejo)...

Leonardo Gonçalves: Viver e Cantar - I

Há cantores cujas gravações vão além do proselitismo religioso. Eles unem alta qualidade temática e artística. A exigência estética está junto com a eficiência da prédica. O título Viver e cantar , CD de Leonardo Gonçalves, expressa uma compreensão religiosa de vida cristã e adoração. Daí, talvez, o título não ser “viver OU cantar”, mas “viver E cantar”. Ou seja, o cantar-adorar não é uma opção entre vida e adoração. É viver em adoração. O CD se divide em três partes. A primeira é uma sequência de canções sob o título História da Redenção . A seguir, vem a sequência intitulada Relacionamento com Deus , e uma última série designada Louvor e Adoração . Aqui, o entendimento teológico é luminar: o ser humano é salvo por Deus, relaciona-se com Ele e então O adora. A concepção bíblica de adoração, ou seja, o ato de louvar a Deus não é uma oferenda petitória para que o homem seja salvo. Antes, é exatamente por causa dos atos salvíficos de Deus já realizados é que o homem O louva. His...

Leonardo Gonçalves: Viver e Cantar - II

O álbum “Viver e cantar” propõe que o Relacionamento com Deus (tema da 2ª parte do CD) nasce do conhecimento da História da Redenção (ouvida na 1ª parte). A segunda parte abre com a declaração Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará . A seguir, um vocal no estilo medieval repete a palavra “livre” enquanto um dueto canta frases como Livre dos meus preconceitos . Enquanto o dueto é cantado em terças, um outro vocal canta em quintas (um intervalo padrão do estilo gregoriano). Uma composição de João Alexandre é que dá título ao CD. Essa canção usa o contraste entre cordas vigorosas e violão simples desde o início. Embora em certas passagens as cordas pareçam de muita pompa para a circunstância de simplicidade melódica da canção, elas dialogam com a música, inclusive citando trechos de outra canção do cd, Ele virá . As duas músicas seguintes tratam da liberdade para se relacionar com um Deus que liberta o homem de seu pior inimigo: o próprio homem. Ambas as músicas, Livre s...

poemas e canções da modernidade cristã

Entre os cantores mais copiados e mais criticados dos últimos 10 anos sem dúvida está o nome de Leonardo Gonçalves. O cantor cristão, de fato, provocou uma mudança na música praticada na Igreja Adventista tão intensa quanto as canções de Williams Costa Jr. nos anos 70, o despontar do Grupo Prisma no final dos anos 80, a renovação estilística promovida por Jader Santos no quarteto Arautos do Rei e a recriação da canção coral para a juventude produzida por Lineu Soares. O título do álbum – Poemas e Canções - carrega duas características da música contemporânea: 1) valorização a letra da canção menos como portadora doutrinária e mais como reveladora de testemunho individual, mas comum à coletividade; 2) consolidação da canção como instrumento mais adequado para evangelização do que o “hino”. No que diz respeito ao primeiro aspecto, vejo que se para alguns compositores a verdade escriturística é melhor anunciada quando a letra da música extrai poeticamente passagens da Bíblia, num outr...