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por favor, não atirem no pianista

Dia do músico . Podia até ser feriado santo dado o caráter de santo remédio atribuído à música.  O pianista geralmente é visto como um agraciado, um privilegiado que lê hieróglifos e fala pelos dedos. Ou como um chato que martela o piano e o ouvido alheio, que é obrigado ao exercício de escalas musicais enquanto os outros são obrigados ao exercício da tolerância. Aos 13 anos, eu mesmo torturava as ajudantes domésticas tascando-lhes na escuta as escalas de Hanon às duas da tarde. Quando o almoço não tinha sobremesa, aí o castigo infligido era meia hora do terrível "Microkosmos" do Bartók. À noite, após o jantar e a sagrada reunião familiar, meu pai me pedia: "Filhão, toque aquela música". Era a deixa para eu dedilhar o  Pour Elise  de Beethoven. Quando recebíamos visitas ilustres, pelo menos ilustres para os meus pais, eu ouvia o indefectível pedido: "Toque aquela música!".  Mas um dia minha ridícula rebeldia pré-adolescente viria à tona. V...

vida de ateu é uma dureza. ou não?

A colunista da revista Época Eliane Brum publicou uma história em que uma ateia entra no táxi de um evangélico. O leitor percebe que a passageira é muito bem-informada, em contraste com o taxista que é devidamente um "ignorante fundamentalista". Enquanto a passageira reflete sobre o caráter mercantil do neopentecostalismo, algo que é bastante estudado nos círculos acadêmicos, e com o que muito protestante concorda, o taxista apresenta uma fala bem simplória. Não se trata de uma história surreal. Mesmo os chavões proselitistas do taxista são costumeiramente ouvidos por aí. Os diálogos poderiam acontecer numa rua perto de você. Mas nesse texto, vejo que Eliane Brum dá a entender que ser ateu num Brasil evangélico é uma dureza. Ser ateu no Brasil é mesmo difícil? Só se para o ateu é difícil conviver com pessoas com visões de mundo diferentes. Talvez seja mais difícil para um cristão moderado conviver com este Brasil de um evangelicalismo cada vez mais estridente. Mas...

UFC: Ultraje Feroz do Corpo

Dois homens em uma arena chutam cabeças e esmurram fígados, e isso rende o delírio da galera. Um quer a deformação do corpo do outro, e isso rende fama e fortuna. UFC (Ultimate Fighting Championship) quer dizer mesmo é Ultraje Feroz do Corpo. Mas para que ninguém fique a pensar na degradação física e espiritual do momento, é preciso fazer dessa rinha de galos um espetáculo televisivo. A TV Globo, que se recusava a cobrir as lutas do MMA (as artes marciais mistas), gasta sua semana esportiva explicando que agora, com novas regras, as lutas são “um pouco menos violentas do que o vale-tudo”, como disse o apresentador Luís Ernesto Lacombe. A sinceridade foi logo corrigida na fala seguinte: “Mas é bem bacana”. É bem bacana, então, ver a brutalidade elevada à categoria de esporte “civilizado”. É bem bacana, então, assistir a violência de socos, pontapés e sufocamentos. É bacana ver o público se extasiar quando um homem é espancado no chão (mas agora o juiz intervém mais rápido. A...

da imperfeição da música moderna

"Muitas composições modernas são muito bonitas e chamativas no papel, mas pobres cantores! Colocam alterações onde querem, [...] Os atuais compositores só nos trazem mais confusão e grandes imperfeições, não de pouca importância, em vez de enriquecer, aumentar e enobrecer a música com recursos variados como fizeram tantos outros, querem transformar a música de modo que o belo não se distinguirá do bárbaro". Quem disse isso foi o italiano Giovanni Artusi, compositor e pesquisador musical. Você concorda com ele, certo? Você está pensando na decadência da música brasileira, no declínio da música sacra, em como as pessoas hoje estão colocando o feio no lugar do belo, etc?  O detalhe é que Giovanni Maria Artusi viveu de 1540 a 1613. Ele se envolveu numa discussão quando seu professor Zarlino, defensor do estilo tradicional, foi criticado por Vicenzo Galilei, teórico musical e pai de Galileu.  Artusi criticou as inovações do compositor Claudio Monteverdi, considerado há bastant...

a música mais relaxante do mundo

Ela desacelera sua respiração e reduz sua atividade cerebral . Esse é o efeito da música Weightless (tradução: sem peso), da banda inglesa Marconi Union, já considerada a "música mais relaxante do mundo". A trilha de oito minutos seria tão eficaz em induzir ao sono que os motoristas são advertidos a não ouvi-la enquanto dirigem. Segundo o jornal Daily Mail , a banda buscou a orientação de terapeutas do som (os musicoterapeutas) para saber quais harmonias, ritmos e linhas de baixo seriam as mais eficientes. "O efeito nos ouvintes é uma desaceleração do ritmo cardíaco, redução da pressão sanguínea e diminuição dos níveis de cortisol (o hormônio do stress). A música do Marconi Union incorpora elementos de eletrônica, ambient, jazz e dub (informações que constam no vídeo no YouTube). Agora, relaxe. Se puder. Cientistas fizeram testes com 40 mulheres e disseram que esta música é mais eficiente para relaxar do que Enya ou Mozart. Outro estudo, encomendado ...

o falso profeta e o sangue negro

Uma paulada no falso profeta que se mete em negociatas e outra no negociante que prediz falsamente que a riqueza do petróleo será de todos. Isto é Sangue Negro , a história de um homem movendo montanhas pra encontrar petróleo e de um religioso atrás de almas e dólares. O império do automóvel, do petróleo e dos computadores foi construído por empreendedores que, sem eira nem beira, e por seus próprios méritos espalharam a riqueza mundo afora. Eles seriam os  self-made-men , um mito do capitalismo norte-americano. O mito está menos na impressionante persistência do empreendedorismo e mais na distribuição da riqueza. As megaempresas foram erguidas à custa de muita exploração de mão-de-obra, de chantagens, subornos e acordos espúrios entre governos e indústrias. Um enriquece muito, alguns enriquecem bastante e muitos não enriquecem nada. Como eu disse, trata-se de um mito, mas não tem nada de conto de fadas. Muito sangue correu. Aliás, o título original do filme San...