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Soul: onde está o coração do músico?


Em 
Soul, a nova animação da Pixar, o personagem principal é Joe Gardner, um professor de música que se sente desmotivado na sua profissão, pois o que ele deseja mesmo é ser um pianista de jazz e brilhar nos palcos. Não há problema algum em querer ser um grande artista e buscar esse objetivo. Mas aqui é que mora o engodo: o de que um professor de música é um músico frustrado. Fora do palco, o músico seria um fracassado sem talento suficiente, um loser cuja falta de méritos o levou à suposta monotonia das salas de aula.

Quando o professor Joe, convidado por um ex-aluno, consegue um teste para ingressar numa banda de jazz, ele tenta mostrar tudo o que sabe numa música só e acaba fazendo como aqueles músicos que, mesmo quando estão tocando em grupo, estão tocando sozinhos. Seu improviso interminável não passa de exibicionismo. Ele demonstra estar desconectado da arte de fazer música em conjunto.

Curiosamente, seu ex-aluno lhe tem um enorme respeito, um sentimento de gratidão por tudo o que aprendeu com ele. No entanto, o reconhecimento de um músico, ou de um estudante, não é suficiente para esse professor. Ele quer os aplausos de fim de espetáculo, e não o cotidiano de murmúrios da escola. Quer ter espectadores, não aprendizes. Quer fazer devotos, e não discípulos.


Eu entendo os músicos que chegam ao curso de Licenciatura sem a pretensão de ser professores. Quando eu fazia faculdade de música, lá no começo da remota década de 90, eu não sonhava em ser professor. O palco era muito mais interessante, fosse atuando como tecladista ou regente. Só me descobri apaixonado por ensinar música uns 10 anos depois da faculdade.

No filme, o professor Joe demora a descobrir que o propósito da vida não está apenas no brilho do palco. Isso também pode ser encontrado nos atos simples e cotidianos vividos um dia após o outro. Fazer música para um público é um clímax maravilhoso, é um show de fogos de artifício em que ninguém nota o trabalho dos bastidores.

Ensinar alunos a fazer música parece menos encantador, pois é como estar sempre nos bastidores. Mas a fagulha da música e o propósito da vida também estão nos atos simples e cotidianos vividos numa sala de aula.

Aos que querem ser professores, e aos que estão em dúvida sobre a profissão de educador musical, hoje eu diria: as luzes apagam depois do show, mas as luzes acesas durante uma aula não há santa alma que apague.

Comentários

Luciana Araújo disse…
Ótimo texto, como sempre! Eu acho que sou um dos poucos casos que fogem ao comum: fui cursar Licenciatura em Música com o firme propósito de ser professora, e nunca me senti tentada a ser instrumentista. Mas acho que 90% dos meus colegas na época gostariam de fazer carreira como instrumentistas ou regentes, e boa parte deles abandonou a sala de aula para seguir nos palcos...

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