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Como os adventistas reagiram à pandemia de 1918?

Nos anos de 1918-1919, a chamada gripe espanhola fez milhões de vítimas ao redor do mundo. Nessa época, a I Guerra Mundial já estava em seu fim e vários países envolvidos estavam politica e economicamente arrasados, além da gigantesca perda de vidas humanas. Nesse cenário de crise e destruição, como os adventistas reagiram?

Os documentos que consultei mostram respostas diferentes na comunidade de adventistas do sétimo dia nos Estados Unidos, país cuja população foi atingida severamente por três ondas da pandemia, sendo de 500 mil a 675 mil o número estimado de pessoas que morreram em consequência da infecção. Algumas razões da disseminação foram:

- A demora em aceitar a periculosidade da doença: em janeiro de 1918, um médico da região de Haskell alertou as autoridades sanitárias a respeito de um forte aumento nos casos de influenza. Em março, a base militar de Funston registrou 1.100 soldados infectados. O vírus foi se espalhando por outras bases militares rapidamente e logo passou a fazer vítimas nas grandes cidades.



Acima, hospital de emergência de Camp Funston.

- A censura: governos de países diretamente envolvidos na I Guerra Mundial proibiam que os jornais divulgassem notícias sobre a doença, temendo causar desânimo na população. A Espanha, de posição neutra na guerra, noticiava os casos - inclusive, o contágio do rei Alfonso XIII. Não demorou e a gripe passou a ser chamada de 'espanhola'. Mas por lá a doença era chamada de 'Soldado de Nápoles'. Em Senegal, chamavam de gripe brasileira. No Brasil, gripe alemã e também de gripe espanhola. Na Polônia, doença bolchevique.

Os noticiários brasileiros também falavam da pandemia. Às vezes, a população tratava a doença em tom de pilhéria, às vezes, com seriedade. Vale lembrar que o presidente eleito Rodrigues Alves contraiu o vírus em outubro de 1918 e veio a falecer em janeiro de 1919. 

- As fake news: uma delas dizia que o vírus era uma arma biológica lançada no território americano por um navio de guerra alemão.

- O trânsito de soldados na I Guerra Mundial: navios abarrotados de militares iam e vinham da Europa, aumentando o contágio dentro e fora dos quartéis. O vírus circulou entre as tropas, causando danos físicos e mortes sem distinção de hierarquia e posição ideológica. Veja abaixo, um aviso que diz que o ato de "cuspir espalha a gripe espanhola" e que já havia "30 mortes na Marinha".


- Comícios e desfiles: as aglomerações organizadas pelo governo para emitir títulos de guerra (war bonds) e financiar as operações militares: na Filadélfia (foto à esquerda), duzentas mil pessoas foram às ruas e estima-se que mais de 15 mil morreram em decorrência deste evento. Na foto à direita, "war bond rally" reúne milhares em Oklahoma.

 



Esses eventos públicos se tornavam verdadeiros comícios políticos e shows de artistas, estes, aliás, eram convidados/convocados a fazer turnês pelo país, atraindo multidões. Na imagem abaixo, os astros do cinema Douglas Fairbanks Jr. e Charles Chaplin na divulgação dos Liberty Bonds, war bonds da I Guerra Mundial.


Quanto aos adventistas nos Estados Unidos, os registros são de que a igreja adotou normas prescritas pelo governo, como uso de máscaras, distanciamento social e fechamento de escolas e igrejas.

O informe Columbia Union Visitor (de 7/11/1918) relatava que as igrejas estavam fechadas e noticiava mortes em todo lugar, citando nominalmente alguns fiéis da igreja em diferentes regiões que haviam falecido:



O informativo oficial da Igreja Adventista, Review and Herald, na edição de 16/1/1919, p. 30,  alertava quanto à gravidade da doença, orientava o uso de lenços ao espirrar e tossir, e reforçavam os cuidados especiais que as autoridades do Estado haviam prescrito para toda a população. As prescrições sanitárias precisavam ser seguidas à risca. Como vemos na foto ao lado, em Seattle, um funcionário do bonde impede a entrada de pessoas sem máscara.

No Seminário Teológico Adventista Hutchinson, no Minesotta, 90 dos 180 estudantes do colégio contraíram a doença. O local foi isolado, os estudantes entraram em quarentena rígida e testaram alunos e professores, dando um adicional de cinco dias a mais na quarentena para evitar a disseminação maior no colégio e na comunidade próxima. 

Mas infelizmente, assim como em nos tempos de hoje, havia pessoas que não seguiam as orientações médicas. Entre elas, alguns adventistas. Não por coincidência, na Review and Herald de 30/1/19 (p. 7), F. Wilcox lembrou a esses irmãos de que apenas o fato de terem uma mensagem de saúde não era capaz de imunizá-los na pandemia.

Mas, já no ano anterior, na edição de 31/10/18 (p.16), o Dr. W. A. Ruble, secretário da Associação Geral da igreja para a ação médico-missionária, havia sido bastante enfático.

Ele advertiu aqueles que diziam que a pandemia era “o prenúncio do grande sofrimento dos últimos dias”. Aliás, o informe da Columbia Union que mencionei acima também havia ligado a pandemia à destruição final e dito que os juízos de Deus haviam começado. É evidente que a dupla devastação acionada por uma guerra e uma pandemia devia parecer aos olhos escatológicos de nossos irmãos de cem anos atrás que o fim do mundo havia chegado, ou no mínimo, que destravara-se o gatilho do juízo final. 

Equilibrando a visão religiosa e científica, o médico adventista Ruble não economizou nas duras advertências. Ele escreveu que, “em meio a mais devastadora pandemia já experimentada no país”, alguns adventistas que escaparam da doença podiam achar que sua imunidade era fruto da santidade pessoal e “uma evidência de sua retidão enquanto atribuíam o infortúnio de seus irmãos à falta de fidelidade”.

Ele questionou: "Algum fanático da reforma de saúde dirá: Eu avisei, se vocês se alimentassem como eu, teriam escapado da praga". Ruble perguntou se era essa a lição a tomar da pandemia. Ele disse, então, que, num tempo de igrejas fechadas e distanciamento, o ato de levar a mensagem cristã estava na ajuda ao próximo: a pandemia “era uma oportunidade para os adventistas do sétimo dia praticarem a religião pura e imaculada da qual Tiago falara” na Bíblia.

A Igreja Adventista publicou ainda um panfleto oficial sobre a pandemia (Epidemics: how to meet them) que alcançou todo o país com esclarecimentos sobre a doença e meios de evitar e de disseminar o vírus.

 


Igrejas fechadas, guerra, pandemia: a tempestade perfeita para fanatismo e alarmismo, mas também para o serviço ao próximo. Podemos aprender as lições da nossa história, quando há atenção devida para as devidas fontes históricas.

*****

Para saber mais:

Ministerial Association: https://nadministerial.com/stories/adventists-and-the-1918-influenza-pandemic

 Adventist Review: https://adventistreview.org/adventists-and-the-1918-influenza-pandemic

The End Has (Not Yet) Come: The 1918 Spanish Flu and the COVID-19 Pandemic in a Brazilian SDA (artigo de Allan Novaes em Studies in World Christianity, Edinburgh University)

Como os informes adventistas da Columbia Union noticiaram a pandemia: http://columbiaunion.org/content/how-visitor-reported-1918-1920-pandemic

Review and Herald (31/10/1918), (16/1/1919) e (30/1/1919) acessados em http://documents.adventistarchives.org/Periodicals 

 





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