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O garoto que chamava um jambeiro de USS Enterprise

Diário de bordo. Data estelar: 1983, um dia qualquer, 15:00. Eu já terminara os deveres da escola e as lições de piano – aquelas que o professor tinha mandado e aquelas que eu gostava. Logo começaria mais um episódio de Jornada nas Estrelas – naquele tempo, a gente não era obrigado a chamar seriado estrangeiro pelo título original. “Voyage to the Bottom of the Sea” era Viagem ao Fundo do Mar, “Get Smart” era Agente 86 e “Star Trek” era Jornada nas Estrelas.

O Capitão Kirk, o Sr. Spock e o Dr. McCoy estão às voltas com mais um ataque de inimigos dos terráqueos após uma expedição perigosa a um planeta desconhecido. Perigo e exploração no espaço: o que mais poderia pedir um garoto de 13 anos que lia Julio Verne como quem saboreava um jambo colhido no pé!

Desligada a TV preto e branco, chega a tripulação, quer dizer, minha turma. Cada um conta o que assistiu: “Você viu quando o capitão Kirk escapou dos tiros?” “E a cara do Spock, sem entender a emoção do dr. McCoy?” “E o teletransporte tirou eles de lá bem na hora!”.

Com esse mesmo espírito de louvor à aventura espacial, subimos na USS Enterprise NCC-1701, quer dizer, o jambeiro em frente de casa. Eu, o maiorzinho da turma e profundo conhecedor do espaço sideral entre as folhas, assumo meu galho de comando:
- Sr. Sulu, acionar a dobra espacial.
- Para onde vamos, capitão?, me pergunta o dr. McCoy, isto é, o Julison, meu irmão.

[Dependendo da necessidade de improvisar roteiro e tripulação, o Julison seria o Scott, o Raulison (o caçula) seria Sulu e o Wilker, McCoy. E até uma enorme escada abandonada no chão poderia servir de Enterprise!]

Logo depois, eu e o Spock, quer dizer, o Rogério, descemos para explorar um remoto planeta no intergaláctico quintal perto da árvore. Ameaçados pelos 2 ou 3 amigos que no episódio de hoje são nossos inimigos, disparamos nossos lasers feitos de sobras da marcenaria e pedimos ajuda da tripulação. E se não é o Scott nos teletransportar para o jambeiro a tempo...

Diário de bordo. Data estelar: 2013, julho. Assistir o novo Star Trek, ouvir o velho tema musical, ver a impulsividade de Kirk, a serenidade de Spock, as piadinhas do McCoy, a impaciência do Scott, a velocidade da dobra, os defletores, Sulu, Checov e Uhura, é como rever velhos amigos. Sou teletransportado de volta ao meu jambeiro num colégio adventista a 80 km de Manaus, corro descalço pela  grama, subo na minha nave, apanho outro jambo e saboreio minha infância outra vez.


Comentários

Muito bom, você escreve muito bem. Parabéns, gosto de seus "passeios" no blog. Nota 10!
Anônimo disse…
Cara, lembrei do nome do cantor norueguês: Ole Borud! Abraço, Dudu.

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