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Nabucodonosor e a música da Babilônia

Quando visitei o museu arqueológico Paulo Bork (Unasp - EC), vi um tijolo datado de 600 a.C. cuja inscrição em escrita cuneiforme diz: “Eu sou Nabucodonosor, rei de Babilônia, provedor dos templos de Ezágila e Égila e primogênito de Nebupolasar, rei de Babilônia”. Lembrei, então, que nas minhas aulas de história da música costumo mostrar a foto de uma lira de Ur (Ur era uma cidade da região da Mesopotâmia, onde se localizava Babilônia e onde atualmente se localiza o Iraque). Certamente, a lira integrava o corpo de instrumentos da música dos templos durante o reinado de Nabucodonosor.

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Fig 1: a lira de Ur

No sítio arqueológico de Ur (a mesma Ur dos Caldeus citada em textos bíblicos) foram encontradas nove liras e duas harpas, entre as quais, a lira sumeriana, cuja caixa de ressonância é adornada com uma escultura em forma de cabeça bovina.

As liras são citadas em um dos cultos oferecidos ao rei Nabucodonosor, conforme relato no livro bíblico de Daniel, capítulo 3. Aliás, nesse mesmo capítulo, seis instrumentos musicais são nominalmente descritos nos versos 5, 7, 10 e 15, junto com a expressão “e toda sorte de música”.

A versão da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA) traduz o nome dos instrumentos assim: “No momento em que ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles e de toda sorte de música, vos prostrareis e adorareis diante da imagem de ouro que o rei Nabucodonosor levantou” (Livro de Daniel, 3:5).

A versão ARA usa a mesma lista de instrumentos nos quatro versos mencionados. Mas ocorre um pequeno conflito a respeito, pois há controvérsia sobre a tradução do nome dos instrumentos citados, sendo que alguns deles não possuem registro de existência nessa época da história da Mesopotâmia. O livro de Daniel foi escrito parcialmente em aramaico [1], sendo que a tradução Septuaginta (LXX, tradução do Antigo Testamento para o grego “koiné”) parece ter usado nomes de instrumentos gregos porque, talvez, as fontes estivessem escritas em um aramaico helenizado (com influência grega). Para complicar, os instrumentos aparecem com termos ligeiramente diferentes.

Na versão King James: cornet, flute, harp, sackbut, psaltery, dulcimer
Na versão Católica: trombeta, flauta, cítara, lira, harpa, cornamusa
Na Nova Versão Internacional: trombeta, pífaro, cítara, harpa, saltério, flauta dupla 

A Lista de Instrumentos

TROMBETA: no aramaico, “qarna” [os nomes dos instrumentos estarão grafados sem os acentos]. Em grego, “keras”, em inglês “horn”, em hebraico, "qeren". Esta palavra é usada na Bíblia para designar um berrante (shofar ou qeren), significando o chifre de um animal ou o chifre que é soprado por uma pessoa. Alguns tradutores utilizaram "trombeta" ou "buzina". A LXX traduziu como “salpinx”, que significa trompete. A versão King James, do século 17, usa o termo “cornet”, que em português foi traduzido como trombeta ou corneta. O termo hebraico para trombeta [de metal] é chatsoserah. Portanto, a tradução mais precisa para "qarna" ou "qeren" é "berrante". Na Bíblia, ele aparece sendo usado com um instrumento de sinalização, e não como um instrumento para acompanhamento musical.

PÍFARO: no aramaico, “mashroqita”, e em hebraico, “sharaq”, que pode ser a origem etimológica do termo grego “syrinx”, nome alternativo para flauta de Pã. A Vulgata (tradução da Bíblia para o latim editada no fim do século IV e início do séc. V) usa o termo "fistula", traduzido na versão King James simplesmente como “flauta”. Mas em algumas passagens bíblicas da Vulgata é utilizado o termo "organon", que o teólogo Jerônimo (autor da edição Vulgata) compreendia como a flauta de Pã. No entanto, as flautas de Pã eram desconhecidas no mundo antigo em épocas anteriores à dominação grega. No hebraico, o termo para flauta é "ugab". A tradução Almeida Revista e Atualizada (ARA) usa o termo “pífaro”.

HARPA: na tradução LXX, “kithara”. No hebraico, “kinnor”. Na versão ARA, é cítara. Outras versões traduzem como harpa. Este instrumento musical é comumente traduzido nas versões bíblicas ora como harpa, lira ou cítara. Considerando que o termo hebraico para harpa é "nebel", que no aramaico é "qaytros", e que o aramaico do Targum no livro de Isaías 5:12 usa o termo "qatros", alguns estudiosos entendem que este termo é uma aproximação com a palavra khitara, sendo que a tradução mais precisa, segundo o livro Musical Instruments of the Bible, é lira.


Fig. 2: Detalhe do painel "Estandarte de Ur" com homem tocando uma lira, encontrado no sítio arqueológico de Ur. Ver semelhança com a lira sumeriana na figura mais acima.

GAITA DE FOLES: no aramaico, “sabb’cha”, traduzido na Septuaginta como “sambyke”. A versão King James dá o termo “sackbut” (sacabuxa, similar ao trombone de vara moderno) e a ARA usa o termo gaita de foles. A Nova Versão Internacional (NVI) traduz como "flauta dupla", mas no hebraico, este tipo de flauta chama-se "chalil".

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Fig. 3: assírio tocando flauta dupla

Em outras trechos da Bíblia, chalil é vertido como "gaita". Para complicar, a versão Católica usa o termo "cornamusa", um instrumento de palheta dupla que data do período renascentista. No entanto, a versão Vulgata  usou o termo “sambuca”. Para Jeremy Montagu, que foi professor em Oxford e autoridade em arqueologia musical, a tradução mais correta seria “bow harp”, tipo antigo de harpa em formato de arco (se alguém souber o nome deste instrumento em português, agradeço). 

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Fig. 4: "harpa curva" africana.

Na versão King James, o termo usado é “dulcimer”, instrumento de cordas percutidas com origem nos tempos do rei inglês Henrique VIII. O dulcimer é também um tipo de saltério percutido com um plectro, ou palheta. Poderia ser a harpa horizontal dos povos mesopotâmicos?

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Fig. 5: músicos da corte tocando harpas horizontais. Painel do século 7, encontrado no sítio arqueológico de Nínive. Compare com o santur abaixo.


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Fig. 6: santur iraniano.

Em Daniel 3:7, são mencionados cinco, e não seis instrumentos. Desse modo, os instrumentos dulcimer (King James), flauta dupla (NVI) e gaita de foles (ARA) não aparecem.

O último instrumento surge no aramaico (no verso 7) como “sumponyah”, o que seria uma aproximação do grego “symphonia”, também usado na versão Vulgata e que certamente não significa dulcimer ou gaita de foles. O termo tem mais semelhança com o conceito moderno de tocar ou soar instrumentos ou vozes em conjunto (sinfonia). O que complica é que esse termo se assemelha à expressão final “e toda sorte de música” usada nos outros três versos (5, 10 e 15), no aramaico “v’chol z’ney z’mara”, que significaria “todo tipo de música”. O termo z’mara, de acordo com o que pude verificar (e não sou autoridade em arqueologia musical) pode ou não significar música instrumental com a possível adição de instrumentos de sopro.

A expressão “toda sorte de instrumentos de música” ou “toda sorte de música” parece incluir outros instrumentos usados na Mesopotâmia àquela época, como harpas horizontais (com caixa de ressonância e tocadas com uma palheta, e não diretamente com os dedos nas cordas), harpas verticais (cordas tocadas com os dedos), trombetas de metal, flautas duplas, tambores variados, címbalos e sinos. Enfim, o capítulo de Daniel 3 descreve uma orquestra babilônica.

Como era a música da Babilônia?

Nos sítios arqueológicos foram encontrados diversos tabletes mesopotâmicos em escrita cuneiforme cuja tradução revelou maneiras de tocar esses instrumentos e até mesmo a afinação e antigas escalas musicais. Assim, sabe-se agora que na antiga Babilônia havia padrões de afinação diatônica e dentro de sete escalas musicais diferentes e interrelacionadas. Uma dessas escalas, aliás, é semelhante à escala maior ocidental que soa como “dó-ré-mi-fá-sol-lá-si”(ver na figura abaixo a 3ª escala de baixo para cima, equivalente à escala de Mi Maior). Os textos mesopotâmicos mencionam técnicas de dedilhado, nomes para os intervalos de quarta e de quinta e o nome das escalas.

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Fig. 7: as sete escalas usadas desde 1800 a.C. (os nomes das notas e os sustenidos são ocidentais a fim de facilitar a compreensão do leitor)

Surpreende que povos daquela região, como os sumérios e os babilônicos, tenham usado escalas e intervalos que se assemelham aos praticados no Ocidente, com maior proximidade, claro, com a teoria musical da Grécia Antiga. Não se sabe como soaria a música deles de fato, mas conforme diz a estudiosa Anne D. Kilmer, “não precisamos de muito esforço de imaginação para sugerir que os gregos, como disse Pitágoras, aprenderam a teoria musical juntamente com a matemática da Mesopotâmia”.


Vídeo: improvisação na réplica de uma lira sumeriana



*****
Notas:
[1] Segundo a Bíblia de Estudo da Andrews University, o aramaico do Livro de Daniel 2:4 a 7:28 pertence à fase imperial do idioma, quando era o meio de comunicação oficial do império medo-persa.


Fontes:
KILMER, Anne D. The musical instruments from Ur and Ancient Mesopotamic Music. Expedition, vol. 40, issue 2, 1998.
MONTAGU, Jeremy. Musical Instruments of the Bible. Londres: Scarecrow Press, 2002.

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