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a bravura indômita e a graça excelsa

 


Um dos melhores filmes cristãos deste século foi lançado em 2010 se chama Bravura Indômita. Você deve estar se perguntando como um filme dos irmãos Joel e Ethan Coen pode ser cristão? Não são estes os mesmos criadores de comédias debochadas e filmes policiais violentos, como Fargo, O Grande Lebowski e Ajuste Final? Sim, são eles mesmos. Mas eles são também os autores de um drama policial sobre a passagem do tempo e o mistério da violência, como em Onde os Fracos Não Têm Vez, de um drama levemente cômico sobre a ilusão de controle que temos sobre nossas vidas, como em Um Homem Sério.

 Desta vez, os irmãos Coen vão até o Velho Oeste e adaptam um livro de Charles Portis publicado em 1968. Aliás, esse livro já havia sido filmado em 1969, também com o título de Bravura Indômita. Aliás, foi por este filme que o maior astro dos faroestes, John Wayne, ganhou seu Oscar de melhor ator.

Os irmãos Coen não fazem o tipo piegas. Eles não amolecem o coração para retratar os tempos violentos e preconceituosos do final do século 19, mas também não eliminam a religiosidade das pessoas que viviam naquela época. É uma história que enxerga centelhas da graça em meio aos duelos de revólver.

Vamos à história. A protagonista é Mattie, uma garota de 14 anos decidida a encontrar o assassino de seu pai. Sua obstinação espanta os homens da cidade que vão cedendo à sua resistência e inteligência. Sua tenacidade é descrita no verso bíblico que aparece na abertura deste filme: “O ímpio foge, embora ninguém o persiga; mas os justos são corajosos como o leão” (Provérbios 28:1).

 A menina quer fazer justiça e acredita que a Providência divina lhe acompanhará. Citando trechos do Salmo 23, ela confia que, embora vá caminhar no vale da sombra e da morte, “o Criador de todas as coisas vai me proteger”. Além disso, ela completa, “eu tenho um bom cavalo”.

 A perspicácia da guria, que combina a providência de Deus à provisão humana, não convence de imediato o velho xerife “Rooster” Cogburn que reluta em acompanhá-la na busca do assassino. Não poderia haver dupla mais diferente. Mattie é audaz, firme, otimista e esperta. Cogburn é desiludido, resmungão e de poucos princípios. A eles, se juntará um Texas Ranger bom de gatilho e lento de intelecto.

 

A protagonista é vivida pela atriz Hailee Steinfeld, numa interpretação que nos transmite a simpática teimosia e a pouca maturidade da personagem. E o grande Jeff Bridges se deleita na sua atuação como o xerife Cogburn, resmungando frases em voz grave e sotaque quase ininteligível.

 O filme mostra que a sede por justiça dificilmente é aplacada neste mundo. Há uma atmosfera reinante de impunidade, ninguém parece receber de acordo com seus méritos pessoais. A garota indômita não é respeitada, debocham de sua coragem, a justiça não pune, inocentes morrem.

Então esse é um filme niilista ou é um filme de fé? É um filme de ambiguidade moral ou é um filme de convicção ética? Em minha opinião, é um filme que envolve a aparente ausência de sentido da vida e também a cristalina certeza de andar com fé. O filme não evita retratar o niilismo moral e existencial que paira sobre o mundo, mas a adolescente Mattie está convicta de que anda no caminho correto. Mattie anda com fé pois também sabe que a fé não costuma falhar.

Quando revi este filme, percebi que os cineastas Joel e Ethan Coen não estavam tão interessados em tratar de justiça ou lei, e sim em mostrar o preço que se paga pelo desejo de vingança. Mattie e Cogburn pagarão caro pela perseguição implacável que iniciaram, e ao relembrar esse episódio na sua maturidade ela diz: “O assassino se achava impune, mas estava errado. Você tem que pagar por tudo que faz nesta vida, de um jeito ou de outro. Nada é de graça, a não ser a graça de Deus”.

 A religiosidade permeia a história do filme, examinando o bem e o mal na mente dos personagens. Essa dualidade está nas imagens - como na cena em que uma breve oração é seguida do disparo de uma bala - e na trilha sonora - numa história de tiroteios e cavalgadas, a trilha sonora traz versões de hinos clássicos como "Gloryland Way", “Oh Que Amigo em Cristo Temos” (What a Friend We Have in Jesus) e “Descansando no Poder de Deus” (Leaning on the Everlasting Arms, também intitulado “Consolação” em alguns hinários evangélicos no Brasil).


"Leaning on the everlasting arms", por Iris DeMent, da trilha do filme

 Durante o filme, a sinceridade e a firmeza de Mattie vai amolecendo o endurecido coração do xerife Cogburn, que num gesto de amor extremado vai encontrar a graça e a justiça para sua vida. Todos temos de conviver com a juventude e a maturidade, com a fé e a desilusão, com a justiça e a vingança. Buscamos ser pessoas melhores e caímos em repetidos erros. Como diz a música de Bill, Gloria e Benjamin Gaither, acabamos por ficar entre Jesus e John Wayne, “um santo e um cowboy”.

Entre erros e acertos, pecado e perdão, é preciso buscar na fonte de misericórdia o alento para a sede de justiça, sem deixar de recorrer às leis civis. Por outras vezes, basta descansar no poder de Deus.



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