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Frankenstein, a música e o conhecimento do bem e do mal

Quem só conhece o monstro criado pelo cientista Victor Frankenstein através das versões do cinema, e não por meio da leitura do livro escrito por uma jovem Mary Shelley em 1818, não sabe que aquela criatura na verdade tem um bom coração, aprecia música e é vegetariano.

No livro, parte da história é contada ao criador pelo próprio monstro, que se afastou cada vez dos lugares onde o viam como aberração e maldição. Separei alguns trechos em que ele revela suas predileções (os trechos citados são da ótima edição publicada pela Via Lettera):

Minha comida não é a do homem; não destruo a ovelha e o cabrito para saciar meu apetite; bolotas e amoras me dão nutrição suficiente”. Mary e seu marido, o poeta Percy Shelley, eram vegetarianos. Em 1813, cinco anos antes da publicação de Frankenstein, Percy Shelley escreveu um livro chamado “A Vindication of Natural Diet”, sobre vegetarianismo e direito dos animais. O tradutor Santiago Nazarin diz que, “ao fazer do monstro um ser naturalmente vegetariano, a escritora reforça a inclinação dele à bondade e sua inerente incapacidade de ferir os seres vivos”.

O monstro também demonstra possuir percepção da beleza: “O dia, que era um dos primeiros da primavera, animou até a mim pelo encanto da luz do sol e a tranquilidade do ar. Eu sentia revivendo em mim emoções de gentileza e prazer”.

Escondido numa floresta, ele ouve sons musicais e revela sensibilidade: “O árabe se sentou aos pés do velho e, pegando o violão dele, tocou sons tão hipnoticamente belos que logo trouxeram lágrimas de tristeza e encanto aos meus olhos. Ela cantou, e sua voz fluía numa rica cadência, aumentando ou desfalecendo, como um rouxinol no bosque. Quando terminou, ela passou o violão a Agatha, que inicialmente o recusou. A jovem tocou uma melodia simples, e sua voz o acompanhou em tons doces, mas sem o empenho maravilhoso da estrangeira”.

O monstro sem nome encontra seu criador e o acusa de insensatez e abandono, após ter sido vítima dos pavores e do preconceito cruel da sociedade: “Maldito criador! Por que vivi? Por que não extingui naquele instante a centelha de existência que você tão petulantemente me concedeu?”; “Insensível criador sem coração! Você me dotou de percepções e paixões, e então me abandonou à censura e ao horror da humanidade”.

Reconhecendo-se como uma cópia aterradora dos seres humanos, ele desperta nossa compaixão: “Deus, com piedade, fez um homem belo e encantador, a partir de sua própria imagem; mas minha forma é um tipo sujo da sua, mais horrível ainda pela semelhança. Satã tem seus companheiros, colegas diabos, para admirá-lo e encorajá-lo; mas eu sou solitário e abominado”.

O cientista Victor Frankenstein tem crises de consciência e reflete sobre o mal que causou ao exercitar a ciência em busca de fama e glória: “Se o estudo ao qual você se dedica tende a enfraquecer seus afetos e destruir seu gosto pelos prazeres simples, então esse estudo certamente não se justifica, não é adequado à mente humana. Se essa regra fosse sempre observada – se nenhum homem permitisse que uma busca interferisse na tranquilidade de seus afetos domésticos -, a Grécia não teria sido escravizada, César teria poupado seu país, a América teria sido descoberta de modo mais gradual, e os impérios do México e do Peru não teriam sido destruídos”.

Mary Shelley costura uma trama com narrativa vibrante e comentário social – obviamente, não tão modernos para os nossos dias. A narrativa de um homem cuja invenção traz resultados desastrosos procede da antiga tragédia grega “Prometeu Acorrentado”, escrita por Ésquilo, na qual Prometeu é condenado por Zeus por ter roubado o fogo dos deuses e entregue aos homens. Por isso, o subtítulo de “Frankenstein” se chama “O Prometeu Moderno”.


Mary Shelley retratada por Richard Rothwell (1840)

Mary Shelley era filha do filósofo Richard Godwin e da escritora feminista Mary Wollstonecraft, tendo recebido uma educação em teorias políticas liberais. Sua família era agnóstica, mas seu livro também se ancora nas narrativas bíblicas da expulsão de Lúcifer do céu por ter desejado ser maior que Deus, e da tentação no Éden, em que o casal Adão e Eva se deixa seduzir pelo fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

De Planeta Proibido, filme de 1956, a Prometheus, de 2012, alguns vilões da ficção científica são cientistas perturbados pela busca da onisciência e pela ambição da onipotência, atributos tradicionalmente ligados à divindade que tudo sabe e tudo pode. Não raro, o acesso a esses atributos é punido.

De Isaac Asimov (Eu, Robô; As Cavernas de Aço) à Philip K. Dick (no conto que deu origem à Blade Runner) e Ursula Le Guin (A Mão Esquerda da Escuridão), vários escritores de sci-fi retomam os dilemas que afligem o criador e a criatura de "Frankenstein": Quando o conhecimento se torna maléfico? O que nos define como seres humanos? Quais são os limites éticos da ciência? Como controlar a tecnologia que criamos?

E Mary Shelley tinha dezenove anos quando levantou questões que vão continuar reverberando nas artes e na ciência.

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