Pular para o conteúdo principal

Postagens

o curioso caso do delegado mãos-de-tesoura

O delegado Protógenes foi ao cinema ver um filme sobre um ursinho de pelúcia. E levou seu filho de 11 anos. Como acontece com 90% dos espectadores, ele não se informou sobre a história do filme e só lá dentro foi descobrir que o ursinho não tinha nada de pelúcia. Era, na verdade, um ursinho de malícia. O ursinho fuma, bebe, fala palavrões, cai na gandaia. Ou seja, não deve morar com os Ursinhos Carinhosos. Tem crítico de jornal vendo o filme como uma fábula sobre a adolescência sem fim dos adultos de hoje, que casam com a irresponsabilidade e o hedonismo até que a maturidade os separe. Não sei se o filme é bom ou ruim, mas acho que não vale a pena descobrir. O que todos sabem é que o delegado Protógenes levou seu filho de 11 anos para ver um filme qualificado como não recomendado para menores de 16 anos, e que saiu do cinema esbaforido pedindo pelo Twitter a censura do filme em todo o território nacional. Essa é a história do Delegado Mãos-de-Tesoura . Parece uma fábula, ma...

liberdade de expressão: modo de usar

Um filme que satiriza Maomé e que mostra o islamismo como um câncer serviu de justificativa para o ataque de salafistas a embaixadas norte-americanas no Oriente Médio. Não é a primeira vez, e certamente não será a última, que o pensamento ocidental, pavoneando-se sob a égide da liberdade de expressão, provoca a fé muçulmana. Na cabecinha livre, leve e solta de editores de revistas e jornais ou de artistas e executivos da área cultural, qualquer pessoa pode expressar sua opinião sem ter que ser ameaçada de morte por isso. Aliás, editores e executivos sempre se defendem com a máxima que reza que “as opiniões aqui emitidas nem sempre expressam as convicções do corpo editorial”. No artigo "Cruzadas, novamente" [ Carta Capital ], o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle demole a ideia de que a liberdade de expressão não tem limites: [...], há de se fazer uma reflexão a respeito do filme que serviu de estopim para tais ações. Permitir um filme dessa natureza, ond...

como tirar um sorriso de Beethoven

Numa sonata clássica para piano, o compositor apresentava um tema no começo da música e em seguida fazia variações, que poderiam ser tocadas em tonalidade menor, quatro tons acima, com floreios, sem floreios, de forma lenta, mais rápida, na região grave do piano, na região aguda e assim por diante, até o final quase sempre empolgante e grandioso. Isso é o que o comediante Dudley Moore faz com o tema "Colonel Boogey", assobiado no filme A Ponte do Rio Kwai (1957). Só habilidosos e engraçados humoristas são capazes de parodiar os habilidosos e sérios pianistas.

Strange Fruit: a canção que o racismo não calou

As árvores do Sul dão uma fruta estranha. Folha em sangue se banha. Corpo negro balançando lento. Fruta pendendo de um galho ao vento. Assim começa a canção Strange Fruit , gravada pela cantora Billie Holliday, em 1939. O poema rascante da canção colocava o dedo na ferida aberta do racismo nos Estados Unidos.    O autor de Strange Fruit era um judeu comunista de Nova York chamado Abel Meeropol (1903-1983), que usava o pseudônimo Lewis Allan para compor. Na letra da música, a “estranha fruta” eram os cadáveres de negros linchados e/ou enforcados nos ultrapreconceituosos Estados americanos sulistas, como registrado na foto abaixo, datada de 1930. (O que queria dizer o homem ao centro apontando para os corpos? E o que dizer da naturalidade dos espectadores?) Essa canção fazia um veemente protesto contra o odioso sistema que, entre 1889 e 1940, já enforcara mais de 2.700 negros no sul dos EUA. Havia, decerto, outras canções de denúncia, mas Strange Fr...

lirismo rural e romântico na canção cristã

Houve um tempo em que as imagens de um Brasil rural e ingênuo predominavam na música popular: aquela serra num ranchinho beira-chão, o vento nas palhas do coqueiro, o luar do sertão. O sucesso urbano de canções como Menino da Porteira ou de versos como “ter uma casinha branca de varanda e um quintal e uma janela para ver o sol nascer” indicam que a nostalgia rural é compartilhada por muita gente. A música cristã mais recente também expressa esse desejo de fuga para o campo. A diferença é que, em vez de “um lugar de mato verde pra plantar e pra colher”, o desejo é encontrar Deus no sertão. Não é ter a companhia de Deus durante a pesca ou ao largo da estrada, mas desfrutar momentos de intimidade e consagração. No campo. Algumas das letras falam em mergulhar nos rios do coração , outras em  passear de mãos dadas com Deus . Atualmente, parece que nem todos se contentam em saber que “além do rio existe um lugar pra mim”. Hoje, a vontade é de mergulhar nesse ...

o jornalismo esportivo de risos e lágrimas

Foi na década de 1970 que a TV Globo apresentou seu formato campeão de audiência no horário nobre. Um telejornal ensanduichado entre duas novelas. Primeiro, uma novelinha leve e bem-humorada, depois um telejornal de cara séria e, em seguida, um novelão dramático. Das sete às dez da noite, o espectador começava rindo e terminava chorando. Atualmente, o jornalismo esportivo da TV Globo reproduz o modelo cômico-dramático das novelas. Thiago Leifert, no Globo Esporte, e Tadeu Schmidt, no Fantástico, não perdem nem a audiência nem a piada. O repórter Régis Rösing tem dado preferência a emocionantes e inspiradoras histórias. Tudo bem que o Globo Esporte sempre foi leve e omisso e que a exibição dos Gols do Fantástico sempre esteve acompanhada de bom humor. Contudo, os gracejos de Thiago Leifert têm alvo fácil (talvez outros alvos sejam censurados pela produção). Ele guarda suas tiradas para atletas sem beleza física ou para a intimidade de celebridades do esporte. Mas não sobra...

três mitos sobre o gospel nacional

Quando o gospel começou a se firmar no Brasil na metade da década de 1980, logo boa parte do repertório evangélico tradicional foi esquecido. Não por acaso, muita gente que frequenta as igrejas cristãs há menos de quinze anos tem a impressão de que o gospel é o marco zero da música sacra. Não se conhece a história dos pioneiros que se empenhavam em pregar a Palavra, quanto mais o passado de músicos que ousavam inovar a Palavra cantada. É como se tudo tivesse começado com o movimento gospel. Vamos relembrar um pouco a história falando de três mitos disseminados pelo gospel nacional: 1) O gospel trouxe inovação musical para a igreja : à parte a história bem antiga da renovação musical que vem desde antes da Reforma Protestante no século 16, algumas inovações formais que são atribuídas ao gospel, como a introdução de música popular brasileira e instrumentos musicais como guitarra e bateria, já eram praticadas em gravações evangélicas desde a década de 1970. Bem antes dos CDs, ...