
O que há de novo no front pop? Muito e nada. Muito, porque a indústria pop vive de alimentar o mundo com novos rostos, novas vozes, novos corpos que se perpetuam por uma estação, se tanto. Nada, porque essa indústria vive de retroalimentar-se com shows do tipo “a última turnê da banda X”, “o reencontro dos músicos da antiga banda Y”, “o maior sucesso de todos os tempos do fim de semana”. A música pop é um baú de velhas novidades.
O mercado pop trabalha com rendas milionárias. É um mercado louco, mas que ainda não rasga dinheiro. Por isso, não abdica das fórmulas que se repetem com uma gagueira incontrolável. Nada mais representativo dessa gagueira do que o fenômeno Lady Gaga.
A nova estrela eterna-enquanto-dure do pop é Lady Gaga. Formada na Academia Madonna de Marketing Escandaloso, Lady Gaga eleva a excentricidade sexual e a bizarrice pessoal à enésima potência. E o que é que a Gaga tem? Tem música pra se dançar? Tem. Tem vídeo pra provocar? Tem. Tem roupa escalofebética? Tem. A moçoila tem tudo calculadinho para parecer uma fora-da-lei. E aí está a primeira lei do pop: a música mais banal tem que estar assessorada pelo personal style. Ou seja, no pop, música é um acessório do estilo visual.
Os leitores que fazem oposição ao partido fashionista de Lady Gaga certamente deploram também suas canções desenxabidas. Os petardos disparados pelo front pop são multivariados, vão do american brega a frangotes emos, do rebolation desvairado a rappers que cantam de galo machão. Todos esses estilos cabem no caldeirão de Gaga. Com esperteza, usa a seu favor a mistura de desfile de moda, sexo autopromocional e espetáculo circense que faz a cabeça do pop.
Pós-graduada na Academia Madonna de Feminismo Sexista, ela inverte a dominação masculina e toma para si um papel agressivo nos jogos sexuais altamente fetichizados e exibicionistas. Talvez Lady Gaga seja assim. Mas assim será também Stefani Joanne Germanotta, a pessoa por baixo das extravagâncias de Gaga? Se não for, precisa ser. Temos então uma segunda lei do pop: ser ou não ser não importa. Importa parecer que é.
Gaga não está sozinha no front. Beyoncé e Shakira também exaltam o erotismo fake e violento como forma de dominação. Todas são pós-Britney Spears, a estrela pós-Madonna. O que virá no pós-Gaga? Não sei, mas a multidão segue adorando a gagueira da música pop.
E o que tem a ver a zebra caleidoscópica? É só um título extravagante e bizarro para chamar atenção. Mas imagine quantos não pagam pra ver uma zebra dessas cantando!
Comentários
Dá-lhe Gisele Bündchen, então!
Gente, vamos ouvir Bach e Debussy!!!
Colega, aceito sua opinião, mas em matéria de música, eu piso o pé em que o artista deve elevar e ENOBRECER de alguma forma a cabeça e a vida de quem ouvirá suas canções. Barulho, brilho exagerado, gritos, movimentos não-harmônicos do corpo, letras que nada acrescentam, não se configuram como boa música pra mim. E nesse ponto nem Michael Jackson escapa do meu escrutínio, seja lá que REVOLUÇÃO TRANSFORMADORA ele tenha feito na música americana. Gostava de vê-lo dançar, mas se eu tiver que escolher entre ouvir Michael Jackson e Lady Gaga, fico com Mozart. Discurpa se te deixo chateado...
Ela transformou a vida em espetáculo e coreografou cada gesto seu como parte de uma performance ininterrupta, a tal ponto que ficou obrigada a cometer uma transgressão por dia e jamais pode usar uma roupa comum em público.
A vida dela não inspira a sua "arte", tornando-se, em vez disso, um mero suporte para ela, um palco no qual incontáveis referências pop podem aparecer e ganhar os holofotes (daí que, no lugar de um nome artístico artístico, foi escolhido um título pop, tirado de uma música do Queen, para denominá-la).
Lady Gaga simboliza a hipertrofia da representação e, nesse processo de espetacularização da vida, não restam mais vestígios de identidade - corpo e alma estão sempre à serviço da performance, buscando desesperadamente alguma reação, o aplauso ou a vaia, da plateia.
A sua originalidade consiste justamente na ausência de qualquer componente original, pois tudo nela é emprestado, reciclado e carrega uma tonelada de referências. Ela possui mil e uma máscaras, brinca à vontade com elas, mas não possui nenhum rosto (os clipes, aliás, dão provas disso). Até mesmo a rebeldia dela, como você bem colocou, é cuidadosamente calculada e bebe num caldeirão de influências.
Ao oferecer o vazio num embrulho "extravagante e bizarro" e mergulhar a vida numa representação incessante, Lady Gaga, a artista mais importante da atualidade, sintetiza o mundo pós-moderno e nos oferece algumas pistas para entender a realidade que nos cerca.
Maravilhoso! Quem dera eu saber escrever assim!
Abraço.