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Zagallo não é o Forrest Gump


Não lembro qual foi o jornalista que há alguns anos fez uma comparação irônica entre Zagallo e Forrest Gump. Para quem não lembra desse filme com o Tom Hanks, Forrest Gump era um rapaz de limitada inteligência que vira celebridade do esporte, herói de guerra e encontra presidentes. Tudo meio sem querer querendo. Sempre estando no lugar certo, na época certa.

Zagallo foi um jogador de alguns recursos técnicos que venceu quatro Copas do Mundo, mas nunca foi considerado “o cara” das conquistas. Copa de 1958: Brasil campeão pela primeira vez. Zagallo foi decisivo? Não. Aquela foi a Copa de Didi, laureado como craque do torneio, e de um certo novato chamado Pelé. 

Copa de 62: tá lá o Zagallo na área. Mas os gols e jogadas de Garrincha é que  levaram a seleção ao bicampeonato. Copa de 70: agora sim, Zagallo era o técnico, o homem que escalou Gérson, Rivelino, Pelé, Tostão e Jairzinho. Ninguém reconhece. Afinal, com jogadores dessa estirpe, um técnico teria mais é que sentar no banco e esperar pelo tricampeonato. 

Copa de 94: Zagallo é só o coordenador técnico da seleção, cargo que perde em importância pra médico e preparador físico. Pior: ele simplesmente era contra a ideia de levar o Romário para o tetra.

Até o título de tri-campeão carioca com o Flamengo, em 2001, não poem na conta do "Velho Lobo": o sérvio Petkovic, com seu gol em cobrança de falta no finalzinho do jogo, é o grande autor da façanha.

Em 1974, ele era o técnico. Sem Pelé, a seleção dançou no carrossel holandês de Cruyff e cia. Em 1998, ele assumiu a vaga de Parreira: a seleção dançou no balé de Zidane e cia.

Resultado: Zagallo seria o Forrest Gump do futebol. Um homem no time certo, na hora certa e com os jogadores certos.

Mas no dia em que Mário Jorge Lobo Zagallo faz 80 anos seria não só uma deselegância, mas também uma grande mentira dizer que as conquistas vieram por coincidência. Tanto em 58 quanto em 62, ele “inventou” uma função pela zona esquerda do campo em que jogava mais recuado, permitindo os avanços formidáveis dos atacantes brasileiros. E ainda fez lá seus golzinhos.

Em 70, caiu no seu colo uma seleção na última hora. Mas foi audacioso o suficiente para escalar e distribuir em campo cinco excepcionais jogadores que em seus clubes atuavam como camisas 10. Telê Santana tentaria algo semelhante 1982 com Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, o que encantou o mundo mas não ganhou a Copa do Mundo.

Zagallo encarna o tipo de técnico que treina o time e é um tremendo motivador. De uns tempos para cá, os técnicos se engravataram, ficaram tão preocupados com o próprio visual à beira do campo quanto com o desempenho do time, passaram a se enxergar como craques indispensáveis de um time.

Zagallo não tinha nada dessa soberba. Sofria e vibrava como um torcedor apaixonado. Se exagerou na veemência foi por causa da intensidade da crítica. Com o tempo, resiste a humildade de um bom jogador que foi carregar piano para os virtuoses brilharem. Permanece a imagem de um ancião de cabelos desalinhados incentivando um por um os cobradores de pênalti e o goleiro Taffarel na partida contra a Holanda na Copa de 98.

Alguns o veem como um grande coadjuvante e esportista sortudo. É que faltam explicações para falar sobre alguém que foi vitorioso tantas vezes. O que não podemos é negar sua paixão pelo Brasil, sua dedicação ao esporte, sua fibra moral. Está velho, mas não velhaco. Parabéns, Zagallo, velho de entusiasmo infantil.

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