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os Estados Unidos e o "sanduíche do diabo"

Um deputado americano referiu-se ao pacote econômico aprovado pelo Congresso como "Devil sandwich (sanduíche do diabo)". Ele não quis dizer que Satã em pessoa amassou mais esse pão. Na verdade, "sanduíche do diabo" é uma expressão que se usa quando o lanche ou refeição de um casal é inadvertidamente preparado por uma ex-namorada ou ex-noiva (por exemplo, se ela trabalha numa lanchonete ou restaurante onde o casal foi jantar).

Mesmo tendo outro significado, essa expressão serve como trocadilho apropriado para descrever a atual situação do governo de Barack Obama. Pressionado pela ala mais liberal dos democratas, que gostaria de ver o governo mais empenhado no avanço de seus projetos sociais, e acuado pela ala mais conservadora dos republicanos, que só vota com o governo se seus projetos neoliberais forem atendidos, o presidente Obama está comendo as migalhas do sanduíche do diabo.

O atoleiro econômico em que os Estados Unidos se meteram (e para onde vão levando junto o resto do mundo) não é cria de Obama, mas uma consequência da farra do crédito e da desregulamentação do mercado que vêm de longe. Mesmo sem subestimar a capacidade dos EUA de sair fortalecidos de cada crise econômica, o problema agora é ordem interna. A ferrenha oposição preparou um jantar com boas doses de maldade.

A barganha política em Washington é de arrepiar um lobista de Brasília. Até as listras da bandeira americana sabem que, em situações de grave endividamento, só há duas saídas: ou aumentar a receita ou cortar as despesas. As duas saídas juntas funcionam ainda melhor. Na visão de alguns analistas, a saída que o governo propõe, ou está sendo obrigado a propor, enfatiza o corte de gastos sem prever maior arrecadação fiscal.

No projeto original, as medidas pretendiam taxar as grandes fortunas. Com a pressão da direita republicana, os cortes vão atingir os programas sociais. O custo com a saúde é alto para o governo, principalmente por causa do monopólio das indústrias farmacêuticas. Aliás, estes laboratórios têm tanto poder político quanto a indústria bélica. Em vez de reformar amplamente a área da saúde e da seguridade social, o governo cede aos republicanos interessados "em desmantelar os últimos vestígios do estado de bem-estar social nos Estados Unidos", como diz Alejandro Nadal.

Outra boa economia está na prometida volta das tropas militares para casa, já que os gastos nessa área só aumentaram no governo Obama.

O pacote econômico foi aprovado na última volta do ponteiro do relógio. Republicanos e democratas estão brincando de "fim do mundo". Como naquela fatídica frase, eles estão "operando no limite da irresponsabilidade". No meio disso tudo, os olhos do mundo estão ansiosos como nos tempos em que uma crise dos mísseis gelava a espinha dos países na Guerra Fria.

Essa medida alivia (ou adia?) a força da crise, mas não esconde a iminência de um colapso. Moral falidos e economicamente falidos, restam aos Estados Unidos o seu gigantesco poder político. E um império é capaz de fazer qualquer acordo, talvez até com o custo de rasgar sua Constituição, a fim de se manter no topo. 

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