29 abril, 2007

ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA

felliniana, freudiana, jobiniana,
kafkiana, wagneriana, mãe joana,
machadiana, hithcockiana, sartreana,
ikeda, marisa, chiquita bacana

hollywoodiana, lacaniana, bachiana,
flo, unespiana, luiz lasagna,
mozartiana, glauberiana, kantiana,
lia kerr, herr castagna


versos e anti-versos em louvor dos meus tempos na Unesp

a música do homem feliz

Num lugar tão distante quanto antigo, descobriu-se que o rei padecia de uma profunda tristeza. Os médicos reais não vacilaram no prognóstico: a melancolia monárquica só seria curada quando o rei vestisse a camisa de um homem feliz. Mas logo constataram que ninguém na cidade era feliz. Não que ali se vivesse num regime ditatorial, com sua gente falando de lado e olhando pro chão, viu?, mas os endinheirados já andavam circulando feito tristes fantasmas existencialistas, tadinhos. E os pobres urbanos, quando perguntados se eram felizes para que pudessem emprestar uma camisa para seu rei, repetiam que sua felicidade, quando vinha, era fugidia como o seu mínimo salário, nascendo aí a expressão "alegria de pobre dura pouco".

Foi, então, que a comitiva que caçava a felicidade perdida encontrou numa vereda a salvação do seu rei. Um velhinho que dava duro no carpir respondeu "sim, eu sou feliz." Os asseclas pediram ao ancião que fosse em sua casa buscar sua camisa e explicaram os tintins ao homem, que andava com o torso tão nu quanto encurvado. O velhinho disse “não tenho casa, tenho só aquele barracão de zinco, mas à noite os furos do telhado viram estrelas no chão". Os comissários reais aproveitaram que o homem estava conformado com sua poesia e sua choupana e lhe rogaram que fosse logo buscar uma camisa. Mas que nada. O homem feliz NÃO tinha camisa.

Essa história pode ser torcida em favor de qualquer ideologia. Pode-se usá-la para demonizar a riqueza e louvar a felicidade do casebre ou para declamar o discurso dominante de que o homem não precisa de muita coisa pra ser feliz, que os pobres estão muito bem assim, pra que mexer com quem está quieto. A telenovela brasileira, por exemplo, apresenta seus riquinhos às voltas com suas afinidades "afetivas", enquanto o núcleo pobre, que de pobre-pobre não tem nada, não tem camisa mas é feliz e suas tias Ciatas dão festas regadas à alegria e pagode com cerveja.

A pesquisa em música já abandonou alguns de seus piores vícios positivistas. Mas hoje está tão atrelada às ciências sociais que já não sabemos dizer se o que se faz é musicologia ou antropologia. Migrou-se da aridez científica meramente descritiva para a dissertação socialmente inclusiva. Relativizou-se a estética em prol da relevância sociológica. Não foi só Carl Dahlhaus que percebeu que a musicologia, em sua fúria interdisciplinar, cada vez menos fala de música, preferindo falar de uma sociedade que produz música.

Qualquer comentário estético é evitado para não constranger certa comunidade ou parecer politicamente correto, cumprindo a frase de Eric Hobsbawn: os críticos atuais, talvez por medo de parecer antidemocrática, não sabem ou não querem dizer quem é melhor, se Macbeth ou Batman. É evidente que não precisamos sair comparando Cartola com Calypso sabendo de antemão que ambos perfazem trajetórias intencionalmente divergentes. O problema surge quando se evita o confronto estético para favorecer uma reconciliação cultural.

Dois exemplos:
1) o livro de Paulo César de Araújo, Eu não sou cachorro, não, oferece um amplo painel do preconceito a que foram submetidos os ídolos musicais considerados bregas pela elite intelectual brasileira. A mesma elite que hoje aplaude o circo do folclorismo exótico montado pra antropólogo ver. Este ótimo livro dignifica o compositor popular, mas se deixa levar por uma euforia que tenta conduzir a uma suposta reconciliação cultural onde as distintas classes sociais estariam abertas a todos os sons.

2) Outro exemplo é o romantismo que invade o terreno da etnomusicologia e leva alguns pesquisadores a dizerem “esta cantora não precisa de nenhuma erudição, ela faz o que gosta e é feliz”. Este discurso revela três características de uma certa etnomusicolgia atual:
anti-intelectualismo, ao proclamar a independência educacional de grupos populares de “raiz”;
a suposição romântica de que as pessoas optam por fazer o que gostam, mesmo vivendo num país que demonstra inapetência na democratização do acesso aos bens culturais e econômicos;
e o conceito ultrarromântico de felicidade.

Quando se menciona o nome do Cacuriá de Dona Teté, uma anciã maranhense que transborda alegria de viver na sua música, e se diz que ela é feliz assim, só falta parafrasear José de Alencar e dizer que ela também é uma Iracema musical dos lábios de mel. Dona Teté, assim como Dona Edite do Prato, não depende de relevância sociológica ou debate estético, e é apenas um nome que mencionei, que talvez caiba nessa discussão musicológica.

Porém, vale perguntar pelos sujeitos que fazem a música e pelos sujeitos que estudam esta música. Vale questionar o conceito romântico de felicidade no miserê, que vem desde os versos que enaltecem o barracão de zinco e o chão de estrelas, na canção de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, e chega a alegre comadre Regina Casé e sua romantização da periferia. Aliás, o programa global leva a grife antropológica de Hermano Viana, o “pai dos pobres músicos populares”.

Que a tristeza e alegria, que a melancolia e a felicidade podem estar em qualquer rincão deste país, em qualquer classe social, muitos já sabem. Resta saber se o discurso do “eles não precisam de um outro conhecimento”, nem pior nem melhor, mas necessário, não reflete a justificativa para a omissão e a privação não só de educação, mas também de saúde, segurança e trabalho. Resta saber se o discurso do “eles fazem o que gostam”, não está validando um estelionato político-cultural ao dar a chance de brilhar com a fantasia do Boi-Bumbá em Brasília num dia, pra depois tudo se acabar na quarta-feira. Resta saber se não estamos enaltecendo a diversidade cultural ao mesmo tempo que se mantém a exclusão econômica do músico feliz mas que não tem camisa.