26 outubro, 2012

meritocracia ou meriTEOcracia


"Mestre, o que devo fazer para ser salvo?"
Há pessoas que fazem a pergunta com a esperança de receber uma receita pronta de salvação. Elas perguntam, e pensam adivinhar a resposta. “O Mestre vai dizer que é preciso um tanto de amor ao próximo e dez tantos de mandamento”.

O problema é que achamos que Jesus não vai contar com nossa astúcia. A resposta Dele é sempre mais profunda do que esperamos: “Vai vende tudo o que tens, dá aos pobres e segue-Me”. Ou então: “Você tem que nascer de novo”. Ou ainda: “A Minha graça te basta”.

Nossa sociedade está tão obcecada com a meritocracia, com o pensamento de que apenas os mais esforçados merecem prêmios e troféus, que muitos chegam a acreditar que a salvação é uma questão de esforço pessoal e crédito na praça. Há quem se apegue a ritos, a indulgências compradas, a leis cumpridas, a cerimônias entediantes, a teologias liberalizantes para garantir seu troféu. Melhor dizendo, sua coroa.

Mas isso é meritocracia aplicada à salvação. É buscar a justificação por meio da observância a rituais, obras caridosas ou símbolos com o intuito de obter favores divinos. Isso é pensar que minha música, meu serviço ou minha adesão a alguma igreja vai sensibilizar algum deus iracundo.

Esse é um princípio das religiões de magia: fazer algo para a divindade para que esta faça algo por mim. Se isso fosse válido para a religião de salvação, nós teríamos um Deus em reação à nossa ação. No entanto, a redenção estava planejada como uma solução para o pecado antes mesmo que o pecado entrasse no mundo.

Se um ser humano comum, mesmo o mais puro de todos, morresse como expiação pelo pecado da humanidade, então qualquer um de nós poderia salvar-se a si próprio. Isso é meritocracia.

Mas Deus amou ao mundo de tal maneira que entregou seu Filho à morte para que todos os que Nele creem possam ter a vida. Isso é meriTEOcracia. Os méritos do Filho de Deus justificando nossa total ausência de mérito.

Na religião mágica, o homem age e a divindade reage. Na religião bíblica, Deus age antes do homem. A meritocracia é o ser humano trabalhando em favor de si. A meriTEOcracia é Deus atuando em favor do ser humano. Na meritocracia, o pecador se declara justo, mas sua justiça não passa de trapos imundos. Na meriTEOcracia, não há “nenhum justo, não nenhum”, e ainda assim ele pode receber as vestes do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Por fim, a meritocracia aplicada à salvação usa a obediência à lei para salvar os seres humanos, enquanto a meriTEOcracia é graça.  A obediência é um resultado do reconhecimento da graça, é uma resposta aos atos divinos de salvação.

Ao ser humano, não cabe decidir quem é justo ou não. A preciosa graça, a excelsa graça, é que decide. A nós, cabe simplesmente o arrependimento e aceitação da graça pela fé. A explicação poderia ser muito mais complicada. Mas a graça é simples assim. Perdão se recebe, se aceita e fim. Pecado não se explica, pecado se paga, e Cristo pagou por mim.

23 outubro, 2012

telenovela, medo e a religião dos outros

O site exercitouniversal.com.br, criado por adeptos da Igreja Universal, lançou uma campanha pela internet contra a novela da Globo “Salve Jorge”. Segundo o site, essa novela promove a adoração a Ogum, entidade espiritual que, no sincretismo católico, representa São Jorge. Por isso, os evangélicos devem boicotar a novela global. A campanha também agregou imagens com o slogan "Queima o Jorge".

Sem querer perder a audiência da fatia evangélica que assiste suas novelas, a Rede Globo afirma que a novela não vai enfocar as religiões afro-brasileiras ou o catolicismo, mas vai somente utilizar na trama o mito do guerreiro Jorge da Capadócia.

A semana de estreia da novela global marca também a reestreia da minissérie “Rei Davi”, na Rede Record, a TV do bispo Macedo. A contrapropaganda do site neopentecostal é mera coincidência?


Há muitos motivos para não assistir a telenovelas. Mas não assistir por causa do seu título é crer num mundo mágico que não tem nada a ver com a atitude racional do cristão. O cristão tem medo de fantasmas, é assombrado por mau olhado, encosto, simpatia, vodu, despacho? Só se for aquele crente que não canta o “rá-tim-bum” ao final do Parabéns a Você porque acha que é uma senha que atrai o diabo [a expressão “rá-tim-bum” é a onomatopeia do final das músicas das bandas e fanfarras do começo do século XX]. Ou então é aquele que compra toalha abençoada com o suor de tele-exorcistas!  

Três questões me chamam a atenção na campanha que pede o boicote dos evangélicos à novela “Salve Jorge”:

1 – A novela anterior, como de praxe nas novelas, exibia violência, assassinato, traição, sequestro e, segundo os jornais, teve picos de audiência quando um marido bateu na esposa que o traíra por vários anos. Os espectadores achavam justa a agressão física contra a mulher. 
Alguém lembra de uma campanha evangélica de tamanha repercussão contra a novela “Avenida Brasil”? Talvez isso queira dizer que assistir noite após noite o deprimente espetáculo da maldade glamourizada é algo aceitável para muitos evangélicos. Porém, se o título de uma novela exibir uma saudação típica de outra religião, aí assim, o evangélico não deve assistir. Vai entender...

2 - O site dos fiéis da Universal assegura que "com a chegada de outro espírito [Ogum], o Espírito de Deus se ausentará". Nesse sentido, Deus é que sai correndo quando outros supostos espíritos se aproximam? Não seria exatamente o contrário?

3 – Uma das imagens da campanha que pede o boicote diz “Queima o Jorge”. Eles querem dizer: queima o santo guerreiro dos católicos? Se for assim, esse é o tipo de preconceito que leva muita gente a satirizar e ofender a fé muçulmana. Pedir a fogueira para a religião dos outros revela o mesmo tipo de rancor e ódio que levou Bin Laden a explodir as Torres Gêmeas. E desse tipo de crente, que não tolera a religião alheia, eu confesso que tenho medo.

19 outubro, 2012

as três criações de Deus


A dúvida não é um problema. Ficar paralisado pela dúvida, sim; passar a vida indeciso repetindo para si a mãe hamletiana de todas as dúvidas: ser ou não ser. Duvidar, questionar, perguntar, tudo isso é humano. Nossos ossos são dúvida, nossa carne é dúvida, nosso pensamento é pergunta. E como perguntar não ofende...

Mas há algo nessa breve história da dúvida que precisa ser contada. Minhas dúvidas vão se apagando na medida em que acende a certeza da centelha divina da criação que há em mim. Quando eu vejo um bebê sendo gestado no mar amniótico da tranquilidade, eu penso: há um Criador. Quando eu olho para a rotina da Terra a girar feito bailarina incansável, eu acredito: há um Criador. Quando eu contemplo a tapeçaria celeste disposta como teto sobre mim, eu não tenho dúvidas: há um Criador.

Alguns cristãos procuram conciliar a teoria da evolução e o Gênesis. No entanto, aceitar o evolucionismo teísta, que dispõe Deus como supervisor do processo evolutivo e não como o Criador da natureza e do ser humano, derruba algumas colunas inegociáveis do Cristianismo. Como? É que alguns pressupostos caros ao cristianismo, como pecado, expiação, redenção, perdem o sentido sem a literalidade ou, no mínimo, sem a veracidade do Gênesis.

O Gênesis, o livro dos começos, nos conta que a criação do homem e do mundo ocorreu em sete dias literais. Houve tarde e manhã e aquela foi a primeira criação de Deus. E Ele viu que tudo era bom.

Depois, a perfeita natureza foi desmantelada pela foice afiada do pecado nas mãos do pecador cego. Mas se os animais não se atacavam e se devoravam, como eles passaram a saber que um era mais forte do que outro, que este devia fugir daquele? O equilíbrio edênico da criação teve, suponho, que ser reequilibrado. Um novo ecossistema que não degenerasse no caos no primeiro dia precisou ser desenhado. Se assim foi, esta teria sido a segunda criação de Deus.

Todo o estudo criacionista, porém, cairia por terra se não fosse por um último e importante detalhe: a restauração do ser humano e da sua casa-mundo. Por isso a Bíblia não acaba no Gênesis nem nos quatro evangelhos. O Apocalipse parece o livro dos finais, mas na verdade é o livro dos recomeços. Nesse livro, aprendi que a existência de um Deus criador também faz sentido na recriação de tudo. E essa será a terceira criação de Deus.


John Baldwin escreveu melhor no artigo "Deus, o pardal e a jiboia esmeraldina" 

17 outubro, 2012

melancolia e depressão na música pop

A música popular de hoje está depressiva? As melodias têm maior inclinação melancólica do que antes? 

A música triste e melancólica não é uma atribuição do pop contemporâneo. No século XIX, Chopin compôs peças de caráter nostálgico e melancólico, o que seria um reflexo de sua própria personalidade. Isso nos leva à pergunta: a música reflete o estado da alma de seu compositor?

O ato de composição é complexo. Por isso, o que vou dizer a seguir é algo bem simplificado. Uma música pode expressar uma experiência dolorosa que um músico pode estar vivenciando; o compositor procurou somente representar musicalmente uma emoção ou sentimento. Ou ainda, não é o compositor que está buscando representar uma determinada emoção em forma musical, mas o ouvinte é que tenta encontrar na melodia um significado emocional.

Ouça o movimento poco alegretto da 3ª Sinfonia de Brahms [ouça o 1º minuto]:


Essa música é melancólica? Depressiva? Ou é o ouvinte que associa certas sonoridades a certas emoções? Essa peça pode ter um caráter associado à melancolia, porém, penso que ela está mais bem associada ao sublime. Ela convida à contemplação da beleza plácida e contrita. 

A melancolia pode ter um tom de saudade, uma sombra de tristeza ou de sentimento elevado. Kant aponta como as coisas sublimes convidam à melancolia. "É uma emoção complexa com aspectos de dor e prazer que se baseia em uma série de emoções, tristeza, amor e desejo – todos vinculados a um estado de espírito reflexivo e solitário" [ver o estudo de Emily Brady e Arto Happala, "Melancholy as an Aesthetic Emotion"].

Essa natureza sublime também está no Op. 67 nº 4, de Chopin, no Adaggieto da 5ª Sinfonia, de Mahler, no Estudo em Dó Sustenido menor, de Scriabin.

A música para cinema opera, quase sempre, no reforço expressivo de uma cena ou de uma ideia. O futuro sorumbático da ficção científica Blade Runner ganha tons melancólicos na trilha sonora feita por Vangelis. Mesmo John Williams, um compositor que opera na linha da música épica e triunfante (Star Wars, Indiana Jones, Superman), escreveu um tema musical que reflete a melancolia trágica de um povo no filme A Lista de Schindler. [ouça apenas o começo]



A música popular brasileira é vista como alegre e festiva. Mas há um lado nem sempre lembrado da canção popular: sua tristeza e melancolia. Desde as modinhas dos séculos 18 e 19, passando pelo samba-canção de “dor-de-cotovelo” dos anos 1940-1950 e chegando à bossa nova, os compositores expressaram a ausência, a solidão e a saudade.

Vejamos, por exemplo, o tema da felicidade. Como é mais fácil estar alegre do que ser plenamente feliz, a felicidade, na música popular, é retratada como algo fugidio, passageiro. Por isso, as canções que falam de “Felicidade” têm uma melodia que, assim como a letra, tende à melancolia. “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito” e assim a música continua com a melodia sempre descendo as notas da escala. “Tristeza não tem fim, felicidade, sim / A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor / Brilha tranquila, depois, de leve, oscila / E cai como uma lágrima de amor”, nos versos de Vinícius de Moraes.

No entanto, não são músicas com teor depressivo, mas canções cujo modo lento e contemplativo convida à reflexão sobre o caráter efêmero da felicidade humana.

Depressão não é o mesmo que melancolia. A depressão deixa a pessoa desmotivada, incapaz de completar as tarefas mais simples e sem interesse ou força para sair desse estado emocional. É um estado de doloroso pessimismo. Por outro lado, a melancolia não envolve um dor tão debilitante. Ela está ligada ao prazer obtido na reflexão e na contemplação. Esse aspecto reflexivo ou pensativo se traduz em um fazer produtivo.

Se os músicos estiverem passando por depressão, eles dificilmente serão capazes de ir ao estúdio encarar um longo processo de gravação ou de sair em turnê. Ou nem mesmo conseguem completar a composição de uma música. Assim, enquanto a depressão emperra a força produtiva, a melancolia poderá se traduzir num fazer criativo.

E o pop contemporâneo, então, está mais triste, depressivo?

A partir dos anos 1980, nota-se um desencanto individual e coletivo que resultou num pop melancólico, com tendências depressivas (Joy Division, The Cure, The Smiths, entre outras bandas). Os fãs do rock dos anos 70, por exemplo, costumam dizer que a banda Nirvana trouxe a depressão para o rock. O rock, que antes era considerado caso de polícia, agora seria um caso para psiquiatras? Hits entusiásticos, como “Jump” ou “Final Countdown”, foram sendo substituídos por um rock macambúzio, tristonho, um rock jururu.

O número de bandas que fizeram sucesso com canções soturnas, cabisbaixas, melancólicas e depressivas aumentou consideravelmente: Evanescence, Linkin Park, Sonic Youth, Arcade Fire, My Bloody Valentine, Coldplay, Green Day, Radiohead.

Como essa melancolia se expressa na música? Por meio da estrutura musical e do padrão de performance.

A estrutura rítmica é mais lenta, a estrofe tem uma linha melódica sem grandes saltos e é cantada na região médio-grave da voz. Há bastante espaço vazio entre os versos, o que cria uma sensação de longa espera pelo próximo verso e aumenta a sensação de incompletude. A guitarra não faz solos virtuosos, contentando-se com notas esparsas e arpejos lentos. No refrão, os instrumentos entram com mais peso e a voz fica mais aguda e forte. Ao final do refrão, volta-se ao clima soturno e reflexivo de antes, como se o refrão fosse uma tentativa de superação e o retorno à estrofe fosse uma forma de resignação ou, então, de pessimismo.

As letras falam de sentir-se estranho, esquisito ou deslocado no mundo, falam de solidão, de desilusão com a sociedade. Na comparação das músicas da banda Radiohead com as canções mais antigas do pop/rock, não é difícil perceber o aumento da tendência melancólica ou depressiva na música popular. 

Numa lista de canções mais melancólicas do pop, a maioria tinha sido composta nos últimos 30 anos: "Love will tear us apart", Joy Division; "Creep" e "No Surprises", Radiohead; "How soon is now", Cure; "Over", Portishead. Do lado oposto, uma canção dos Beatles, "Because", é de caráter musical melancólico, mas sua letra, não. Ou seja, é reflexiva, mas não deprimida. [ouça apenas o 1º minuto]




Nos anos 80, entre as bandas brasileiras que seguiram a rota melancólica figura a Legião Urbana. Vento no Litoral, Será?, Há Tempos, Pais e Filhos, e outras canções em que Renato Russo expressava as dores e anseios de sua geração. 

Ainda assim, canções como Pais e Filhos, descrevem os conflitos e infortúnios familiares, mas traziam uma mensagem de mútuo entendimento [você diz que seus pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais] e o amor como solução para os conflitos afetivos [é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã].

Como se vê, alguns do hits melancólicos dos anos 80 e 90 podem ter descrito a ansiedade e o desespero, mas costumavam oferecer uma esperança de conforto, uma luz no túnel, como "Everybody hurts" (R.E.M.). Outras, afundavam no próprio desânimo. 

Diante do acúmulo de sucessos pop de teor depressivo, fica a pergunta: a escuta contínua de canções melancólicas e reflexivas pode aumentar a mágoa, a culpa,  a sensação de vazio? É claro que a simples audição de músicas mais alegres não é uma saída, já que o problema é de ordem psicológica e não musical. Mas a quantidade de canções de teor melancólico ou depressivo diz muito sobre uma geração autocomplacente e ansiosa. E muitas canções mais recentes não estão dispostas a oferecer conforto. 


*****
E na música cristã contemporânea, há músicas melancólicas? A melancolia é um estado de espírito adequado para transmitir as mensagens de esperança e salvação proclamadas pelo cristianismo? Isso fica para a próxima postagem.

15 outubro, 2012

aos mestres

O que fazemos bem hoje, devemos a um bom professor. Afinal, quem quer aprender sozinho sempre aprende com alguém bem ignorante.




12 outubro, 2012

a palavra da fé e a fé na Palavra


A Bíblia é uma perfeita literatura artística e espiritual. Ao estudarmos a Bíblia sem preconceitos e mente aberta, colocamos em xeque nosso modo de viver, passamos a duvidar de que temos a resposta humana para tudo e começamos a compreender o significado da vida.

Então, tudo está explicado? Não. Muitas vezes, gostaríamos que certos pontos da Bíblia fossem mais claros e diretos, gostaríamos de ver um “x” marcando a alternativa correta para que ninguém interpretasse diferente.

Não é assim tão fácil. Aliás, não é difícil enxergar a Bíblia como a palavra da fé. Mas o que precisamos mesmo é ter fé na Palavra.

Em João 5:39, vemos Jesus dizendo: “Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas que testificam de Mim”. Muitos de nós examinamos, pesquisamos e estudamos a Bíblia buscando achar um erro histórico, uma incoerência textual. E é possível encontrar o que se quer: a falha gramatical, a dúvida factual, a vida eterna.

No verso 40, Jesus adverte: “Mas não quereis vir a Mim para terdes vida”. Sem desprezar as perguntas, as dúvidas e o espírito científico, afinal, os pioneiros da igreja inquiriam e estudavam arduamente a Bíblia a fim de encontrar respostas, nós também não podemos baixar os olhos para examinar a Palavra e deixar de encontrar o Cristo que ela apresenta.

Para muitos, a Bíblia é letra morta. Mas para os que creem, ela contém o Cristo vivo.

10 outubro, 2012

o ano em que não fomos mais os mesmos

Música, tecnologia, guerra, direitos civis, religião: de tempos em tempos, o modo de pensar e agir sobre isso tudo muda. Se alguém quiser saber quando foi que nossa sociedade começou a ser do jeito que é hoje, é preciso recuar até 1962. Há 50 anos, deixamos de ser os mesmos.

Em fevereiro de 1962, John Glenn tornava-se o primeiro astronauta americano cruzando a órbita da Terra. O próximo passo seria a chegada à Lua e o resto é história (ou uma tremenda "estória").

A corrida espacial disputada por americanos e soviéticos era acalorada. Enquanto a isso, a Guerra Fria também esquentava naquele ano. Em 14 de outubro, um avião espião dos Estados Unidos fotografou quatro lançadores de mísseis em Cuba, desde a época, uma ilha comunista rodeada de capitalismo por todos os lados. O mundo prendeu o fôlego por 13 dias esperando o Armagedom atômico.  Só no dia 28, o premiê soviético Nikita Kruschev declarou que as armas seriam desmontadas, encaixotadas e enviadas de volta à União Soviética.

Enquanto o mundo respirava aliviado, a construção do Muro de Berlim, iniciada em junho, seguia firme. O muro era o lado concreto da divisão da Europa em dois blocos antagônicos.

O mundo do cinema não deixou passar esse tema em brancas bilheterias. Em 1962, era lançado o primeiro filme da série 007. Em agosto, Marilyn Monroe tinha sido encontrada morta vítima de uma superdose de Nembutal. O cinema perdia uma estrela e lançava um astro:  o espião 007. Mesmo que você não tenha assistido a nenhum filme da série, você conhece a música-tema.

Falando em música, 1962 foi um divisor de águas. Em abril, Bob Dylan apresentava sua música folk politizada e poética em Nova York. Novos ventos sopravam. As mentes mais aguçadas entendiam o recado de Dylan.

Em 5 de outubro, quem entendia o recado eram os corações e pés dos mais jovens. A canção Love me Do, dos Beatles, estreava nas rádios e seu sucesso criava um novo código de comportamento. Uma introdução de gaita de bolso, um refrão simples e pegajoso, uma letra exaltando o amor e a música pop seria a tônica dominante da mídia.

Nem só de entretenimento e Guerra Fria vivia 1962. A luta dos negros pelos direitos civis não arrefecia, mesmo que, no dia 6 de agosto, Nelson Mandela estivesse sendo preso pelo regime do apartheid na África do Sul. Nos Estados Unidos, não sem ferrenha oposição racista, em 1º de outubro, o jovem James Meredith tornava-se o primeiro estudante negro a matricular-se na Universidade do Mississipi.


Para garantir que ele caminhasse com segurança até a universidade, foi preciso escolta policial federal e oficial de justiça (foto). Durante todo o trajeto, Meredith foi insultado por brancos que repeliam sua presença ali. 

A busca por maior liberdade de comportamento e o ativismo social estiveram presentes nas reuniões do Segundo Concílio do Vaticano. Convocado pelo para João XXIII, o concílio era um processo de atualização (aggiornamento) da Igreja. Houve orientações quanto a mudanças na liturgia e no compromisso social da igreja. Embora o futuro papa João Paulo II tenha recuado em algumas das propostas, a modernização da Igreja Católica teria impacto em várias esferas políticas, sociais e religiosas.

Por último, ao terminar de ler este texto na web, você pode ter certeza de que faz parte de uma revolução na mentalidade ocidental que teve impulso naquele ano. Até porque, foi em 3 de novembro de 1962 que o jornal New York Times estampou a notícia sobre um tal de “computador pessoal”.

05 outubro, 2012

qual é a política do cristão?


O cristão não é um ser apolítico. Primeiro, ninguém é apolítico. Todo posicionamento a favor, contra ou muito pelo contrário é um posicionamento político. Segundo, o cristão que verdadeiramente ama a Deus também ama seu semelhante. Isso implica reconhecer sua responsabilidade social.

O pastor Bert Beach escreveu que o “cristianismo é uma religião de comunidade. Os dons e as virtudes cristãs têm implicações sociais. Devoção a Cristo significa devoção a todos os filhos de Deus, o que gera responsabilidade pelo bem-estar dos outros”.

Isso não quer dizer que todo cristão tem que se filiar a um partido político. Além de denunciar estruturas socioeconômicas opressoras, o cristão deve trabalhar para mudar pessoas. O cristão também é um revolucionário. Mas do tipo que apresenta a paz e a vida em Cristo. Ele tem como objetivo mudar o homem. O homem transformado mudará as estruturas sociais de exploração e opressão.

O cristão espera novo céu e nova terra. Enquanto isso, ele trabalha para minorar o sofrimento, a injustiça e a pobreza mesmo tendo consciência de que as dores do mundo não serão curadas definitivamente pelo próprio homem.

Não quero dizer que o cristão não deve entrar oficialmente para a política. O cristão que almeja ou ocupa um cargo público costuma usar o argumento de que até personagens bíblicos atuaram na esfera política, como José, Ester e Daniel. É verdade. Mas eles pagaram o preço por não se corromperem. Quer se candidatar? Então, mais do que ser um cristão político você deve atuar como um político cristão.

Um candidato cristão não deve usar os cultos de sua igreja para a autopromoção. Púlpito não é palanque. O púlpito não merece ser ocupado com outro assunto que não seja a mensagem da salvação em Jesus.

Os candidatos políticos têm suas diferenças ideológicas, e nós costumamos defender nossas preferências políticas. Por isso, gastamos nossa lábia tentando provar que nosso voto é melhor que o dos outros. Alguns irmãos se unem pela fé e se separam pela ideologia. Vão à igreja pela doutrina e deixam até de se cumprimentar por causa de partidarismo. Por isso, esse é um bom conselho: “Mantende secreto o vosso voto. Não acheis ser vosso dever insistir com todo o mundo para fazer como fazeis”(EGW, Carta 4, 1898).

O evangelho é a prioridade das instituições cristãs. Uma coisa é manter um relacionamento respeitoso com as instâncias governamentais. Outra bem diferente é buscar proximidade a fim de obter favorecimento. Tanto a oposição aberta como o apoio oficial à situação acabam atrelando a imagem da igreja a contendas políticas e não à divulgação do evangelho.

O discipulado cristão tem uma dupla missão: anunciar o evangelho puro e simples de Cristo e ajudar a diminuir as necessidades sociais. A igreja desempenha um papel na comunidade, mas não é um comitê de campanha. A igreja busca servir os desfavorecidos, mas não é uma ONG. A igreja pode ter relevância social, mas não pode omitir sua missão na restauração espiritual.


03 outubro, 2012

o curioso caso do delegado mãos-de-tesoura


O delegado Protógenes foi ao cinema ver um filme sobre um ursinho de pelúcia. E levou seu filho de 11 anos. Como acontece com 90% dos espectadores, ele não se informou sobre a história do filme e só lá dentro foi descobrir que o ursinho não tinha nada de pelúcia. Era, na verdade, um ursinho de malícia. O ursinho fuma, bebe, fala palavrões, cai na gandaia. Ou seja, não deve morar com os Ursinhos Carinhosos.

Tem crítico de jornal vendo o filme como uma fábula sobre a adolescência sem fim dos adultos de hoje, que casam com a irresponsabilidade e o hedonismo até que a maturidade os separe. Não sei se o filme é bom ou ruim, mas acho que não vale a pena descobrir. O que todos sabem é que o delegado Protógenes levou seu filho de 11 anos para ver um filme qualificado como não recomendado para menores de 16 anos, e que saiu do cinema esbaforido pedindo pelo Twitter a censura do filme em todo o território nacional.

Essa é a história do Delegado Mãos-de-Tesoura. Parece uma fábula, mas o que se segue é inteiramente baseado em minhas especulações.

Ao chegar em casa, foi direto para o laptop. Para você ver que não importa a patente, todos são mordidos pela vontade de falar da vida pessoal aos 4 ventos e às 100 redes sociais. O delegado queria proibir o filme. Mais tarde, pensou melhor (leia-se: os internautas discordaram veementemente da vontade do delegado) e disse que iria sugerir aos órgãos competentes a mudança de faixa etária apropriada para o filme, de 16 para 18 anos.

O caso tomou proporções nacionais e o delegado se viu no papel de paladino da moral e dos bons costumes. Pelo jeito, ele crê que as diabruras de um ursinho de malícia que não trabalha, não estuda e se diverte é um mau exemplo para os espectadores em idade escolar. Disso, nenhum pai vai discordar. [Considerando que cada pai, por ter sido adolescente, lembra muito bem a distância entre o que o pai recomendava e o que o filho fazia].

É claro que o “Seu” delegado deve achar que a roubalheira da classe política, o sucateamento da escola pública e a glamourização dos astros da TV e do futebol não são bons estímulos para nossa linda juventude. Mas ele prefere não comentar.

É claro que o “Seu” delegado também prefere não comentar o que raios estava pensando quando entrou, junto com seu filho de 11 anos, num cinema que exibia um filme impróprio para menores de 16 anos.

É claro que o honorável delegado não imaginava que a repercussão desse caso iria aumentar o número de curiosos que foram ver o tal "filme que o delegado quer proibir". Nada como um escândalo para promover um filme. Melhor para os produtores do filme que não gastaram um dólar furado. Marketing involuntário e gratuito: só as autoridades indignadas são capazes de fazer.

Moral mínima: se for zelar pela moral e pelos bons costumes, tenha o cuidado de não servir de marketing. 

01 outubro, 2012

liberdade de expressão: modo de usar


Um filme que satiriza Maomé e que mostra o islamismo como um câncer serviu de justificativa para o ataque de salafistas a embaixadas norte-americanas no Oriente Médio. Não é a primeira vez, e certamente não será a última, que o pensamento ocidental, pavoneando-se sob a égide da liberdade de expressão, provoca a fé muçulmana. Na cabecinha livre, leve e solta de editores de revistas e jornais ou de artistas e executivos da área cultural, qualquer pessoa pode expressar sua opinião sem ter que ser ameaçada de morte por isso. Aliás, editores e executivos sempre se defendem com a máxima que reza que “as opiniões aqui emitidas nem sempre expressam as convicções do corpo editorial”.

No artigo "Cruzadas, novamente" [Carta Capital], o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle demole a ideia de que a liberdade de expressão não tem limites:

[...], há de se fazer uma reflexão a respeito do filme que serviu de estopim para tais ações. Permitir um filme dessa natureza, onde seu realizador afirma querer mostrar como o islamismo é um câncer, nada tem a ver com liberdade de expressão. Pois nunca a liberdade de expressão significou poder falar qualquer coisa de qualquer forma. Em toda situação democrática, há afirmações não permitidas. Por exemplo, se alguém fizer um filme a fim de mostrar que os gays são seres promíscuos responsáveis pelo mal moral do mundo, que os negros são seres inferiores ou que os judeus estão por trás da crise econômica, que controlam tudo e que inventaram o Holocausto, tal indivíduo será, com razão, enquadrado em crime penal previsto por lei e a exibição do seu filme será proibida. A razão é simples: não se trata de uma questão de opinião, mas de preconceito e simples violência social. Se há algo que a democracia reconhece é o fato de que nem toda enunciação é uma opinião. Há enunciações que, por causa de sua violência e preconceito, são crimes.

É claro que temos o direito de criticar dogmas religiosos. Não se segue daí, porém, que se possa fazer isso de qualquer forma. Posso criticar o dogma católico da transubstanciação, mas não significa que eu possa entrar na missa e cuspir na hóstia. Da mesma forma, posso criticar, em minha aula, o Estado brasileiro afirmando que sua bandeira é hoje um pano velho sem sentido. Mas não se segue daí que eu possa entrar em sala e atear fogo à bandeira. Saber encontrar a forma adequada de crítica é o mínimo que se pode esperar no século XXI.

Por fim, normalmente há aqueles que afirmam que, se assim fosse, teríamos de proibir Voltaire e seus textos anticlericais. Contra esses, gostaria de lembrar um ponto: Voltaire era corajoso o suficiente para criticar sua própria tradição religiosa. Algo muito diferente é fazer profissão de fé esclarecida, ridicularizando as crenças religiosas de outros povos. Aqueles que não têm coragem de criticar sua própria tradição melhor fariam se silenciassem sobre as tradições do outro.