28 outubro, 2008

A Maçã

Samira Makhmalbaf era uma jovem cineasta de 17 anos quando começou a dirigir seu primeiro filme, A Maçã (Sib, 1998, co-produção Irã/França), que apresenta a vida de duas irmãs gêmeas que há anos não tinham contato social. Tanto a mãe, cega e trajando uma burka indevassável, quanto o pai, um pedinte, não permitem que as meninas saiam de casa para brincar ou ir à escola. São os vizinhos, por meio de um abaixo-assinado, que fazem com que uma assistente social venha até aquela casa e dê início a um processo radical de libertação das crianças (por certo as assistentes sociais ocidentais não concordarão com o método usado pela colega de profissão iraniana).

A história é real e é vivida na tela pelos seus personagens reais: os pais e as meninas, as quais mal conseguem articular a fala, caminham estranhamente e não sabem como se comportar socialmente. Em entrevista ao jornalista Kleber Mendonça Filho, Samira Makhmalbaf explicou que a história das meninas presas em casa pelos pais ganhou enorme destaque na mídia, em Teerã. “Começamos a fazer o filme apenas quatro dias depois que toda a imprensa abriu espaço para a história. Isso significa que o que foi captado, nesse curto período de tempo, era o real, ou as conseqüências sociais e psicológicas do acontecido”. Misto de documentário e ficção, o filme é extremamente tocante no retrato das crianças que descobrem o sentido de liberdade ao andar pela vizinhança e ter o primeiro contato com outras crianças.

Não espere a narrativa melodramática e chorosa do cinema comercial. O relato não adere ao padrão fácil de comoção, sendo mesmo desconcertante por apresentar-se como narrativa de ficção, embora seja um registro de ações da vida real. Equilibrando cenas poéticas (como a caminhada das irmãs pelas ruas junto com um menino que carrega uma maçã), realistas (o pai, de 65 anos, que diz que ninguém nunca se importou com ele e agora está em todos os jornais e se sente desonrado) e enigmáticas (a cena final que se abre a vários sentidos), o filme é também uma chance de ver os habitantes do Oriente Médio retratados como pessoas e não como terroristas sem rosto.

Em A Maçã, ao explorar com rara delicadeza o cotidiano de pessoas invisíveis socialmente, a jovem diretora nos mostra uma metáfora sobre a condição da mulher no Irã e sobre a necessidade de socialização.

Como escreveu Carlos Drummond no final do poema O homem, as viagens, o ser humano precisa

"pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver".
Filme assistido no dia 26/10 no Canal Futura.

24 outubro, 2008

Valdecir Lima fala sobre música e adoração

Valdecir Lima tem graduação em Línguas Modernas e Teologia na Southwestern Adventist University (Texas, EUA) e é professor de Línguas e Comunicação Aplicada nas faculdades do UNASP (campus Engenheiro Coelho, SP). No entanto, ele é mais conhecido por ser um letrista de raro talento, cuja parceria com os compositores Flávio Santos e Lineu Soares rendeu canções memoráveis (a lista é imensa, mas podemos citar O melhor lugar do mundo, Minha esperança, Falar com Deus, Deus sabe, Deus ouve, Deus vê). Suas letras apresentam um equilíbrio entre erudição e simplicidade, um inteligente uso de rimas e não perdem a fluência e a clareza de propósitos.

Em entrevista concedida à Revista Adventista (edição junho/2008), Valdecir Lima fala sobre questões relacionadas à música e à adoração nas igrejas. A seguir, apresento um resumo dessa entrevista, com meus comentários em itálico.

Nos Estados Unidos, denominou-se “gospel wars” o conflito que as igrejas evangélicas têm atravessado quanto às escolhas do seu repertório musical. No Brasil, as igrejas protestantes históricas ainda experimentam essa questão com menor ou maior grau de polêmica. Perguntado sobre onde estaria a raiz do problema, se na música ou nos adoradores, Valdecir Lima responde que “o problema pode estar na música, nos adoradores ou em ambos”. Diz também que, mais que uma música que promova a “verdadeira adoração”, todos precisam de uma atitude que seja fruto de ampla reforma na vida.

Valdecir adverte que “só existe verdadeiro louvor onde há união. Não é julgando e condenando um tipo de música que o adorador promoverá o louvor, nem é ignorando culturas e impondo um estilo próprio que o músico louvará com perfeição, mas vencendo os caprichos em função da união entre os irmãos”. E cita Filipenses 2:3: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo”.

Diz também que “se Cristo está no controle de sua vida, se você tiver a mente de Cristo, seu louvor será boa música. Se nos esquecemos disso, tentaremos explicar o louvor adequado por meio de pesquisas acadêmicas e longas bibliografias para nos autorizar a palavra final”.

Não vejo aqui nenhum ranço anti-intelectualista, até porque Valdecir é um homem das letras. Mas pode haver opiniões muito diversas numa mesma comunidade, todas acreditando ter o privilégio da “mente de Cristo”. Pode ser, então, que o estudo aprofundado tenha algo a contribuir para a orientação de uma linha de conduta musical que represente os padrões e os valores daquela comunidade religiosa.

O professor Valdecir prossegue: “Quanto mais pecadores nos tornamos, mais mandamentos necessitamos. Queremos um mandamento também para a música, (...) quando a Bíblia diz: ‘Anda na Minha presença e sê perfeito’(Gênesis 17:1). Se não seguirmos esse alto padrão, com certeza tentaremos eliminar os problemas por meio de algum tipo de exercício de poder. Porém, ‘nós que somos fortes, devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos’ (Romanos 15:1).

A respeito do atual cenário da música adventista no Brasil, Valdecir comenta que “não é bíblico odiarmos os músicos que desagradam nosso gosto. Tampouco os músicos devem impor sua inadequação e gosto particular a um grupo de adoradores (...) Ouço com freqüência que o mundo está entrando na igreja, e é verdade, não simplesmente em virtude dos costumes, mas por nossa falta de oração, fé e poder, por dependermos muito de nós mesmos e confiarmos em nossos próprios julgamentos”.

Estas são palavras valem para toda denominação cristã. A questão da adequação litúrgica não deve ser tomada negligentemente. Sem dúvida, há música apropriada para as diferentes formas e horários de culto, assim como é preciso buscar uma música adequada para as diferentes faixas etárias. Quando as diversas gerações estão reunidas num mesmo local (em uma comunidade de pouca diferenciação étnica e cultural), os músicos não ignoram que tipo de música unifica melhor os pensamentos e não cria divisão. Se ignoram esse fator, seria por displicência, imposição do gosto pessoal, ingenuidade, despreparo, estão sendo mal-interpretados, nenhuma das alternativas?

Por fim, Valdecir afirma que “efeitos tecnológicos, especializações, letras bem trabalhadas, músicas bem construídas, crescimento em habilidade vocal ou bons objetivos, tudo isso é necessário, mas há mais que isso”. E completa: “O maior louvor que os homens podem apresentar a Deus é tornarem-se consagrados instrumentos por cujo intermédio possa Ele operar” (Atos dos Apóstolos, p. 566).

Sabiamente, o letrista não aborda as insistentes questões sobre o uso de instrumentos ou gêneros musicais específicos (o espaço de duas páginas não caberia mais argumentações e os objetivos propostos pelo entrevistador eram outros). Assim, ao indicar que a comunhão e a entrega espiritual são os pontos primordiais na vida do músico e do adorador, estes poderiam fazer escolhas musicais apropriadas e dialogar em bases cristãs. É um caminho, apesar das eventuais imperfeições humanas, para o louvor sincero e perfeito.

21 outubro, 2008

A culpa não é do amor

Em Crime e Castigo, Raskolnikov é um niilista com mania de grandeza que mata friamente e depois é tomado do sentimento humano de culpa que acreditava ter exterminado junto com a vítima. Fico pensando se a elite de negociação paulista não esperou que o seqüestrador da moça Eloá incorporasse Raskolnikov e que ele, não suportando mais os reclames da consciência, rumasse pacificamente para os braços do Pai-Estado. Esqueceu-se, porém, que na história de Dostoiveski, o personagem primeiro mata e só mais tarde é que se entrega devorado pelo remorso.

No entanto, uma sucessão de gestos tresloucados começou desde que Lindemberg, o rapaz acometido de ciúme doentio - e como todo ciúme, mesmo o “saudável”, já carrega o vírus da loucura passional -, tomou Eloá como refém, como que obrigando a garota a sentir os mesmos carinhos que outrora nutriram mutuamente. Esses moços, pobres moços, ignoram que o coração das adolescentes é um passarinho que desde antes do orkut não tem gaiola que prenda por mais de duas longas semanas.

Da menina Eloá pouco se pode dizer nesses primeiros momentos. Porém, mesmo o desamor da menina pelo ex-namorado ou o típico exibicionismo juvenil pela internet, nada disso justifica um assassinato. Além do mais, culpar a adolescente é só uma amostra do atávico machismo que não ousa perder uma paixão.

O que dizer ainda da refém Nayara, que inacreditavelmente retornou ao cenário do cativeiro, seja por conta própria ou por conta da polícia. Por causa da intimidade com a amiga Eloá e por conhecer o relacionamento anterior de ambos, teria ela deixado de enxergar a terrível situação em que se encontraria outra vez?

Da polícia: confiou-se que tudo estava mais para briga de namorados? Suspeitou-se de que meramente se tratava de um destempero passional.? Apesar das negociações, dos diálogos, o que a população registrará da ação policial é: uma refém morreu, outra está hospitalizada, o seqüestrador passa bem.

Dos presos: as celas se acham mais dignas do que o rapaz assassino, os presos exercem um estranho senso de justiça e ameaçam a quem poderiam receber como um igual, pois todos erraram gravemente e não há um justo sequer, não nenhum.

Um fato que passou despercebido, mas não surpreende, é que Lindemberg, em suas últimas conversas pelo celular com os policiais, disse que estava ouvindo duas vozes diferentes. Uma lhe dizia para se acalmar e perceber a insanidade dos seus atos ali. A outra lhe dizia para “cobrar”, para ir até o fim. Desta última voz o seqüestrador dizia que era de um “diabinho”. Vale perceber que antes do trágico desfecho o rapaz tinha noção do certo e do errado, do bem e do mal. Some-se a fome, o sono, a fadiga física e mental, e vê-se que a escolha que fez obedeceu ao desejo de vingança.

De todos os crimes, aqueles cometidos em nome da paixão não-correspondida são, se é possível dizer assim, os mais indesculpáveis. Alcança pobres, remediados e ricos. O assassino passional não pode justificar-se na pobreza nem na riqueza, nem pode culpar a família, a escola ou a sociedade. Ele só pode assumir-se como o único responsável que ainda tenta pôr a conta nos desatinos do amor. Do amor? Culpar o amor é mais uma invenção humano-diabólica, porque só se mata por não amar.

16 outubro, 2008

Eleição sem salvação

O que será que anda nas cabeças, anda nas bocas e andam falando alto pelos blogs? Além da crise financeira, fala-se nas eleições americanas. Há um videoclipe que circula na rede (via blog do jornalista Michelson Borges) que mostra a semelhança nos discursos de George W. Bush e John McCain. O vídeo é editado meio no estilão do cineasta Michael Moore, ou seja, edição rápida e nada imparcial, e mostra como presidente e candidato republicanos estão bem ligados. Embora a postura pública de Barack Obama tenha catalisado a atenção das mentes arejadas, é seguro mesmo não olhar os candidatos como salvadores da pátria. Aliás, chega de messianismo eleitoreiro, não é mesmo?

Leia a seguir trechos da matéria de Idelber Avelar (Tulane University) para Agência Carta Maior (seguido de meu comentário):

"Os últimos dias da campanha de John McCain foram de um tremendo vai-e-vem: a chapa partiu para ataques a Obama por suposta associação com alguém que foi terrorista quando ele tinha 8 anos de idade, usou apresentadores que se referiam a Barack Hussein Obama, soltou um comercial sinistro sobre o “perigo” Obama e por aí navegou durante três ou quatro dias.

Os comícios começaram a fugir do controle, com seus apoiadores chegando a gritar matem-no à menção do nome de Obama. O Serviço Secreto abriu, inclusive, o inaudito precedente de interrogar membros de um comício presidencial por ameaça de assassinato. Com a reação negativa gerada pelo sectarismo, McCain retrocedeu. De uma correligionária que começava um discurso sobre Obama, o “terrorista árabe”, ele chegou a tomar o microfone, meio sem graça ou talvez a contragosto, para dizer que Obama é "um homem de família decente com quem tenho algumas divergências". Foi vaiado durante alguns instantes pelo seu próprio público".

*****

Obama transparece uma renovação. Mais jovem, articulado e elegante que o candidato adversário, seu conceito de uma política de diálogo, tolerância e de não-intervencão repercutiram favoravelmente ao redor do mundo. Claro que, uma vez dentro do Salão Oval, a discussão pode ser outra, mas não cabem especulações agora, pois aí seria uma antevisão determinista que já assegura que toda e qualquer candidatura estaria fadada à corrupção dos propósitos.

A candidatura de McCain (somada a escolha de uma vice tão republicanóide como Sarah Palin), por sua vez, reacende questões como: a tradição intervencionista dos Estados Unidos no campo internacional durante os mandatos republicanos (Nixon, Reagan, Bush), o ufanismo exacerbado travestido de civismo patriótico, o lobby relacionado à venda de armas, o investimento em propaganda militarista, a aproximação entre as esferas do Estado e da religião como aprecia a ultraconservadora direita cristã e, vale lembrar, o histórico de estímulo à paranóia, que sobrecarrega um ambiente de "perigo social" capaz de convencer a mídia e a população a fim de justificar a perseguição ao pensamento crítico e/ou discordante (o mccarthismo, a caça aos "vermelhos", Guantánamo).

Sim, ambos os partidos (Democrata e Republicano) são co-responsáveis pelo iminente estado de recessão financeira global. Sim, um presidente acuado por outras esferas de poder (conjuntura econômica, o "clamor popular", um discurso ecológico e/ou religioso global), não importa a definição partidária, pode tomar medidas que não estavam presentes na sua proposta inicial de atuação. Sim, porque eleger não é redimir, eleição não é salvação.

14 outubro, 2008

Vivendo el gospel loco

Coluna de Daniel Castro, na Folha de São Paulo:

"As novelas da Record Os Mutantes e Chamas da Vida trazem em suas trilhas sonoras músicas de Mikefoxx, misterioso cantor de pop. Mikefoxx é a identidade secreta de Moisés Macedo (foto via PalavradeVida), filho caçula do bispo Edir Macedo, dono da Record e líder da Igreja Universal.

"Moisés só é conhecido como cantor gospel, mercado em que se apresenta como Moysés. Está prestes a lançar seu terceiro CD pela gravadora da igreja.

"Diretor musical da Record, Marcio Antonucci sustenta que Moisés não é obrigado a cantar gospel, embora demonstre gostar mais de pop - no primeiro CD religioso, gravou uma versão evangélica de hit do Aerosmith. Diz que ele só não assina como Moysés porque acha Mikefoxx mais comercial. Ele tem uma banda de rock nos Estados Unidos e usa o nome de Mikefoxx, conta.

"Em Os Mutantes, Moysés, ou Mikefoxx, emplacou "Amor de Sedução", baba com pegada trance que lembra o tecnopop de FM do começo dos anos 90. A letra romântica embalava o sensual casal formado por Ângelo Paes Leme e Mônica Carvalho. Em Chamas da Vida, o rapaz solta a voz numa versão dançante de "Primeiros Erros" (sucesso de Kiko Zambianchi nos anos 80).

"Segundo Antonucci, as músicas de Mikefoxx só entraram nas novelas após serem aprovadas por ele e por um comitê, que inclui autores e diretores das tramas. Não tem como entrar se não tiver a ver com o personagem e não convencer essa comissão, fala."

Folha de São Paulo, 12/10

* * * * *
Junte um codinome pop-secreto em inglês, um mancebo que faz cover evangélico de Aerosmith e uma novela sobre mutantes no Brasil e imagine o que não diriam nos tempos em que trash era o mesmo que mau-gosto. Melhor não imaginar; o cenário assusta, mas é um cenário inspirador para a letra de “Amor de Sedução” (seria da lavra de Mikefoxx?):

O tempo que passou,
Não pode mais voltar.
Me rendo, meu amor,
Não deixe escapar.

No seu amor de sedução
Eu me perdi
Sinto meu coração querer
Sinto fluir.

Quando se encontra uma paixão
Melhor assumir.
Fácil entrar na solidão
Quero sair.

Oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh (4 x)

10 outubro, 2008

Everybody loves iPod

O que há de novo debaixo do sol, ou pelo menos debaixo do teto do ônibus? Gente, muita gente, cruzando ruas e calçadas, esperando no ponto dos coletivos ou circulando pelos corredores dos shoppings com fones nos ouvidos. Cada um está com seu aparelhinho tocando seu download preferido, sem olhar nem conversar com ninguém. Não que antes conversassem. Ao contrário, nos coletivos o silêncio era constrangedor (ou então se suportava resignadamente a conversa dos outros). É que agora está cada um no seu quadrado, ou melhor, cada um no seu mundo particular e musical. Claro que, na primeira consulta ao médico, essa democratização tecnológica não poderia ir muito longe, sendo uma das conseqüências a ocorrência de um insistente zumbido nos ouvidos.

Como para quem sofre com zumbido auditivo não há nada pior que o silêncio, que é quando o zumbido se destaca na paisagem sonora, então se põem de volta os fones num interminável ciclo de auto-ensurdecimento. Nos últimos cinco anos, houve um aumento de 20% no número de jovens menores de 20 anos atendidos pelo serviço do Grupo de Apoio a Pessoas com Zumbido (sim, esse grupo existe), da Faculdade de Medicina da USP. Das 31 pessoas cadastradas no ambulatório com problemas causados por exposição a ruído, 18 são adolescentes.

A fonoaudióloga Ieda Russo (em matéria do Estadão de 3 de agosto) denuncia os malefícios de uma exposição prolongada a sons com intensidade superior a 90 decibéis. Ela também nota que a exposição dos adolescente a sons e ruídos mais intensos e prolongados estão provocando uma redução da sensibilidade auditiva. Em testes recentes, descobriu-se que determinado grupo de jovens só detectavam sons acima de 20 decibéis. Assim, eles não poderiam mais escutar o bucólico e romântico som do vento nas flores, já que essa carícia da brisa na flor não ultrapassa os 10 decibéis. Se bem que essas criaturas estão pouco se importando com essas romantices quando é possível ouvir o último hit do NXZero jorrando dentro do canal auricular (Para quem achou parecido, NXZero não é uma nova série de celular e o termo “último” tem o sentido de “o mais recente, infelizmente”).

Há uma sugestão de médicos especialistas para os fabricantes de tocadores de mp3: reduzir o volume máximo do inevitável aparelhinho, que hoje alcança a intensidade de uma britadeira (= 120 decibéis). Se os fabricantes não atenderem o a sugestão, é porque estão fazendo ouvido de mercador. Ou, mais provável, estão com os iPods ligados com volume de moto-serra. E se você ainda é um sem-iPod (vale também para os sem-tocador-de-mp3 ou sem-celulares-musicais), aproxime-se de alguns dos usuários mais dispostos e você poderá partilhar do som que ouvem.

Pelo ouvir da carruagem, o Ministério da Saúde terá que advertir os usuários a que escutem suas músicas respeitando os saudáveis limites da moderação. Daí espalham-se policiais portando uma gravação do som do vento tangendo a flor. Se o indivíduo não conseguir escutar pelo menos os tais 10 decibéis, restará apreender o aparelho causador de surdez progressiva e recolher o elemento escutante à delegacia deixando-o o mais próximo possível das sirenes que é pra ele ouvir o que é bom pra tosse. Ou para os tímpanos.

Outra opção menos drástica: inserir uma bula na caixa dos aparelhos. Ali poderão constar a posologia, a profilaxia e as contra-indicações: recomendações como ouvir a música na metade do volume, utilizar modelos de fone que cubram a orelha para não enfiar o som direto no pobre do canal auditivo, fazer pausas para o ouvido respirar, diminuir o volume se as pessoas ao redor ouvem a música que sai dos fones.

E assim caminha humanidade. Aliás, caminha ouvindo alguma coisa, até porque para vencer o trajeto casa-trabalho-casa dentro de trens ou ônibus lotados há que se reconhecer o poder que um iPod têm de relativizar o tempo. Sem perceber, aprende-se também uma das virtudes da música sabiamente praticada desde que harpistas espantavam a lentidão das distâncias pré-modernas: música encurta viagem.

O título anterior desse texto ('O ouvido absoluto e surdo') foi modificado. Leia também aqui no blog:
Everybody loves Zeca Pagodinho
Everybody loves Ricardo Teixeira

07 outubro, 2008

Música na escola: quem será o professor?

Palavras do presidente da ABEM (Associação Brasileira de Educação Musical), Prof. Dr. Sergio Luiz de Figueiredo, sobre a aprovação da Lei n. 11.769, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de música na escola:

"Com relação à nova lei, existe um desapontamento por parte de muitas pessoas em função do veto ao parágrafo que incluía a necessidade de professores com formação específica para a área de música. O segundo parágrafo do veto parece lógico, na medida em que nenhuma área tem esta indicação na LDB, o que seria um precedente dentro do que diz a lei para todas as áreas do currículo. O problema foi o primeiro parágrafo do veto que estabelece uma grande confusão, já que menciona o artigo 62 da LDB, que trata da formação em nível superior em curso de licenciatura para atuação na educação básica, e ao mesmo tempo considera a possibilidade de pessoas sem titulação poderem atuar na escola com a área de música.

"(...) O que vale é a lei e não o veto. Isto quer dizer que nós hoje temos a música como componente curricular obrigatório na educação brasileira. Isto é uma vitória.

"Com relação à titulação, eu não tenho dúvida sobre a necessidade de curso de licenciatura para atuar na educação básica, conforme diz a LDB (Art.62). Mas todos nós sabemos que as leis no Brasil não são plenamente cumpridas e muitos sistemas educacionais não seguem esta normatização. Foi uma pena que esta parte da justificativa ao veto foi confusa permitindo diversas interpretações.

"Creio que o nosso trabalho será o de dialogar com as Secretarias de Educação de estados e municípios, assim como com os Conselhos de Educação, para a definição desta matéria nos diferentes contextos. Por exemplo, em Florianópolis existe legislação específica sobre a contratação de professores com curso superior para todas as áreas, incluindo os professores das séries iniciais que a lei faculta não terem a formação superior. Com isto quero dizer que é possível ter aulas de música com professores devidamente habilitados dependendo destes documentos dos estados e municípios que também têm a liberdade de organização de seus projetos político-pedagógicos.

"Nosso trabalho vai continuar nesta mobilização para que gradativamente se tenha professores habilitados nas escolas. Isto não quer dizer que a escola não possa ter atividades extra-curriculares contratando pessoas que não possuem graduação em música. Temos visto muitos trabalhos em parceria escola-comunidade que apresentam resultados muito positivos para a sociedade. Portanto, este trabalho de conscientização da necessidade do professor especialista no currículo da escola deve continuar.

"Devemos lembrar que temos muitos exemplos positivos no Brasil sobre educação musical na escola. Gostaria de divulgar muito mais estes exemplos para que a nossa luta também tivesse outra perspectiva, além desta que não favorece nem estimula as pessoas a contribuírem com este projeto de educação musical na escola. Todos nós poderíamos iniciar uma série de notícias para nosso informativo, relatando experiências na área de educação musical escolar, mostrando que é possível, sim, realizar este trabalho com qualidade, com professores habilitados.

"Decidi escrever esta mensagem para manifestar meus sentimentos atuais com relação a todo este processo e dizer que me sinto privilegiado por poder participar de um momento tão significativo para a educação musical no Brasil. Espero que minhas palavras não soem demagógicas ou artificiais. Não estou iludido com a nova lei, estou satisfeito porque realmente a considero uma conquista".

A íntegra do texto está no site da ABEM


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Comentário: A lei que estabelece a obrigatoriedade curricular do ensino musical nas escolas, como qualquer outra lei, não tem poder para instaurar mudanças. Há um grupo de defensores do ensino de música que acredita que a educação musical é a panacéia que resolverá as dores de cabeça da escola: falta de atenção, desinteresse, baixa auto-estima, comportamento problemático, notas vermelhas, evasão escolar, ... Esse caráter messiânico dos educadores musicais é cheio de boas intenções, mas pode ser frustrante deparar-se com a crueza de escolas às ruínas, sem coordenação pedagógica, professores omissos e alunos mal-alfabetizados. Para piorar, muitos educadores musicais vêm de cursos de licenciatura que abarrotam o currículo de discussão teórica (noves fora o estágio mal-supervisionado) e não ensinam "o que" e "como" ensinar.
Se a música na escola tiver um papel de animadora de eventos ou for um caso de leitura de notas, então ela terá pouca importância. Mas se os professores trabalharem para que os alunos conheçam e compreendam as tantas formas de fazer musical, aprendam a relacionar-se criticamente com a música das mídias e transcendam o ambiente cultural do seu cotidiano extra-escolar, então a escola, de fato, estará começando a vivenciar as alegrias da música.

03 outubro, 2008

Por falar em música e religião

Amigos e links me contam sobre o português Daniel Spencer que está no Brasil conduzindo palestras relacionadas à música, cinema e TV e sua influência nas atitudes humanas. Eu o ouvi em uma gravação de áudio (mp3): Spencer sabe destacar os pontos essenciais e é bem-humorado. Mas talvez já exista uma certa fadiga do público mais escolarizado quanto a palestras dessa ordem, considerando que, em geral, muitos palestrantes abusam de chavões, tom de voz exaltado e interpretação canhestra dos exemplos de áudio e vídeo.

Mas há alguns pontos abordados em palestras sobre música e religião que quero comentar nesse espaço. Estendendo tais pontos para além do simplismo habitual e da falta de acuidade histórica e musicológica, e ainda sem criticar especificamente fulano, sicrano ou mascherano, quero abrir o debate.

1) A música religiosa e secular dos negros nos EUA do século XIX: há palestrantes que ignoram o contexto histórico do surgimento do pentecostalismo e do desenvolvimento da música afro-americana.
Houve uma conversão em massa de negros ao protestantismo nos EUA do século XIX e início do XX enquanto uma outra leva de descendentes de escravos optou por atividades musicais seculares. Tal conversão era seguida de intensa segregação racial por parte da maioria protestante (eram os tempos imorais de separação oficial entre igrejas para brancos e igrejas para negros), o que deixou aqueles recém-conversos à margem do conhecimento litúrgico e doutrinário mais profundo. Assim, cada nova igreja abraçava o pentecostalismo e sua ênfase no êxtase emocional e espiritual, o que era muito mais próximo da cultura de transe das religiões de matriz africana. Nesse processo, o gospel e o spiritual podem ter sido separados do jazz e do blues no nascimento, mas se reencontrariam nos anos 1920 dentro das igrejas.

2) Músicos que fizeram pacto satânico: Daniel Spencer fala do mito do pacto demoníaco feito pelo músico Robert Johnson (um dos pais do blues). Há quem diga que essa história é uma criação de invejosos guitarristas da época e que se originou em um contexto místico-religioso específico (hoje, se alguém é um virtuose em seu instrumento ninguém dirá que o indivíduo fez um pacto com o diabo; seria negar a dedicação, o estudo diligente, a criatividade desenvolvida e a disposição motora natural). Seja como for, o bluesman Johnson também não negava a história (dizia-se que o violinista Nicolau Paganini tinha pacto com o demônio - por verdade ou por folclore, ele também não ‘abjurava’ o tal pacto).

3) Diferença entre o público pop e o público do período clássico-romântico: costuma-se diferenciar a recepção do público histérico dos Beatles do público tranqüilo que aplaudia Beethoven. Mas esquece-se que, também no século XIX, as divas da ópera eram ovacionadas com assobios e gritos, que o pianista e compositor Franz Liszt recebia cartas e propostas amorosas e lhe atiravam flores (y otras cositas más) em sua passagem, que Paganini até alimentava essa histeria, e que os Beatles, não suportando o assédio fanático do público e a gritaria dos shows, deixaram de fazer concertos públicos a partir de 1965.

4) Mensagens subliminares: há palestrantes que adoram assombrar o público com mensagens demoníacas escondidas na rotação reversa de um disco. A maioria dos exemplos de aúdio são seguidos de malabarismos de interpretação (se alguém não disser de antemão o que está sendo cantado não se adivinha uma palavra). Ora, a propaganda de valores anti-cristãos sempre esteve bem explícita nas letras, na indumentária e no comportamento de muito ídolos pop. Acertadamente, Daniel Spencer diz que este é um recurso dos anos 70 para promover os álbuns, mas que também dizia muito sobre a aproximação pessoal dos cantores com o misticismo. Em outro momento, Spencer afirma que o emprego das ‘mensagens subliminares’ na música é algo que já não merece nossa atenção (Ao final, indico artigo sobre mensagens diretas e nada subliminares na música).

5) O poder da música sobre o cérebro: há problemas quando se trata o ritmo como um elemento musical de estimulação física, a harmonia como um componente de estímulo mental e a melodia como um componente de estimulação espiritual (não era emocional?). Essa compartimentação dos elementos musicais esteve nas pesquisas de Helmholtz (1821-1894), que dava muita ênfase ao fenômeno físico-sonoro na elaboração do significado musical, resultando num obsoleto positivismo biológico. Já Hugo Riemann (1849-1919) afirmava que o sentido musical era dado por fatores históricos e sociais do sujeito, que suas respostas obedeciam estímulos externos de uma dada cultura, não reduzindo, assim, a relação homem-som a uma perspectiva naturalista. Ou seja, o ser humano não seria um sujeito passivo que reage como um autômato ao fenômeno sonoro.

Por outro lado, não se pode negligenciar a atuação do som musical sobre os sentidos, sendo esta uma perspectiva pertinente e que merece ser mais bem explorada – um bom livro sobre o assunto é Alucinações Musicais, do neurologista Oliver Sacks, o qual diz que ainda não é possível determinar até que ponto as reações de um indivíduo em relação à música dependem mais da própria fisiologia ou mais da cultura.

Leia aqui no blog o texto "As mensagens nada subliminares do rock".