31 dezembro, 2008

Pra não dizer que não falei do novo ano

Ano novo. Vida nova? Muita gente vai pular sete ondas, vestir roupa nova e branca, rezar três Ave Marias, acender um incenso, fazer uma corrente, abrir champanhe, dar um beijo durante os fogos da TV. Com exceção do beijo (não necessariamente durante os fogos de Copacabana – prefiro os daqui da vizinhança mesmo), não consigo acreditar no resto. Se o ano novo é encarado como um ritual de passagem, que seja um ponto de partida para o auto-aperfeiçoamento e não como aquelas resoluções de segunda-feira. Toda segunda-feira tem alguém começando o regime, a malhação, a boa vontade entre os homens. Na quinta, já estão quase todos obesos, flácidos e iracundos como dantes.

Resoluções que dão certo começam no minuto posterior a tomada de decisão. Carpe diem, aproveitem o dia, como dizia o professor Robin Williams em sociedade dos poetas mortos. Mas, como vivemos no país que sempre deixa para amanhã o que devia ter feito ontem...

No ano que se vai, completei bravamente (ok, nem tanto) um ano sem carteira assinada e a experiência me deixou ainda mais perto dos meus filhos. Entre um varrer de casa e um estender de roupas, sobrou tempo para a correção e o ensino. E, claro, para umas jogadinhas no Playstation que nenhum homem-do-lar é de ferro. Calma, profetas. Este jogo tinha dia e hora pré-determinadas e rolava também o futebol real com a petizada, embora as frias tardes de Curitiba nos implorassem pelo futebol virtual.

Falando em virtual, a internet me deu a chance de conhecer (no que é possível conhecer via web) pessoas como André Gonçalves, Douglas Reis, Jayme Alves, Michelson Borges e Matheus Siqueira. Gente de fina estirpe de pensamento que me deu o privilégio do diálogo. Paro por aqui ou essa postagem não termina (também agradeço as palavras gentis de Regina Mota, Cândido Gomes, Sérgio Maia, Lívia, Marla, Danilo, Leonardo Martinelli, Daniel Spencer e Levi Tavares).

Amigos face a face também os houve, certamente, que sou mestrando mas não moro num mosteiro com internet wireless. A música me possibilitou a alegria de reencontrar César Marques (fui seu colega de quarto num curso de música no longínquo verão de 98 no UNASP), acompanhar ao piano o craque Allan Breno, ouvir o grupo Amor em Voz cantando minhas canções (singelas, ops, mas de coração) e ter a amizade de Daniel Salles – no início, eu sem coral, ele sem pianista, o inesperado nos fez uma surpresa e virei pianista do Curitiba Coral (hum, pianista é muito. Pianeiro, amigo acompanhador ou coisa que o valha).

Não creio em reformas de sistemas e estruturas sociais sem uma revolução moral e espiritual no coração dos homens e mulheres. Então, façamos do ano que vem um ano melhor do que este que se vai sem nos esquecermos do Deus que nos quer dar não um ano novo, mas um novo coração.

A todos os que, recomendados ou inadvertidamente, conheceram este blog e seu escriba,

um feliz VOCÊ em 2009!

P.S.:Volto a escrever no blog a partir do dia 05 do novo ano. É uma segunda-feira? Tudo bem, esta não é uma resolução de ano novo.

29 dezembro, 2008

Meninos, eu vi [livros]







O ano da graça de 2008 já se vai sem deixar muitas saudades na área cultural. O que, de grandioso, de excelente, se realizou? Como sou daqueles que elegem as novidades de ontem em vez das velharias de hoje, o que li, assisti e ouvi nem sempre foi o último grito da moda cultural, porque preferi atracar no porto seguro de livros, filmes e músicas até com mais idade que eu (principalmente em se tratando dos dois últimos itens).

Com a permissão de Gonçalves Dias, de quem empresto o famoso “Meninos, eu vi” do épico I-Juca Pirama, segue uma lista avarenta de atividades culturais, começando pelos livros. Poucos, mas bons.

Meninos, eu li

Música, história cultural, mídia e sociologia da religião foram as áreas mais acessadas. Até porque a gravidade de uma dissertação não me permite outros cuidados. Ou se a termina ou ela nos extermina. Por isso, destaco obras como A religião na sociedade pós-moderna, de Stefano Martelli, e o já clássico A sociedade do espetáculo, de Guy Debord e sua leitura pessimista e apocalíptica da relação mídia-espectador. Ambas, para ler com distanciamento crítico mais que apurado.

Enfatizo também Reading Pop, edição organizada por Richard Middleton que é ótima introdução ao campo da análise textual da música popular, e Hibridismos Musicais, de Herom Vargas, que parte da cena musical recifense de meados dos anos 90 para explicar as misturas culturais que estão no caldo da invenção musical popular.

No estudo da música gospel nacional, ponto central da minha pesquisa, Magali Cunha, professora da Universidade Metodista (SP), publicou sua tese com o título Explosão Gospel, uma investigação vigorosa dos traços de uma cultura gospel identificada com o consumismo e o mercado. Já no livro Apostles of Rock (sem tradução no Brasil), os autores Jay Howard e John Streck dissecam as estruturas do gospel norte-americano ao examinar seu desenvolvimento e sua interação com a cultura pop bem como o diversificado entendimento dos músicos cristãos sobre a música (incluindo aquela visão excessivamente utilitária da música).

Fora do âmbito da dissertação, no campo da religião destaco Ortodoxia, de G. K. Chesterton, pensador católico que, no início do século XX, era um inteligentíssimo apologista do cristianismo, e Mensageira do Senhor, de Herbert Douglass, um exame acurado, amplo e essencial para se compreender a vida digna e a natureza da obra da escritora adventista Ellen White.

Sobrou tempo para ler (de tempo não pude reclamar) O Som e o Sentido, de José Miguel Wisnik, um escritor que cumpre o que promete no subtítulo, a saber, apresentar “uma outra história das músicas”; e, ainda Vida Líquida, do meu sociólogo de cabeceira, como disse o amigo virtual Douglas Reis.

A dissertação ocupou quase o total da literatura a que tive acesso. Assim, nunca li tão pouca ficção desde que devorei a coleção de Jules Verne do meu pai nos antediluvianos anos 80. Os dois únicos: Os Tambores de São Luís, de Josué Montello, com o período da escravidão na capital maranhense servindo de fundo para a emocionante história pessoal de um ex-escravo, e a releitura - interrompida - de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, escritora que sabia dosar como poucas uma aguda inteligência na condução dos romances e uma fina ironia na observação dos costumes sociais (comecei a reler esse livro por causa de um ótimo filme homônimo baseado nessa obra).

Para 2009, desejo a todos nós happy new books. Mas, acima de tudo, que possamos desenvolver felizes olhos novos e deixarmos este ensaio de uma cegueira em que vivemos a fim de enxergarmos com os olhos da razão onde a razão é necessária e com os olhos da fé quando a fé está esquecida.

Acima, serigrafia de Amir Brito Cadôr (à direita) sobre detalhe de pintura de Boticelli (à esquerda).

24 dezembro, 2008

o blog volta no dia 29

Desejando boas festas e celebrações a todos os amigos do nota na pauta, voltarei só no dia 29 com uma lista de melhores livros e músicas a que tive acesso em 2008.

E que Cristo, e não o 'espírito de natal', esteja conosco!

22 dezembro, 2008

Falecimento de Samuele Bacchiocchi

Um dos gigantes da erudição bíblica, o Dr. Samuele Bacchiocchi faleceu no sábado, dia 20, aos 70 anos de idade. Professor de teologia aposentado da Andrews University, no Estado do Michigan, passou seus últimos momentos em casa com a esposa e seus três filhos, na véspera do aniversário de 47 anos de casamento.

Bacchiocchi foi o primeiro não-católico a formar-se na Pontifical Gregorian University em Roma, tendo recebido uma medalha de ouro do Papa Paulo VI por conquistar a distinção acadêmica summa cum laude. Sua tese: “From Sabbath to Sunday: A historical investigation of the rise of Sunday observance in Early Christianity” (Do sábado ao domingo: uma investigação histórica do surgimento da observância do domingo no cristianismo primitivo).

Nesse trabalho, Bacchiocchi, um adventista do sétimo dia, mostrava que não havia nenhuma ordem escriturística para mudar ou eliminar a guarda do sábado e apontava o papel preponderante da Igreja Católica na efetivação dessa mudança.

O professor indicava ainda o anti-judaísmo e a adoração pagã ao sol como fatores de abandono do sábado e influência na adoção do domingo. Ele evidenciava o anti-judaísmo latente nos escritos de alguns líderes cristãos do segundo século que “testemunharam e participaram no processo de separação do judaísmo que levou a maioria dos cristãos a abandonar o sábado e adotar o domingo como novo dia de adoração”.

Bacchiocchi apontou também a influência do culto pagão ao sol como “explicação plausível para a escolha do domingo” e cujo efeito teria se estendido a marcação do Natal como data do nascimento de Jesus. “A adoção do dia 25 de dezembro como celebração do Natal é talvez o exemplo mais explícito da influência do culto ao sol sobre o calendário litúrgico cristão”, escreveu Bacchiocchi. “É conhecido o fato de que a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti – o dia do nascimento [aniversário] do Sol Invencível, acontecia naquela data”.


Entre outras publicações, Bacchiocchi também foi organizador do livro Christian and Rock Music. Autor de sete dos doze capítulos da obra, Bacchiocchi faz uma análise dos aspectos filosóficos, éticos, sociais e religiosos do rock e procura oferecer uma resposta cristã aos valores predominantes propagados pelo rock. O livro rema na contramão da corrente moderna que faz uso evangelístico da música pop e critica o utilitarismo do proselitismo religioso.

Alguns capítulos ou pontos da pesquisa podem ser vistos como conservadores ou até mesmo destoantes dos estudos culturais contemporâneos ao negar um posicionamento ativo do espectador/ouvinte de música pop e de música gospel. Porém, os argumentos de Bacchiocchi para uma teologia da música adventista (capítulo 6) são pertinentes e válidos como reflexão sobre os usos e recursos da música na igreja.

Os capítulos 10 (Música Popular e o Evangelho), escrito pelo Dr. Calvin Johansson, 12 (O rock e a Cultura), de Eurydice Osterman, e 13 (Música e Moralidade), escrito pelo erudito Wolfgang Stefani, oferecem boas pistas para o debate sobre a música pop no contexto cristão-evangelístico. Eles questionam a conformação musical cristã à estética musical pop, confrontando o meio e a mensagem da música das mídias.

Para além da discussão fundamentada em gosto pessoal, esses estudiosos buscam trazer luz para o debate, providenciando bases bíblicas e sociológicas para o esclarecimento de questões prementes.

Você pode ler uma tradução autorizada no site música e adoração.

19 dezembro, 2008

Falai de Deus

Como apresentar Deus para um mundo que é tão superficialmente religioso? Como falar de Deus para uma sociedade que celebra a inexistência de Deus? Quem ainda quer ouvir de religião, se tantos, em Seu nome, fazem da fé uma profissão, envergonhando o simples evangelho de Cristo, prometendo o paraíso para quem pagar mais e primeiro?

Como falar de Deus, se a cruz pende no colo da moça desnuda, se o bispo chuta a santa, se a santa é uma ilusão de pedra, se a primeira pedra é atirada pelo bispo? Como falar de Deus para o pobre que quer doar pra ficar rico e para o rico que se esqueceu de Quem lhe deu?

Por que tantos se escondem em músicas, vestes e enfeites e se disfarçam feito agentes secretos para que ninguém saiba da sua fé? Por que se escondem, por que não vivem o que cantam?

Quando falar de Deus, se tantos gritam Seu nome pelas ruas durante o dia e muitos só querem a embriaguez do entretenimento durante a noite? Por que ainda falar, se tantos O aceitam ao entrar na igreja e outros tantos O negam ao entrar em casa?

Entre as respostas possíveis estão os versos de Cecília Meireles:

Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder
de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não o entender.

Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor
à vida e à morte, e de, vê-Lo,
o escolha como modelo superior.

Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus,

que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus.

18 dezembro, 2008

A vez da música e a voz do coração

Meninos carentes e marginalizados, uma escola em ruínas, funcionários desmotivados, um diretor autoritário. Quem poderá salvar essa escola? Um professor obstinado e cheio de amor pra dar. Aliás, cheio de música pra cantar. O messias é quase sempre um professor de música, anônimo, rejeitado, uma abelhinha laboriosa capaz de transformar a escola e a vida dos meninos.

Esse é o argumento de filmes como Mr. Holland – Adorável Professor (1990), Música do Coração (1998) e de A Voz do Coração (Les choristes, França, 2004). Cada um desses filmes apresenta um cenário semelhante de desordem escolar e problemas individuais e juvenis.

No primeiro filme, Richard Dreyfuss é um professor de música perfeccionista que leciona numa escola pública que lhe disponibiliza uma sala específica e instrumentos para os alunos – no Brasil, isso seria uma realidade remotíssima.

Em Música do coração, uma professora de violino consegue montar uma pequena orquestra numa escola da periferia, a custo de muito suor e lágrimas (dos atores e dos espectadores). A grande atriz Meryl Streep evita a pieguice e injeta até certa rudeza na interpretação da violinista, o que a torna mais próxima de um ser humano. Porque convenhamos, é muito difícil ser como aquele professor de Sociedade dos Poetas Mortos o tempo todo.

Falando nisso, os professores brilhantes que fazem alunos vencedores são um híbrido da nobreza de Sidney Poitier em Ao Mestre com Carinho, do auto-sacrifício de Conrack e da simpatia do prof. Freddy Shoop em Curso de Verão.

Os franceses também têm seus problemas com educação escolar. E professores devem assistir à Quando Tudo Começa (1999) para confirmar que o assunto ‘educação’ foi relegado a segundo plano mesmo nos países do chamado Primeiro Mundo. Voltando para A Voz do Coração, que se passa na França em 1949, o professor Clement Mathieu irá, com todo o afeto que se encerra, mudar o caótico cenário que encontra na escola.

A música é usada pelo professor não apenas para aliviar a brutalidade a que os alunos são submetidos, mas também para fazer com que eles possam evitar o destino de delinqüência que os espera. Para alguns daqueles meninos, a música não é apenas uma saída. Mas a única saída para transcender aquele ambiente opressivo.

O filme é esquemático como todo filme edificante. Mas, peraí? Qual o problema com os filmes com mensagem edificante? Todo filme com mensagem é acusado pela crítica intelequitual de sentimentalismo e moralismo. Reconhecendo que muitos são assim mesmo, pergunto: Será que é necessário encher o filme de cortes e diálogos espertinhos, luzes e contraluzes, câmera trôpega e montagem não-linear, enfim, todo filme tem que ser feito com o barroquismo e o exagero insuportáveis da série Capitu, por exemplo?

A Voz do Coração quer apenas contar linearmente uma história e chamar a atenção para o valor da música como agente transformador. Esse filme não se dirige para os cínicos de plantão que ficam nas academias vivendo da “música pela música” enquanto a realidade cruel toma conta das comunidades em risco social. De fato, o filme tem lá suas pequenas fraquezas assim como há organizações fraudulentas que abusam da pobreza para faturar com seus projetos de inclusão social.

Mas há seriedade também, tanto no aspecto da civilidade desenvolvida com o auxílio da arte, como mostra o filme, quanto na luta cotidiana de profissionais da música envolvidos com crianças cuja saída (às vezes, a única) da situação em que se encontram está em fazer música, em tocar um instrumento na orquestra ou banda, em cantar num coral.

Como o maestro do recente (e brasileiro) Orquestra dos Meninos ou o professor de A Voz do Coração, há professores que não tem a pretensão de mudar o mundo ou ficar famoso com suas composições. Muitos deles querem apenas fazer valer o resultado de seu trabalho. E quando uma criança está envolvida numa orquestra ou num coral, ela pode estar começando a superar sua herança opressiva e recriar seu destino.

Atualização: o título do filme com Meryl Streep é Música do Coração, e não O Som do Coração, como eu havia postado anteriormente.

16 dezembro, 2008

Todo mundo odeia o Bush


George W. Bush sairá da vida na Casa Branca para entrar na história. Na história das anedotas e piadas. Algum outro presidente foi tão satirizado, criticado e odiado quanto o filho de George Bush I?

Qualquer Forrest Gump percebeu que o atual presidente passou os dois mandatos esforçando-se tenazmente para angariar o rancor e o ressentimento do mundo. Nenhum foi tão bem-sucedido em ativar o anti-americanismo latente em todas as nações que vivem na esquizofrenia de amar e odiar a América ao mesmo tempo.

Rememoremos algumas das peripécias de George W. Bush no comando da nave imperial:
1) Seus espias e arapongas não se prepararam devidamente para o súbito ataque terrorista de 11 de setembro.
2) Passou meses caçando em vão o inimigo público #1, Osama Bin Laden.
3) Fez da invasão ao Iraque um canteiro de obras para as empreiteiras ligadas ao lobby de políticos republicanos.
4) Chafurdou num atoleiro à la Vietnã ao subestimar a capacidade de retaliação iraquiana, cujos homens-bomba iletrados e desempregados são usados como literais buchas de canhão pelos islâmicos mais belicistas e fanáticos.
5) Foi acusado de negligência no socorro às vítimas do furacão Katrina.
6) Não ganhou mas levou a reeleição. Se isso tivesse ocorrido numa republiqueta sul-americana, a região teria sido infestada de inspetores da Transparency International.
7) Vai deixar o trono com o país financeiramente nocauteado. A culpa pelo caos econômico não é só de Bush. A política financeira americana vem há décadas abusando de períodos de vacas gordas, com pequenos sustos aqui e acolá. Como nenhum outro presidente fez o dever de casa antes, a crise estourou no colo de Bush. Nunca na história da república americana houve homem mais errado na hora mais errada no local mais errado.
8) Foi o marechal de Guantánamo, a terra sem lei.

Como se vê, se a ONU fosse o DETRAN, Bush teria sua carta de motorista da máquina americana tomada por imprudência, imperícia e negligência.

Depois de ser retratado (exageradamente, muitas vezes) como um político sem dotes, como um Jerry Lewis mais apalermado, como um Chuck Norris piorado, enfim, após tantos equívocos e subterfúgios, o homem chegou ao grau máximo de descrédito. Porque se não fossem seus movimentos friamente calculados, Bush teria levado uma sapatada de um jornalista iraquiano, que ainda o chamou pelo insulto sórdido de “cão”. Perto dos epítetos pelos quais a comunidade ocidental andou lhe chamando, o xingamento canino chega a ser reconfortante.

É triste ver um homem que não consegue fazer amigos. Se bem que, no Dia de Ação de Graças deste ano, Bush seguiu a tradição e perdoou um peru aliviando-o da panela certa. Pelo menos com um amigo ele poderá contar.

PS: eu demorei mais que vocês pra perceber que, na foto "Um presidente no jardim-da-infância" (na cumeeira desta postagem), Bush segura o livro em posição pouco ortodoxa.

15 dezembro, 2008

Cem Palavras: espetáculo e consumo

O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que "o que aparece é bom, o que é bom aparece". A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ela já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.

(Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, p. 13)


O ideal da estética da mercadoria é justamente fornecer o mínimo de valor de uso ainda existente, atado, embalado e encenado com um máximo de aparência atraente que deve se impor, o mais possível, por empatia, aos desejos e ansiedades das pessoas.

(Wolfgang Haug, em Crítica da estética da mercadoria, p. 80)

12 dezembro, 2008

Música sacra através dos tempos


Entreouvido num auditório de uma importante universidade do interior paulista onde um grupo vocal acaba de testar a comunhão da platéia.
“Esse novo grupo está trazendo a música popular para a igreja. Música sacra era mesmo no tempo dos discos dos Heritage Singers”.

Em um templo dos anos 80:
“Esses Heritage Singers são a cópia dos Carpenters. Música sacra mesmo era nos tempos de Henry Feyrabend e os Arautos do Rei”.

Em uma igreja dos anos 60:
“Esses que se dizem Arautos do Rei são uns arautos é da tradição dos quartetos de barbearia dos Estados Unidos. Música sacra mesmo existiu nos tempos de Ira Sankey”.

Em um acampamento de reavivamento durante a Grande Depressão em 1929:
“Agora temos que cantar essas valsas de Ira Sankey. Só ouvi música sacra quando cantávamos os hinos de Lowell Mason”.

Em encontro de ministros de música americanos em 1890:
“Esse Lowell Mason imita a tradição européia daqueles músicos maçons. Bom mesmo é quando adaptávamos as canções tipicamente americanas de Stephen Foster”.

Em uma congregação na Chicago de 1860:
“Como podemos adorar com esse piano de cabaré e estas canções adaptadas do teatro de Stephen Foster? Ah, como era bom quando erguíamos nossa voz ao som dos hinos dos irmãos Wesley”.

Em uma palestra sobre música em 1800:
“Irmãos, abandonemos esse cancioneiro popularesco dos Wesley e adoremos com os antigos e sacros hinos do doutor Isaac Watts”.

Nos cultos dos recém-independentes americanos em 1776:
“Essas notas do irmão Watts ferem os ouvidos mais convertidos. Música sacra eram apenas os salmos de João Calvino. Oh, que belos hinos se cantam lá na Europa”.

Em uma igreja luterana alemã de 1730:
“O novo organista, o tal Bach de quem falam, tem um estilo um tanto ultrapassado e escreve notas demais nas suas cantatas. Por que ninguém compõe mais como Lutero?”

Em um concílio eclesiástico no século XVI:
“Esse Lutero destruiu a beleza da santidade da liturgia. Agora o povo anda a cantar melodias de cavaleiros”.
“E, como se não fora o bastante, cantam em língua de homens! Por isto e muito mais, excomunguemo-lo”.

Do lado de fora do templo de Salomão recém-inaugurado:
“É, a música é decerto boa. Mas o pai dele escrevia letras mais sacras”.
“Davi? Qual o quê! Fomos obrigados a cantar salmos com a melodia de ‘Os lírios’ ou de ‘Os lagares’, lembra?”.
“É que as pessoas aprendem um cântico novo mais rápido quando já conhecem a melodia”.

“Aquietem-se, os dois! Vós sois jovens em demasia. Se a ciência já tivesse se multiplicado eu vos mostraria uma gravação do tempo dos cânticos de Moisés. Aquilo, sim, é que era a verdadeira música sacra”.


Acima, a tela "Anjos cantando e tocando música", 1432, de Jan van Eyck.

10 dezembro, 2008

Intolerância musical

Por ouvir rap alto demais, homem é condenado a escutar música clássica

Uma punição estranha para um homem condenado por ouvir rap alto demais em seu carro. Uma juíza do condado de Champaign, em Ohio, determinou que o acusado, multado em US$ 150, poderia se livrar de parte substancial da multa caso aceite passar 20 horas ouvindo música clássica.

Andrew Vactor foi condenado por perturbar a tranquilidade na cidade de Urbana ao andar, em julho, com as janelas de seu carro abertas e o som do carro tocando rap no último volume.

Caso tivesse aceito a proposta da juíza, ele precisaria pagar apenas US$ 35 de multa. Vactor, no entanto, não aguentou ficar 15 minutos ouvindo Bach, Beethoven e Chopin.

Segundo ele, a música não era o problema. “Não tinha tempo para ficar cumprindo a pena. Decidi apenas pagar a multa”, afirmou. Vactor, 24 anos, afirmou que no dia proposto pelo juiz para a sessão de música clássica, ele teria que treinar basquete com sua equipe na universidade.

A juíza Susan Fornof-Lippencott disse que a idéia era obrigar Vactor a ouvir uma música que não fosse de seu interesse. Assim, ele se sentiria como boa parte dos moradores de Urbana, “obrigados” por ele a ouvir rap. “Ninguém gosta de ouvir algo forçado”, afirmou a juíza.

Fonte: G1

*****

Como disse a juíza, o problema é ter que ouvir uma música que não seja do interesse pessoal. O que só ocorre devido ao volume ensurdecedor da música que sai dos carros. E pode ser qualquer música. Uma coisa é certa, porém: quanto maior o sucesso de uma canção, maior a probabilidade de ela ser tocada em altíssimo volume. Para quem é intolerante aos gêneros musicais da moda, a audição à força é realmente um suplício.

O que leva uma criatura a aterrorizar a cidadela com seus cem mil alto-falantes? O exibicionismo mais rasteiro? A necessidade de transgressão gratuita? Ou a potência do som está só compensando algo que não ousa dizer seu nome?

É possível fichar o indivíduo médio que transita livremente contribuindo para o aumento da poluição sonora. É homem, entre 16 e 30 anos, não dirige sem óculos escuros (e os prende à testa nas horas vagas), tem um braço fixo na janela do carro, costuma cantar pneus e garotas à esmo, mais amante dos carros que dos homens, não tem intolerância à gaviões e aviões do forró, não morre de amores por calypsos - mas como seu alvo feminino sabe todas as coreografias de cor..., não pensa em processar Latino por danos à música e, graças ao volume sonoro que vem de seu carro e o anuncia de longe, sua reputação sempre o precede.

Schopenhauer disse que a sensibilidade do homem para a música varia inversamente de acordo com a quantidade de ruído com a qual é capaz de conviver. Ele estava dizendo que quanto mais somos seletivos musicalmente, mais nos sentimos incomodados por sons que perturbam o silêncio ou a audição concentrada.

Leia uma fábula menor sobre o último pedido (musical) de um condenado.

E também: "Os hits e os invasores de ouvidos" - partes 1 e 2

08 dezembro, 2008

Cem Palavras: a felicidade e as coisas

"Quando perguntaram a Sócrates: ‘Entre os homens mortais qual pode ser considerado o mais próximo dos deuses em felicidade?’, ele respondeu: ‘Aquele homem que carece de menos coisas’. Em sua resposta, Sócrates deixou a critério dos seus interlocutores saber se a falta de carecimentos que conduziria à felicidade significava a amplidão de posses ou a contração do desejo. E, de fato, existe tão pouca diferença entre eles que Alexandre, o Grande, declarou que aquele que tem um barril por moradia é o mais próximo do senhor do mundo e que, não fosse ele Alexandre, desejaria ser Diógenes".

(Samuel Johnson, 1753)

"As coisas de que o corpo precisa são facilmente obtidas por todos sem labor ou dificuldade; as coisas que exigem labor e são difíceis de obter e oneram a vida são desejadas, não pelo corpo, mas por um estado ruim da mente".

(Demócrito, século V A.C.)
Fonte: O Livro das Citações

05 dezembro, 2008

Fé cega sem futebol afiado

Jogos decisivos de futebol cansam de mostrar imagens de jogadores com as mãos para o alto. Alguns estão agradecendo. Outros, se perguntando por que, santo Deus, não me abençoaste agora e na hora do meu gol. Nas arquibancadas, o mesmo torcedor que despejou xingamentos impublicáveis para nossos ouvidos de Jane Austen, é capaz de, no instante da vitória, se tornar um cordeirinho de lábios puros e gratos ao Pai.

Dizia-se que, se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano só terminava empatado. Com a conversão fenomenal de jogadores ao cristianismo e a continuação da petição por milagres e bençãos, entende-se, então, que o campeonato brasileiro de 2008 vá terminar com 16 campeões. Sim, porque quatro do total de 20 clubes cairão para o limbo da segunda divisão onde rangerão dentes e canelas por muito tempo. Se teu time é um destes, não temas, nem te espantes, porque o lago de fogo da Série B não é eterno. Taí o Corinthians, recém-alçado ao paraíso da primeira divisão.

Porém, esse cenário de inferno-limbo-paraíso é uma metáfora muito católica para a maioria dos novos conversos do mundo da bola, que talvez não leram Dante e são evangélicos (Evangélico é a forma genérica que se refere à pentecostais e protestantes, apesar das muitas diferenças doutrinárias e comportamentais entre eles). Perdoada essa licença conceitual, adiante. Católicos seguem em romaria às capelas para pedir que os santos entrem em campo com eles, evangélicos vão aos cultos pedir a unção sobre suas luvas e chuteiras. Há quem, por via das dúvidas, se divida entre dois senhores e ainda agende uma consulta em tenda de astrólogo.

Os críticos vão dizer que Deus tem mais o que fazer do que ficar ajeitando pé torto de artilheiro ou esticando braço de goleiro. Para os atletas de Cristo, entretanto, Deus é fiel e justo no momento de honrar os que Lhe honram.

Talvez não haja diferença entre o taxista que ora antes de encarar um dia inteiro à espera de passageiros, o vendedor de livros que roga que Deus abra portas e corações, o empresário que pede pela abertura de bons negócios e o jogador que suplica pela benção quando adentra o estádio.

A chuva cai sobre justos e injustos, mas, ou o goleiro defende ou o atacante marca seu tento. Somente um dos dois sairá vitorioso dali. Para uns, será uma tarde de divina comédia. Para outros, uma tragédia grega. Aconteça o que acontecer, a reação do torcedor comum é de proporções bíblicas. A diferença pode estar em porque pedir e como receber a resposta.

Uns tratam a fé como um amuleto. Técnicos carregam seus terços nos bolsos e os apertam na hora do sufoco. Boleiros vestem uma camisa com dizeres do tipo “100% Jesus”, mas treinaram pouco durante a semana. É como a estudante agoniada no vestibular que implora pelas respostas certas sem ter estudado o suficiente.

Esse domingo de decisões mostrará multidões ora aflitas ora felizes, esquecidas das contas e dívidas, dos maus patrões e dos maus funcionários. Haverá zagueiros e atacantes de fé tão cega quanto seus chutes e esbarrões. Porque esse é o atual retrato do futebol brasileiro: muita emoção, mas pouca técnica; de fé cega sem futebol afiado.

E se Deus estará em campo? Ora, sabeis dos afazeres e do poder de Deus. Torcedores, não invoquem Seu nome em vão para um campeonato que maltratou a bola. Atletas, se não sabem, fiquem hoje sabendo que Deus não joga dados e nem bate pênaltis.

03 dezembro, 2008

O salto de fé

Michael Jackson se converteu ao islamismo, segundo o tablóide inglês The Sun. Em cerimônia particular e trajando a indumentária islâmica tradicional, o popstar participou de um ritual realizado na casa de um amigo em Los Angeles. Diz o jornal, conhecido pela língua ferina, que o cantor está atravessando problemas legais, sendo processado em uma corte em Londres por Abdullah bin Hamad al-Khalifa, xeique do Bahrein. Jackson teria dado um calote de 7 milhões de dólares no xeique, a título de adiantamento em 2005 para gravar um novo CD. Al-Khalifa diz que o cantor nunca cumpriu sua parte no acordo, e quer o dinheiro de volta.

A família de Michael Jackson era da igreja das Testemunhas de Jeová, o que não impediu o sucesso dos Jackson Five (Michael e seus irmãos) na música pop americana dos anos 70. Mas o cantor que aos 24 anos se tornou o ídolo do álbum mais vendido da história (42 milhões de cópias e projeções de quase 100 milhões até hoje), nunca mais foi capaz de repetir o êxito.

De menino-prodígio à mega-star, do sucesso à ruína moral e financeira, sua vida se tornou um refrão ruim e infinito de fiascos musicais, processos e dívidas. Segundo o tablóide, por interesse comercial, segundo os amigos, por necessidades espirituais, Michael Jackson teria adotado a religião islâmica, passando a se chamar Mikaeel -nome de um dos anjos de Alá.

Há um longo histórico de conversão de famosos às religiões cristã e islâmica. Quase sempre quando estão no fundo do poço financeiro ou então quando desprezados pela mídia. Em todo caso, não custa lembrar que a máscara do artista só dura no palco (máscara que ele é obrigado a mostrar sempre para os fãs). Nos bastidores ou em casa é que se revela sua verdadeira face; face que pode esconder atribulações e infelicidade dentro da alma, a despeito de sucessos ou fracassos. É então que ele decide dar um salto. Um salto em direção ao que muitos acham o mais improvável. Nesse salto, ele acredita cair nos braços de um Deus de amor, que lhe acalma, que apaga suas transgressões como a névoa, que lhe dá um novo sentido na vida.

Não faço a menor idéia de qual seja a motivação real do salto de Michael Jackson, nem se ele saltou de fato. Mas às vezes, de tanto ouvir falar em alguém, parece que conhecemos mais os outros do que a nós mesmos. Mas, e o nosso salto de fé, porventura, continua valendo? Ou nossa fé tornou-se um salto alto de arrogância e aparência de piedade? Estamos tentando sair dos Braços para os quais saltamos com a fé ainda cega mas já afiada ou nos aninhamos diariamente nAqueles braços?

"Examine-se, cada um, a si mesmo".

02 dezembro, 2008

A recessão americana e o futuro duvidoso

Para quem achava que o pior já tinha passado, olha a recessão aí, gente! Contrariando as previsões otimistas, os Estados Unidos acabam de assumir que atravessam uma dura recessão. Virá a depressão?

Se o amigo, a amiga ainda não decoraram todas as novas palavrinhas do dicionário do caos financeiro, como subprime, crédito hipotecário, ativo lastreado e liquidez, posso pelo menos dizer qual a diferença entre recessão e depressão. Recessão é quando seu vizinho perde o emprego. Depressão é quando é você quem perde o emprego.

Em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo (30/11), o economista americano Michael Pettis, professor de Finanças da Universidade de Pequim, analisa a situação global [grifos meus]:

Qual é o papel da China na solução da crise mundial?

Os dois principais atores do desequilíbrio global são Estados Unidos e China. Os Estados Unidos porque durante dez anos consumiram muito além do que produziam e a China porque durante dez anos produziu muito além do que consumia. O excesso de produção da China era consumido pelo excesso de demanda americano. Havia certo equilíbrio, mas ele era insustentável. Ele implicava que os Estados Unidos teriam enormes déficits comerciais para sempre e a China teria enormes superávits comerciais para sempre. A questão era qual dos dois seria interrompido primeiro. A parada veio nos Estados Unidos e o excesso de consumo americano está se reduzindo.

Da maneira como o equilíbrio global funciona, se a demanda das famílias americanas cai, tem de haver um ajuste em algum outro lugar. O consumo caiu e agora a produção está muito alta.

O consumo privado nos Estados Unidos não vai aumentar. As famílias precisam poupar mais e consumir menos para quitar suas dívidas. Isso deixa a tarefa para o governo. Mas temos de ser muito cuidadosos porque, se apenas substituirmos as famílias pelo governo no excesso de consumo, não estaremos resolvendo o problema. Vamos apenas adiar o ajuste. Por isso, precisamos que o consumo aumente em outro lugar, e esse lugar é a China.

E o governo?

Se assumirmos que o consumo das famílias americanas vai cair 5% do PIB dos Estados Unidos, isso significa que o consumo na China deve se expandir em 17% do PIB chinês para compensar a queda. É muito, especialmente quando consideramos que o consumo na China gira em torno de 40% do PIB. Nós precisaríamos que o consumo aumentasse entre 30% e 40% para compensar a retração nos Estados Unidos. Isso não vai acontecer.

O sr. espera uma recessão global ainda mais severa?

Sim, vai haver uma desaceleração no mundo e nós temos de lembrar que, em 1930, o pior aconteceu nos países que tinham superávits em conta corrente. Eu acredito que a mesma coisa se repetirá agora.

O pacote de US$ 586 bilhões anunciado pela China há três semanas é suficiente para evitar uma forte desaceleração da economia?

Não. O pacote envolve grande quantidade de dinheiro, mas não sabemos os detalhes. De qualquer maneira, há um problema de timing. A demanda americana está se contraindo muito rapidamente. Portanto, a fonte alternativa de demanda deveria se expandir no mesmo ritmo. Isso é muito difícil. Acredito que o próximo ano vai ser bem mais difícil para a China do que muitos esperam.

Nesse link, a entrevista completa.

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A suma de tudo que lestes é: o professor diz que nosso futuro é duvidoso. Ele vê grana [pouca] e dor [muita]. Ou seja, não é só em Wall Street que haverá choro e ranger de dentes.

01 dezembro, 2008

Cem Palavras: História

"Nenhuma história universal faz com se passe da selvageria ao humanitarismo, mas existe uma história que está mudando do estilingue para a bomba de megaton... O Todo que continua se desenrolando até hoje - com eventuais pausas para respirar - seria teleologicamente o absoluto do sofrimento."

Theodor Adorno - citado por Terry Eagleton, em As ilusões do pós-modernismo, p. 56


"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado.
Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.
Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso."


Walter Benjamin, Obras Escolhidas, p.226.