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Mostrando postagens de Dezembro, 2008

Pra não dizer que não falei do novo ano

Ano novo. Vida nova? Muita gente vai pular sete ondas, vestir roupa nova e branca, rezar três Ave Marias, acender um incenso, fazer uma corrente, abrir champanhe, dar um beijo durante os fogos da TV. Com exceção do beijo (não necessariamente durante os fogos de Copacabana – prefiro os daqui da vizinhança mesmo), não consigo acreditar no resto. Se o ano novo é encarado como um ritual de passagem, que seja um ponto de partida para o auto-aperfeiçoamento e não como aquelas resoluções de segunda-feira. Toda segunda-feira tem alguém começando o regime, a malhação, a boa vontade entre os homens. Na quinta, já estão quase todos obesos, flácidos e iracundos como dantes.

Resoluções que dão certo começam no minuto posterior a tomada de decisão. Carpe diem, aproveitem o dia, como dizia o professor Robin Williams em sociedade dos poetas mortos. Mas, como vivemos no país que sempre deixa para amanhã o que devia ter feito ontem...

No ano que se vai, completei bravamente (ok, nem tanto) um ano sem ca…

Meninos, eu vi [livros]

O ano da graça de 2008 já se vai sem deixar muitas saudades na área cultural. O que, de grandioso, de excelente, se realizou? Como sou daqueles que elegem as novidades de ontem em vez das velharias de hoje, o que li, assisti e ouvi nem sempre foi o último grito da moda cultural, porque preferi atracar no porto seguro de livros, filmes e músicas até com mais idade que eu (principalmente em se tratando dos dois últimos itens).
Com a permissão de Gonçalves Dias, de quem empresto o famoso “Meninos, eu vi” do épico I-Juca Pirama, segue uma lista avarenta de atividades culturais, começando pelos livros. Poucos, mas bons.

Meninos, eu li

Música, história cultural, mídia e sociologia da religião foram as áreas mais acessadas. Até porque a gravidade de uma dissertação não me permite outros cuidados. Ou se a termina ou ela nos extermina. Por isso, destaco obras como A religião na sociedade pós-moderna, de Stefano Martelli, e o já clássico A sociedade do espetáculo, de Guy Debord e sua leitura pessi…

o blog volta no dia 29

Desejando boas festas e celebrações a todos os amigos do nota na pauta, voltarei só no dia 29 com uma lista de melhores livros e músicas a que tive acesso em 2008.

E que Cristo, e não o 'espírito de natal', esteja conosco!

Falecimento de Samuele Bacchiocchi

Um dos gigantes da erudição bíblica, o Dr. Samuele Bacchiocchi faleceu no sábado, dia 20, aos 70 anos de idade. Professor de teologia aposentado da Andrews University, no Estado do Michigan, passou seus últimos momentos em casa com a esposa e seus três filhos, na véspera do aniversário de 47 anos de casamento.

Bacchiocchi foi o primeiro não-católico a formar-se na Pontifical Gregorian University em Roma, tendo recebido uma medalha de ouro do Papa Paulo VI por conquistar a distinção acadêmica summa cum laude. Sua tese: “From Sabbath to Sunday: A historical investigation of the rise of Sunday observance in Early Christianity” (Do sábado ao domingo: uma investigação histórica do surgimento da observância do domingo no cristianismo primitivo).
Nesse trabalho, Bacchiocchi, um adventista do sétimo dia, mostrava que não havia nenhuma ordem escriturística para mudar ou eliminar a guarda do sábado e apontava o papel preponderante da Igreja Católica na efetivação dessa mudança.
O professor indica…

Falai de Deus

Como apresentar Deus para um mundo que é tão superficialmente religioso? Como falar de Deus para uma sociedade que celebra a inexistência de Deus? Quem ainda quer ouvir de religião, se tantos, em Seu nome, fazem da fé uma profissão, envergonhando o simples evangelho de Cristo, prometendo o paraíso para quem pagar mais e primeiro?

Como falar de Deus, se a cruz pende no colo da moça desnuda, se o bispo chuta a santa, se a santa é uma ilusão de pedra, se a primeira pedra é atirada pelo bispo? Como falar de Deus para o pobre que quer doar pra ficar rico e para o rico que se esqueceu de Quem lhe deu?
Por que tantos se escondem em músicas, vestes e enfeites e se disfarçam feito agentes secretos para que ninguém saiba da sua fé? Por que se escondem, por que não vivem o que cantam?
Quando falar de Deus, se tantos gritam Seu nome pelas ruas durante o dia e muitos só querem a embriaguez do entretenimento durante a noite? Por que ainda falar, se tantos O aceitam ao entrar na igreja e outros tant…

A vez da música e a voz do coração

Meninos carentes e marginalizados, uma escola em ruínas, funcionários desmotivados, um diretor autoritário. Quem poderá salvar essa escola? Um professor obstinado e cheio de amor pra dar. Aliás, cheio de música pra cantar. O messias é quase sempre um professor de música, anônimo, rejeitado, uma abelhinha laboriosa capaz de transformar a escola e a vida dos meninos.

Esse é o argumento de filmes como Mr. Holland – Adorável Professor (1990), Música do Coração (1998) e de A Voz do Coração (Les choristes, França, 2004). Cada um desses filmes apresenta um cenário semelhante de desordem escolar e problemas individuais e juvenis.

No primeiro filme, Richard Dreyfuss é um professor de música perfeccionista que leciona numa escola pública que lhe disponibiliza uma sala específica e instrumentos para os alunos – no Brasil, isso seria uma realidade remotíssima.

Em Música do coração, uma professora de violino consegue montar uma pequena orquestra numa escola da periferia, a custo de muito suor e l…

Todo mundo odeia o Bush

George W. Bush sairá da vida na Casa Branca para entrar na história. Na história das anedotas e piadas. Algum outro presidente foi tão satirizado, criticado e odiado quanto o filho de George Bush I?

Qualquer Forrest Gump percebeu que o atual presidente passou os dois mandatos esforçando-se tenazmente para angariar o rancor e o ressentimento do mundo. Nenhum foi tão bem-sucedido em ativar o anti-americanismo latente em todas as nações que vivem na esquizofrenia de amar e odiar a América ao mesmo tempo.

Rememoremos algumas das peripécias de George W. Bush no comando da nave imperial:
1) Seus espias e arapongas não se prepararam devidamente para o súbito ataque terrorista de 11 de setembro.
2) Passou meses caçando em vão o inimigo público #1, Osama Bin Laden.
3) Fez da invasão ao Iraque um canteiro de obras para as empreiteiras ligadas ao lobby de políticos republicanos.
4) Chafurdou num atoleiro à la Vietnã ao subestimar a capacidade de retaliação iraquiana, cujos homens-bomba iletrados e des…

Cem Palavras: espetáculo e consumo

O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que "o que aparece é bom, o que é bom aparece". A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ela já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.
(Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, p. 13)

O ideal da estética da mercadoria é justamente fornecer o mínimo de valor de uso ainda existente, atado, embalado e encenado com um máximo de aparência atraente que deve se impor, o mais possível, por empatia, aos desejos e ansiedades das pessoas.
(Wolfgang Haug, em Crítica da estética da mercadoria, p. 80)

Música sacra através dos tempos

Entreouvido num auditório de uma importante universidade do interior paulista onde um grupo vocal acaba de testar a comunhão da platéia.
“Esse novo grupo está trazendo a música popular para a igreja. Música sacra era mesmo no tempo dos discos dos Heritage Singers”.

Em um templo dos anos 80:
“Esses Heritage Singers são a cópia dos Carpenters. Música sacra mesmo era nos tempos de Henry Feyrabend e os Arautos do Rei”.

Em uma igreja dos anos 60:
“Esses que se dizem Arautos do Rei são uns arautos é da tradição dos quartetos de barbearia dos Estados Unidos. Música sacra mesmo existiu nos tempos de Ira Sankey”.

Em um acampamento de reavivamento durante a Grande Depressão em 1929:
“Agora temos que cantar essas valsas de Ira Sankey. Só ouvi música sacra quando cantávamos os hinos de Lowell Mason”.

Em encontro de ministros de música americanos em 1890:
“Esse Lowell Mason imita a tradição européia daqueles músicos maçons. Bom mesmo é quando adaptávamos as canções tipicamente americanas de Stephen Foster”…

Intolerância musical

Por ouvir rap alto demais, homem é condenado a escutar música clássica

Uma punição estranha para um homem condenado por ouvir rap alto demais em seu carro. Uma juíza do condado de Champaign, em Ohio, determinou que o acusado, multado em US$ 150, poderia se livrar de parte substancial da multa caso aceite passar 20 horas ouvindo música clássica.

Andrew Vactor foi condenado por perturbar a tranquilidade na cidade de Urbana ao andar, em julho, com as janelas de seu carro abertas e o som do carro tocando rap no último volume.

Caso tivesse aceito a proposta da juíza, ele precisaria pagar apenas US$ 35 de multa. Vactor, no entanto, não aguentou ficar 15 minutos ouvindo Bach, Beethoven e Chopin.

Segundo ele, a música não era o problema. “Não tinha tempo para ficar cumprindo a pena. Decidi apenas pagar a multa”, afirmou. Vactor, 24 anos, afirmou que no dia proposto pelo juiz para a sessão de música clássica, ele teria que treinar basquete com sua equipe na universidade.

A juíza Susan Fornof-Lippen…

Cem Palavras: a felicidade e as coisas

"Quando perguntaram a Sócrates: ‘Entre os homens mortais qual pode ser considerado o mais próximo dos deuses em felicidade?’, ele respondeu: ‘Aquele homem que carece de menos coisas’. Em sua resposta, Sócrates deixou a critério dos seus interlocutores saber se a falta de carecimentos que conduziria à felicidade significava a amplidão de posses ou a contração do desejo. E, de fato, existe tão pouca diferença entre eles que Alexandre, o Grande, declarou que aquele que tem um barril por moradia é o mais próximo do senhor do mundo e que, não fosse ele Alexandre, desejaria ser Diógenes".

(Samuel Johnson, 1753)

"As coisas de que o corpo precisa são facilmente obtidas por todos sem labor ou dificuldade; as coisas que exigem labor e são difíceis de obter e oneram a vida são desejadas, não pelo corpo, mas por um estado ruim da mente".
(Demócrito, século V A.C.)
Fonte: O Livro das Citações

Fé cega sem futebol afiado

Jogos decisivos de futebol cansam de mostrar imagens de jogadores com as mãos para o alto. Alguns estão agradecendo. Outros, se perguntando por que, santo Deus, não me abençoaste agora e na hora do meu gol. Nas arquibancadas, o mesmo torcedor que despejou xingamentos impublicáveis para nossos ouvidos de Jane Austen, é capaz de, no instante da vitória, se tornar um cordeirinho de lábios puros e gratos ao Pai.

Dizia-se que, se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano só terminava empatado. Com a conversão fenomenal de jogadores ao cristianismo e a continuação da petição por milagres e bençãos, entende-se, então, que o campeonato brasileiro de 2008 vá terminar com 16 campeões. Sim, porque quatro do total de 20 clubes cairão para o limbo da segunda divisão onde rangerão dentes e canelas por muito tempo. Se teu time é um destes, não temas, nem te espantes, porque o lago de fogo da Série B não é eterno. Taí o Corinthians, recém-alçado ao paraíso da primeira divisão.

Porém, esse cenário de …

O salto de fé

Michael Jackson se converteu ao islamismo, segundo o tablóide inglês The Sun. Em cerimônia particular e trajando a indumentária islâmica tradicional, o popstar participou de um ritual realizado na casa de um amigo em Los Angeles. Diz o jornal, conhecido pela língua ferina, que o cantor está atravessando problemas legais, sendo processado em uma corte em Londres por Abdullah bin Hamad al-Khalifa, xeique do Bahrein. Jackson teria dado um calote de 7 milhões de dólares no xeique, a título de adiantamento em 2005 para gravar um novo CD. Al-Khalifa diz que o cantor nunca cumpriu sua parte no acordo, e quer o dinheiro de volta.

A família de Michael Jackson era da igreja das Testemunhas de Jeová, o que não impediu o sucesso dos Jackson Five (Michael e seus irmãos) na música pop americana dos anos 70. Mas o cantor que aos 24 anos se tornou o ídolo do álbum mais vendido da história (42 milhões de cópias e projeções de quase 100 milhões até hoje), nunca mais foi capaz de repetir o êxito.
De meni…

A recessão americana e o futuro duvidoso

Para quem achava que o pior já tinha passado, olha a recessão aí, gente! Contrariando as previsões otimistas, os Estados Unidos acabam de assumir que atravessam uma dura recessão. Virá a depressão?

Se o amigo, a amiga ainda não decoraram todas as novas palavrinhas do dicionário do caos financeiro, como subprime, crédito hipotecário, ativo lastreado e liquidez, posso pelo menos dizer qual a diferença entre recessão e depressão. Recessão é quando seu vizinho perde o emprego. Depressão é quando é você quem perde o emprego.

Em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo (30/11), o economista americano Michael Pettis, professor de Finanças da Universidade de Pequim, analisa a situação global [grifos meus]:

Qual é o papel da China na solução da crise mundial?

Os dois principais atores do desequilíbrio global são Estados Unidos e China. Os Estados Unidos porque durante dez anos consumiram muito além do que produziam e a China porque durante dez anos produziu muito além do que consumia. O excesso de …

Cem Palavras: História

"Nenhuma história universal faz com se passe da selvageria ao humanitarismo, mas existe uma história que está mudando do estilingue para a bomba de megaton... O Todo que continua se desenrolando até hoje - com eventuais pausas para respirar - seria teleologicamente o absoluto do sofrimento."

Theodor Adorno - citado por Terry Eagleton, em As ilusões do pós-modernismo, p. 56

"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado.
Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.
Essa…