23 novembro, 2006

SELEÇÃO BRASILEIRA DE MÚSICA

Há alguns anos li um artigo que escalava os imortais da literatura numa seleção de futebol. Muito boa a idéia. Mas como é difícil imaginar Machado e Graciliano, de estilos contrastantes mas necessários, dividindo a meia cancha brasileira, eis aqui um selecionado cujo talento nas artes do ludopédio também é difícil de engolir. Mas, se até Zagallo já foi deglutido, abram as cortinas que começa o espetáculo:

Goleiro - o ditado não falha: pra ser goleiro, só louco. E o louco de sempre só pode ser Tom Zé. A torcida brasileira, que prefere um guarda-metas que transmita tranqüilidade à defesa, não entende como ele complica o simples e simplifica o difícil. É mais admirado quando joga fora de casa.

Ala direita - Quando Dorival Caymmi cruza a bola na cabeça dos goleadores ou ele mesmo marca um gol, a torcida canta alto: " o que é que esse baiano tem?". Sem correria, é um lateral que só apoia quando bem lhe apetece. E com o risco de voltar no mesmo vagar com que subiu ao ataque. A torcida desconfia que ele força algumas suspensões para não jogar algumas partidas e passar o fim de semana em Marancagalha.

Zagueiro-Central - Beque não pode ter medo de cara feia. A vida de um atacante fica que nem jiló ou pior, se tiver de encarar o zagueiro Luiz Gonzaga. Apelidado Gonzagão, (devido ao filho Gonzaguinha, cujo estilo é tão próximo ao do pai quanto um bandeirinha o é de outro), põe logo o fole pra chiar quando a temperatura do jogo esquenta. E tome forróbodó.

Quarto-Zagueiro - Noel Rosa é o contraponto de seu companheiro de zaga. De aparência (e saúde) frágil, recusa-se terminantemente a dar bicões para onde o nariz estiver apontado. É tão refinado e inteligente que chega a ter seu estilo de jogo imitado pelosjogadores do meio-campo dessa seleção.

Ala Esquerda - Ninguém chama Pixinguinha de lateral. Um jogador que apóia e marca tão bem quanto passa ou chuta a gol também merece atender por "Enciclopédia", um epíteto para os gênios da posição. Carinhoso no trato da bola, com ele um simples 1x 0 é uma acachapante goleada.

Volante - Gilberto Gil faz de uma partida um domingo no parque. Talvez sofisticado demais para a posição, o termo cabeça-de-área não lhe cai bem. Pelo menos não com a conotação Dunga de ser. Mas pode ser duro...pero sem perder a ternura.

Meia-Esquerda – Roberto Carlos. Seus críticos o acusam de praticar um futebol demasiadamente romântico e sem lances de ousadia. Às vezes, parece sempre estar jogando mais para a torcida que para o time, o que faz com que invariavelmente seja substituído pelo volante rompedor Tim Maia, mais raçudo e até brigão (reclama até do sonoplasta do estádio).

Meia-Armador – Nunca se soube se o craque Tom Jobim atuava mais pela direita ou pela esquerda. Começou fazendo tabelas perfeitas com o meia Vinícius ( mas a preferência deste por bares e praias o levou à reserva). Pela maneira como conduz o time a magníficas vitórias, brilhando em campos cariocas ou estrangeiros, recebeu o epíteto de maestro soberano. Ao contrário do que dizem, Tom nunca foi craque de uma jogada só.

Ponta-de-lança – Chico Buarque. Iniciou sua carreira fazendo golaços em diversos torneios. Costuma fazer tabelas inesquecíveis com Tom, Gil e outros caros amigos, deixando o adversário numa roda viva. Quando ele não está em campo a torcida começa a cantar "e agora como é que eu fico / sem Chico, sem Chico".

Atacante – Jorge Benjor. Rápido, de dribles desconcertantes, seu ritmo de jogo é inimitável. Como um Garrincha, faz sempre a mesma jogada irresponsavelmente eficiente, sem maiores preocupações cerebrais.

Centroavante – Caetano Veloso. Como de praxe, todo goleador tem que ser polêmico em suas declarações. Inclusive quando não pretende sê-lo. Seu estilo de jogar inclui todo e qualquer estilo, o que o leva a transfigurar um estilo de jogo tipicamente bretão em gols de placa com sabor de autêntico futebol-arte tropicalista.

Técnico – Radamés Gnatalli, por sua ambivalência tática, ora clássica, ora mais popular, conforme o ritmo da partida. Cada um dos 180 milhões de ouvintes, digo, torcedores, têm uma outra seleção com outros craques. Só não há discussão para autor do hino desta seleção: Lamartine Babo.

POR FAVOR, NÃO ATIREM NO PIANISTA!


Dia do músico. Podia até ser feriado santo dado o caráter profilático com que se costuma recomendar obras de Mozart. Mas o músico teria que trabalhar para os ouvidos alheios do mesmo jeito e aí deixemos como está.
O título "Por favor, não atirem no pianista" lembra aquele do filme do François Truffaut (Atirem no pianista, 1960), mas também vem daquela velha frase de consolação desde velhos recitais: "Não atire no pianista. ele está fazendo o melhor que pode". Lembro também do filme do Roman Polanski, O Pianista, que nos oferece um quadro pouco convencional de um músico.

Aproveito o espaço para "recordar e viver" a arte juvenil (ainda não tinham inventado a pré-adolescência) deste escriba virtual e inexperiente, cujas mal traçadas abaixo podem aborrecer muita (se tanta) gente.

O pianista geralmente é visto como um agraciado, um privilegiado que lê hieróglifos e fala pelos dedos. Um suprachato que martela o instrumento e o ouvido alheio, exercitando a tolerância de qualquer cristão com suas escalas e exercícios. Eu mesmo costumava torturar as domésticas de casa tascando-lhes na escuta um Hanon às duas da tarde. Quando o almoço não tinha sobremesa, aí o castigo infligido era uma hora do Microkosmos do Bartók.

À noite, após o jantar e a sagrada reunião familiar, meu pai me pedia: "Filhão, toque aquela música". Era a deixa pra dedilhar o Pour Elise de Beethoven. Quando recebíamos visitas ilustres, pelo menos para os meus pais, eu ouvia o indefectível pedido: "Toque aquela música!". Parecia uma Ingrid Bergman carente solicitando, em Casablanca, ao pianista Sam: "Play it again" . Mas um dia minha rebeldia, assumo, pré-adolescente viria à tona e do pior modo possível (murphyanamente contra mim).

Visitantes na sala, satisfeitos, inclusive com sobremesa, agora era a hora do Beethoven Apaixonado começar a tocar.

Mas que nada. Saí, exibido, dedilhando outra música, acho que era alguma intitulada Gallop du Diable. A música exigia muita técnica, velocidade e força, ou seja, eu parecia um mozartinho embevecido. Após o finale, olhei pra trás esperando aplausos mas só ouvi alguns muxoxos tipo "bom, hein?", "ah, legal". Aí meu pai não resiste e sussurra:"Não, filhão! É aquela!". Ok, ao vencedor, Pour Elise. Claro, com palmas e mais palmas.

E o filme? Polanski fez o filme até agora definitivo sobre os judeus e o nazismo. Se você só ouviu o filme, trate de vê-lo na próxima vez. O colaboracionismo de alguns judeus está ali, bem como o heroísmo sortudo de outros. O pianista Szpilmann, interpretado por Adrian Brody, é o retrato mais próximo de um homem que só ressalta sua humanidade através da sua arte, da sua música.

Szpilmann é fraco, pusilânime, um filho teu que foge à luta. Um artista que não entende porque os homens preferem atirar uns nos outros do que fruir um pouco de Chopin em paz. Aliás, Chopin é a alma deste filme. Chopin, o polonês delicado e irascível, mais amigo das artes que dos homens, cuja música é ponto central de uma narrativa que parece falar de guerra e intolerância, quando na verdade fala de atitudes humanas diante da tragédia. Aliás, da atitude de dois homens diante da tragédia.

A cena do pianista judeu-polonês, famélico, em farrapos, recebendo a Esfinge em forma de oficial nazista em meio aos escombros é reveladora. O alemão acabou de tocar o Beethoven da Sonata ao Luar e exige: se você é mesmo pianista, toque! O fugitivo poderia tocar a Apassionata ou até mesmo, de forma colaboracionista, diriam alguns, tocar um arranjo para piano do 2º movimento do Quarteto op. 76, de Haydn, também conhecido como o hino nacional alemão.

Porém, Szpilman, que nunca foi nem delacionista nem revolucionário, ou jamais desempenhou um papel em prol da boa-vontade entre os homens, que só quis agradar ao senso artístico, que mal amava a própria vida, a ponto de insistir em tocar piano enquanto o restaurante em que trabalha é bombardeado; esse mesmo Szpilmann dedilha o piano calorosamente, como se nunca tivesse passado pelas privações que vivia (ou exatamente porque passava por privações), e toca a Balada n. 1, de Chopin, claro.

O crítico Alex Antunes perguntou e respondeu: ele foi salvo por que era um bom pianista? Os maus pianistas devem ser mortos, então? Nazisticamente, o oficial não atira no pianista porque as guerras não são de raça ou de classe, mas de castas, como assegura Jean Renoir no filme A Grande Ilusão (1937). A casta dos pianistas, mas principalmente daquela elite que julga entender sua arte, tem licença para viver.

No fim, o que resta até parece esperança. Mas, olhando as atrocidades das guerras atuais, se percebe que o que ficou foi a música de Chopin. Um Noturno em meio aos escombros do Iraque, por favor!

22 novembro, 2006

O primeiro texto deste blog é uma homenagem às pessoas desta cidade, a nossa Ludicapólis, São Luís, que me acolheram com tanta generosidade e ainda maior paciência.
O texto foi escrito em maio deste ano, por ocasião do Encontro de Cordas anual da Escola de Música (EMEM), e enviado para um jornal desta cidade.
Aproveito o espaço pra abrir o baú das novidades de ontem, das boas-novas de anteontem e das alvíssaras do passado.
Também vou aproveitar o hiperespaço pra justificar a arte feita com dignidade e, desde já, firmo o nobre pacto de falar de cinco áreas somente (o blog se chamaria pentagrama, mas alguém com mais iniciativa já possui este título): 1 - música, 2- literatura, 3 - futebol, 4 - filmes, e 5 - o que der na carcomida telha deste que vos fustiga a paciência.

M DE MOZART E MARACATU NO MARANHÃO

M DE MOZART E MARACATU NO MARANHÃO

Antonio Rayol respirava ansioso no camarim do Teatro São Luís. Eleito vice-diretor da Academia de Música do Rio de Janeiro, o maranhense voltava à cidade natal para uma série de concertos. Não bastasse ter de estar à altura do sofisticado público ludovicense, lembrar que uma de suas peças escolhidas, a Serenata Brasileira, não seria apresentada devido à gripe contraída pela soprano, só não o deixava estressado porque stress era uma palavra desconhecida na época. Mas, entre um compositor barroco e um Mozart, afinal, era o ano de 1891 e lembrava-se naquela noite o centenário da morte do gênio de Salzburgo, a platéia aplaudiu freneticamente a polka Pastorinhas, obra do agora mais calmo Rayol.
A história acima pode ter acontecido ou não na São Luís novecentista, cujos espectadores do século XXI reviveram noites gloriosas da música de concerto, comum no outrora chamado Teatro São Luís, ainda esporádico no Arthur Azevedo. Na noite de quarta-feira passada, 24 de maio, a platéia foi inebriada pelo arranjo secular de Max Bruch sobre a melodia tradicional judaica Kol Nidrei. A orquestra, regida por Antonio Del Claro, construía uma via dolorosa em que o violoncelista maranhense Joel Costa fazia a melodia caminhar trágica, dilacerante.
Infelizmente, não foi possível ouvir a Serenata Brasileira, de Antonio Rayol (a história da gripe, neste caso, é real), mas a polka Pastorinhas foi apresentada, inclusive no bis final. Foi bom ser reapresentado ao tenor e compositor Rayol, que não era um nacionalista fervoroso, daí esta
peça não ter o mencionado "sabor da terra", a não ser o da pátria dos Strauss e dos von Trapp.
No filme Amadeus, de 1984, um Salieri já senil toca algumas de suas composições, sucessos em sua juventude, para um único ouvinte num sanatório. Este, entretanto, não reconhece uma obra sequer. Porém, quando ouve os compassos iniciais da Pequena Serenata Noturna, se põe a cantarolar e pergunta, maravilhado: "É sua?". Não, foi a resposta; é de Mozart, rival de Salieri mais no roteiro de Peter Schaeffer do que na própria realeza austríaca. A platéia do Arthur Azevedo, comungando com a orquestra na celebração dos 250 anos de nascimento de W. Amadeus Mozart, ouviu a obra citada com um sorriso encantado nos lábios.
A orquestra, reunida durante a semana do IV Encontro de Cordas da Escola de Música do Estado do Maranhão, também tocou com incrível vivacidade a peça do contemporâneo Ernani Aguiar, 4 Momentos para Orquestra de Cordas. O 1º movimento, Maracatu, lúdico, uma brincadeira de rua. O 3º, Canto, uma vereda de lamentações dos retirantes de secas vidas. Por último, uma marcha polirrítmica difícil e empolgante. Muito prazer, Mozart, música brasileira!
Que venham mais concertos. O público aguarda ansioso.
PS., sem ofensas: para evitar a distração de músicos e espectadores, bem que poderiam instalar bloqueadores de celular nos teatros. E a distribuição na entrada de xaropes anti-tosse seria bem-vinda.