28 fevereiro, 2011

o Oscar é uma piada ruim

O que esperar de um show em que as pessoas vão ao teatro Kodak para escolher o melhor filme? Que seja mais do que um trocadilho ruim.

É curioso como americano consegue fazer filmes divertidos a partir de um fiapo de história (e histórias repetidas) mas não consegue tornar a cerimônia do Oscar interessante. Talvez aí esteja o problema: ou é uma cerimônia ou é divertido. As duas coisas juntas são tão inconciliáveis como "suaves prestações", "paz no Rio", "Corinthians campeão da Libertadores", etc.

Ruim: as piadinhas dos apresentadores são fracas. Pior: você tem que ser brasileiro e assistir as piadinhas do Oscar na voz marcante da tradução simultânea da TNT. Muito pior: você ainda tem que ouvir os comentários pertinentes de José Wilker (Globo) e Rubens Ewald Filho (TNT). Pelo menos ainda não tem os comentários do craque Neto.

Nesse ano, o Brasil concorreu com o documentário Lixo Extraordinário. Com esse título, eu não sabia se era só um filme nacional ou o conjunto da obra do cinema tupiniquim.

E os troféus do Oscar foram justos? Merecimento e justiça é o que menos existe ali. Se até Roberto Begnini (A vida é bela) já ganhou como melhor ator em 1999 é porque não dá pra levar o Oscar a sério (o equivalente é José Sarney ganhar o Nobel de Literatura).

Houve injustiças irreparáveis, como a ausência de José Serra na lista de indicados a melhor ator junto com a bolinha de papel na lista de efeitos visuais. Fora que o programa eleitoral do PT deveria ganhar com folga o Oscar de melhor maquiagem.

Ainda não vi O discurso do rei, que ganhou o Oscar de melhor filme. Mas vi o belíssimo Toy Story 3 e duvido que Hollywood tenha feito coisa melhor no ano passado.

O outro favorito a melhor filme era aquele sobre o garoto do Facebook, A rede social, um retrato sem photoshop de uma geração que criou um programa para ajuntar pessoas no mundo virtual e ao mesmo tempo segue carente de relacionamentos reais. Mas os eleitores do Oscar "não curtiram" isso.

Pelas resenhas de críticos e blogueiros, O discurso do rei logo será esquecido, enquanto A rede social pode virar um marco. Se isso se confirmar, o segundo ainda estará em ótima companhia, como frisou Steven Spielberg ao anunciar o vencedor:

- As vinhas da ira (1940), retrato da depressão americana, não ganhou.
- Juventude Transviada (1955), que sinalizava para as mudanças entre os jovens, não ganhou.
- Todos os homens do presidente (que não pôs panos quentes no caso Watergate) e Rede de intrigas (que satirizava a guerra pelos índices de audiência na tv) perderam em 1977 para Rocky, o lutador.
- Apocalypse Now e seu imenso painel da loucura de qualquer guerra, não ganhou.
- Os Eleitos (1983), sobre os efeitos da corrida espacial, não ganhou.
- A ternura de ET e a denúncia das ditaduras Desaparecido perderam em 1983.
- No ano de Show de Truman e O resgate do soldado Ryan, ganhou Shakespeare apaixonado.

Nenhum desses grandes filmes perdeu para filmes ruins. Mas hoje parece piada, não? E como toda piada de Oscar...
  


 

25 fevereiro, 2011

ventos de liberdade nos países árabes

Tunísia, Egito, e agora Argélia, Iêmen, Líbia, Bahrein. Os governos ditatoriais estão caindo como um dominó. Os habitantes desses países estão aprendendo que, se gritar "pega ladrão", não fica um, meu irmão. Ladrões de liberdades civis, geralmente também acusados de rapinar o tesouro público, as dinastias familiares e políticas vêm enfrentando o protesto popular.
Estamos vivendo um "1989 árabe"? Sim, ao que tudo indica. Assim como o ano de 1989 foi o estopim da derrubada dos governos comunistas no Leste europeu, 2011 começa com a derrocada dos governos autoritários dos países do Norte da África e do Oriente Médio.
Não se sabe quantos países vão aderir a esses movimentos. Mas a história ensina que esse processo funciona como um rastilho de pólvora que, uma vez aceso em algum lugar, segue disparando o desejo de liberdade e incendiando a queda de governos antidemocráticos.
Sabe-se, porém, que as mudanças não são operadas pacificamente. As transições para a democracia são lentas e costumam ser acompanhadas de avanços e reveses, mas também não costumam voltar atrás.
Duas características nos movimentos que derrubaram os governos da Tunísia e do Egito chamam a atenção: são rebeliões com forte participação popular e não são motivadas por fundamentalismo religioso.
Isso nos leva a outros dois argumentos: 1) as classes populares naquelas regiões não são controladas automaticamente pelo radicalismo político; 2) rebeliões sem motivação especificamente religiosa podem abrir espaço para um processo democrático laico.
Não estou excluindo as motivações religiosas desses movimentos de oposição no Oriente Médio. No entanto, os protestos têm sido motivados pela rejeição a sistemas autoritários, a dinastias autocoroadas, a regimes opressores. Além disso, há uma grande participação de jovens com acesso às conquistas sociais e tecnológicas da modernidade (veja o uso das redes sociais para convocar manisfestações) e de pessoas bem instruídas.
Esses países não virarão Estados laicos da noite para o dia. Talvez nem se tornem democracias consolidadas. Mas não se pode negar que estamos vendo acontecimentos surpreendentes.
Sociedades política e economicamente mais abertas também são sociedades mais abertas à diversidade religiosa. Ventos de liberdade política trazem consigo uma abertura à liberdade religiosa. Depois que o Leste europeu tornou-se democrático e passou a experimentar o conhecimento e o reavivamento do cristianismo, quem pode dizer que os países islâmicos não facilitarão a entrada e a permanência de grupos cristãos?

22 fevereiro, 2011

o aplauso e a vaia

O mundo da arte está cheio de espectador que se deixa levar pela aparência e acaba aplaudindo rótulos estabelecidos e descartando novidades. Seu julgamento fica preguiçoso e com ele só os grandes vultos da história têm vez. Por isso, escrevo-lhes essas parábolas pequenas, essas fábulas menores de moral mínima para correção dos gostos e justiça dos desprezados:

Durante um concerto, um pianista tocou uma peça do desconhecido Agostinho da Silva e outra do amado imortal Ludwig van Beethoven. A plateia, como são todas as plateias em todas as salas de concerto, era formada por três tipos de gente: os iletrados que batem palmas entre os movimentos de uma peça, os esnobes que fazem "shhhh" para quem aplaude na hora errada, e os deficitários de atenção que perderam a conta de quantos movimentos já foram tocados e esperam os outros aplaudirem primeiro.

Acontece que o pianista inverteu a ordem das peças. Tocou a música de Beethoven primeiro. E o público, ouvindo como se fosse de Agostinho da Silva, achou a peça insípida e inodora e um crítico reprovou o que lhe pareceu uma cópia barata do pré-romantismo alemão. Teve gente que aproveitou para ir ao banheiro.

Quando tocou a peça de Agostinho da Silva, a plateia, ouvindo como se fosse de Beethoven, achou a música calorosa e inovadora e um crítico ressaltou a atualidade do que lhe pareceu uma obra da última fase do gênio alemão. Teve gente que aproveitou para gritar "bravo!" pela primeira vez.

Moral mínima: o aplauso é para os famosos mortos, a vaia é para os famosos vivos. 

Outras fábulas menores

A imagem acima é do site alcorngallery.com

18 fevereiro, 2011

a Palavra e a música

Calmo, sereno e tranquilo, Portas abertas, Autor da minha fé. Canções do grupo Logos que viraram clássicos da música cristã. Em entrevista à Cristianismo Hoje, o pastor, cantor e compositor Paulo Cezar da Silva fala sobre a igreja, o mercado musical e seu próprio ministério de mais de 30 anos: "A música cristã não pode abrir mão do conteúdo bíblico".


CRISTIANISMO HOJE – Você é um dos nomes mais conhecidos da música cristã brasileira, tendo acompanhado de perto sua evolução nos últimos 30 anos. O que mudou para melhor e para pior ao longo desse tempo?
PAULO CEZAR – Para melhor, acho que mudou a qualidade técnica. A evolução dos músicos, dos estúdios, dos instrumentos e do som é perceptível. As chances de alguém gravar e fazer um bom trabalho, hoje, são muito maiores do que antes. O que mudou para pior, com algumas exceções, foi o conteúdo, tanto do que se produz como do objetivo com que se canta. Atualmente, a chamada música evangélica, ou “gospel”, está sendo atacada de todos os lados. O mundanismo tomou o lugar da contextualização. Além disso, vemos a repetição de muitos jargões, palavras de ordem e mensagens de prosperidade.

Por que a música evangélica de hoje carece de conteúdo?
As músicas e tais tendências nos conduzem a nomes, mas eu não quero, de modo algum, reconhecer ou classificar adoradores. Afinal, se Deus os procura, quem sou eu para achá-los? Mas creio que as letras são escritas de acordo com várias influências. O conhecimento é um desses aspectos, e é importantíssimo. Ninguém, mesmo que queira, poderá escrever sobre o que não sabe. A falta de conhecimento ressalta a superficialidade e o apelo emocional. Em outras palavras, um compositor ou pregador superficial ficará contente diante de pessoas chorando no altar ou mãos erguidas no auditório – mesmo que os ouvintes não sejam salvos ou que seu caráter não seja mudado nos dias que se seguem. Outro aspecto é a razão. Responder conscientemente ao motivo pelo que se compõe é determinante para quem o faz. E isso é que faz toda a diferença!

O que você e o ministério Logos têm feito no sentido de dar contemporaneidade ao seu trabalho, evitando parar no tempo?
Bem, emprimeiro lugar, temos seguido o exemplo da Bíblia, nunca mudando a essência do que fomos chamados a ser e a fazer. Temos também procurado usar os instrumentos modernos em nossa música. Ao dizer isso refiro-me tanto aos instrumentos que são pessoas, quanto aos instrumentos que são coisas; porém, sempre tomando o cuidado de não permitir que um ou outro assuma o centro das atenções. Estamos conscientes de que, quando a performance ofusca o brilho do conteúdo, só resultados superficiais são colhidos.

É correto alguém dizer que a música é um ministério? Qual seria a base bíblica para tal afirmação?
Vivemos dias em que as nomenclaturas fazem parte de um complexo esquema organizacional. Não creio que isso, em si, seja mau. E é verdade que cada crente tem que achar o seu lugar funcional na obra. Mas a incompreensão do uso de um ministério pode trazer orgulho ou desajuste na função de alguns. A Palavra de Deus nos ensina sobre dons, serviços e ministérios. Entendo que existe aí uma sequência lógica, onde o dom é a capacidade espiritual que o Senhor dá a cada um, segundo o seu propósito, como, por exemplo, a misericórdia. Já o serviço é o meio pelo qual aquele dom é manifesto, como o diaconato. E o ministério é o que é executado no final dessa sequência. Quando isso é entendido, os ministérios voltam ao seu lugar de trabalho, perdendo a característica perigosa de ostentação.
   
Você tem uma postura crítica em relação à apropriação comercial da música evangélica, particularmente por parte das grandes gravadoras do segmento?
Não sou contrário a essa apropriação da música em si, porque os direitos de um contrato são mantidos por lei. Minhas críticas são por outros motivos. Tenho certeza de que a parte comercial de uma gravadora – evangélica ou não – sempre dará prioridade ao lucro. É o lucro que a fará conquistar o mercado, e por causa disso a visão ministerial, ainda que exista, será considerada em um plano inferior. Não vejo problema em que se venda a Bíblia no bar da esquina. Ora, qualquer um pode vender o que quiser; a diferença, para mim, está só na razão pela qual se faz isso. E é aqui que eu vejo o problema mais sério, quando o conteúdo de uma música realmente cristã não é o produto desejado para ser difundido pelas gravadoras chamadas evangélicas. Vale qualquer coisa, desde que resulte em grana!  Então eu pergunto: Onde está a visão do Reino nesse negócio?

É difícil conciliar essa busca por autenticidade com a necessidade de vender CDs?
Veja, o comércio não é pecaminoso, como também o dinheiro não é. O que faço com ele é o que me diferencia. Não componho para ganhar dinheiro, mas sei que vender os trabalhos é o modo de fazê-los chegar a quem preciso atingir. Sabemos que o trabalhador é digno de seu salário. Não é pecado ser bem remunerado. As pessoas pagam entradas para assistir jogos de futebol, peças de teatro e filmes no cinema. Nada mais justo do que remunerar o artista segundo a arrecadação que ele mesmo produz. Mas fazer missões é outra coisa!
  
É cada vez mais comum músicos populares no segmento secular dizerem-se convertidos ao Evangelho, logo engatando uma carreira artística entre os crentes. Qual o resultado disso?
Se forem verdadeiramente convertidos pelo Espírito Santo, e, como consequência disso, deixarem-se discipular como qualquer outro pecador rendido ao senhorio de Cristo, poderão ser usados pelo Senhor, a despeito do que foram ou fizeram. Se assim não for, será simplesmente uma troca de posicionamento profissional.

Por outro lado, gravadoras seculares andam de olho e até contratando nomes mais expressivos do gospel nacional. Como um músico evangélico deve se comportar diante de uma proposta como essa?
Para qualquer músico eu diria que, caso a proposta seja boa, agarre-a com todas as suas forças. Mas, se o músico em questão for um crente verdadeiro, ele deve saber aproveitar a oportunidade, mas nunca negociando seus reais valores.

"Autor da minha fé" é uma das composições mais conhecidas de seu repertório. A letra fala sobre a segunda vinda de Cristo, tema meio esquecido ultimamente. Você acha que a música evangélica no Brasil perdeu seu papel profético?
Não posso generalizar o que acontece nos púlpitos, até porque, devido ao trabalho de viagens evangelísticas, estou mais tempo pregando do que ouvindo pregações. Mas, com certeza, reconheço que o assunto não figura entre os temas mais abordados.

Como você vê a formação musical nas igrejas e nos seminários?
Há várias igrejas que estão trabalhando isso. Conheço também algumas escolas voltadas nessa direção. No seminário onde estudei, embora não se tenha, especificamente, ensinado sobre os temas louvor e adoração, recebi as bases para ser um verdadeiro adorador.  E é isso que, desde então, tenho procurando ser. Mas o que tenho constatado é que a dificuldade maior hoje não está em treinar musicalmente os alunos, capacitando-os e ensinando-lhes posturas de um ministro de louvor. O problema é quais são seus modelos. Certamente, o que esses alunos considerariam como referência seriam aqueles que estão na mídia, fazendo shows. Eles desejariam imitar seus gestos, seus jargões, seu tipo de música e até suas roupas.  Assim, se tivéssemos que prepará-los de acordo com a modernidade do ministério, teríamos que ensinar-lhes matérias como presença de palco, expressão corporal, vestuário artístico e um vocabulário de palavras de ordem, além de estimulá-los a moldar suas músicas ao que está “rolando” hoje. Mas é disso que a Igreja está precisando ou é isso que a está afastando cada vez mais do genuíno papel da música evangélica?

O que você acha que deve acontecer com a música evangélica brasileira daqui para a frente?
Não quero responder com pensamentos previsíveis, mas com desejos de alma. Eu sonho com uma música diversificada em estilos e mensagens, que atenda as reais necessidades das igrejas. Sonho com bons músicos, crentes de verdade, que rendam seus talentos ao Senhor e testemunhem com suas vidas o caráter de verdadeiros adoradores. E, finalizando, sonho com uma Igreja que permaneça fiel diante dos modismos sufocantes da falsa contextualização.
*****
A entrevista acima é um resumo do que me chamou atenção. A íntegra você lê aqui.
Vídeo de Portas Abertas

16 fevereiro, 2011

vivendo a música e a vida

O terror do escritor é a folha em branco. O terror do intérprete musical é a folha cheia de pontos pretos. Pianistas, violinistas, trompetistas, cantores, enfim, estudantes e concertistas em geral, todos procuram a melhor maneira de interpretar a música, de transformar em som aquele punhado de linhas e pontos pretos. E tudo começa bem antes de entrar no palco:

1) Escutar
Estamos tão ocupados em aprender a tocar que não paramos para escutar o que tocamos. É bom ouvir os grandes mestres tocando. Mas é melhor ainda escutar a si mesmo. Não para vangloriar-se, mas para sondar sua própria interpretação, perceber falhas, autocriticar os defeitos. Daniel Barenboim:  A arte de executar uma peça  musical é a arte de tocar e escutar ao mesmo tempo.

2) Ler
Partituras musicais fazem suas exigências particulares para entrar no palco. Mas há muito músico que passa por cima do que está escrito e enche de pedal romântico as peças renascentistas ou ponteios brasileiros,  acelera onde é lento, faz rubato onde se pede a tempo. O intérprete tem liberdade, claro. Às  vezes é preciso colocar uns óculos escuros em Bach para dar um passeio com ele fora do museu. Mas eu fico com Maria João Pires definindo interpretação: Aperceber-se da alma do compositor e mais tarde contá-la aos outros, como contaria a história de alguém.

3) Expressar
Os professores costumam exigir certos sentimentos de meninos e meninas de 10 a 13 anos quando estão tocando um melancólico noturno de Chopin ou uma delicada sonata de Beethoven. Não adianta. Como expressar através da música algo que ainda não se viveu? Por favor, ninguém precisa sair por aí derramando sentimentalismo, mas muita gente bem grandinha está a tocar, mas não consegue nos tocar. Parece que  estão tocando a Apassionatta numa máquina de datilografia (ok, geração Y, num teclado de computador). João Marcos Coelho: O segredo da interpretação é fazê-la com o frescor do primeiro encontro e com a intensidade do último.

4) Viver
Perguntaram a Arthur Rubinstein numa palestra na Julliard School quantas horas por dia é preciso praticar o instrumento: Pratiquem, no máximo, de duas a três horas por dia. No restante do tempo, vão viver a vida. Ou vocês não vão ter nada do que interpretar.

14 fevereiro, 2011

Ronaldo: fenômeno pela própria natureza



Do diminutivo Ronaldinho ao superlativo Fenômeno, Ronaldo passou por zagueiros e lesões com a mesma tenacidade e espanto.
A alcunha de "Fenômeno" nasceu da constatação de que Ronaldo, ao marcar tentos incríveis, ao desconcertar zagueiros com sua ginga, ao invadir a grande área com assombrosa velocidade, era um atleta extraordinário, a legítima manifestação de uma força da natureza, enfim, um fenômeno.
Campeão do mundo aos 17 anos, vice-campeão aos 21, de novo campeão mundial aos 25, maior goleador em Copas do Mundo com 15 gols aos 29 anos. Já as cifras pecuniárias são um capítulo à parte. Bem como os casamentos fracassados (sorte no jogo,...). Eis um Fenômeno do futebol, da conta bancária, da mídia.
No entanto, é sua história de vida que atesta que estamos diante de um fenômeno. Sua trajetória dentro e fora de campo é cercada por aqueles fatores que, se acontecem num livro ou num filme, chamamos de "excesso de ficção", ou de "forçar a barra".
Descontando sua infância e adolescência de parcas condições de sobrevivência, o menino já era de estirpe incomum. Pois foi driblando outros meninos e a falta de grana que ele chegou a revelação do Brasileirão aos 17 anos e contrato para jogar na Holanda.
Até aqui, tudo sorri para o menino que aos 20 anos é eleito o melhor jogador do mundo, agora no Barcelona. Em 1996, uma contusão o deixa fora de campo por dois meses. Mas isso não o impede de ser reeleito o melhor do mundo no ano seguinte.
Com apenas 21 anos, Ronaldo se vê na Copa da França entre carrões na garagem, cifrões no banco e infiltrações no joelho. Parece demais para o guri, que desmorona horas antes da grande final e, depois, junto com a seleção durante o jogo.
Após o mal-esclarecido e retumbante malogro, Ronaldo era dado como desaparecido. Ele volta timidamente, como um adolescente desentrosado, dessa vez, na Inter de Milão. Mas seu joelho não suporta e o faz passar cinco meses longe dos convidativos gramados italianos. Aumentam as vozes que agouram seu retorno.
A reestréia, em 2000, é rápida, mas não indolor: com apenas 11 minutos em campo, Ronaldo sofre rompimento total do tendão patelar do joelho direito. Em português: a morte para o futebol. O final feliz é remoto e um novo retorno é improvável.
Dois anos se passam e Ronaldo ressuscita na Copa do Japão e da Coréia: campeão outra vez. Quatro anos após um fracasso, providencialmente Ronaldo tem a chance de reescrever sua história numa final de Copa do Mundo. Seu choro infantil à beira do campo é pela batalha pessoal vencida com todos os gols. A ficção não faria melhor.
No Real Madrid, Ronaldo é uma estrela na galáxia onde brilham Roberto Carlos, Beckham, Raúl e, se não pode vencê-lo, Zidane. Logo a constelação vira um buraco negro que traga o Fenômeno consigo. Para piorar, seu tempo de recuperação de contusões é demorado e inversamente proporcional ao tempo que consegue ficar casado.
Se a noiva lhe escapa, nem a sorte no jogo lhe consola. Ronaldo conserva a fome de gols na sua quarta Copa do Mundo, mas Ronaldo, dizem, não é mais uma força da natureza. No máximo, uma brisa que não incomoda o adversário. Seu peso (ou excesso de) é motivo de escárnio. Sua aposentadoria é anunciada de novo.
Muda de ares, vai para o Milan, onde encontra um ambiente que favorece seu renascimento: ovacionado outra vez, sugerido até para a seleção brasileira. Se a vida parece boa, é hora do "mas": rompimento total do tendão patelar do joelho direito (os casos de rompimento bilateral são raríssimos. Até nisso ele é fenômeno). Os obituários do futebol já lavram a ata.
Toda vez que um boletim médico dava sua carreira como encerrada, Ronaldo refazia sua sina. Mas agora o corpo de Ronaldo pede descanso, não aguenta mais viver no olho do tsunami que é a pressão para exibir semanalmente o espetáculo atlético que o tornou conhecido mundialmente.
Ele, que voltou tantas vezes da morte anunciada, tem que parar. Não porque prefere, mas porque é preciso.
Mesmo que se diga que lições de vida descambam para o melodrama, não resisto a afirmar que Ronaldo é um fenômeno de persistência, de superação. Há algo a se aprender com tamanha resiliência e vontade de reconstruir as paredes da própria vida.


11 fevereiro, 2011

a igreja que virou fã-clube

Sem muita resistência, o mundo gospel não escapou da correnteza avassaladora do fenômeno da celebridade na cultura moderna.

Assim, o marketing da indústria fonográfica gospel procura gerar uma identificação do público com o cantor de uma forma semelhante ao modo de construção de mecanismos de comunicabilidade da mídia secular: a divulgação do CD/DVD que ressalta o sucesso do artista, competições e eventos que premiam os "melhores do ano", a promoção de tarde de autógrafos ou de visitação aos bastidores, programas de TV e revistas evangélicas que mostram casamentos, aniversários e a própria casa dos cantores gospel, e assim por diante.


Para Neal Gabler, autor do livro Vida, o filme, o culto à celebridade está substituindo a religião organizada e a própria religião tem se adaptado aos novos tempos ao assimilar a cultura do consumo e empregar estratégias similares às da comunicação midiática secular.


Mesmo que os artistas gospel autointitulem-se “levitas” ou “ministros”, vemos que o relacionamento entre “ministros” e “fiéis” por vezes segue o padrão de tratamento mútuo entre “ídolos” e “fãs” seculares, como demonstrações de histeria durante os shows, oferta de wallpapers com fotos de cantores (sugerindo o download de posters dos “levitas”), criação de sites não-oficiais e comunidades nas redes sociais altamente devotas dos artistas.


Assim, embora os jovens conversos ao cristianismo abandonem os ídolos da música secular, uma considerável parte dos novos fiéis parece apenas ter trocado de ídolos – os seculares pelos cristãos – tal é o nível de interesse e devoção com que buscam relacionar-se com os cantores do gospel contemporâneo.


Nem todo cantor gospel demonstra interesse no padrão de tratamento “ídolo-fã”. Alguns deles não alimentam esse comportamento. Outros, acreditam que é apenas uma forma de carinho por parte do admirador de sua música. Mesmo assim, há espectadores que se comportam como fãs, embora isso também dependa do incentivo do artista.

Alguns dizem que o estilo de música é o gatilho que dispara a reação histérica dos fãs. Ocorre que, no século XIX, o pianista e compositor erudito Franz Liszt incendiava a platéia com suas performances fenomenais. Ele cansou de receber flores, cartas e, veja só, peças íntimas de madames apaixonadas. Mais antigamente ainda, os fãs das óperas de Haendel endeusavam a diva Francesca Cuzzoni com mimos exorbitantes.

Não é todo artista que vibra com o fanatismo. Os Beatles pararam de fazer shows ao vivo no auge da carreira porque já não suportavam os gritos histéricos que sufocavam a música.

Não digo que o público cristão seja um insensato adorador de cantores - embora em alguns casos possa ser. Ou que os fiéis assumam os cantores como seus "ídolos". Não deixa de ser uma relação de admiração e carinho também. Uma relação, aliás, que não dá espaço para qualquer crítica ao artista de sua preferência.

No entanto, alguns artistas gospel já se reportam aos fiéis com expressões como “agradeço a presença dos meus fãs” ou “um beijo para todos os meus fãs”. Tempos estranhos para o cristianismo: ninguém consegue imaginar Pedro e Paulo agradecendo de coração à presença de “fãs gentios”. Hoje se consegue assimilar um cantor cristão mandando um beijo no coração dos seus fãs gentis.

09 fevereiro, 2011

o medo de napoleão diante do pênalti

1998. O Stade de France nunca esteve tão lotado. Desde a queda da Bastilha não se via tanta gente nas ruas. Nunca antes na história das revoluções uma seleção francesa chegara a uma final de Copa do Mundo. Por isso, até o mais empedernido existencialista e o mais cético descontrucionista acreditavam que o time francês triunfaria napoleonicamente sobre a seleção brasileira. Yes, oui can!

Os apólogos do patrimônio lingüístico francês achavam que a vitória estava prenunciada na simples escalação. Um time com nomes tão sans-culotte como dunga, bebeto, cafu e junior baiano jamais poderia vencer uma seleção de nomes tão plenos de finesse et elegance como Laurent Blanc, Marcel Desailly, Fabian Barthez e, claro, Zinedine Zidane.

Começa o jogo e, logo no primeiro escanteio, Zidane pula e dá com a cabeça na cabeça schwarzeneggeriana de Dunga. A bola escapole para os pés de Ronaldo, que dispara fulminante em direção ao gol francês e marca. Brasil 1 x 0 França.

A França pressiona. Allons enfant. Novo escanteio. A bola atravessa a grande área brasileira e passa direto por cima de Zidane, que estava abaixado ajeitando o meião. Cafu tira a bola da área. A pelota procura os pés de Ronaldinho outra vez. E, mais leve que um dito espirituoso de Voltaire, ele desembesta pelo campo e dribla o meio-campo, o lateral, o zagueiro, o Asterix, o Obelix e chuta: Brasil 2 x 0.

Segundo tempo. A torcida francesa continua a cantar "A Marselhesa". Filósofos do mundo inteiro presentes no estádio estão admirados com a persistência dos franceses. Até agora, apesar da derrota, ninguém se atirou no Sena, ninguém desligou a TV e foi ler Sartre. Os primeiros 45 foram dolorosos, mas já passaram e não adianta ficar em busca do primeiro tempo perdido.

O juiz apita. Pênalti contra a França. As câmeras mostram Zidane desferindo uma cabeçada no peito de Junior Baiano. Zidane é expulso, Ronaldo cobra o pênalti, a França perde, as guilhotinas começam a ser afiadas.

Depois daquele jogo, Zidane abandonou os campos, passou a beber, engordou e só se vê sua triste e rotunda figura em jogos beneficentes.

“Zidane, acorda, acorda”. “Oui, d’accord, d’accord”. “Você está batendo a cabeça na poltrona da frente”. “Eu estava sonhando. Terrible. Terrible”. Na hora em que ônibus chega ao estádio, Zidane lembra que estão em 2006 e vão jogar de novo contra o Brasil em uma Copa do Mundo. Ele levanta, passa a mão na barriga lisa e sorri.

Mais:
Outra fábula menor sobre pênaltis e sonhos, ambos perdidos por Edmundo


04 fevereiro, 2011

quem está frio: o louvor ou o cantor?

Quantas vezes você já disse que os momentos de adoração musical na sua igreja têm uma temperatura que varia entre morno e frio? E quantas vezes você ouviu uma resposta rápida lhe dizendo que isso é “só falta de Jesus no coração do povo”?

De uma forma geral, a adoração precisa ser mais calorosa? Sim. O povo vai à igreja sem espírito de adoração? Também. Aliás, eleger a mornidão da adoração e da comunhão pessoal como únicas responsáveis nos leva a um beco sem saída: a adoração é fria por causa do povo ou o povo é frio por causa da música?

Respondo: nem a rigidez do serviço de louvor nem a frieza espiritual da congregação são “culpados” isoladamente por essa situação.

Mas a adoração pode estar sem vigor na sua igreja por causa da forma como o louvor está sendo conduzido.

Muitas vezes, as igrejas têm tentado tapar o sol da desorganização com a peneira do serviço de “cânticos”. E aí é um tal de “enquanto o culto não começa, vamos cantar o hino ...”. É verdade que, às vezes, há uma emergência: o pregador não chegou a tempo, contaram errado o número de cadeiras na plataforma, a porta que dá acesso à plataforma emperrou,... Mas se todo culto tem uma emergência, das duas, uma: ou acabam com a emergência ou a emergência acaba com o culto.

As músicas escolhidas para a adoração coletiva da congregação às vezes são inadequadas. Estou falando tanto de hinos quanto de canções modernas. Pense nisso com sinceridade: por que tantos hinos da do hinário/harpa não entusiasmam mais uma boa parcela da congregação? Você acha mesmo que é falta de comunhão do povo? De outro lado, será que algumas canções contemporâneas não estão inibindo o louvor porque falam um idioma litúrgico diferente?

Não precisamos abolir o hinário das igrejas. Embora nós o tenhamos abolido das mãos, já que o telão anda cumprindo o papel de "karaokê sacro". Nossa época não é melhor do que outras épocas em nível de composição (se a nossa não for a pior).

No entanto, porque também não inserir junto com os tradicionais e belos hinos, uma música de um quarteto ou de um coral/grupo/solista? O regente pode levar um quarteto ou alguns solistas para cantar uma estrofe de uma música conhecida e apreciada pela maioria e depois dirigir a congregação a cantar o refrão. Muitas músicas do hinário apareceram primeiro na voz de cantores e grupos vocais. Hoje, isso pode ser feito com algumas músicas que reflitam a teologia da igreja também.

Nos momentos de adoração congregacional, o regente precisa escolher o repertório adequadamente. Não é hora de ensinar um hino pouco cantado. Se ele é pouco cantado, pode ser que ele seja pouco preferido. 

Hinos vibrantes e outros solenes, alguns alegres e outros mais reverentes. O regente congregacional precisa pensar no que é melhor para a coletividade e não para a individualidade. E dependendo do repertório escolhido, um regente pode auxiliar na criação de uma atmosfera sadia de adoração e contentamento, mas também pode desanimar e constranger uma congregação.

Buscando soluções para melhorar o louvor da sua igreja? Sinto dizer que não existem soluções mágicas. O regente pode levar um repertório da maior excelência e apreciação do povo, mas se as pessoas não suspirarem por Deus como a corça suspira pelas correntes de águas, não há adoração. A música pode ser a mais contemporânea, mas se eu não me alegrar quando me dizem “Vamos a casa do Senhor”, não há adoração. O hino pode ser o mais tradicional, mas se eu não celebrar com júbilo nem servir com alegria, não há adoração.

Nosso louvor não existe para que Deus nos ame. Nós O louvamos porque Ele nos amou primeiro. Nossa adoração não serve para mostrarmos que somos bons. Nós O adoramos porque Ele é bom e a Sua misericórdia dura para sempre.

02 fevereiro, 2011

revoluções por minuto e por música

No século XIX, durante os movimentos e conflitos que visavam à unificação dos pequenos Estados italianos sobre uma bandeira única do reino da Itália, os partidários da união grafavam “Viva Verdi” nos muros. O que parecia só uma homenagem ao compositor Giuseppe Verdi, era um acróstico revolucionário que queria dizer “Viva Vittorio Emanuele Re Di Italia”.

Os músicos que usavam sua arte para protestar contra regimes de opressão, se não escapassem para outro país, raramente escapavam da morte, como o músico e ativista político chileno Victor Jara, que teve as mãos esmagadas por coronhadas e foi executado em 16 de setembro de 1973 no antigo Estádio do Chile (hoje Estádio Victor Jara) pela ditadura do general Pinochet.

A também chilena Violeta Parra, dos versos líricos de “Gracias a la vida”, escreveu versos duros como os de “La carta”: Os famintos pedem pão; chumbo lhes dá a polícia.

Quando impedido de protestar de forma direta, o jeito é metaforizar para provocar o governo autoritário e animar os opositores. A canção “Apesar de Você”, de Chico Buarque, cumpriu esse papel de denunciar um Estado que dizia que era pecado criticar o governo e torturava os revoltosos sem piedade:

Hoje você é quem manda, falou ta falado não tem discussão, não
A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão, viu (...) 
Você que inventou esse estado, inventou de inventar toda escuridão
Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão
(...)
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia
Inda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria
Você vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
E esse dia vai vir antes do que você pensa

A canção já tocava nas rádios quando Chico foi “convocado” às pressas para depor no Departamento de Ordem e Política Social (DOPS). O compositor disse que a música não era contra o governo. A canção era sobre uma “mulher muito má” e, apesar do que ela tinha feito, o sujeito seria feliz um dia. Acreditaram nessa história e o compositor foi solto. Mas logo o erro foi percebido e o disco foi recolhido das lojas e a música proibida de tocar nas rádios e nos shows.

Não sei se no Egito de hoje, os músicos estão produzindo artilharia musical contra o governo. Talvez haja pessoas cantando coisas semelhantes a “vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”. Mas quando o governo egípcio corta o serviço de internet para impedir a manifestação da  oposição nacional, o povo bem que podia cantar algo como “Pai, afasta de mim esse ‘cale-se’”.

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