30 agosto, 2010

a tradição do novo e a novidade do velho

Há duas semanas assisti a uma apresentação do cantor adventista Leonardo Gonçalves no sábado à tarde. Muita gente veio assisti-lo também. Seus poemas e canções são fartamente conhecidos. Sua voz com melismas e agudos, também. O que, talvez, algumas pessoas ainda não conheciam era o modelo bastante espiritual de sua apresentação daquele dia. Quem foi assistir a um show acabou participando de um culto.

O repertório alternava as canções com a leitura e comentários de trechos bíblicos. Aliás, a Bíblia esteve o tempo todo aberta em uma estante a frente do cantor. Antes da última música, ele falou/pregou à congregação, fez um apelo e terminou com uma oração cantada, o que inibiu completamente qualquer manifestação de histeria de fã. Sua capacidade de atração jovem é notável, porém, mais notável ainda foi sua postura de mensageiro da Palavra. Algumas palavras de um cantor às vezes têm mais repercussão na mente de um jovem do que o sermão inteiro de um pastor. É grande a responsabilidade dos cantores que professam levar o evangelho por meio da música.

Há uma semana assisti a uma entrevista do pastor adventista Alejandro Bullón no sábado à tarde. Muita gente veio assisti-lo também. Seus livros e sermões são fartamente conhecidos. Sua voz emocionada e com sotaque “portunhol”, também. O que, talvez, muita gente ainda não conhecia era o quanto este pastor já aposentado está envolvido com a modernização dos métodos evangelísticos. Quem achava que ele só pregava e escrevia acabou sabendo que ele produz filmes e está se formando como roteirista.

O repertório dos filmes está centrado no cristianismo bíblico. São histórias para captar a atenção de homens e mulheres para o sentido de Deus em suas vidas. Na entrevista, o pastor Bullón preocupava-se com o número de pessoas que só conhecem a mensagem cristã por meio de filmes e livros que distorcem a Bíblia. Suas produções filmadas ou escritas pretendem contar histórias comuns ou extraordinárias segundo uma visão bíblica mais correta.

O jovem cantor apresentou-se apoiado na velha e feliz história de salvação. A tradição bíblica na musicalidade da juventude. O velho pregador apresentou-se com uma mente jovem, plugada em transmitir a velha e feliz história da rendenção. A novidade dos métodos na maturidade dos anos.

Um músico cristão usou o talento são para falar da sã doutrina. Um pregador mostrou que o peso da idade envelhece o corpo, mas a mente a serviço de Deus segue renovada e lúcida.

25 agosto, 2010

alan kardec no país das maravilhas


Carta de R. C. Cardoso à revista Veja sobre a matéria “Espiritismo de resultados” (4/8/10): “Apesar de a novela [Escrito nas Estrelas] apresentar fatos que divergem da doutrina kardecista, é muito bom que a televisão mostre programas que tratam do espiritismo com seriedade, e não como instrumento para deboche e críticas sem fundamento”.



Alguém lembra de uma novela em que o cristianismo não foi pintado com deboche? Em novelas, o padre bom é o liberalizante e o padre mau é o negociante; já o personagem evangélico é o estereótipo do fanático que vocifera a Bíblia na praça, que é ríspido com a filha enamorada, que ouve gospel em som alto e por aí vai.



Conflitos familiares, veleidades conjugais, banalização do ódio, tudo isso faz parte do cardápio noveleiro que, agora e na hora da queda de audiência, sempre apela para a violência física da troca de socos e pontapés entre rivais e casais. Mas as novelas da Rede Globo nunca foram anticristãs no passado tanto quanto são pró-espiritualistas hoje.




O espiritismo impera nas histórias globais desde os famosos “Caso: Verdade” nos anos 70. O "Fantástico" costumava encerrar o domingo do espectador com histórias do aquém-do-além. Na época, as novelas já estavam levando o evangelho kardecista ao respeitável público. De uma forma até ingênua, mas nunca com deboche, fazendo um curioso contraste com o bombardeio de filmes com temas satanistas que enxamearam a década de 70 (O Exorcista, A Profecia, Irmãs Diabólicas etc).




Era o início dos anos 90. Paulo Coelho começava a fazer sucesso com seus livros meloesotéricos e Hollywood domesticava o espiritualismo com Ghost. O respeitável e agora espiritualizado público estava pronto para fazer A Viagem e ver todos os congêneres que se sucederam desde então.




Ah, mas novela é só um passatempo, um lençol de fantasma. Não é o que pensa Geraldo Campetti, da Federação Espírita Brasileira, que diz: “A novela ajuda a semear nossa crença”.




A novela global é o país das maravilhas do espiritismo. Não adianta cortar a cabeça de ninguém. O ninguém vaga e volta para atormentar ou aconselhar os vivos. Se vivo estivesse, Alan Kardec poderia achar o formato de gosto duvidoso, mas aprovaria o conteúdo.




Mais:

23 agosto, 2010

Jesus é um plágio de mitos?

Mal Cristo tinha ascendido aos céus e já havia gente duvidando da história toda. Se na época era assim, dois mil anos depois parece muito mais fácil ser Tomé. Antigamente, duvidava-se da espiritualidade de Jesus (não, ele não era um ser divino, diziam). Mais recentemente, questiona-se a carnalidade de Jesus (não, ele nem mesmo existiu). Estão tentando inscrever Jesus no museu imaginário dos mitos da humanidade.

Um vídeo intitulado Zeitgeist procura demonstrar que Cristo é um plágio de vários mitos da Antiguidade. No entanto, segundo o especialista Chris Forbes (enttrevistado no vídeo abaixo), a afirmação de que Jesus seria um plágio de um punhado de historinhas pra egípcio dormir não se sustenta. Ou seja, a tentativa de fazer do Cristo histórico uma lenda antiga é, na verdade, uma lenda moderna. Audioveja e entenda suas razões. Procure ler o que dizem outros especialistas a respeito da autenticidade do Jesus histórico, como o texto que indico logo abaixo do vídeo.



Mais:
Jesus, um plágio?: artigo na Revista Kerygma

(Dica de @lzgstv - L. Gustavo de Souza)

20 agosto, 2010

o colapso do movimento evangélico

Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo "usados por Deus para salvar almas". Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o "ungiu para ressuscitar mortos".

Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, "eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes", como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .

Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce, passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.

É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico.É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.

Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o "mainstream" prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma "Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados".

Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os "ungidos" afirmam que sabem fazer "fluir as bênçãos de Deus". É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a "oração que move o braço de Deus”.

O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.

O artigo na íntegra você lê aqui.

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Nota na Pauta: o movimento neopentecostal, com suas muitas ramificações e comunidades, já está sendo chamado de pseudopentecostal, por estar se passando por pentecostal sem de fato sê-lo. Os escândalos financeiros e os cultos milagreiros tem dado um cunho pejorativo ao termo evangélico, fazendo de Jesus uma marca comercial de camiseta, maltratando a sã doutrina e erguendo estranhas catedrais. Cristo tem ovelhas em vários apriscos. Mas muitas ovelhas sinceras de fé estão sendo arrastadas por lobos do comércio e do estelionato travestidos de líderes religiosos.

18 agosto, 2010

afasta de mim esse cale-se

Durante a ditadura militar, os compositores brasileiros buscavam na metáfora seu recurso para driblar a cerrada marcação da censura. Em 1973, uma música marcaria a "página infeliz da nossa história". Durante um evento realizado pela PolyGram, Chico e Gilberto Gil decidiram cantar uma canção previamente censurada, "Cálice". O refrão era:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
de vinho tinto de sangue

A referência à angústia de Jesus no Getsêmani era apenas de superfície, na escrita. Na fala, o "cálice" soava também como "cale-se". A referência era à angústia do artista e do intelectual, tesourados, amordaçados, silenciados.

Quando Chico e Gil começaram a cantar essa música, o censor junto à mesa de som (era uma praxe a presença do censor nos shows) mandou desligar os microfones. Chico Buarque ia de um microfone a outro tentando cantar "cálice/cale-se", e sendo tragicomicamente "calado".

Cantar uma música de protesto censurada era uma forma de desobediência civil e pacífica. Ao contrário da "companheirada" que sonhava em substituir uma ditadura por outra. Alguns daqueles que foram presos e/ou exilados pelo regime militar hoje militam mais pacificamente, a exemplo dos dois concorrentes à presidência do país.

No entanto, políticos, locutores e celebridades em geral não escapam da mordaça virtual de um "CALA A BOCA". Os internautas esquecem que o país já superou os dias cinzentos de mordaça pública e notória. De fato, parece que aquele tempo é uma passagem desbotada da memória das nossas novas gerações, pra citar outra música de Chico Buarque. No twitter, o imperativo do cala-boca soa como toda ditadura: autoritária e mal-educada. Afastem esse cale-se da internet. Deixem os candidatos falarem. Até porque político e peixe morrem pela boca.

16 agosto, 2010

o ateísmo virou moda literária

À primeira vista, Terry Eagleton, filósofo e crítico literário britânico, parece atacar o biólogo evolucionista Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio. Em sua recente passagem pela Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Eagleton alfinetou-o à vontade diante do público. Mas nesta entrevista, vê-se que não é bem Dawkins o alvo das críticas, mas um ateísmo que virou voga literária, com vários representantes, e que não responde a uma pergunta crucial: afinal, por que Deus entrou na agenda?

Católico desde o berço e marxista desde a escola, Eagleton se debruça sobre esta questão em O Problema dos Desconhecidos - Um Estudo da Ética, que chega agora às livrarias. "Alguns de meus amigos e leitores ficarão desolados ao me verem desperdiçar meu tempo com a teologia", ironiza o pensador formado nas boas universidades britânicas, a pura tradição "Oxbridge", mas ainda um enfant terrible aos 67 anos. Acha que o grande desafio do Ocidente, hoje, é lidar com um inimigo "sem rosto", profundamente metafísico e exato: o Islã. E que, em vez de desacreditar Deus e fomentar a islamofobia, é tempo de recuperar o melhor das tradições socialistas e judaico-cristãs, gerando pensamento ético. Para quem duvida que um marxista convicto possa se interessar por religião, a contraprova está feita: Eagleton também acaba de lançar no Brasil Jesus Cristo - Os Evangelhos, em que discute se seu personagem-central era, ou não, um revolucionário.

O senhor nasceu, cresceu e se formou em ambiente católico. Depois se aproximou do marxismo, que ainda lhe fornece ferramentas de análise. Como combinar Deus e Marx?

Meus críticos dizem que é fácil sair de um extremo para o outro. E digo que o difícil, mesmo, é passar de um para outro, sem cair nas tentações do liberalismo (risos). Quando eu estudava em Cambridge, nos anos 60, me envolvi com a esquerda cristã, e isso tinha a ver com as minhas origens: família irlandesa, de operários, gente que frequentava igreja, então provei um catolicismo radical. O problema é que fomos prematuros. Começamos a fazer barulho quando o Concílio Vaticano 2 estava acontecendo e não tínhamos suporte, nem interlocução. Nós nos antecipamos inclusive à Teologia da Libertação, que vocês conheceram bem na América Latina. Seja como for, essa experiência também acabou influenciando nomes como Alain Badiou, Slavoj Zizek, Jürgen Habermas.

E hoje deixou de existir?

Posso dizer que continuo influenciado por uma teologia que empurra meu trabalho para frente, intelectualmente falando. Porque o discurso teológico é capaz de formular grandes questões. Vem dele meu interesse pelo estudo das tragédias humanas.

Por que as tragédias interessam ao senhor?

Meus estudos me levam a distinguir dois tipos de humanismo: o liberal e o trágico. O humanismo liberal diz que, para que algo ou alguém floresçam, é preciso remover obstáculos. Daí se chega à liberdade, ao progresso, à felicidade. O humanismo trágico é de outra ordem. Operando tanto no plano individual quanto no social, ele promove rupturas e recomposições. Destruir para erguer de novo. Nesse sentido, a crucificação e a ressurreição de Jesus são exemplo de humanismo trágico. Não se trata de mergulhar no desespero pela morte, mas de atravessar esse momento guiado pela fé. Claro, hoje vivemos sob o domínio do humanismo liberal.

São conhecidas suas críticas a Dawkins. Mas eu lhe perguntaria: há uma moda literária de questionar Deus, tal como fazem os escritores Christopher Hitchens, Sam Harris, o próprio Dawkins?

Sim. Mas a pergunta que faço vai além: por que nesse mundo secular, pós-teológico, pós-histórico, pós-metafísico e pós-moderno, passamos a falar tanto em Deus? O que acontece? Por que Deus entrou na agenda?

E o senhor tem a resposta?

Uma resposta possível tem a ver com a emergência do Islã. O Ocidente se vê diante de um "inimigo" que é profundamente metafísico e exato. E isso o deixa desarmado em termos ideológicos, até porque fica complicado para uma civilização materialista, racionalista, relativista e mercadológica, como a nossa, entender como essa "gente sem-rosto" vive e morre pela fé. E fé não é o que move a nossa sociedade. Então, não posso entender esse interesse por Deus como uma questão meramente religiosa, mas dentro de um contexto histórico maior. Se quiser uma resposta rápida, diria que esses autores anti-Deus surgiram em 11 de setembro de 2001. Foi quando Deus entrou na agenda.

Entrou na agenda com data, hora e local?

Mais ou menos. Tomo o 11 de setembro de 2001 como marco da aparição de um absolutismo metafísico que colocou o Ocidente em xeque. Esses autores de que estamos falando sabem que não podem criticar o mundo islâmico da maneira que o fariam em relação ao radicalismo islâmico, mas Hitchens e sua turma colocam tudo no mesmo saco, atravessam a linha divisória entre uma coisa e outra, e alimentam a islamofobia. Na Inglaterra ao menos, ela se instala num espectro político bem definido: vem da direita para o centro, atingindo a produção literária. Acaba sendo disseminada pelos liberais que se dizem defensores da tolerância religiosa, que ironia... A meu ver estamos diante de um novo suprematismo cultural no Ocidente, afinado com o discurso ideológico da guerra contra o terror. E Dawkins, que é um liberal respeitável, inclusive se manifestou contra a intervenção no Iraque, está no fundo contribuindo com a ideologia da guerra, ao investir de forma tão alucinada contra Deus.

E o debate criacionismo X evolucionismo?

Tem a ver com a confusão desses autores. A ideia de Deus não está atrelada ao surgimento do mundo. Quando o mundo começa efetivamente é pergunta para os cientistas, não para os teólogos. Até São Tomás de Aquino sabia disso. Não podemos aceitar falsos embates entre teologia e ciência. Isso tanto é verdade que a maioria dos cristãos aceita a teoria da evolução sem problemas. Mas daí vem Dawkins e diz que os cristãos não aceitam! Sei que ele é bom cientista, sabe comunicar, tem livros importantes, mas é um racionalista old fashion. Pensa o progresso com cabeça do século 19, como se as guerras mundiais não tivessem acontecido, como se não tivéssemos passado por Auschwitz, comete erros embaraçosos ao escrever sobre raças.

A entrevista completa está aqui.

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Nota: há cristãos que não aceitam mesmo a teoria da evolução. E isso não quer dizer que não haja bons cientistas e pensadores entre aqueles que buscam conciliar Bíblia e ciência. Eagleton diz que só consegue entender o interesse atual por Deus "dentro de um contexto histórico maior". E dentro de um grande contexto bíblico, eu completaria!


12 agosto, 2010

a política do cristão

O cristão não é um ser apolítico. Primeiro, ninguém é apolítico. Todo posicionamento a favor, contra ou muito pelo contrário é um posicionamento político. Segundo, o cristão que verdadeiramente ama a Deus também ama seu semelhante. Isso implica reconhecer sua responsabilidade social.
O pastor Bert Beach escreveu que o “cristianismo é uma religião de comunidade. Os dons e as virtudes cristãs têm implicações sociais. Devoção a Cristo significa devoção a todos os filhos de Deus, o que gera responsabilidade pelo bem-estar dos outros”.

Isso não quer dizer que todo cristão agora tem que se filiar a um partido político. Em lugar de procurar denunciar estruturas socioeconômicas opressoras, em lugar de revoluções homicidas de direita/esquerda, o cristão deve trabalhar para mudar pessoas. O cristão também é um revolucionário. Mas do tipo que apresenta a paz e a vida em Cristo. Primeiro é preciso mudar o homem. O homem transformado muda a sociedade.

O cristão espera novo céu e nova terra. Mas ele ainda não está lá. Enquanto isso, ele trabalha para minorar o sofrimento, a injustiça e a pobreza mesmo tendo consciência de que as dores do mundo não serão curadas pelo próprio homem.

Isso também não quer dizer que o cristão não deve entrar oficialmente para a política. O cristão que almeja ou ocupa um cargo público costuma usar o argumento de que até personagens bíblicos atuaram na esfera política, como José, Ester e Daniel. É verdade. Mas eles pagaram o preço por não se corromperem. Quer se candidatar? Que bom! No entanto, mais do que ser um cristão político você deve atuar como um político cristão.

Penso que um candidato da igreja não deve usar os cultos para a autopromoção. Púlpito não é palanque. O púlpito não merece ser ocupado com outro assunto que não seja a mensagem da salvação em Jesus e do Seu advento.

Mesmo que os candidatos políticos sejam semelhantes, e alguns são mais semelhantes do que outros, temos nossas preferências políticas. Por isso, gastamos nossa lábia tentando provar que nosso voto é melhor que o dos outros. Alguns irmãos se unem pela fé e se separam pela ideologia. Vão à igreja pela doutrina e deixam de se cumprimentar por causa de partidarismo. Por isso, esse é um bom conselho: “Mantende secreto o vosso voto. Não acheis ser vosso dever insistir com todo o mundo para fazer como fazeis”(1).

O evangelho é a prioridade do cristão. Governos vêm e vão; a mensagem cristã é a mesma. Digamos que, em certo país, uma igreja cristã oposição aberta e declarada ao governo. Certamente a perseguição política que virá como consequência não afetará apenas os opositores do regime, mas a organização religiosa de forma geral.

Vejamos por outro lado. Em suas publicações, grupos religiosos declaram apoio político irrestrito a determinado governo. A depender do resultado das eleições, a igreja como um todo passará a ser vista como inimiga do novo governo. Em ambos os casos, como oposição ou situação, o sentido de missão da igreja estará prejudicado e sua imagem estará atrelada a contendas políticas e não à divulgação do evangelho.

O discipulado cristão tem uma dupla missão: anunciar o evangelho puro e simples de Cristo e ajudar a diminuir as complexas necessidades sociais. A igreja desempenha um papel na comunidade, mas não é um comitê de campanha. A igreja busca servir os desfavorecidos, mas não é uma ONG. A igreja deve ser uma influência social, mas antes de tudo, a igreja, que somos nós, deve ter uma influência de restauração espiritual.

1. Ellen G. White, Carta 4, 1898.


10 agosto, 2010

a Pixar e a crítica da razão cínica

Até os anos 1980, o cinema de animação vivia uma longa fase de príncipes encantados, princesas suspirantes, animais falantes e músicas marcantes. Branca de Neve, Pinóquio, Bambi, Dumbo, A Bela Adormecida e Mogli são personagens da infância de quase todo mundo. Todos inocentemente divertidos. Todos excessivamente fantasiosos.

Houve uma mudança de consciência no final do século XX. A chegada de novas tecnologias de computação gráfica se aliou a ideias arejadas sobre o comportamento dos personagens de animação. A princesa à espera do beijo de um príncipe não fazia mais sentido. Felizmente.

Aí veio a animação Shrek e suas três sequências fazendo uma “dessacralização” da pureza e do heroísmo dos desenhos animados. A série começou subvertendo os chamados contos de fada. Depois, sem o recheio de uma boa história, virou franquia comercial com paródias preguiçosas. De infantil, sobrou pouca coisa.

Shrek dispara suas sátiras e nenhum personagem famoso dos contos infantis resiste à inversão de estereótipos e clichês. Pena que a maioria das crianças que assistiu à série nem conhecia O Gato de Botas, Cinderela ou Pinóquio. As crianças pouco perceberam a paródia e a ironia. Primeiro, por ainda não estarem psicologicamente preparadas para isso. Depois, porque não conheciam as histórias originais. Infelizmente, as crianças estão conhecendo a paródia antes do original.

Nesse barco da razão cínica a Pixar não entra. Ser crítico é se achar superior aos outros? Em Ratatouille, há aprendizado e delicadeza. O personagem do crítico de gastronomia enfrenta sua arrogância e cinismo pessoais e se rende à simplicidade e à humildade.

A família tradicional está sob fogo cruzado? Com Os Incríveis, vemos que não existe mais recompensadora aventura do que a convivência familiar.

O casamento não é mais pra sempre? Up-Altas Aventuras tem os 20 primeiros minutos mais tocantes do cinema dos últimos anos. Sem diálogo, só com uma trilha sonora maravilhosa, vemos um casal se conhecer na infância, tornarem-se namorados na juventude, casarem-se, compartilharem a construção da casa, a perda da dor de um filho, a saúde, a doença, a maturidade, a velhice, a morte. Tudo com uma ternura comovente.

A amizade e o amor são vistos com desconfiança? A série Toy Story não tem vergonha dos bons sentimentos.

A ecologia grita aos quatro ventos? O apelo de Wall-E é silencioso e cativante. A natureza merece cuidado. Mas o apelo é ao amor entre as pessoas. A tecnologia de última geração está ligada à tradição de um cinema humano e fraterno.

O cinema se torna cada dia mais violento, mais sexista, mais cinicamente juvenil. Ainda bem que há filmes em busca da delicadeza perdida.


Tem mais: A mais incrível aventura da família


06 agosto, 2010

a esperança em forma de música

Jader Santos é um perito em músicas sobre a volta de Jesus – Eu não me esqueci de ti e Chegou a hora. Na canção Eu quero olhar, gravada pelos Arautos do Rei, Jader propõe um tipo de música que não tem a sequência estrofe-côro e na qual praticamente cada verso possui uma melodia própria. O compositor não fez concessões nem à rima fácil nem ao típico refrão.

Eu quero olhar pra cima e ver aquela nuvem aparecer um pouco escura, mas não de chuva, só uma mancha a mais no céu

E se eu olhar com atenção verei ainda que há uma luz assim brilhante que num instante vai se tornar bem maior

O desejo de quem espera a volta de Jesus pode ser nublado por sinais que são a contrafação do advento real de Cristo: uma nuvem parecida, prodígios “em nome de Deus”, falsos cristos. A atenção ao que diz a Bíblia é o melhor preparo para não ser confundido.

Em seguida, cada verso descreve características do Esperado:

Sim, é Jesus que triunfante e exultante vem como Rei / Sim, é Jesus, o Pai amante que os seus filhos vem receber / Sim, é Jesus, o humilhado, o que foi morto e reviveu / O que foi homem e que foi Deus, e que voltar nos prometeu

Os dois primeiros versos contrastam com os dois últimos – o Rei triunfante é mencionado também como Deus humilhado. Jesus é o líder-servo e homem-Deus. O mesmo “que foi morto” é o mesmo que "reviveu", Aquele “que foi homem” também é Deus. A letra faz o contraste entre a morte, própria do estado atual do homem, a ressurreição, própria da divindade, e a capacidade de Jesus de transcendê-las. Ele não apenas vive, mas é A Vida.

Tremam diante dEle todos os povos / Reinos, nações e línguas, todos O adorem / O Grande Juiz voltando está: Justiça haverá afinal!

Alguém pode entender que nesse trecho, o letrista parece manifestar que teme a Deus pelo medo, que Deus manipula as pessoas para O adorar. Mas não é uma questão de manipulação, e sim de motivação. Nós O adoramos por causa do Seu amor (“O amor de Cristo nos motiva”), por causa do que Deus fez, faz e está fazendo por nós. Adoração é “o transbordar de um coração grato, impulsionado pelo sentimento do favor divino” (Anônimo).

Na música, o trecho anterior é cantado em fortíssimo, como num clamor. A partir de agora, a música é suave, com um lirismo que expressa que a bendita esperança se realiza e que a esperada volta de Cristo será de forma visível e audível:

Enfim chegou Quem nós aguardávamos, Quem nossa alma almejou / Quem nossos olhos sonharam ver, Quem os nossos ouvidos sonharam ouvir

Quando os anjos vieram confortar os atônitos discípulos que viam Cristo ascender ao céu, disseram: “Esse mesmo Jesus que vistes subir, voltará outra vez”. Os discípulos o reconhecerão, assim como nós, porque Ele será o mesmo, dessa vez com grande glória e majestade:

Filho de Maria, Leão de Judá, Estrela da Manhã, vem enfim brilhar

A seguir, a música retoma o tom triunfal ao mesmo tempo em que fala da esperança de vida eterna, de uma vida sem os males terrenos, de uma vida de fato em íntima comunhão:

Quero pra sempre contigo morar, Não mais viver a tragédia do mal / Quero em Teus braços me aconchegar / Quero Teu nome pra sempre louvar.

Von Hügel dizia que “grandes realidades, ainda invisíveis, requerem para sua apreensão uma incorporação figurativa na imaginação”. Cantar a esperança do retorno de Jesus é meditar e incorporar em nossa mente a grande realidade divina que em breve se verá face a face.


03 agosto, 2010

cem palavras: a TVerdade

Um veterano âncora de telejornal foi demitido devido aos baixos índices de audiência. Em sua despedida, ele faz ao vivo uma enfática denúncia dos podres do programa. Uma executiva da TV percebe o potencial de entretenimento disso e o apresentador volta com um programa reformulado onde dispara petardos furiosos contra a falta de escrúpulos das mídias e dos espectadores. Um sucesso espetacular, que não durará muito tempo. Esse o roteiro do filme Rede de Intrigas (1976). Uma das falas fuzilantes do autoproclamado "profeta da tv" é essa:
O apresentador entra em cena ao vivo e, após saudar o público presente, começa:

"Ai de nós. Porque 62 milhões de americanos me assistem agora. Porque menos de 3% de todos vocês lêem livros. Porque menos de 15% de vocês lêem jornais. E a única verdade que conhecem é a que passa pela televisão. Agora mesmo há uma geração inteira que nunca conheceu nada que não tenha saído da televisão. A TV é o evangelho. A revelação final.

A televisão pode fazer ou destruir presidentes, papas, ministros. É a força mais incrível nesse mundo ímpio, e ai de nós se ela cair em mãos erradas. [...] Por isso, ai de nós porque esta companhia agora está nas mãos da CCA, a Corporação de Comunicação da América. E quando a 12ª maior companhia do mundo controla a mais incrível força de propaganda em todo esse mundo ímpio, quem sabe o que será vendido como verdade nesta rede.

Então, prestem atenção! Televisão não é verdade. Televisão é um maldito parque de diversões. Televisão é carnaval, é circo, contadores de história, dançarinas, cantores, malabaristas, domadores de leão e jogadores de futebol. Nosso negócio é matar o tédio. Então, se querem a verdade, procurem Deus. Procurem seus gurus. Procurem a si mesmos! Porque esse é o único lugar onde encontrarão a verdade. Mas ouça, nunca ouvirão nenhuma verdade de nós. Vamos dizer o que quiserem ouvir. Mentimos como loucos. Diremos que Kojak sempre pega o assassino e que ninguém tem câncer na casa de Archie Bunker. E não importa se o herói está enrolado, se acalme. Olhe no relógio. No final do programa, ele vai vencer! Diremos qualquer porcaria que queiram ouvir! Lidamos com ilusões. Nada disso é verdade. Mas vocês sentam aí, dia após dia, noite após noite. Todas as idades, raças, credos.

Somos tudo que vocês conhecem. Estão começando a acreditar nas ilusões que apresentamos aqui. Começam a achar que a TV é real e suas vidas são irreais. Fazem tudo o que a TV manda fazer. Vestem-se como na TV, comem como na TV, criam seus filhos como na TV, até pensam como a TV. Isso é loucura em massa, seus maníacos!

Em nome de Deus, vocês são de verdade! Nós somos a ilusão! Então desliguem as TVs. Desliguem agora mesmo. Desliguem e deixem desligadas. Desliguem no meio desta frase. Desliguem! "