30 dezembro, 2014

melhores livros, músicas e filmes de 2014

Em 2014, encerrei meu doutorado, publiquei um livro e lancei a "pedra fundamental" do meu projeto musical. Entre pesquisar pra escrever e pesquisar pra dar aulas, entre não ouvir para compor e ouvir para aprender, tive tempo pra ver filmes. Alguns deles, me fizeram considerar melhor a arte, a profissão e a profissão de fé.

Obs: nem tudo o que li, ouvi e assisti foi lançado em 2014, mas só deu pra ter acesso neste ano que se vai.

Livros

Os jesuítas e a música no Brasil colonial (Marcos Holler / Ed. Unicamp) – A atuação pedagógico-musical dos padres da Companhia de Jesus entre indígenas e os recém-chegados europeus é fartamente documentada com cartas e outros textos redigidos ainda no século 16. Tecendo a trama entre religião, arte e cultura, o autor busca explicações para entender porque os nativos aceitaram a cultura musical de seus colonizadores.

Os Irmãos Karamázov (Fiódor Dostoiévski / Editora 34) – Depois de mais de 20 anos, voltei a ler essa obra-prima, agora na premiada tradução de Paulo Bezerra, a primeira feita diretamente do idioma russo original. Quase mil páginas e dois volumes depois, não posso negar que esse livro é gigantesco em todos os sentidos. Partindo dos conflitos familiares que envolvem a família Karamázov – o hesitante Dmitri, o ateu Ivan, o religioso Alieksêi e o dissoluto pai destes três – Dostoiévski aborda a fé, a justiça, a política, os laços familiares, pintando não só um pinel da vida russa no século 19, mas um retrato do ser humano em vários aspectos de sua existência. Não é para ler em uma semana, mas para saborear com vagar e refletir com vigor.
Ah, sim: você não vai encontrar a tão citada frase “se Deus não existe, tudo é permitido”. Dostoiévski nunca disse isso. Alguns personagens do livro é que pensam ter ouvido isso da boca do personagem Ivan em uma das impactantes discussões religiosas da família Karamázov.

Ponto Final: crônicas sobre os anos 1960 e suas desilusões (Mikal Gilmore / Cia. das Letras) – cada capítulo deste livro cobre um músico ou banda significativa das revoluções musicais e culturais dos anos 1960 e 1970: Beatles, John Lennon, Bob Dylan, Bob Marley, Jim Morrison, Led Zeppelin, Pink Floyd, Johnny Cash, a lista segue. O autor, jornalista da revista Rolling Stone, analisa os feitos musicais e as conquistas sociais e políticas que estão relacionadas aos artistas, mas não deixa de fora o lado sombrio da inquietação espiritual, da desilusão política e do mergulho (para alguns daqueles músicos, sem volta) infernal nas drogas.


A religião entre o espetáculo e a intimidade (vários autores) – o espetáculo incide sobre a forma e o conteúdo das crenças? A intimidade tem se constituído em espaço de consumo nos ambientes religiosos? Fui ao Congresso de Ciências da Religião para lançar meu livro “Música e religião na era do pop” e trouxe este, uma reunião de artigos de especialistas participantes do congresso realizado em Goiânia.

O canto cristão na tradição primitiva (Xavier Basurko  / Paulus) – o que se cantava, como se cantava e o que escreviam os chamados Pais da Igreja. Basurko dispõe textos documentais sobre a música sagrada, fazendo desse pequeno livro uma preciosidade sobre a música das primeiras comunidades cristãs.



Músicas

Mistura Brasileira (Turíbio Santos) – um dos grandes violonistas nacionais, Turíbio Santos visita obras de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Tom Jobim, além de composições autorais, e oferece um trabalho primoroso de erudição e sabor popular.


Here’s to the Ones (Rhett Walker Band) – a combinação precisa de country e rock, gêneros primos, celebra a fé e convida à alegria e à reflexão com arranjos pulsantes e vocais vigorosos. Muito mais do que um Gaither Vocal Band turbinado.


Renascido (Daniel Salles) – a black music americana e a canção negra brasileira se encontram para falar de amor romântico e divino, de renascimento físico e espiritual, tudo com letras primorosas e arranjos que se destacam pela leveza.

Condição Humana (Guilherme Arantes) – ele ainda detém o posto de letrista inteligente, que tem soluções musicais bonitas de ouvir, que não vulgariza o pop e sabe cantar as coisas da vida como as duplas sertanejas de agora não sabem (ou não querem).

Herói da Fé (vários) – as letras maravilhosas de Mário Jorge Lima sempre tiveram um ótimo melodista em Lineu Soares. Poeta e músico se unem para contar a história do apóstolo Paulo em forma de oratório moderno. Os cantores convidados são Leonardo Gonçalves, Laura Morena, Joyce Carnassale, Riane Junqueira, Regina Mota e Marcel Freire. Há ecos de cantatas e arranjos da música clássica do século XX (Stravinski e Carl Orff estão entre os facilmente reconhecíveis), mas há também uma sinuosidade melódica nacional que está entre os momentos mais brilhantes dessa obra.


DVD Princípio (Leonardo Gonçalves) – registro ao vivo da musicalidade de um dos cantores mais relevantes da sua geração. Seja em arranjos de banda pop ou arranjos orquestrais, tudo é feito com muita erudição e refinamento. Letras que não falam o “evangeliquês”, e sim saltam os clichês para comunicar pensamentos sobre verdade, bondade, princípio e fim.


Filmes


Boyhood: da infância à juventude - Filmando ao longo de 12 anos, Linklater captou o adolescer em seus fragmentos e estabeleceu um novo paradigma para arte do cinema. As dores, as alegrias, os percalços, os sentimentos confusos, as experiências: está tudo ali, radiografado com precisão e espontaneidade impressionantes, acompanhando o desenvolvimento silencioso de um garoto comum.

Grande Hotel Budapeste - A artificialidade dos planos e cenários do cinema de Wes Anderson é o palco para a profundidade dos dilemas dos personagens. Divertido e terno. 



Os Esquecidos - Uma pequena obra-prima de Luís Buñuel que não desresponsabiliza os pobres pela miséria e pela violência (ao mostrar os pobres explorando os de sua condição também) e mostra uma sociedade patética em suas tentativas de corrigir e reprimir a delinquência juvenil. Não há um justo sequer, não, nenhum.

A Caça - A discussão sobre pedofilia ganha ares de tragédia social quando uma mentira devasta a vida de um professor. O suspense aqui é o horror da dúvida do espectador sobre o que aconteceu.


A Palavra - Um milagre da meditação, da contenção, da sobriedade, da fé, do cinema.

Viver - O mestre Akira Kurosawa dando uma lição de vida e uma aula de cinema. Depois de assisti-lo, você vai se perguntar porque tanta gente só decide viver quando descobre que tem pouco tempo de vida.



César Deve Morrer - A encenação de uma peça de Shakespeare atrás das grades. Homens de força e talento bruto. 

até o ano que vem!

08 dezembro, 2014

a música popular perdeu o tom

Nos últimos dias de sua vida, Tom Jobim pedia a sua irmã Helena para que lesse o Salmo 23, aquele do “O Senhor é meu pastor e nada me faltará...”. Olhando a obra musical de Tom, o que não falta é música que parece ter a centelha da arte mais divina.

Sua combinação de melodia enganosamente simples com harmonização rigorosamente complexa trouxe à música popular brasileira um sabor diferente, um jeito diferente, uma nova bossa.

Até o advento de “Ai seu eu te pego”, hit do Michel Teló, a canção brasileira mais conhecida no exterior era “Garota de Ipanema”. Assobie essa canção e perceba como a melodia sobe e desce sem esforço, como o desenho de ondas. Pode ter sido um achado genial involuntário, mas vindo de Tom, quem pode duvidar de que o balanço do mar e da garota que passa foram inscritos delicadamente na melodia sinuosa?

E a melodia de “Desafinado”, difícil e bela como a harmonia? E "Corcovado", em que a melancolia inicial de “Um cantinho, um violão” que deságua na alegria contida de “Ao encontrar você eu conheci o que é felicidade, meu amor”? E o encanto da repetição de letra, melodia e harmonia de “Águas de Março”?

No princípio, era “Chega de Saudade”. E a saudade se fez letra e música. As duas estrofes iniciais, uma queixa do amor distante, estão na tonalidade de Ré menor. No refrão, que promete o aconchego, a conjunção dos amores, a tonalidade passa para Ré Maior.

O clichê musical que associa tonalidade menor à tristeza e a maior à alegria ganhava, lá em 1958, uma obra-prima. Tudo feito com discrição e sofisticação. Afinal, isso é bossa nova, isso é muito natural.

Em Tom, o simples nunca é óbvio. Por causa da harmonização requintada, o simples ficava elegante. O “Samba de uma nota só” é o retrato em branco e preto do gênio jobiniano.

“Eis aqui esse sambinha feito numa nota só”, começa a canção, essa parte sendo cantada, de fato, repetindo-se a mesma nota. A letra avisa: “Outras notas vão entrar, mas a base é uma só”, e isso vai se confirmando musicalmente.


Lá na frente, a letra diz: “Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada”.  Isso é cantado num passeio por diversas notas, subindo e descendo, até que se canta:


“E voltei pra minha nota, como eu volto pra você”, voltando-se à nota repetida do início.

Quando analiso com os estudantes essa canção nas aulas de História da Música Brasileira, nossa percepção é a mesma: a carpintaria genial de Tom se camufla de simplicidade.

Mas há também um outro Tom Jobim, o compositor do formidável “Urubu”, disco-síntese de sua obra musical com canções sobre seus temas principais (a natureza, o afeto, a mulher) e belas peças orquestrais. Nesse álbum, o popular parece erudito e o erudito tem acesso popular.


Tom foi daqueles compositores que souberam fundir os elementos da matriz musical brasileira com os caracteres da musicalidade que chegava do exterior. Em Tom, o deslocamento da acentuação rítmica no compasso (a síncope) achava uma melodia tão cheia de curvas como a arquitetura feminina de Niemeyer.

A sedução melódica de Tom encontrou nos versos afetuosos de Vinicius de Moraes o casamento ideal. Eles estavam mais interessados na felicidade do amor presente do que em cantar o amor que se foi. Não por acaso, eles geraram “Chega de Saudade”.

Em Tom, o Brasil ficava ainda mais bonito. Mas já passaram 20 anos de sua morte e a música brasileira atualmente mais conhecida no mundo mostra que a moda é o funknejo de uma onamatopeia só [ou, pra quem entender, de uma progressão harmônica só: VIm – IV – I – V) .


Harmonia simplificada, letra despoetizada, a natureza desencantada, o amor vulgarizado. Saímos do tom.

02 dezembro, 2014

Princípio (ao vivo): a imagem, o som e a Palavra

Se uma imagem vale mil palavras, quanto vale uma imagem (e uma sonoridade) que comunica a Palavra?

Nessa perspectiva, um álbum cristão que, por algum tempo, ultrapasse em vendas as coletâneas de Michael Jackson, Elton John e Madonna e o mais recente trabalho de Taylor Swift tem um inegável simbolismo. Não, isso não representa a o triunfo do gospel sobre o mundo pop como gostariam de dizer os levitas mais afoitos. Até porque o pop e o gospel estão em amigável interação.

Esse 1º lugar, ainda que temporário, mostra para a indústria fonográfica a força do mercado cristão. Há evangélicos que abominam a expressão “mercado cristão” - e o fazem de forma tão depreciativa e ingênua quanto alguns detratores esquerdistas repudiam o “mercado capitalista”.

No entanto, verdade seja dita, nota-se um estímulo desenfreado ao consumo de artigos que ganham a alcunha de cristão somente porque são comercializados por empresários cristãos. Daí a existência de pulseira cristã, capa de celular evangélica, sandálias sagradas, toalhas espirituais e assim por diante. Esse merchandising realmente nada tem de evangélico e confirma à sociedade em geral que a força da grana ergue e destrói tradições belas.

Por outro lado, o objeto livro assume valor bem maior que o objeto CD ou DVD de músicas. Chego a pensar que, se fosse um livro denominacional que tivesse sido divulgado nos portais Terra e G1 e por dois dias liderasse a venda de livros de não ficção na Livraria Saraiva, muita gente honrada estaria proclamando que as portas do mundo se abriram à mensagem de Cristo.

Mercado, visibilidade evangélica: não é esse simbolismo mais óbvio que quero comentar a respeito do CD/DVD Princípio.

Em Human Accomplishment (2004), Charles Murray escreveu que “a religião é indispensável para impulsionar a realização da grande arte”. Não concordo integralmente com essa frase, mas quero usá-la para dizer que uma sólida compreensão da religião é indispensável para impulsionar a excelência na realização da arte cristã.

O álbum Princípio expressa noções teológicas que só advêm de estudos minuciosos da Bíblia e da literatura cristã. Somado a isso está a formação artística. Leonardo Gonçalves participa da elaboração de letras e da composição de melodias e arranjos. O resultado é que a solidez hermenêutica encontrou um valioso meio de expressão na carpintaria do discurso musical (Palavrantiga, João Alexandre, Stenius Marcius, Jader Santos, Lineu Soares & Valdecir Lima estão aí há anos provando a veracidade dessa equação).

Nesse sentido, pode-se debater a necessidade ou não de melismas vocais do cantor, mas não a sua precisão. Assim como alguém pode discordar da interpretação teológica das letras, mas não vai depreciar a sua enunciação.

Em suma, muitos discutirão a forma retórica, mas quem condenará a verdade enunciada?

Não é todo dia que uma produção cristã com músicas que agregam o contemporâneo e o tradicional, letras com densidade teológica e arranjos musicais sofisticados chega ao primeiro lugar do iTunes.

Quando isso acontece, vale considerar três questões:

1) É possível ser contemporâneo sem ceder aos modismos gospel.

2) É possível fazer letras modernas sem ser teologicamente superficial.

3) Se “Princípio (ao vivo)” lhe parece pop demais, eu lhe pergunto que mundo musical diferente teríamos se os recentes sucessos do pop nacional buscassem a excelência poético-musical e as alturas espirituais desse álbum...

21 novembro, 2014

interestelar ou a salvação vem de nós mesmos

Um filme pode ter furos no roteiro, pode ter especulações (pseudo)científicas, pode ser meloso e sentimental, pode ser lento; só não pode ser tedioso. E, pra mim, um dos dois maiores problemas do filme Interestelar é ser tedioso. O filme acorda e hiberna várias vezes.  

O segundo grande problema é o grau de solenidade que o diretor Christopher Nolan tentou conferir ao filme. Não há problema em usar o som de church organ (órgão de igreja) para emoldurar as cenas com uma aura de reverência ou sagrado. O cineasta Stanley Kubrick fez isso em 2001 - Uma odisseia no espaço, com resultados bem opostos (embora alguns possam considerar 2001 enfadonho e pretensioso). 

Por sua vez, Nolan utiliza essa sonoridade associada à solenidade em cenas onde o tom solene não cabe, talvez porque mal-dirigidas, como na cena de um personagem de olhar perdido pro horizonte. 

As citações a 2001 são muitas, mas parecem um pastiche, não só nos trechos com som de órgão (Kubrick usou o poema sinfônico “Assim Falou Zaratustra”, do compositor Richard Strauss), como também na cena do protagonista à deriva no espaço (o close do capacete do astronauta de Interestelar faz lembrar o bebê no útero na cena final de 2001, mas aquele não exala o senso de enigma existencial deste.

Mais souvenires de 2001: as gravações interestelares de pai e filha (em 2001, eles conversam em tempo real); as espaçonaves despencando por luzes e efeitos que vão levar os protagonistas a "outra dimensão"; o hospital das cenas finais. E remete ainda ao filme Contato: a filha cientista que busca resolver questões entre sentimento e razão e que não lida bem com a perda da figura paterna comparece em Interestelar na personagem Murph, filha do piloto Cooper.

Os robôs TARS e CASE de Interestelar são uma referência tanto ao monolito negro como ao computador HAL 9000, de 2001. Aliás, os robôs são uma fusão dessas referências. 

o robô-monolito TARS

o monolito e os astronautas de 2001


No entanto, enquanto HAL 9000 fala com gravidade e arrogância, à imagem e semelhança dos homens que o projetaram, TARS tem uma voz tranquilizadora que não condiz com o trágico e o solene de algumas cenas. Nolan disse em entrevista que é um risco querer chegar perto de algo grandioso como 2001. Mas algumas cenas de Interestelar mostram que ele tentou no mínimo dialogar com o filme de Kubrick e Arthur Clarke, embora o resultado tenha estacionado a anos-luz de distância.

A recorrência a 2001 transparece até no andamento lento de Interestelar. Contudo, enquanto em 2001 a lentidão serve à contemplação quase religiosa das cenas finais, no filme de Nolan a lentidão deixa o filme à deriva, indeciso entre a reflexão contemplativa e a ação ruidosa.

Recorrer a 2001 é quase inevitável quando se parte de uma história em que os pilotos viajam para fora da Terra com o intuito de encontrar uma solução para os males da terra. Enquanto no final de 2001, o piloto Dave Bowman renasce e transcende a espécie humana, o que remete a princípios religiosos de recriação e transcendência, em Interestelar não há intervenção do sobrenatural ou do divino. A salvação do homem está nas mãos do próprio homem.

Embora, a princípio, os personagens de Interestelar mencionem algo como manifestações sobrenaturais (fala-se que "eles" - seres celestiais? - estão por trás da ajuda ao homem), ao final se vê que foi o próprio homem o responsável pela sua salvação. Em nome da razão ou da fraternidade, a salvação vem de nós mesmos.

2001 deixa espaço para o mistério do sentido da existência, pois nada é muito explicado no filme. O espectador acredita ou não. Já em Interestelar, as seguidas explicações cientificistas dos personagens podem ser vistas como a justificativa da racionalização das ações humanas, e somente humanas. O espectador acredita se for plausível ou não. 2001 toca os limites da transcendência porque é espiritualmente plausível. Em Interestelar, vigora a ideia de que algo só é plausível porque cientificamente explicável.

*****
Escrevi sobre outros filmes em que o espaço sideral é o cenário dos debates existenciais:

Contato

Gravidade

Prometheus

14 novembro, 2014

inovação musical: isso é coisa de música sacra?


Handel sem O Messias, Bach sem A Paixão Segundo S. Mateus: se os críticos desses compositores tivessem vencido, a música sacra estaria desprovida de duas de suas maiores realizações. 

Na Inglaterra do século 18, George F. Handel era um alemão a serviço de Sua Majestade. Sem licença para ousar, mas com raro tino de espetáculo, Handel fazia sucesso na corte inglesa. Nem por isso conseguiu estrear em Londres aquela que viria a ser a sua obra mais famosa, o oratório O Messias. Ele foi, então, para Dublin, onde alcançou tamanho êxito que os empresários londrinos logo perceberam o potencial comercial da obra.

No entanto, inclusive por ser uma obra de caráter sacro exibida num teatro, e não em uma igreja, O Messias encontrou opositores entre músicos e eclesiásticos da corte.

Algumas alegações contra o oratório de Handel eram: o número excessivo de notas, a orquestração considerada mais apropriada para a ópera e não para uma peça sacra, a linha vocal dos solos que lembrava o estilo operístico, enfim, o trato espetaculoso da forma do oratório. Os críticos de Handel temeram a aproximação do oratório com a ópera e a banalização do texto bíblico.

Será que eu e você, que hoje ouvimos O Messias com enlevo espiritual, estaríamos entre os críticos de Handel trezentos anos atrás? 



Também na primeira metade do século 18, Johann Sebastian Bach trabalhava estimulado pelas palavras de Martinho Lutero de que a música deveria ser um "sermão em sons". Não por acaso, no Everest dos oratórios, A Paixão Segundo S. Mateus, Bach incorporava melodias inspiradas no poder dramático das árias operísticas, o que cooperava para ressaltar a força dos textos bíblicos de suas cantatas sacras. 

 No entanto, essa façanha teológica e estética de Bach parece não ter impressionado os ouvintes de sua época, visto que o único registro crítico veio de uma idosa na congregação: "Deus nos ajude! Isso é uma ópera-cômica!"

Quando trabalhou para a igreja em Arnstadt, os dirigentes eclesiásticos o censuraram por fazer "estranhas variações nos corais, misturando muitos tons diferentes de tal modo que a congregação ficava confusa por causa disso". Note que o caso do número excessivo de notas não era um "problema" só para Handel.

Os críticos de Handel e Bach demonstravam um ranço ético-musical que perdura até hoje: o de fazer da própria cultura musical-religiosa a medida de todas as músicas. Ao acreditarem que seus próprios valores musicais devem ser os únicos parâmetros de composição musical para outro indivíduo, muitos legitimam as crenças artísticas pessoais em detrimento do arcabouço cultural e expressivo do outro.

Posso até imaginar que, se Deus buscasse somente obras sacras de altíssima técnica musical, provavelmente Ele teria ficado muito bem acostumado às obras de Handel e Bach e poderia estar muito entediado com a qualidade da música atualmente consagrada a Ele. Os músicos contemporâneos devem agradecer todo dia pelo ouvido divino mais interessado na obediência e sinceridade do coração do que na "boa música" ou na aparência de louvor sincero. 

Por outro lado, acompanhar as tendências da música de seu próprio século não é garantia de que se está fazendo o que é correto ou justo, ou mesmo necessário. Contudo, se a mudança na música sacra se der menos pela novidade sem critérios ou pela acomodação ao mercado fonográfico e mais por uma mente consagrada e um genuíno interesse em nutrir a igreja e em comunicar o evangelho por meio de novas expressões artísticas, nossa geração terá compreendido o sério papel que tem a desempenhar no ministério da música.


Citações extraídas de James R. Gaines, Uma noite no palácio da razão, 2007.

13 novembro, 2014

Manoel de Barros e o artista

Para lembrar do grande poeta das miudezas.




O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

03 novembro, 2014

a música em toda parte do cérebro

Entrevista do jornal O Globo (setembro/2007) com o neurologista Oliver Sacks. O texto na íntegra está aqui.
O GLOBO ENTREVISTA
Oliver Sacks
Para o neurologista britânico Oliver Sacks, a musicalidade é tão primordial à espécie quanto a linguagem e entender a relação entre música e cérebro é crucial para a compreensão do homem.
Em seu mais novo livro, “Alucinações musicais” (Editora Companhia das Letras), o especialista relata casos de pessoas que reagem à música de formas incomuns. Há os que simplesmente não conseguem ouvi-la. E há os que a ouvem o tempo todo, mesmo quando nenhuma melodia está tocando.
Há gente que passou a ouvir os sons de forma diferente após ser submetido a uma cirurgia cerebral. E mesmo os que desenvolveram um incomum talento musical. Nesta entrevista, Sacks conta que há um vasto caminho ainda a percorrer para que se possa entender completamente esses fenômenos. Mas uma coisa, diz, é fato: “A música se apossou de muitas partes do cérebro humano.”

Roberta Jansen
O GLOBO: O senhor concorda com Charles Darwin quando ele diz que a música teve um papel importante na evolução? Especificamente na seleção sexual, como um atrativo a mais para o sexo oposto? 
OLIVER SACKS: Como o comportamento e as suscetibilidades não deixam registros fósseis, é difícil saber como nossos ancestrais se comportavam.
Mas estou inclinado a pensar que a música surgiu muito cedo na espécie humana, tão cedo quanto a linguagem. Linguagem e música são fontes de comunicação primordiais.
O senhor discorda, portanto, de Steven Pinker e de outros especialistas que sustentam que a música é um subproduto do aparato sensorial, prazerosa mas dispensável? 
SACKS: Sim, discordo de Pinker. Não vejo a música como algo acidental e trivial, como um subproduto da linguagem. A música está presente em todas as culturas e apresenta, nos seres humanos, aspectos únicos que não têm paralelo na linguagem. Falo do ritmo, do fato de respondermos à música com movimentos. Nenhum outro animal faz isso. É preciso ver o ritmo como algo primordial na evolução humana. Porque todos os seres humanos respondem a ele. A música une as pessoas. E há conexões específicas no cérebro para isso.
De que forma isso é marcado no cérebro humano? 
SACKS: Muitas partes do cérebro se desenvolvem com a percepção, o aprendizado e a imaginação do ritmo. De novo, nenhum outro animal tem a capacidade de ouvir e analisar sons complexos, com tons, semitons, ritmos, palavras.Essa habilidade é especificamente humana. Mesmo pessoas que sofrem de mal de Alzheimer ou tiveram um derrame respondem à música.Várias estruturas do cérebro se relacionam a isso.
De que forma? 
SACKS: A música se apossou de muitas partes do cérebro humano. É possível ver como o cérebro se modifica em resposta à música. Estudos com imagens do cérebro já comprovaram a ampliação de determinadas regiões no cérebro de músicos. Vendo imagens de cérebros, não dá para dizer quem é matemático ou escritor. Mas dá para dizer facilmente quem é músico quando essas estruturas ampliadas aparecem.
Há alguma parte do cérebro especialmente voltada para música?
SACKS: Não há uma só parte do cérebro. A música está em todo mundo, por todo o cérebro, envolve várias partes desse órgão e não necessariamente as mesmas. Isso é que é o mais incrível.
Mas há também os que não respondem de forma alguma à música, não é? 
SACKS: Sim, há algumas pessoas que não percebem musica e ficam muito impressionados com os relatos. Há outros que não ouvem determinados tons ou semitons. Essas amusias ocorrem em razão de danos no cérebro. Parte da rede que está faltando.
E as alucinações musicais? Até que ponto elas poderiam ser interpretadas como um problema psicológico? 
SACKS: Quando uma pessoa tem alucinação musical (ouve música que ninguém mais está ouvindo), a primeira coisa que pensa é que ficou louco, que está ouvindo coisas. Mas é um processo completamente diferente de ouvir vozes como os esquizofrênicos. Eles recebem ordens, é bem diferente e as pessoas enfatizam isso. Alucinações musicais são bem comuns, são como velhas memórias que tocam na mente. Não é uma doença mental.
Por que a música muitas vezes provoca uma reação emocional? Como o cérebro é capaz de diferenciar uma melodia triste de uma alegre?
SACKS: Um dos maiores poderes da música é controlar emoção, desenvolver, provocar respostas emocionais. Anatomicamente, podemos dizer que algumas regiões do cérebro afetadas pela música estão perto daquelas ligadas às emoções, envolvidas nas percepções dos cheiros que despertam memórias. Mas ainda não está claro como essas respostas emocionais ocorrem. Não se sabe ainda o quanto depende da cultura.
******
Nota na Pauta: a noção de que o ser humano é irresistivelmente controlado pela música não encontra respaldo no pensamento de cientistas como Oliver Sacks. Ao falar do "poder da música", algumas pessoas visualizam o ser humano como um robô que adere aos sons que o rodeiam e parecem considerar nosso corpo uma marionete nas mãos dos músicos.
Sem descartar a capacidade que os sons musicais têm de nos envolver, é preciso ressaltar que as respostas emocionais e somáticas (do corpo) também dependem da cultura do ouvinte. E ainda, nossa reação pode ser até de indiferença, visto que é preciso envolvimento e predisposição pessoal para atender aos supostos irresistíveis apelos da música.
Leitura recomendada: "A música em seu cérebro" (Daniel Levitin) 

29 outubro, 2014

Fala, Vinicius

Vinicius de Moraes tem um recado pra quem anda postando que vai embora do país depois da eleição:


15 outubro, 2014

ao professor, um poemeu

Ao professor que não sabia de cor os nomes dos rios da margem direita do Amazonas

O que faz o livro?
Tira o pássaro da gaiola sem grades.

E a borracha?
Apaga tudo o que não é saudade.

O que fazem as filas?
Estacionam a gente do lado de fora da vida.

O que faz um rio?
Sonha em virar cachoeira.

O que faz o professor?
Abre janelas.

12 outubro, 2014

filmes de criança e filmes sobre crianças

3 filmes para assistir com as crianças, noves fora a trilogia Toy Story, que você já deveria ter assistido com elas:


Wall-e
Um discurso ecológico sem ecochatice, um elogio divertido à vida saudável e uma homenagem à pureza dos filmes mudos.


Ratatouille
O preconceito e o esnobismo são piores que fast-food. A felicidade das coisas simples da vida.


Super 8
Assisti com meus filhos as ficções infantis Os Goonies e Viagem ao Mundo dos Sonhos. Eles acharam ambos bem fraquinhos e eu tive certeza que a memória da gente é enganosa. Prefira Super 8, um filme do século 21 que homenageia as ficções infanto-juvenis do século 20, mas que termina sendo melhor do que os homenageados.

Comentário do meu filho mais novo ao fim da sessão: “Esse filme é tão legal que eu queria esquecer tudinho só pra assistir como se fosse a primeira vez de novo”


2 filmes sobre crianças para ver sem as crianças:


Filhos do Paraíso
O drama de dois irmãos para recuperar um par de tênis. Simples e emocionante. Fora que é um alívio ver crianças que falam e se comportam como crianças e não como adultos mirins espertinhos.


Adeus, meninos
Só a amizade das crianças se salvará em tempos de preconceito? Também se passa durante a II Guerra Mundial, mas vá deletando o humor sem noção de A Vida é Bela ou o sentimentalismo de O menino do pijama listrado

07 outubro, 2014

Marina e a campanha de sete pecados

Após o resultado do 1º turno das eleições 2014, Marina Silva disse estar orgulhosa de sua campanha. Mas também pode estar se perguntando “onde foi que eu errei?”. Afinal, ela chegou a estar com o ticket para o 2º turno nas mãos e, pouco a pouco, sua candidatura foi perdendo fôlego.

Quais seriam os prováveis pecados de rota e estratégia na sua campanha? Como num jogo de 7 erros, achei alguns:

7) Fator emocional: a comoção geral em torno da morte de Eduardo Campos alavancou o crescimento súbito de Marina. Com o passar do tempo, a poeira assentou e o impulso emocional arrefeceu.

6) Amizade “indevida”: em 2013, muita gente foi às ruas gritar não só contra o governo, mas contra os empresários do transporte coletivo, contra a FIFA e também contra os bancos, ocasião em que várias agências foram depredadas. Quando o eleitor descobriu que Marina Silva tinha a amizade e o financiamento de Neca Setúbal, herdeira e acionista do Banco Itaú, ele pode ter desconfiado de que a amizade seria “indevida” dentro da ideia de nova política da candidata.

5) Nova política: ao ser confrontada nos debates sobre sua ideia de nova política, a posição de Marina não ficava suficientemente clara. Luciana Genro chegou a dizer à Marina que uma nova política não era feita de conciliação de posicionamentos com a velha politica, mas que uma nova política só era possível contrariando interesses. 

4) Letargia no pragmatismo político: Marina Silva, que possui uma biografia limpa e louvável, saiu do PT por, entre outras questões, discordar de posições ambientalistas. Ela saiu do PV para formar seu próprio partido (a Rede Sustentabilidade) novamente por discordâncias políticas e ela mesma, dado o seu perfil combativo, não era exatamente a ajuda que Eduardo Campos precisava para atrair aliados, como a bancada ruralista. Como candidata à presidência, Marina demorou a aceitar o apoio de Geraldo Alckmin em São Paulo, devido a sua rejeição ao PSDB (sendo que agora parece que apoiará Aécio Neves!). Nem nova nem velha política, o que transpareceu foi uma demora na articulação da política da vida real.

3) A equipe econômica: quando Marina deu a entender que seu ministro da Fazenda poderia ser Armínio Fraga, homem-forte da economia frágil do governo FHC, a notícia, embora possa ter causado boa impressão entre os banqueiros e especuladores da Bolsa, pode ter afastado dois tipos de eleitores: os que não perderam a memória e lembram do endividamento público, da taxa de juros e do desemprego no segundo mandato de FHC; os que acharam que colocar Armínio Fraga no ministério é como por a raposa pra tomar conta do galinheiro. Ou seja, se no governo PT, os banqueiros nunca ganharam tanto, com Fraga a coisa seria ainda mais descarada (vale lembrar que Fraga é nome certo na equipe econômica de um provável governo Aécio).

2) Os quatro tuítes de Malafaia: Marina achou que devia recuar em posicionamentos progressistas relativos ao aborto e ao casamento gay. Sua mudança não se deu em negociação com as lideranças religiosas mais diversas, sendo ocasionada pela pressão dos setores mais conservadores do cristianismo no Brasil. Há muitos cristãos que não se sentem representados por Malafaia ou Marco Feliciano. E uma fatia de eleitores deixou de se sentir representada por Marina.

1) Índice de confiabilidade: apesar de acenar com um sopro de novidade política (mas não econômica, diga-se), o programa de governo de Marina não apresentou definições claras sobre temas como educação e crescimento econômico. Embora, enquanto Aécio não crescia nas pesquisas, o empresariado nacional passou a conversar com Marina, o que se viu na reta de chegada foi um reflexo do pequeno índice de confiabilidade do eleitor nacional na candidata do PSB. Essa ideia do eleitor aparentemente foi baseada nas falas públicas de Marina, sem conhecer mais a fundo a sustentabilidade de suas propostas.

Particularmente, não acho que as coisas mudariam significativamente num governo Marina (até porque, ela mesma disse que buscaria governar com os melhores do PT e do PSDB). Penso que o modelo neoliberal seria mantido na economia e que, ela, por seu histórico de lutas por causas sociais, também iria manter programas federais de diminuição da pobreza.


Lula perdeu 3 eleições consecutivas antes de ser eleito presidente em 2002. Resta a Marina o desenvolvimento da ideia de conciliar o melhor dos dois mundos, ou dos dois partidos que há 20 anos dominam a política federal. A realização de tal projeto parece estar mais no campo dos sonhos do que na arena da vida política concreta, mas quem sabe ela poderá vir com nova força e seus irrepreensíveis ideais para uma terceira campanha.

22 setembro, 2014

a jovem que queria ficar rica com música

Na feira de profissões, uma estudante se aproximou e disse:
 - O que mais amo é música.
 - Então essa é a profissão pra você. Pois, não é ótimo fazer o que mais se gosta e ainda ser pago por isso?
Olhando a cena, alguns dos alunos que trabalhavam comigo perguntaram:
- Simples assim, professor?
Respondi-lhes:
- Certamente. Pois todo o que vier perguntar sobre o curso de modo algum o lançaremos fora
Outra estudante veio e perguntou:
- Vem cá, música dá dinheiro mesmo?
- Não. Dá prazer, drama, emoção. Dinheiro, nem sempre.
Ela ficou meio decepcionada e seguiu seu caminho.
Os alunos voltaram a perguntar:
- Por que o professor não insistiu?
- É para que ela não perca tempo, já que tempo é dinheiro. Mas música, não. Música é outra coisa.

12 setembro, 2014

matou Deus e foi ao cinema evangélico

Eu bem que gostaria que fosse diferente, mas Deus não está morto é um filme que, embora queira partilhar uma mensagem profunda, é raso de espírito. Deus não está morto, mas a qualidade do cinema evangélico não passa bem.

Não vou falar da performance dos atores, da fotografia ou dos diálogos, todos de um primarismo que se nivela a um seriado bíblico da TV Record. Isso até seria uma marca das produções religiosas nacionais (de qualquer crença). Aliás, muito espectador dessas produções invoca uma virtude cristã, como a condescendência, para assisti-las.

As carências técnicas seriam um problema sem importância, se o alto valor da mensagem que o filme deseja divulgar fosse transmitido com acuidade e grandeza de espírito e não só com suposta nobreza de intenção.

O enredo trata de personagens evangélicos que são perseguidos e humilhados, mas têm uma luz celestial que lhes afasta de toda incerteza ou falta de racionalização crítica. Parece que são capazes de superar doenças com doses de cânticos e orações.

Já os não cristãos são vilões caricatos que, se não acreditam na existência de Deus, é porque eles sofrem com traumas do passado ou de autossuficiência arrogante, já que todas as evidências estariam aí para providenciar a aceitação lógica da fé.

Não importa se o personagem é ateu ou cristão, ele é retratado por meio de ideias preconceituosas e estereotipadas. Ninguém parece de carne e osso, mas apenas fantoches que se revelam como um tipo de evangélico falacioso e um espécime de ateu presunçoso.

Para piorar, o filme acaba mostrando uma noção nada cristã de Deus: a do ser vingativo que não suporta que ninguém discorde dEle, ainda que esse alguém não seja pior do que aqueles que professam a fé nEle.

A menina islâmica se converte ao cristianismo? Há um pai autoritário que a punirá. O rapaz é humilhado por causa de sua retórica evangélica? Seu opressor será punido. O professor não acredita na obviedade da existência de Deus? O próprio Deus o punirá.

Ao final, os humilhados compartilham o gostinho de vitória, o que transmite a ideia de alguns setores evangélicos de hoje, que repetem chavões triunfalistas de prosperidade pessoal. Não é difícil ver esse pensamento circulando em adesivos colados nos carros e em alguns refrões gospel.

Se a intenção era falar com quem não é cristão, o filme mostra um envelhecido e antipático discurso em relação a quem não enxerga a vida pelo mesmo prisma. Se era rebater Nietzsche, o bigodudo filósofo alemão é abordado de forma superficial e rasteira. Se o objetivo era pregar para os iniciados, duvido que todo protestante vá comprar essa retórica que promete uma solução fácil para questões de resolução bem complexa.


É uma pena que, na tentativa de ser didático, o filme esbarre em argumentos simplistas. Se a Bíblia tivesse sido escrita com a falta de densidade de tantos filmes evangélicos, a fé cristã não teria motivado nem um aleluia de Handel, quanto mais a persistência e fidelidade milenar dos cristãos.

09 setembro, 2014

o incrível cinema que encolheu

Joe Gilles: Você é Norma Desmond, atriz do cinema mudo. Você era grande.
Norma: Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.

A Rede Cinemark reprisou alguns clássicos do cinema: Bonequinha de Luxo, Lawrence da Arábia, O Poderoso Chefão I e II, Chinatown, A Felicidade Não se Compra, Taxi Driver. Só pelos títulos já dá pra concordar com a personagem Norma Desmond (personagem de outro clássico, Crepúsculo dos Deuses): o cinema encolheu.

O cinema ficou “big”, mas raramente é “great” como costumava ser. Cinema “big” sempre existiu, mas nos últimos 20 anos o cinema é grande no sentido de bilheteria, número de explosões, de efeitos visuais, de marketing gigantesco e merchandising incomensurável.

Raramente é grande no sentido de grandioso, de tematicamente ambicioso, que visa o impacto emocional e intelectual, e não somente o sensorial, que não tem medo da transcendência.

Bonequinha de Luxo é do tempo em que havia comédias românticas baseadas em roteiros inteligentes e bons atores e não apenas em situações inverossímeis e rostinhos jovens. Lawrence da Arábia é sinônimo de magnificência, A Felicidade não se Compra (assim como Ben-Hur) parece feito por gente que entendeu o cristianismo. Taxi Driver é violento, mas não faz apologia da violência nem se diverte com ela. Aqui, a violência e a violação dos indivíduos repercute a violência legalizada do Estado e a violação cotidiana dos cidadãos.


Na famosa saga da famiglia Corleone, o que se vê não é a glamourização da violência ou da máfia, como alguns enxergaram. Em O Poderoso Chefão II, percebe-se que a tragédia moral do chefão Michael Corleone é a tragédia moral da América, cada vez mais envolvida em corrupção e ganância. Nas primeiras cenas, os congressistas americanos estendem a mão aos mafiosos em negócios escusos. As famiglias e a América se acasalam para construir um império cuja fundação é poder, dinheiro e mentira. Nessa trajetória, morrem pessoas, famílias e a paz de consciência.

De um jovem herói da nação na II Guerra que não queria nada com a famiglia, Michael vai se tornando o espelho decadente de seu próprio pai, Vito Corleone. Um defensor intransigente dos negócios da famiglia e não da sua família, ele vai ficando cada vez mais taciturno e sombrio. Suas cenas são emolduradas pelas trevas, numa fotografia que escurece tudo em volta do personagem (foto acima). Do mesmo modo que seu pai foi filmado na primeira parte da saga, rodeado pela escuridão (foto abaixo).


Ao filmar a máfia como uma organização familiar, achou-se que o cineasta Francis Ford Coppola estava glamourizando a criminalidade. Nada mais falso. Na saga dos Chefões, a violência não se apresenta divertida, não há piadinhas depois de explosões. Há apenas o mal que provem da violência. 

Na verdade, a trilogia do Poderoso Chefão é um relato de como o crime se institucionalizou nos Estados Unidos (e em qualquer outro país) em forma de organização lícita, operando como os governos, que mostram uma fachada limpa em contraste com a obscuridade de suas tramoias e conluios. Esses filmes são um retrato da decadência moral da América, de um país que recebia os imigrantes com as mãos da Estátua da Liberdade, mas que lhes fechava os punhos na vida real, mostrando a face escura do mal, como diz a letra da canção “Alagados”.

Isso é cinema realizado com ambição, feito por cineastas que gostam mais de cinema do que de dinheiro. Não por acaso, a equipe técnica é composta de colaboradores geniais: o diretor de fotografia Gordon Willis, que filmou a máfia como um quadro do pintor holandês Rembrandt; o engenheiro de som Walter Murch; o músico erudito Nino Rota, cujos temas musicais amplificam a grandiosidade e a solenidade do filme.

Destaque-se a fotografia ao estilo Rembrandt (acima, o quadro "Festa de Belsazar"): a luz só mostra os elementos essenciais. Na abertura do primeiro Chefão, m homem chora na escuridão pedindo vingança para sua filha violada. A única luz está sobre sua cabeça. A câmera mostra a mão de outro homem que lhe estende um lenço e, em seguida, vê-se o rosto de Vito Corleone/Marlon Brando que vai atender o pedido. São tramas que só poderiam ser tratadas na escuridão, enquanto lá fora, tudo é sol e luz no casamento da filha do padrinho Corleone.

No segundo Chefão, o filme abre com outra festa ensolarada na propriedade dos Corleone. Depois, vemos Michael Corleone/Al Pacino receber um senador na escuridão do seu gabinete. São tramas que só poderiam ser negociadas nas trevas. O fotógrafo Gordon Willis iluminou (e escureceu) dois mundos contrastantes: a aparência familiar e institucional que a máfia quer transmitir; as negociatas e a decadência moral que afundam nas trevas.

E os atores? Quem são os Robert de Niro, os Al Pacino, as Diane Keaton de hoje? Os melhores atores já passaram dos 70 anos de idade e há raros substitutos para eles num cinema preferencialmente de franquia feito para ser degustado com pipoca e refrigerante.

Em Hollywood, embora ainda haja artistas genuinamente grandes, o cinema se apequenou.

25 agosto, 2014

os desafios são barreiras ou estradas?

Ontem eu deveria ter assistido o clássico "Lawrence da Arábia", mas não foi possível. Tive que me conformar com o filme "Expedição Kon-Tiki". Para minha surpresa, comecei assistindo contrariado e terminei empolgado.
Quando garoto e ratinho da biblioteca do internato, li pela 1ª vez a história de Thor Heyerdahl, o norueguês que, junto com outros 5 experientes em maluquices, exceto um tripulante que era só um vendedor de geladeira, cruzou o Pacífico da costa do Peru à Polinésia numa jangada.
Foram 101 dias e 8 mil km de mar. Thor tem nome de super-herói, mas seu único poder é uma perseverança cega. Aliás, perseverança tem de enxergar além, e não deve enxergar muito bem ao redor, senão ela desiste.

Thor desafiou o mar e a National Geographic ao refazer, no século XX, o mesmo caminho feito há 1.500 anos por homens destemidos como eles. O que ele queria provar? Que, para as civilizações antigas, "os mares não eram barreiras, mas estradas".
Numa noite, a equipe conversa, estirada na jangada e olhando pro céu: "Há 1.500 anos, homens como nós navegaram sob o olhar dessas mesmas estrelas". "Parece que estamos sozinhos no universo". "Por isso ninguém responde ao sinal de rádio?". "Eles devem ter se destruído uns aos outros com as bombas de Hiroshima".
Alguém disse que andar pelo caminho de alguém vai te levar somente ao lugar onde esse alguém já foi. Para Heyerdahl, era preciso refazer o caminho porque a ciência estava esquecendo que ela é feita de explorações ao desconhecido e de limites humanos desafiados.
No trajeto, Thor será triunfante, mas ficará sabendo que sua esposa pode amar um explorador, mas não pode viver com ele. É, Thor, não se pode ter tudo na vida. E entre o amor à aventura heroica e a estabilidade familiar, a esposa sabe que Thor escolherá o primeiro e o fará antes que um aventureiro lance mão.
Eu ainda trocaria todos esses pensamentos estimulantes pela sessão de "Lawrence da Arábia", épico majestoso e incomparável. É, Joêzer, não se pode ter tudo na vida.

Foto em preto e branco da jangada real da expedição Kon Tiki, de 1947.

15 agosto, 2014

a tragédia na era da zoeira


A "era da zoeira" não poupa ninguém. Nem os mortos de velhice, como Niemeyer, nem os que se vão cedo demais, como Eduardo Campos.

Antigamente, as pessoas contavam piadas nos velórios. Isso servia para passar a noite e para aliviar a gravidade do mal irremediável.

Mas nas redes da zoeira social não se ri da morte, nossa desgraça inevitável, nem dos mortos, nossos companheiros nessa condenação misteriosa, mas se zomba da memória dos vitimados, da única réstia de sua vida que deixam aos ainda vivos.

A era da zoeira perde a oportunidade de enlutar-se com os enlutados e relembrar que a vida é sopro e a morte é mistério.

A era da zoação ininterrupta deixa de ver que "é melhor ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao coração", como registra o livro de Eclesiastes.

Pena que, assim como nos filmes da atualidade, haja tão pouco espaço para a reflexão na tragédia e tanto gosto por zoeira e comédia.

12 agosto, 2014

robin williams e a sociedade dos professores mortos

Todos os dias, milhares de professores entram nas salas de aula, fazem a chamada, abrem o livro didático na página 171, viram as costas para os estudantes e prescrevem na lousa seu pacto com a mediocridade.

São professores mortos de uma aula morta. Não aproveitam a oportunidade para fermentar ideias de grandeza na mente de seus alunos. Ao apequenar sua aula, o professor-zumbi subestima seu papel social.

Eu ainda ouço vozes: “Carpe diem, aproveite o dia, faça de sua vida algo extraordinário”. É a voz do ator Robin Williams, artista de vastos recursos cômicos e dramáticos, e que, infelizmente, acabou de entrar para a sociedade dos grandes atores mortos.

O professor John Keating (interpretado por Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos) não dá aulas no sentido formal e solene do termo. O que ele faz é tentar inocular nos estudantes o germe da curiosidade e do protagonismo da própria vida. 

Para isso, ele rasga o formalismo das tradições e, em vez de fazer os alunos decorarem estilos e conceitos literários, ele desvela a beleza da poesia. Há um brilho nos olhos do professor Keating quando ele fala de poesia, “porque poesia não é para compreender e sim para incorporar”, como escreveu o poeta Manoel de Barros.

Nascido de pai e mãe apaixonados pela docência e pela leitura, eu não poderia ser outra coisa a não ser um professor que há décadas vive um tórrido caso de amor com aulas e livros. E quando estive desanimado com a profissão que escolhi (ou foi ela que me escolheu?), aparece um professor como John Keating vivido por um Robin Williams cheio de fervor nos olhos. Viu só? Às vezes, a culpa é das estrelas... de Hollywood.

Outro professor inspirador é o educador musical Murray Schafer (este, de carne e osso e muitas ideias). Ele disse que, ao contrário do que se costuma dizer, para aprender não é preciso talento e sensibilidade, mas coragem e curiosidade

Em outras palavras, eu digo que é preciso coragem pra experimentar e fazer da vida algo extraordinário; curiosidade para sair da gaiola e voar além das certezas dos livros e dos professores mortos. 

No filme, seja por medo de sair da gaiola ou por preguiça, nem todos os alunos sobem nas carteiras como o professor Keating. E você? É curioso para descobrir o que não está nos manuais? Você quer ser o protagonista de sua profissão?

Ou, como perguntaria o personagem-título David Copperfield no livro de Charles Dickens, "você será o herói da sua própria vida ou esse papel será desempenhado por outro?" 

Aprenda a lição dos poetas mortos e entre para a sociedade dos professores e artistas vivos e que deixam viver. Ouça as vozes, carpe diem, aproveite o dia, vá ser grande.


P.S.: lembre que, no the end, o prof. Keating foi demitido. Mas uma demissão não é o fim.

07 agosto, 2014

robôs: músicos do futuro?

“Fazer música usando robôs instrumentistas me fascina. As pessoas frequentemente presumem que músicas emocionalmente poderosas têm que vir diretamente demãos humanas. Eu discordo disso e me divirto provando que essas pessoas estão erradas. Esse projeto é uma excelente maneira de explorar mais essa área” – Squarepusher

Imagine um guitarrista com 78 dedos e um baterista com 22 membros. Essa é a banda do compositor Squarepusher tocando no Japão. São os músicos do futuro? Sim, mas duvido que os instrumentistas humanos serão substituídos. Até porque já inventaram sintetizadores, teclados e o Garage Band, mas muita gente ainda prefere ouvir música tocada por gente.

Quando bandas de robôs se multiplicarem e proliferarem como duplas de pop-sertanejo, provavelmente elas serão bastante utilizadas em casamentos, recepções de formaturas e demais eventos em que a parte contratante quer pagar o mínimo possível para os músicos contratados.


30 julho, 2014

os Arautos do Rei e o segredo da relevância


Os Arautos do Rei são um quarteto vocal masculino que está em atividade há mais de 50 anos. Como um grupo consegue por meio século sem perder a força e a relevância?

Me atrevo a dizer que há, pelo menos, duas explicações plausíveis para a bem-sucedida longevidade do quarteto: a manutenção da ética da missão cristã e a capacidade de atualização da estética da música cristã.

No caso dos Arautos do Rei, essas características tem sido interdependentes. Isto é, as inovações musicais têm auxiliado o quarteto a se reposicionar culturalmente em meio à passagem das gerações. Com isso, ele mantém a relevância de sua mensagem teológica e o sentido de sua missão evangelizadora.

Alguns creem que o texto sagrado e imutável deve ser cantado com melodias compostas em algum passado distante. Para estes, é como se o tempo, e não a atitude de adoração e a prática do louvor, consagrasse a música.

Ora, a passagem do tempo nos dá uma falsa perspectiva a respeito de coisas e eventos. Dessa noção enganosa deriva a ideia de que somente as músicas compostas no passado, ou semelhantes ao estilo do passado, são sacras. Quem pensa assim esquece ou ignora que as tais músicas do passado um dia foram “contemporâneas” e, antes de enfrentar o teste do tempo, encararam o teste do zelo e da tradição.


Um exemplo: a canção “Hei de Estar na Alvorada”, que hoje soa tradicionalíssima, foi apresentada com certo receio pelo quarteto ao seu orador, Roberto Rabello. A música parecia “moderna” demais para o espírito cultural protestante conservador de 40 anos atrás.

Outro exemplo: as inovações propostas pelo maestro Jader Santos no final dos anos 1990 tinham o objetivo de manter o quarteto relevante junto à geração jovem que se expandira no meio cristão brasileiro. Hoje ninguém tem dúvidas de que a renovação etária dos componentes do quarteto realizada a partir do CD “Se Ele Não For o Primeiro” propiciou a renovação do seu público.


Alguns dirão que isso pode ter sido uma jogada de marketing a fim de encontrar outro nicho de mercado. Bem, da lógica do capital nenhum cristão está mais ileso. Entretanto, por outro lado, aquela renovação musical e etária atraiu a juventude para a audição da tradicional densidade teológica dos Arautos. A renovação do timbre vocal e instrumental diminuiu o fosso geracional de apreciadores do quarteto.

(Ressalto que a renovação também se deu em termos étnicos, visto que, além de cantores mais jovens, agora havia integrantes negros, os quais, além de musicalmente bastante habilidosos, deram ao quarteto uma configuração mais próxima ao quadro étnico das igrejas no Brasil).

Se o quarteto chegou aos 50 anos com um corpinho de 25, se os Arautos do Rei conseguem reunir em seus concertos públicos mais de duas gerações, é porque eles têm sido bem sucedidos na conservação da relevância teológica e musical em meio às rápidas mudanças culturais e artísticas.

Desse modo, a trajetória dos Arautos do Rei superou a perda de relevância e contraria o inevitável engessamento musical que decorreria do apego ao tradicionalismo cultural.

Recentemente, o quarteto lançou o videoclipe “Tenho Paz”. Nele, os integrantes andam num jipe por uma estrada e falam de paz com Deus e com os semelhantes. O acompanhamento é feito com um ukelele e a canção lembra as canções tranquilas do cantor pop Jack Johnson. Parece que isso tem sido suficiente para a instalação da controvérsia. 

Os críticos, quase sempre cultores do “estilo” dos antigos Arautos, já estão dizendo que o quarteto está se mundanizando, que a canção é um reggae (!), que os Arautos não são mais de Jesus...

Mais uma vez os críticos esquecem ou ignoram a história do quarteto, de suas inovações, todas elas empreendidas com moderação. Omitem, ainda, o fato de que essa é apenas uma dentro do repertório de músicas de andamento lento e reflexivo. Além disso, a beligerância dos opositores das inovações musicais solapa exatamente a característica de êxito cultural e espiritual dos Arautos: a capacidade de autoajuste que o mantém relevante musical e teologicamente para novas gerações.

Voltando à pergunta “como os Arautos conseguem se manter relevantes há mais de 50 anos?”, talvez a resposta esteja num ponto transcendental. Por que, como explicar que, numa mesma família, pais, filhos e netos gostem dos Arautos, ainda que apreciem músicas compostas em épocas distintas?

Arrisco a dizer que essa característica de inovação estética conjugada à manutenção da ética missiológica (ou missionária) pode conservar não apenas a credibilidade do quarteto, mas também o sentido e a preciosidade de sua mensagem por muito tempo ainda.

Isso não é uma profecia minha. Digo isso fundamentado na trajetória conhecida, e às vezes oportunamente ignorada, de um grupo musical que tem cativado tantas pessoas por tanto tempo.