30 janeiro, 2012

SoundCloud: os novos rumos do som que você ouve e faz


O SoundCloud está mudando as formas da atividade industrial-musical. São as novas tecnologias criando novas maneiras de circulação do som que você ouve e faz. Aliás, circulação não é a palavra adequada, porque nas redes sociais não se anda em círculos e o destino é imprevisível. Nada será como antes.

Confira parte da reportagem do Estadão intitulada "SoundCloud, a voz do som":

“Não acho que somos apenas uma rede social de música”, diz Dave Haynes, vice-presidente de negócios do SoundCloud.

Haynes pode até desconversar, mas o fato é que, aos poucos, seu site vem se estabelecendo como a principal rede social de música na internet, título que já foi do MySpace, quando este aspirava a ser maior rede social do mundo. Enquanto este último deslizou ao deixar a música em segundo plano – e aos poucos perder a relevância digital –, o SoundCloud restringiu seu foco e dedicou-se apenas ao compartilhamento de arquivos de áudio.

Esta definição rendeu bons frutos. Menos de dois anos depois de ter sido criado na Suécia em 2009 pelo engenheiro de som Alex Ljung e pelo artista Eric Wahlforss, já conseguiu atrair grandes nomes do mercado musical. Hoje o site é baseado em Berlim, na Alemanha. E diferentemente do MySpace, que começou a ganhar fama ao revelar artistas independentes como Lily Allen, Arctic Monkeys e Mallu Magalhães, o SoundCloud teve a facilidade de ser reconhecido mais naturalmente por artistas já estabelecidos. 

Eles começaram a usar a plataforma para mostrar, em alguns casos na íntegra, lançamentos inteiros em streaming, como foi o caso do Foo Fighters (/foofighters). A banda deixou seus fãs ouvirem todo seu disco mais recente na mesma semana em que ele foi para as lojas – digitais ou não. E não são apenas artistas cujos fãs já estão habituados a baixar músicas online, como é o caso do ex-beatle Paul McCartney (/paulmccartney). Ele encerrou o ano passado apresentando a primeira faixa de seu próximo disco na rede social. O disco será lançado no mês que vem.

E não são apenas artistas que se prontificaram a estabelecer perfis na rede social. Muitas gravadoras – principalmente selos pequenos – já o utilizam como base para lançamento de seus artistas, apresentando canções, discos e até mesmo promoções, como foi o caso da gravadora nova-iorquina DFA Records (/dfa-records). Na outra ponta do espectro, a tradicional gravadora alemã de música erudita Deutsche Grammophon (/deutschegrammophon) também tem seu perfil no site.

Mas se Haynes não acha que o SoundCloud é uma rede social de música, então o que é este site, que, na semana passada, comemorou a marca de 10 milhões de usuários? 
“Somos uma plataforma de criadores de áudio”, diz. “É natural que nos associem a artistas, afinal música é muito popular e vários nomes – tanto estabelecidos quanto iniciantes – já ajudaram o público a entender a natureza do site. Mas achamos que música é só uma pequena parte de nosso potencial. Hoje, graças aos celulares, todos carregamos uma câmera no bolso, também temos um microfone à nossa disposição o tempo todo. E é nisso que apostamos.”

O executivo do site lista que as pessoas já usam o SoundCloud para publicar comentários falados, fazer diários em áudio, entrevistas e ler textos em voz alta. “E não são apenas pessoas comuns, mas jornalistas, comediantes, editoras de livros, radialistas, escritores, emissoras de rádio e TV”, continua Haynes.

Não é pouca coisa: nomes como a editora Penguin, a revista Vanity Fair, a emissora de rádio norte-americana ABC, a Sociedade Real de Literatura Inglesa e a BBC também utilizam a plataforma para priorizar mais a voz do que canções. A voz vai substituir o texto como principal meio de comunicação na rede?

“Acho que isso é uma tendência que ainda vai se estender por alguns anos. A revolução da telefonia móvel está apenas começando”, diz, citando que só agora estamos vendo a ascensão dos smartphones para as pessoas que até outro dia apenas trocavam SMS e conversavam pelo celular. Ele completa: “Acredito que é uma tendência sem volta”.

(A matéria completa aqui)

17 janeiro, 2012

o sagrado e o profano na terra da paródia

O neopentecostalismo surge num momento em que as fronteiras entre sagrado e secular estão cada vez mais diluídas. No esforço eclesiástico de dar sentido ao conteúdo bíblico para as novas gerações, os tradicionais limites que separavam a igreja de um modelo cultural secular foram progressivamente apagados, levando a um processo de nivelamento entre o sagrado e o secular.

As igrejas cristãs contemporâneas demonstram uma enorme tendência a sacralizar o profano, expressadas em eventos como o “Carnaval de Jesus”, a “balada gospel” ou a rave gospel. O sociólogo da PUC-Campinas, Luiz Roberto Benedetti, entende que essa postura das igrejas revela que “há, aqui, mais do que transposição, um nivelamento entre sagrado e profano” (As Religiões no Brasil, p. 132).

Vemos as igrejas atuais cada vez mais afeitas à mimetização de eventos seculares do que ao trabalho de reforma espiritual da sociedade. As cidades recebem apenas o impacto de multidões movendo-se de um logradouro público a outro, de uma inauguração de igreja a outra, de um show a outro show. Os evangélicos vão se dividindo entre entusiasmados e envergonhados, como se notou na reação à presença de artistas/ministros gospel com público de verão e dançarinas de biquíni no palco do programa Caldeirão do Huck

Levados à igreja supostamente pela música, os novos conversos são deixados à margem do estudo da Bíblia e sobrevivem espiritualmente pela graça de Deus e pelo poder dos chavões de cura, unção e prosperidade.

No entanto, vejo que, apesar da sinceridade que possa existir, alguns músicos intitulados levitas têm borrado perigosamente a fronteira entre sagrado e profano. Veja o que diz a letra de “Ofertório”, de Adriano Gospel Funk:

Tem ofertante dizimista aqui? / Se tem, dá um grito
Tem mão de onça? / Se tem, vai ser queimado agora
Mano para de “caô” e deixa de ser enrolão
Se você não é dizimista “pode crer” tu é ladrão

A canção "Ofertório" apresenta características ligadas ao funk carioca (o "batidão"), como descontração, linguagem coloquial, tratamento irreverente de temas mais sérios e estrutura rítmica dançante. Em contraste com a seriedade e a solenidade que marcam as composições feitas para o tradicional recolhimento de dízimos e ofertas nas igrejas protestantes históricas, essa canção denota uma ambiguidade que apaga a seriedade da mensagem, já que seu teor humorístico confunde os limites tradicionais entre sacro e secular a ponto de não ser possível definir imediatamente se a canção pretende incentivar ou satirizar a doutrina.

No mesmo espírito, o hit “Créu” foi adaptada para “Céu”. É como se batizassem a canção original e agora ela fosse capaz de emitir significados altamente espirituais e cristãos. Mesmo quem não pertence oficialmente a uma igreja, não se constrange e faz uma paródia gospel de sucessos seculares. Vamos culpar os satiristas? Quem começou com isso foram os próprios evangélicos!

O hit do momento “Ai, se eu te pego” tem agora uma versão gospel: "Deus, eu te quero". E há quem creia que não importa como a mensagem seja pregada, o importante é pregar a mensagem! Sem mais.

P.S.: o vídeo abaixo foi removido pelo usuário, mas no YouTube deve ter outro link com a versão. Se você  for muito curioso, procure por lá. Mas é melhor fugir para as montanhas!


16 janeiro, 2012

todo mundo odeia o Michel Teló


Agora que Michel Teló lançou a Macarena do começo do século, o cidadão brasileiro anda indignado com o sucesso do rapaz. Não adiantou. O hit Ai, se eu te pego globalizou e já conta com versão pra inglês requebrar: Oh, if I catch you. Mas poderia se chamar “Nobody deserves it” (Ninguém merece).

Nosso último representante a ser vertido para a língua de Shakespeare tão rapidamente foi Tom Jobim. Muito salão de espera ao redor do mundo ainda toca The girl from Ipanema, One note samba e Waters of March. Tom preocupava-se em transportar para a letra em inglês a mesma carga de poesia e aliteração que a canção possuía em português: na canção Corcovado, aquela famosa primeira frase, “um cantinho, um violão”, se tornou “Quiet night of quiet stars”. Isso é trabalho de versão. Trabalho de tradução seria simplesmente escrever “A little corner, a guitar”.

Mas aqui também é a terra do gênio de Falcão, um caso raro de bregueiro contemporâneo que não se leva a sério. Ele cometeu uma tradução para o inglês do sucesso de Waldick Soriano, Eu não sou cachorro não. Juntando a paródia com a vontade de rir, Falcão nos legou o clássico I’m not dog no.

A única diferença entre Michel Teló e Falcão é que o primeiro não usa uma flor gigante cravada no terno escalafobético. Duvida? Na versão em inglês de Oh, if I catch you, os versos “Nossa, assim você me mata” transubstanciaram-se em “Wow, this way you’re gonna kill me”.

O co-autor dessa versão é o Google Translator. Logo virão versões de sucessos recentes como Each one on his square (cada um no seu quadrado), ou de clássicos como Hold the tchan. E assim a música brasileira, digo, a vaca vai pro brejo. Ou “the cow went to the swamp” (Millôr Fernandes).

Pegaram o Michel Teló pra Judas, como se ele tivesse traído a cultura da pátria. Os nostálgicos, que são aquelas pessoas de memória curta, dizem que não era assim no tempo deles. Já esqueceram que, há 30 anos, Gretchen cantava em francês, rebolava em português e ainda faturava em dólar. E na década de 1970, o paulista Maurício Alberto fazia letras direto em inglês, como a do sucesso de todos os bailes de quinze anos da época, “Feelings”. Para evitar o preconceito do mercado internacional, Maurício Alberto virou Morris Albert.  

Se fosse naquele tempo, Michel Teló seria só o nome artístico de alguém chamado Miguel Teles.

O problema não é o hit parade que toca nas rádios e TVs dos últimos séculos. É só a gente não ouvir e ver certas emissoras. O problema é a ditadura do hit parade que silencia qualquer outro estilo de música que não esteja "na moda".

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Para outros grandes vultos nacionais idolatrados e odiolatrados, confira a seção "Everybody loves/Todo mundo odeia".


10 janeiro, 2012

a vitória de Messi, o anti-star


Lionel Messi ganhou o prêmio FIFA/Bola de Ouro de melhor jogador do mundo pelo terceiro ano consecutivo. E ninguém impede que ele continue sendo o melhor pelos próximos dois ou três anos. A menos que outros melhores que o enfrentam nos gramados, como Cristiano Ronaldo e Neymar, consigam vencer o time do Barcelona pelo menos três vezes por ano.

Neymar/Cristiano Ronaldo vs. Messi não é só um duelo de habilidade futebolística. É um confronto de personalidades. Pode haver mais diferença entre o comportamento narcisístico  do craque portuga Cristiano Ronaldo e o discreto Messi? Ou, entre os duzentos penteados bizarros de Neymar e o cabelo sem tintura do Messi?

Não estou dizendo que todo mundo tem que ser igual, que todos devem ser robozinhos com a mesma personalidade. Mas quando eu vejo garotos de 8 anos pedindo “papai, me dá um moicano de presente”, só me resta torcer para que o cabelo do Neymar seja o último dos moicanos.

No fundo, o penteado nem é o problema. Ao menos dá emprego pra cabeleireiro. Pior é quando imitam a empáfia, a vaidade, o egocentrismo de outros craques tidos e havidos por predadores de Maria-chuteiras e matadores de Ferrari.

Você já viu o Messi fazer dancinha na frente do zagueiro? Ou abrir os braços reclamando que o time não acerta um passe pra ele? Ou bater no peito feito um fariseu ao fazer mais um golaço?

Você já viu o Messi desfilando de Ferrari com uma “atriz e modelo”? Ou chegando atrasado ao treino porque a noite fez, digo, é uma criança? A vitória de Messi não é só o triunfo da beleza do drible e do encantamento do gol. É a vitória do anti-star. É um anti-Ronaldo, a despeito de todos os atributos físicos, espaciais e motores de Cristiano.

O comportamento de Messi dentro e fora de campo é espelho do time do Barcelona, um time que humilha o adversário sem provocá-lo à guerra. Quem perde do Barcelona não sai de campo com raiva (a não ser o Real Madri, justo o time de Cristiano Ronaldo e José Mourinho, jogador e técnico antônimos de Messi e Pep Guardiola).

Nós, enjoados torcedores brasileiros, admiramos Messi, que parece ser um gênio como Maradona, mas felizmente não tem o gênio de Maradona. Contudo, Messi é tão desprovido de empáfia que tem brasileiro desconfiando que ele não seja argentino. Bem, já que o Barcelona nem parece time desse planeta... 

Mais:

05 janeiro, 2012

umberto eco: para gostar de ler


Umberto Eco completa 80 anos de vida. Erudito versado em arte, literatura,linguística, filosofia, estudos da mídia, religião e ainda um romancista bestseller, Eco parece capaz de escrever sobre qualquer assunto com maestria.

Ele mistura investigação criminal com discussões filosófico-religiosas em O Nome da Rosa; discorre sobre a multiplicidade, mas não a infinidade, da interpretação de uma obra no livro Obra Aberta; analisa a divisão entre os que veem a cultura de massas como um transtorno cultural e os que aderem alegremente à cultura pop, como em Apocalípticos e Integrados; defende a existência do livro apaixonadamente em Não Contem com o Fim do Livro.

Numa eleição promovida pela revista Prospect, figurou em segundo lugar como o maior intelectual vivo do mundo, atrás de Noam Chomsky. Com a ajuda do WikiQuotes, selecionei algumas frases de seu livro mais conhecido como pequena homenagem a esse gigante do pensamento.

De "O Nome da Rosa" (vale a pena assistir ao filme):

"Nada inspira mais coragem ao covarde do que o medo alheio"

"Não há progresso, não há revolução de eras, na aventura do saber, mas, no máximo contínua e sublime recapitulação"

"Os livros não são feitos para se crer neles, mas para serem submetidos a investigação."

"Fragmentos da cruz vi muitos outros, noutras igrejas. Se todos fossem autênticos, Nosso Senhor não teria supliciado sobre duas hastes cruzadas, mas sobre uma floresta inteira."

"O caminho da ciência é difícil e é difícil distinguir nele o bem do mal. E freqüentemente os sábios dos novos tempos são apenas anões em cima dos ombros de anões. O limite entre o veneno e o remédio é bastante tênue, os gregos chamavam a ambos de Pharmacon."

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Para pesquisadores, o breve Como Fazer uma Tese é indispensável. É onde ele diz que não há objeto de pesquisa indigno, mas sim metodologia inadequada.

03 janeiro, 2012

aquela velha opinião formada sobre os evangélicos


Originalmente publicado no blog Amigos do Presidente Lula. Vi no Pavablog.


Preconceito contra evangélicos no Estadão.

Quando noticia um evento de massa de uma igreja evangélica, retrata como "estorvo", como "problema de trânsito". Escolhe para entrevistas só quem se sentiu prejudicado e não dá voz aos membros e fiéis da igreja, que também tem o direito de ir e vir, e também sofreram com o trânsito caótico, e com a falta de apoio da Polícia Militar, que avaliou como “normal” o trânsito naquela área e não mandou reforços para organizar o trânsito na rodovia.



Quando o jornalão retrata outro evento de massa equivalente, porém da igreja católica, dá ênfase diferente e só positiva, mostrando apenas a visão dos fiéis e das autoridades eclesiásticas (o que até está correto, errado é fazer o que fizeram com a Igreja evangélica).


O tratamento diferenciado mostra o quanto existe de preconceito religioso (e até perseguição) no jornalão.

Se fosse um jornalismo isento, ou a manchete de cima seria "Igreja recebe 500 mil na inauguração", ou a manchete de baixo também mostraria os transtornos que grandes multidões provocam na região de Aparecida do Norte.

No Brasil a liberdade religiosa é plena, não existe religião oficial e, portanto, ninguém é obrigado a seguir uma ou outra religião. Por isso religião não é questão política. O cidadão brasileiro segue sua crença por livre escolha ou tradição familiar (que também não deixa de ser uma escolha, a partir da idade adulta), e todos merecem respeito. Ninguém tem o direito de desrespeitar a fé alheia, por mais que discorde. Quem quiser fazer reflexões e diálogos entre religiões que faça, mas com o devido respeito.

Cada um que escolha e viva a sua (ou nenhuma) religião e deixe os outros viverem sua espiritualidade ou materialismo em paz, sem promover cizania como faz o "Estadão". Guerras religiosas não são de nossa natureza, e massacres como o da noite de São Bartolomeu pertencem à barbárie medieval.

Direito de ir e vir é de todos

O jornalão dá ênfase só aos transtornos de quem tinha que pegar vôos no aeroporto de Cumbica. Ora, claro que é lamentável para qualquer pessoa perder um vôo, mas o direito de ir e vir é de todos. As vias construídas com o dinheiro dos impostos de todos não são exclusivas para os passageiros de avião. Quem quiser ir à Igreja (à qualquer Igreja) tem tanto direito de fazê-lo quanto quem quer viajar de avião.

Se alguém é responsável por não reduzir danos do transtorno no tráfego é o governador Geraldo Alckmnin (`SDB/SP) que não montou um esquema especial de policiamento para conduzir o fluxo de veículos. E também a Privataria Tucana, pois a concessionária CCR Nova Dutra, que cobrou uma fortuna de pedágio dessa multidão, nada fez para melhorar as condições do trânsito.

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Nota na Pauta: perguntar não ofende: como o Estadão se posicionará quando a inauguração da catedral do padre Marcelo Rossi "atrapalhar" o trânsito? 

Só não dá para embarcar na imparcialidade do blog que critica o Estadão, já que não deixa de ser a crítica da esquerda ao jornalão da direita (não parece, mas essa polarização ainda existe).

Mas convenhamos: o Estadão e a Folha de S. Paulo não dão espaço para a crítica ao modelo teórico (neo)darwinista do mesmo modo que nesses jornais você não verá uma crítica à José Serra. Eles são bem (neo)"liberais" quanto o assunto é ciência e economia, mas têm a mesma velha opinião formada quando o assunto é o ex-presidente Lula ou os evangélicos.