30 dezembro, 2009

bom ano novo e happy new ears

Os homens e suas marcações de data. Quando o ano novo mal se avizinha, é um tal de prometer mais trabalho, profetizar trabalhar menos, renunciar a vícios, propor bons hábitos, jurar persistência, afiançar paciência, professar dietas, corridas vespertinas, devoções matinais e toda sorte de cuidados para manter a mente sã, de preferência num corpinho são.

O ano novo é como uma grande segunda-feira carregada de boas resoluções. Agora a coisa vai, dizemos! Relembrando as músicas de 2009, percebo que, para um autoproclamado músico, escutei pouca música. Decido, então, ouvir mais música. O problema de ouvir mais música é o risco de ouvir mais música ruim. E pior que música ruim é a música desnecessária. Aquela que ninguém precisava ouvir, mas acabou ouvindo só porque um blogueiro que acha que entende de música escreveu que você devia ouvir.

Claro, algumas coisas você não precisa ouvir, como: cantor breganejo com nome bíblico (Pedro & Thiago, Daniel,...), grupos pop com nome de número série de celular (nxzero, cpm-22), disco gospel infantil com título de canções que comecem com “dança do... fulano, beltrano ou mascherano” ou qualquer coisa que venha embalada em funk do bem, pagode de Jesus ou metaleira do senhor.

Do pouco que ouvi:

Vale a pena esperar, dos Arautos do Rei

Um CD que poderia chamar-se também “back to basics”. Sob nova direção, os Arautos conseguem renovar-se sempre, mesmo quando parece estar dando um passo atrás. No meio de tanta empolação de arranjo pop-orquestral e melisma que assola esse enorme país evangélico, o quarteto voltou ao básico, fez a lição de casa e apresenta um conjunto inspirado de letras diretas, melodias agradáveis e arranjos corretos.


A força da vida, de Joyce Carnassale

Não está cheio de canções levezinhas para ouvir “curtindo um som gospel contemporâneo”. Não se faz de modernoso como a maioria dos discos de cantoras modernosas seculares. Repertório de alto nível, arranjos que equilibram a tradição orquestral e a modernidade dos timbres eletrônicos: este não é um álbum para ouvir lavando o carro na sexta. É um CD que lava nossa alma todos os dias.



Miramari, de Gabriel Mirabassi e André Mehmari

Dois músicos excepcionais, um italiano (no clarinete), um brasileiro (ao piano), fazem o disco instrumental “inrotulável”: É erudito? É popular? É as duas coisas que somadas perfazem outra? Sei que ambos têm formação clássica, mas o que eles fazem não se pode chamar de clássico. Sei que ambos trafegam na música popular, mas o que fazem nesse álbum pode ser chamado de música de câmara. E o principal: não é um disco de arranjos eruditos de “crássicos” da mpb.



Debussy, de Nelson Freire

A gentileza do gênio do piano encontra a sutileza do gênio da composição. Nelson, com sua forma elegante e gentil de tocar, sem grito, interpreta músicas inebriantes e doces de Debussy. Um sopro de contenção no meio de tanta grandiloquência e regente exibicionista.

Euzinho aqui, estive anonimamente tocando meu pianinho. Para sorte dos seus ouvidos, caros leitores, o anonimato foi algo levado a sério. Teve uma composiçãozinha e muitos acompanhamentos ao piano para o Curitiba Coral. O melhor foi o privilégio de ter tocado uma grande música de Lineu Soares e Mário Jorge Lima, “Dá-nos mais poder”, para o trio Riane Junqueira, Joyce Carnassale e Allan Breno. Se tiver paciência, você pode ver nosso ensaio no youtube nesse link . O dono das imagens da apresentação ao vivo me fez o favor de não disponibilizar na internet. Quando eu digo que meu anonimato é levado a sério, ninguém entende.

Este foi meu ano musical. Desejo a todos um “happy new year” e, principalmente, um “happy new ears”. Que nossos ouvidos se renovem para que, acima da necessidade de valorizar as novas sonoridades e nunca desprezar os sons antigos, escutemos a voz do Senhor da nossa vida e da nossa música.
Atualização: desejo uma melhor memória pra mim no ano que vem. O letrista da canção "Dá-nos mais poder" não é Valdecir Lima, como escrevi antes, é Mário Jorge Lima. Obrigado ao leitor Guilherme Silva, que corrigiu o erro e manteve o alto nível do controle de qualidade do blog.

27 dezembro, 2009

meninos, eu li em 2009

Depois de encerrar o mestrado, consegui diversificar um pouco mais minhas leituras e audições. Ler tanto sobre pós-modernidade, cultura da mídia e música gospel foi me cansando com o tempo. Destaco abaixo os livros que mais me marcaram, que ampliaram meu tacanho horizonte.




O resto é ruído, de Alex Ross

Um grande livro deste final de década. Com elegância na escrita e rigor na pesquisa, o especialista Alex Ross traça um amplo painel da música do século XX ao descrever os conflitos e contradições da música de vanguarda, do pensamento modernista e as interinfluências da música popular e da música erudita. Um entre tantos capítulos imperdíveis é aquele que relata que os artífices do jazz nos anos 1920 eram músicos negros de formação clássica que buscaram a sobrevivência profissional na música popular por causa da rejeição da indústria de concertos.


Celebridade, de Chris Rojek

Um ensaio de altíssimo nível sobre a cultura da celebridade, seu desenvolvimento histórico e sua consolidação na era do culto à imagem pública do indivíduo. Um livro essencial para entender a competição alucinante do indivíduo moderno para ser famoso (pelo bem ou pelo mal).



Cristianismo puro e simples, de C. S. Lewis

O autor não prega a fuga da igreja institucionalizada, situação em que cada indivíduo se serve na prateleira de doutrinas. Ele aponta, de forma clara, como o evangelho simples de Cristo pode ser vivenciado e testemunhado nas ações diárias. Capítulo marcante: o que fala da fé e da esperança cristãs.


Portadores de luz, de Richard Schwarz e Floyd Greenleaf

Uma história da igreja adventista do sétimo dia que não deixa de fora as tensões, os desafios, as marchas e contramarchas de uma organização cristã mundializada. Obviamente, é uma narrativa mais centralizada nos Estados Unidos, mas os autores aliam o pano de fundo teológico da direção divina a uma consciência histórica e sociológica com precisão.


O deserto dos tártaros, de Dino Buzzatti

Como é bom morar numa cidade que possui uma biblioteca pública que disponibiliza para empréstimo clássicos da literatura como este. A história de Giovanni Drogo, um soldado que espera uma guerra que nunca acontece para tornar-se um herói, é uma reflexão sobre o tempo que as pessoas podem desperdiçar em objetivos inúteis e irrefletidos, às vezes sendo um espectador da própria vida.

As cidades invisíveis, essa proeza literária de Ítalo Calvino, é uma viagem pela beleza das descrições de paisagens e pelo poder da imaginação humana.

A invenção de Morel, do argentino Adolfo Bioy Casares, é um conto de ficção cuja narrativa é tão fascinante quanto a escrita. Dizem que o seriado Lost teria se baseado na trama desse livro (mas não teria sabido imitar a genial concatenação das ideias do original).

Futuro da música, organizado por Irineu Franco Perpétuo e Sergio Amadeu, é um livro que não foi impresso e está disponibilizado gratuitamente por seus autores no site futurodamusica.com.br. Leia o capítulo sobre download e cópia de música e teste se seus conceitos sobre o assunto ainda serão os mesmos.

Cá pra mim, nesse ano tive minhas letras publicadas regionalmente - no jornal trimestral Viva Feliz, da IASD Central de Curitiba, com o artigo "Para viver com esperança"(tiragem de 25 mil impressões, nunca tive tanta chance de ainda não ser lido) - e, tremam, nacionalmente - na revista Bravo! de fevereiro está meu comentário sobre a microssérie global Dom Casmurro, e na revista Conexão JA está o artigo "Entre o sagrado e o profano". Será que posso contá-las entre as minhas façanhas juntamente com meus dois filhos e uma árvore plantada na quarta série do fundamental?

Ano que vem, boas leituras para todos nós.

24 dezembro, 2009

o natal de todas as horas

No famoso Conto de Natal de Charles Dickens, um ricaço aprende a sublime lição de partilhar na época do Natal. Assim, é o espírito de Natal que entra no coração endurecido do endinheirado e o faz passar de um Tio Patinhas mão-de-vaca a um generoso doador de felicidade.

O Natal tem dessas coisas: após um ano sendo um executivo mal-criado e grosso, o sujeito é subitamente tocado por uma liberalidade que o leva a fazer doações a granel e dar presentes a rodo. O Natal é o Yom Kippur (o dia do perdão) dos megaempresários de consciência pesada.

O que é o Natal, pergunta a repórter do telejornal? É um momento para reconciliação com a família, com os amigos, responde uma transeunte carregada de sacolas. É a hora em que desejamos paz e felicidade para todos, responde outra passante no shopping. Com mil renas voadoras, agora é o chester que será responsável pelo congraçamento do núcleo familiar. Coma o tender e love me tender.

Torramos nossos décimos-terceiros sem dó, ceamos a fauna e a flora disponíveis (mais fauna do que flora, não minta, menino).

Mas percebo como nós, humanos cheios de desumanidade em geral, só doamos, partilhamos e compartilhamos quando há uma grande campanha beneficente, tipo o Criança Esperança, ou quando uma efeméride, como a Páscoa e o Natal, enche nossos corações de pedra com sentimentalismo e piedade.

Segue um poemeu de última hora, feito, talvez sem o perceber, com as digitais dos sentimentos do Natal impregnando-se nas palavras escolhidas:

Se a hora é essa e não todas as outras do ano,
então que os valores de uma boa mesa,
mesmo que cara,
não sejam mais preciosos do que os valores de uma boa amizade,
mesmo que rara.

Tenho dificuldades em relacionar dezembros a estrelas-guia
Me parece uma data inventada
Mas se a hora é essa e não a de todos os meses
Então que a benção seja maior que a dos magos
Ainda que os cartões demorem a ser pagos

Não entendo o que tem a ver um velhote barbudo,
neve, Coca-Cola, pinheiros e presépio
mas sei que não há chaminé nem lareira
que aqueçam famílias se estão quebradas,
amizades se estão divorciadas,
conversas se estão ausentes,
se Cristo não está no coração das gentes.

Se a hora é essa e não a de todas as horas
Então que se renovem os votos de boa vontade
entre os homens
(e principalmente, entre homens e mulheres)
Se o dia é esse e não o de todos os dias
Que se reencontrem os abraços partidos
Que se rebeijem os amores queridos

Feliz você nesse natal!

20 dezembro, 2009

entre o sagrado e o profano

Movido pela vontade de reparar as brechas do pecado alheio, não raro o escriba cristão descamba para a crítica de atividades mundanas que os sóbrios humanistas também rejeitaram. Percebendo, então, que a bebedeira, a micareta e a Britney Spears também são pedra de escândalo para agnósticos e ateus, vou rabiscar o que seriam alguns dos comportamentos de professos cristãos neste mundo velho com porteira e câmera de vigilância.

Antes, é preciso saber de que cristão vou falar. Sim, porque há quem se diga cristão não-praticante (censos apontam que sua maioria é composta de católicos. Ninguém ainda se diz evangélico não-praticante ou espírita não-praticante). O católico não-praticante seria como um torcedor que só vai ao estádio quando tem jogo da seleção.

De outro lado, há o cristão que pensa praticar o cristianismo, mas na verdade ele pratica o "igrejismo". O adepto do igrejismo é como aquela criatura que assiste a dez telenovelas diárias, ri, chora, dá ordens aos personagens e nunca se interessa por outro tipo de emoção. O adepto do igrejismo não vive como quem espera novos céus e nova terra; ele vive como se não houvesse nem a velha terra onde pisa.

Há o cristão da urgência. Ele tem boas-novas a anunciar e não tem tempo a perder com jogos de futebol, filmes e livros não-religiosos. Para ele, a música não tem outra função senão a de servir de atração evangelística ou acessório para os intervalos em que ele não está pregando. Os únicos livros não-denominacionais que ele aprecia são aqueles de desconhecidos autores que falam de uma teoria conspiratória político-empresarial para domnar o mundo.

Há o cristão da displicência. Ele tem boas-novas a anunciar, mas sempre tem um programa imperdível apra ver ou fazer no mesmo horário. Esse tipo se divide em:
fãs de futebol (criticam quem assiste novela enquanto se desesperam diante de um jogo na TV);
cinemaníacos (a diferença entre o cinéfilo e o cinemaníaco é que o primeiro já distingue temperos e cardápios enquanto o segundo no máximo saliva de um prato gorduroso);
e estetas ecléticos (esse esteta dá um boi para entrar numa discussão sobre o gosto e uma boiada para não falar de assuntos religiosos).

O problema desse meu grosseiro rascunho é que mal cobre uma dúzia de pessoas, que dirá milhões. Assim, prefiro dizer que somos cristãos, em diferentes ocasiões, tanto da urgência quanto da negligência. Não sei se algum leitor se sentirá à vontade para enxergar-se dentro de algum dos tipos que listei. Se assim for, bem-vindo ao clube.

O cristão moderno tornou-se um bom samaritano que vive a decidir se ajuda os semelhantes ou vai à exposição no museu. Ele ainda não aprendeu que há tempo para tudo debaixo do sol. Inclusive para ser uma pessoa melhor. Porém, na tentativa de viver para a igreja, vira um ermitão: querendo relacionar-se com a modernidade, ele negocia princípios.

Quero dizer que o cristianismo não é apenas mais uma religião do equilíbrio. Não é o Tao. Ao contrário, o cristianismo também é a religião da tensão. Não aquela tensão da culpa, do remorso sem fim e da ira, e sim a tensão que tem que conviver com virtudes e defeitos, arrependimento e irmão, mas que não busca conciliar vícios e benefícios.

Pra ficar nos exemplos da arte e da literatura: tal cristão pode ler Dostoievski e o livro de Daniel, Herman Melville e Chesterton. Um cristão assim pode se maravilhar ouvindo uma sonata clássica ou uma canção poética e também se emocionar com os Arautos do Rei (são só exemplos).

Esse é o cristianismo afirmativo, que nem se enreda na ilusão pseudo-intelectual de que toda expressão artística é positiva nem atribui negatividade a todas as manifestações culturais.

Alguns cristãos, diligentes trabalhadores, não puderam ou não quiseram desenvolver o pensamento crítico em relação a filmes e músicas. Como escreve Frank Gabelein, no livro The Christian, the Arts and the Truth:

"Eles... são devotos da visão televisiva de shows, cujos gostos de leitura são dominados por uma piedade sentimental, e que não são capazes de distinguir um tipo de arte religiosa da verdadeira arte. Para eles, padrões estéticos superiores não passam de teoria e são espiritualmente suspeitos".

Há pessoas que rejeitam a totalidade das expressões artísticas humanas. Sobre essas, despejam rancor e preconceito. Sem tempo, vontade ou oportunidade para distinguir o joio do trigo, põem fogo em ambos.

Joêzer Mendonça
(Texto publicado na revista Conexão JA do último trimestre de 2009, p. 24 e 25).

15 dezembro, 2009

meninos, eu vi - 2009

Fim de ano, fim da década, fim de feira, fim de mundo. Nessa hora, a falsa utilidade das listas serve para relembrar e nortear o que foi marcante durante um ano ou uma década ou qualquer tempo que o valha. Nesse texto, assinalo os filmes que fizeram com que eu ainda acreditasse que nem tudo é vampiro com expressão de Botox no mundo cinematográfico.

Para escapar da avalanche de filmes feitos para adolescente histérica gritar, o jeito é rebobinar o passado (rebobinar, lembra?) e ver ou rever filmes que não se submeteram à tortuosa política de Roliúdi: "Quanto mais descerebrado e barulhento, melhor. Com direito a duas sequências sem noção".

Há outros, mas selecionei os seguintes filmes por questão de espaço e importância. Importância pessoal, claro, ou isto não seria uma evidente lista arbitrária.


Frost/Nixon (EUA, 2008)
O jogo de mentiras e meias-verdades que cerca a política e os programas de entrevistas da TV. Um filme sério e jamais monótono.

Entre os Muros da Escola (França, 2008)
A vida na sala de aula como ela é. Escrevi mais sobre esse grande filme nesse artigo aqui.


Fitzcarraldo (Alemanha, 1982)
Um homem com uma idéia fixa na cabeça e pouco dinheiro na mão quer construir um teatro de ópera na selva amazônica do início do século XX. Imagens inesquecíveis, como a de um navio puxado montanha acima demonstram a excentricidade do personagem e também do diretor Werner Herzog.
A Partida (Japão, 2008)
Esqueça as descartáveis cenas em que o personagem violoncelista toca pelas paisagens bucólicas no pior estilo André Rieu. Fique com a delicadeza desse comovente filme japonês, uma reflexão sobre a morte e as pazes consigo e com os outros.


Star Trek (2009)
Filme que recupera a leve fantasia escapista do seriado Jornada nas Estrelas que marcou minha pré-adolescência, se é que existia pré-adolescência nos anos 80. Aqui, os efeitos visuais estão a serviço do enredo e não o contrário.

Os Sete Samurais (Japão, 1954)

Revisto e continuamente admirado. Se você for levado pela impressão de que já viu essa história, é isso mesmo: todos os filmes que você comparar beberam na fonte que combina ação e conflito ocidentais com reflexão e silêncio orientais.


A Pequena Loja da Rua Principal (Tchecoslováquia, 1964)

Um cidadão tcheco comum é obrigado a tomar conta da loja de uma anciã judia quando um vilarejo é tomado pelos nazistas. A convivência forçada de ambos terá efeitos transformadores para ele, mas drásticos para ela. Uma aula de cinema que mescla ternura e denúncia e que não se deixa levar pela tentação da pieguice barata.

Wall-e (2008)

Uma proeza artística que apresenta uma equilibrada mensagem ecológica e uma narrativa digna de Chaplin. Obra-prima.

Aguardem, sem maiores expectativas: meninos, eu vi (a década) e meninos, eu li e ouvi 2009.

09 dezembro, 2009

torcer e distorcer: essa é a questão

Luis Fernando Veríssimo, torcedor do Internacional, escreveu na semana anterior à última rodada do campeonato brasileiro que ele ainda acreditaria na paz na terra entre os homens de boa vontade, desde que os jogadores do Grêmio, rival do Inter, ganhassem do Flamengo, permitindo assim que o seu Internacional fosse campeão.

Vê-se que a paixão futebolística não tem nada de lógica. Enquanto essa paixão está dentro dos limites de rivalidade sadia, que não declara guerra campal contra o adversário nem dentro nem fora do estádio ou de casa, torcer não é problema algum.

Problemas começam quando torcer vira sinônimo de distorcer, quando se pretende a vitória a qualquer custo, inclusive com o uso de expedientes ilícitos como gol de mão, gol impedido, ou qualquer armação de bastidores. Os problemas se tornam ainda mais sérios quando a paixão clubística age como uma força embrutecida, que prefere ofender em vez de incentivar, que depreda, destrói e, não raro, mata.

O torcedor típico é capaz de trocar de cônjuge, de profissão e até de sexo, mas nunca trocará de time. Substitua o nome do time nos versos iniciais da música de Lamartine Babo, “Uma vez Flamengo, sempre Flamengo, Flamengo sempre eu hei de ser”, pelo clube de sua preferência e você verá uma prova de fidelidade eterna.

Após essa experiência, alguns mais afoitos decerto farão gargarejo de uma hora com o Listerine mais ardido a fim de descontaminar a boca que fui induzida a cantarolar o hino do rival.

Ateus menos convictos chegam a rezar agora e na hora do pênalti. Religiosos mais sectários não resistem a uma espiadinha no jogo do Brasil na Copa do Mundo. Ricos prometem generosas doações a orfanatos e abrigos quando seu time precisa sair da zona do rebaixamento. Pobres (e os ricos menos liberais) prometem supliciantes procissões quando seu time precisa vencer na última rodada.

Até aí, trata-se de um caso, de fé e desprendimento das coisas materiais, ainda que, muitas vezes, por vias deturpadas e interesseiras. O fator complicador está na ambição, na vitória a qualquer custo, mesmo que a custo da honra. Farsas são montadas pra torcedor inglês e brasileiro verem. Negócios escusos são tratados antes de partidas decisivas, o futebol quase se torna um jogo de cartadas marcadas, em que não vale a pena torcer.

De outro lado, o torcedor pode se tornar semelhante ao fã: espera horas por um autógrafo, fica depressivo quando seu time perde, chora por não conseguir ingresso, não permite críticas ao time (a não ser aquelas que ele mesmo faz). O fanatismo é cego pela própria natureza e incapacita o indivíduo de perceber que a mesma mão que acaricia o clube na vitória acaba sendo a mão que apedreja na derrota.

07 dezembro, 2009

comer, rezar, enganar

Uma das cenas mais vergonhosas do ano, senão a mais, é a da "oração da propina", que é como andam chamando a oração fervorosa dos irmanados pela corrupção Durval Barbosa, Leonardo Prudente (deputado e presidente da Câmara Distrital do DF) e Rubens César Brunelli (deputado do PSC (ou do DEM, segundo o site da Câmara).

Após a partilha do montante ilícito, os três senhores se unem em compungida petição aos céus. Com uma cajadada só, eles quebram a lei de Deus e a dos homens. Enquanto se aguarda o misericordioso mas justo juízo divino, já se poderia ir cumprindo a lei e os profetas da justiça civil. Quem lê (a oração a seguir), entenda:

“Pai, quero te agradecer por estarmos aqui, sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos, mas é o teu sangue que nos purifica. Pai, nós somos gratos pela vida do Durval ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele, contra nossas vidas. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham, Senhor, armas para nos ajudar essa guerra. Acima de tudo, Senhor, todas as armas que podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas as nossas atividades, mas o Senhor nunca falha ...Nós precisamos do livramento da vida do Durval, dos seus filhos, dos seus familiares. O Senhor é a nossa Justiça.”

Mais incrível é que o imprudente deputado Prudente aparecia em vídeo recentemente removido do YouTube tendo sobre sua cabeça as mãos e a benção de apologistas da prosperidade como o deputado-bispo Rodovalho. Já o deputado Brunelli recebeu uma Moção de Louvor concedida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, pela defesa do povo evangélico no Distrito Federal. Políticos no púlpito sendo investidos de benção por pastores e proclamados "autoridades constituídas" têm transformado orações públicas em votos secretos. Alguns, escandalosamente secretos.

Falsos evangélicos são tão comuns quanto falsos políticos. Isso quer dizer que tanto o verdadeiro cristianismo quanto a verdadeira democracia acabam sendo enlameadas: a Bíblia ensina a orar e vigiar, aqueles evangélicos ensinam a cobrar e orar; a democracia sugere um governo transparente no uso da verba pública, aqueles políticos escondem a verba pública no seu terno privado; Jesus ensina a oração do Pai-Nosso, os falsos evangélicos recitam a oração da propina.

A prática política admite que uma parte correta conviva com outra parte cujos paletós, meias e cuecas são andrajos de imundície. A prática religiosa permite que uma parte fiel conviva com outra parte cujos atos são a desonra do evangelho.

No entanto, isso não significa que tanto o jogo político quanto o ambiente religioso devam ser extintos pela força e pela vontade de outros homens. Nem estes outros homens podem se achar mais justos que seus semelhantes, pois não o são.

Ao contrário, pesquisemos os votos partidários e reforcemos os votos de aliança com Deus, pois o eleitor aguarda novas eleições em que o cenário político será pouco modificado e o cristão aguarda novos céus e nova terra em que a forma divina de governo oferecerá tudo restaurado.

04 dezembro, 2009

a música brasileira foi rejeitada pelas igrejas protestantes devido ao preconceito?

A cultura musical brasileira é rica e multivariada. Estilos estrangeiros que aportaram por nossas bandas foram devidamente apropriados e tomaram novas formas. A miscigenação que ocorreu no trânsito de etnias teve um correlato nas misturas culturais. Práticas que eram consideradas fora-da-lei, como o samba, foram apropriadas institucionalmente e se tornaram orgulho de uma população.

O que teria motivado, então, a exclusão do ambiente litúrgico das formas musicais mais populares, como o choro, o samba, a modinha? Seria o preconceito do missionário norte-americano em relação à cultura de um povo considerado incivilizado e inferior?

Alguns estudiosos do cristianismo no Brasil, como Prócoro Velasques e Jaci Maraschin, têm relacionado o eurocentrismo (e o “americanocentrismo”) dos pioneiros como o fator que obstruiu a presença dos estilos musicais de matriz nacional nos cultos protestantes. Entretanto, essa visão etnocêntrica (que equivale ou valida as culturas autóctones) deixa de analisar outros fatores como:

a) A noção de santidade cristã: a música popular brasileira estava ligada tanto às diversões seculares quanto às festividades católicas. Desse modo, o princípio de resguardar-se de diversões inapropriadas até para filisteus afastava os primeiros protestantes de festas com música secular. Além disso, o anticatolicismo era algo muito comum e os levava a repudiar os estilos aceitos pelo sincretismo católico romano.

b) Segregação social: num país de dominante maioria católica, os conversos ao protestantismo no começo do século XX sofriam bastante com o preconceito e a perseguição. Os “crentes”, como passaram a ser chamados, eram discriminados socialmente. Sua posição sectária refletia tanto o isolamento social que lhes era imposto como o posicionamento excludente, pois não raro proclamavam-se depositários exclusivos da verdade.

c) Referencialidade sociogeográfica: a adoção dos hinos de origem americana e europeia pelos novos conversos não era uma simples imposição hegemônica cultural dos missionários. A origem daqueles hinos – se baseados em estilos populares, em marchas militares, em música folclórica – era distante geograficamente e desconhecida culturalmente para os novos protestantes. Sem referências diretas daquela música, eles podem ter aceitado aquela liturgia pela diferença musical em relação à missa católica e às canções seculares brasileiras. Os hinos lhes pareciam mais apropriados para os cultos do que os dançáveis estilos nacionais.

Pergunta: a cultura musical brasileira foi repudiada devido ao eurocentrismo dos missionários, verdade ou mito?

Se olharmos essa questão apenas pelo ângulo da noção de hegemonia cultural de um país sobre o outro, parece verdade. No entanto, quando se estuda a introdução do protestantismo no Brasil e os valores morais e eventos sociais mais acuradamente, nota-se que a rejeição aconteceu, mas a batida argumentação tradicional de preconceito é um MITO.
Na semana que vem: os estilos brasileiros são mesmo inadequados para o louvor cristão de hoje?

01 dezembro, 2009

dinheiro na meia é vendaval

Numa tarde qualquer em Brasília, dois homens e seus podres poderes se reúnem para um encontro comum entre políticos da cidade. Um deles, o remetente, carrega consigo várias boladas de dinheiro para entregar ao destinatário que o espera numa dessas salas próprias para a prática também comum do pagamento de propina. Propina é o montante monetário em espécie servido a mandatários políticos como gratidão pelas intercessões passadas ou futuras junto ao caixa de financiamento de obras públicas.

Esse encontro nada casual tinha tudo para ser mais um encontro oculto entre tantas outras ocultações da vida não fosse a presença de uma câmera, também oculta, registrando a venda da alma política ao diabo da propina. Flagrados com a mão na massa de notas, os envolvidos já começaram a jurar inocência, a acusar chantagem, a espalhar em comunicados à imprensa de que tudo não passa de um grande mal-entendido.

Tarde demais. Uma imagem vale mais que mil advogados.

A quantidade de envolvidos nesse escândalo político aponta para uma velha prática de nome recente: o mensalão. Como é de praxe em todo mensalão, o problema não é o dinheiro, mas a falta de espaço para esconder tanto dinheiro.

Há alguns anos, um deputado foi pego com dinheiro escondido na cueca, dando conotações literais ao vulgo e chulo “cofrinho”. Desta vez, as notas também foram alocadas entre as partes, mas foram ainda revelados novos lugares de depósito no multifuncional figurino de político, como o já tradicional terno com bolsos de fundo falso e as meias.

Tem gente que não sabe o trabalho que dá aos estilistas do alto escalão e do baixo clero de Brasília a confecção de um figurino que pareça lícito mas que possa comportar a grana ilícita.

São meias com boca larga para facilitar a rápida introdução da bufunfa e tecido flexível que resista à pressão do montante das notas; são calças com bainha retrátil para abrigar o faz-me-rir sem o manuseio do zíper, bolsos de fundo sem fim e cós que suporte o peso de uma cueca portando a vergonha dos dólares e outras vergonhas.

Como nesses escândalos hipocrisia pouca é bobagem, entre os envolvidos na corrupção estão dois deputados ligados a igrejas evangélicas. Em um dos vídeos que flagaram a negociata, eles chegam ao ponto final da blasfêmia ao fazer uma oração por mais essa graça alcançada. Pessoas que escondem dinheiro na meia são tão corruptas quanto aqueles que se escondem no nome de igrejas para aparentar inocência presumida.

Não pense que a presença das microcâmeras vá inibir a falta de escrúpulos de alguém. Ao contrário, ser filmado até piora as coisas. Os excelentíssimos começam a agir ainda mais escancaradamente como se estivessem num reality show do tipo "quem quer ser um milionário corrupto?"

Não é à toa que já se pergunta antes de fechar a tramoia:
- Com câmera ou sem câmera?
- Qual a diferença?
- Com câmera é mais caro.
- Não devia ser o contrário? O perigo de ser filmado não vale o risco!
- O amigo sabe quanto custa uma inserção no horário nobre dos telejornais?
- Puxa vida!
- Não queres ouvir o William Bonner pronunciando teu nome?
- Só se for agora!