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los perfeccionistas musicales #5 - o homem que calculava síncopes

O HOMEM QUE CALCULAVA SÍNCOPES

Certa manhã, o mestre se retirava do templo quando um homem o interpelou:
- Mestre, hoje contei 89 síncopes no louvor 'Vinde às Águas' e 137 em 'O Melhor Lugar do Mundo'?

Ao ouvirem a palavra "síncope", alguns publicanos desmaiaram de terror. Outros tantos se aglomeraram em torno do mestre a fim de ver se o que ele responderia estava de acordo com a tabela de Regulamentações e Proporções da Boa e Verdadeira Música. A maioria, entretanto, seguiu seu caminho para casa, pois era gente simples que tinha mais o que fazer.

Os que ficaram, ouviram do mestre:
Síncopes, tétrades, terça menor, anacruse...São apenas elementos estruturantes da música. Ai de vós que contam síncopes no templo e engolem correntes de whatasapp em casa. Por que vos detêm em terraplanismos musicais? Credes vós que não há síncope em vossos cânticos tradicionais e que os Arautos do Rei só acentuam sílabas no tempo forte da música? 

Outro homem então perguntou:
- Mes…

Nabucodonosor e a música da Babilônia

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Quando visitei o museu arqueológico Paulo Bork (Unasp - EC), vi um tijolo datado de 600 a.C. cuja inscrição em escrita cuneiforme diz: “Eu sou Nabucodonosor, rei de Babilônia, provedor dos templos de Ezágila e Égila e primogênito de Nebupolasar, rei de Babilônia”. Lembrei, então, que nas minhas aulas de história da música costumo mostrar a foto de uma lira de Ur (Ur era uma cidade da região da Mesopotâmia, onde se localizava Babilônia e onde atualmente se localiza o Iraque). Certamente, a lira integrava o corpo de instrumentos da música dos templos durante o reinado de Nabucodonosor.

Fig 1: a lira de Ur
No sítio arqueológico de Ur (a mesma Ur dos Caldeus citada em textos bíblicos) foram encontradas nove liras e duas harpas, entre as quais, a lira sumeriana, cuja caixa de ressonância é adornada com uma escultura em forma de cabeça bovina.
As liras são citadas em um dos cultos oferecidos ao rei Nabucodonosor, conforme relato no livro bíblico de Daniel, capítulo 3. Aliás, nesse mesmo cap…

O Silêncio, de Martin Scorsese

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a malandragem de por a culpa na raça

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Essa foto antiga de um elegante ancião negro é provavelmente a última fotografia em vida do maior dos escritores brasileiros: Machado de Assis. Na época, ele era o presidente da recém-fundada Academia Brasileira de Letras e havia publicado algumas obras-primas. Mas... para algumas pessoas, a grandeza literária e a dedicação ao trabalho não caracterizam a etnia de Machado. Para elas, deve ter havido malandragem no caminho... Se a fala recente do general Hamilton Mourão distinguindo a malandragem como um componente típico dos africanos, e por tabela, dos afro-brasileiros, lhe parece reacionária e coisa de um passado vergonhoso, lembre que esse pensamento ainda representa muita gente. Essas atitudes que reduzem etnias a uma categoria cultural negativa estão fortemente enraizadas no nosso tal “Brasil cordial”. Veja o que escreveram o crítico literário José Veríssimo e o embaixador Joaquim Nabuco sobre Machado de Assis quando o escritor faleceu em 29 de dezembro de 1908. Veríssimo, no Jornal…

a generosidade não está nos manuais

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Corre na internet o vídeo em que um segurança impede que um cliente pague um almoço para uma criança que vendia chiclete no shopping. Nele, vemos duas formas de violência em estado bruto. 1) Uma criança pedindo (e não comprando, como é regra dos nossos shoppings) comida. E numa situação de viver da caridade de quem lhe detesta, uma criança com fome é a primeira violentada. 2) Um segurança que obedece cegamente ao manual de conduta dos nossos shoppings. E sob a condição de perder o emprego caso não cumpra zelosamente o manual, ele se obriga a perder a compaixão, a compostura, a humanidade. *
Quanta violência já não foi cometida por pessoas que não hesitam em dizer "estou apenas cumprindo o meu dever"?
* Mas nesse mesmo vídeo, "tanta violência, mas tanta ternura", como nos versos de Mário Faustino. O cliente resiste e vai "cometer" ali um "crime de generosidade". Oferecer um prato de comida a quem pede é uma violação do manual do shopping. Vai ver …

los perfeccionistas musicales: quando os jovens cantam

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Certo dia, um grupo de perfeccionistas musicais veio até o mestre trazendo alguns desbravadores e jovens que estiveram num encontro cristão na Amazônia. Um dos principais do grupo disse: - Mestre, estes jovens foram vistos cantando e pulando ao som de tambores. Cumpra-se, então, o manual. Respondeu-lhes o mestre: - Não são estes jovens os mesmos que estão estudando e trabalhando pela sua fé enquanto vós dormis a tarde inteira do sábado e acordais mais tarde na manhã de domingo? O mestre seguiu lhes dizendo: - Arregalai vossos olhos quando os mais jovens se excedem por poucos instantes ao som de uma música mais empolgante e fechai vossos olhos para o fato de que as festas religiosas que vossos pais também realizavam fora do templo eram muito mais animadas com adufes, pandeiros e danças. E digo-vos, ainda: Há entre vós mestres e doutores que criam músicas e revistas distintas para cada idade, mas que também criam somente discórdia e falso pânico quando crianças e jovens agem distintamente c…

Sabedoria x Estupidez nestes dias maus

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"Nas minhas reflexões sobre estes tempos que vivemos no Brasil e a necessidade cada vez mais crescente de humanização e de paz, deparei-me com o ensaio "As Leis Fundamentais da Estupidez" [escrito pelo professor da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), o italiano Carlo Cipolla, em 1976]. Com ele, veio a compreensão de que o que estamos vivendo em nosso país é a estupidez humana tornada pública em tal nível que ganha ares de triunfo pela visibilidade que as mídias digitais lhes proporcionam. "Digo isto baseada na Terceira Lei Fundamental da Estupidez, que Cipolla chama de Lei de Ouro. É a própria definição do termo, muito mais profunda do que a que eu vivenciava: UMA PESSOA ESTÚPIDA É UMA PESSOA QUE CAUSA UM DANO A UMA OUTRA PESSOA OU GRUPO DE PESSOAS, SEM, AO MESMO TEMPO, OBTER QUALQUER VANTAGEM PARA SI OU ATÉ MESMO SOFRENDO UMA PERDA. "Sim! Pedir intervenção militar num país cujas feridas dos 21 anos de ditadura militar ainda estão abertas, e que ain…