16 abril, 2015

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas


A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro:
1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos
2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos
3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho

[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música dos adventistas. Além disso, em conjunto com a formação musical, eles também tinham domínio da teologia da igreja, o que lhes tornava especialistas na transposição da Palavra para a formato musical. E mais: eles atuavam, ou já haviam atuado, profissionalmente a serviço da instituição adventista, o que lhes dava "licença para modificar" (ainda que com restrições, impostas ou autoimpostas).    

Algumas mudanças geradas por esses músicos:

1) Linha melódica: as canções de pequenos saltos melódicos, tradicionais da canção rural americana, a qual era predominante nas coletâneas de música sacra adventista até o final dos anos 1970, foram gradualmente substituídas por músicas com maiores saltos entre as notas, próximos do lirismo musical brasileiro. Observe o início de um cântico composto nos anos 70: “Mãos” (Williams Costa Junior), em que a melodia estável é subitamente interrompida por um salto (em vermelho). 



A canção “Sorriso” (Lineu Soares/Valdecir Lima), dos anos 80, traz saltos melódicos bem mais amplos e só no final da estrofe o compositor interrompe a sequência de saltos.


Em suas composições, Costa Junior e José Geraldo Lima usavam notas de passagem que não fazem parte da tonalidade da canção, o que também é uma novidade que será adotada por outros músicos adventistas (principalmente aqueles que estiveram sob a benfazeja “jurisdição” musical de Costa Junior no IAE da década de 1980, como os músicos na foto - na época, também passaram por ali Jael Enéas e Wanderson Paiva).

Para ficar com dois entre tantos exemplos, veja as notas destacadas em círculos verdes nos trechos das partituras das canções  “Mãos” (acima) e “Conhecer Jesus” (abaixo). Nesta, as notas fá sustenido, sol sustenido e si natural não fazem parte da escala de Fá Maior, a tonalidade da canção. 


2) Harmonizaçãoesses compositores imprimiram na canção adventista nacional as harmonizações mais refinadas da MPB. As transições harmônicas mais elaboradas que já vinham sendo praticadas desde a bossa nova, no início dos anos 1960, foram incorporadas gradualmente pelos músicos adventistas nos anos 1970 e consolidadas na década de 1980. Houve um corte em relação aos corinhos norte-americanos, de estrutura harmônica mais simples e de poucas transições de acordes (como, por exemplo, nos cânticos "Caminhando", "(Estou) Seguindo a Jesus" ou "Lado a Lado").

Uma observação rápida: não se deve subestimar a influência do trabalho erudito de John Peterson com suas cantatas cristãs, e também do músico adventista Wayne Hooper, que desde os anos 1960 já inseria transições harmônicas mais complexas nos arranjos do quarteto King's Heralds, cujas músicas foram base das gravações do quarteto nacional Arautos do Rei por longo tempo. 

Observação 2: vários integrantes da foto foram diretores musicais dos Arautos do Rei ou fizeram música para o quarteto.

Observação 3: a formação vocal de quarteto passou a interessar mais aos adolescentes e jovens dos anos 80 com o quarteto Unipaz (com várias músicas de Flávio Santos e letras de Mário Jorge Lima e Valdecir Lima) e nos anos 90 com as mudanças harmônicas, instrumentais e (enfim, Brasil!) étnicas realizadas por Jader Santos no quarteto Arautos do Rei.

Essa harmonização mais rica tinha a ver com os interesses musicais dos compositores, mas também tinha relação com a nova melodia de suas canções, que pareciam exigir acordes mais complexos. Veja logo acima a sequência de acordes da canção "Conhecer Jesus".

Essa sofisticação harmônica já estava presente na composição “Conversar com Jesus”, de Alexandre Reichert Filho. Em 20 compassos, este corinho desprovido de refrão exibe maior desenvolvimento melódico-harmônico do que os cânticos estrangeiros que integravam as coletâneas adventistas até então. Nela, há vários procedimentos harmônicos (assinalados em vermelho na partitura abaixo) que sustentam a breve melodia.


 3) Integração de letra e música: na década de 80, Flávio Santos e Valdecir Lima lançaram a canção "Deus sabe, Deus ouve, Deus vê", cuja harmonia refinada e recheada de transições de acordes só encontra paralelo na sofisticação de sua letra. A canção começa em tonalidade menor (Si menor), o que reforça o clima de introspecção sugerido pelo início da letra ("você que se sente pequeno,..."). Mas, ao final, com os versos assertivos "Deus sabe, Deus ouve, Deus vê", a canção termina com um acorde maior (Ré Maior) na última palavra da letra ().

Todo o percurso lírico de angústia individual e inferioridade existencial, acompanhado de transições de acordes que evitam até o final a resolução de harmonia, é encerrado com a afirmação de segurança num Deus que sabe e cuida de todas as coisas. Essa segurança se reflete musicalmente por meio da finalização da música com um acorde maior, sugerindo estabilidade psicológica ao indivíduo que ouve a canção. E nossa escuta musical ocidental está acostumada com um acorde perfeito maior no final de uma música como sugestão de estabilização e resolução.

A busca pela integração entre letra e música não era uma novidade absoluta para a época. Novidade foi o tratamento mais rebuscado dessa interação entre palavra e som musical. Compare-se as canções da coletânea "Melodias de Vitória", dos anos 1950, com aquelas do álbum "Eu Sei de Alguém", anos 80.

Nesta última, as composições de Mário Jorge Lima para voz solista já celebram esse novo tratamento, em que a linha melódica sinuosa, cheia de curvas, discretamente à brasileira, encontra paralelo no refinamento poético da letra. Já na coletânea dos anos 50, o tratamento musical é distinto, não somente por causa da diferença de época, mas também devido à origem social e geográfica dos autores estrangeiros, ainda que estes compartilhassem da mesma fé dos brasileiros.

4) Atenuação/defasagem do ritmo: embora estivessem no chamado país do samba, e o hinário oficial de sua igreja estivesse recheado de ritmos populares norte-americanos (marchas e baladas rurais), o grupo de compositores da foto acima não adotou os gêneros de raiz nacional, como o samba, o frevo, o baião, a música sertaneja. No entanto, houve uma notável alteração rítmica. Canções no estilo de marcha militar (o cancioneiro adventista até os anos 1970 apresenta bastante canções nesse estilo rítmico) deram lugar a canções animadas, porém, sem ênfase na marcação binária militarizada, e a cânticos com defasagem rítmica em relação aos corinhos estrangeiros.

No meu entender, essa súbita atenuação do ritmo não se deve a uma suposta conscientização antimilitarista em pleno governo militar (anos 70-80), mas sim, à formação musical erudita e à nacionalidade daqueles músicos. Sua formação clássica pode ter influenciado uma busca por maior ênfase na melodia e na harmonia (e no arranjo orquestral), enquanto sua nacionalidade brasileira os posicionava mais ao lado da sutileza melódica e refinamento harmônico da bossa nova do que da ênfase rítmica e facilidade melódica das marchas militares e das canções country.

Como exemplo dessa defasagem rítmica, temos o cântico “Agora”, que foi o hino oficial do IV Congresso MV (Missionários Voluntários) realizado pelos jovens adventistas em 1973. Nesses eventos, os cânticos temáticos oficiais geralmente possuíam tonalidade maior, andamento acelerado e uma quase inevitável marcação rítmica marcial. A inovação de Costa Junior esteve em empregar tonalidade menor (Mi menor), andamento rítmico lento e cadências do ciclo harmônico das quintas (assinaladas em vermelho na partitura):





É claro que o breve resumo que fiz aqui não dá conta da contribuição desses músicos. Seriam necessárias muita página e paciência do leitor para que fosse examinada essa vasta obra.

Curiosamente, ao longo dos anos eles continuaram compondo em parceria. Dá até pra dizer que eles são uma espécie de "Segunda Escola do IAE" (na "Primeira" constariam os nomes de Flávio Garcia, Joel Sarli e Elias de Azevedo, entre outros. Estes foram menos compositores inovadores e mais tradutores/versionistas, regentes e cantores que estimularam a cena musical adventista a partir do seu local de estudo/trabalho).

Certamente seu trabalho musical inovador e de alta qualidade artística é incontornável e espero que esses poucos exemplos musicais tenham dado um vislumbre do cenário de alteração das formas musicais e de permanência do conteúdo teológico. De fato, as melodias curvilíneas, as harmonias refinadas, a poesia requintada das letras, os arranjos de piano mais elaborados (muitos desses músicos são excelentes pianistas) estavam a serviço da teologia da igreja.

Possivelmente, houve vozes resistentes àquelas mudanças, mas foi assim que a Igreja Adventista teve nesses músicos um veículo de transmissão moderno dos conteúdos teológicos tradicionais.

*****
Esse texto foi escrito com informações da minha tese de doutorado "A Mensagem na Música: estudos de Teomusicologia sobre os cânticos dos Adventistas do Sétimo Dia" (UNESP, 2014).
Esse trabalho está em fase de revisão e atualização para, quem sabe, publicação neste ano.


24 março, 2015

os pontos fracos do livro digital


10 razões pelas quais o livro digital não entusiasmou ainda os universitários:

1. Os livros necessários não estão sempre disponíveis no formato digital

2. Eles não são tão acessíveis (o valor dos livros não caiu tanto e o aparelho leitor não é barato)

3. Você não pode emprestar ou revender a maioria dos livros digitais

4. Há uma sensação estranha na anotação em um e-book

5. Os livros digitais são pesados (em tamanho de estocagem) também

6. Existem melhores conteúdos digitais disponíveis na web

7. Os estudantes universitários de hoje cresceram usando livros tradicionais

8. Os e-books oferecem uma experiência de leitura diferente (em um estudo, os que leram uma versão impressa de um mesmo texto pareceram ter maior compreensão do conteúdo, lendo-o mais rápido, do que o grupo que leu uma versão digital)

9. Encontrar os livros é uma caça ao tesouro (em função da falta de padronização de formatos)

10. Os estudantes esperam mais da edição digital (ferramentas sociais, possibilidade de usar dispositivos da web)

Outros dados da pesquisa:

- 11% dos universitários já compraram livros digitais (os e-books)

- Se têm a opção entre um livro impresso e um livro digital, 76% dos estudantes ficariam com o livro no suporte tradicional

- Somente 8% dos estudantes entrevistados tinham um aparelho leitor de livros digitais (o e-reader)

- 60% deles disseram aprender melhor com um livro no formato impresso do que com um livro digital

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NNP: a pesquisa data de 2012. Três anos depois, é preciso verificar se a adesão dos universitários ao livro-texto digital aumentou ou não.
Texto original no blog Online Universities, com o título "10 Reasons Why Students Aren’t Using eTextbooks" .
Boa parte da tradução copiei do blog MidiasEducação.

16 março, 2015

democracia digital virou ditadura

O jornalista André Barcinski escreve sobre os novos e infelizes rumos que nossa sociedade tem tomado em relação à cultura e à arte (a íntegra do texto está aqui):
"Lembro bem quando começaram a pipocar os primeiros artigos sobre a tal “democracia digital”. O futuro, diziam, seria um novo Renascimento, uma época de cultura e informação gratuitas e acessíveis a todos.
Um cineasta de Xapuri poderia ligar o laptop e enviar seu longa-metragem para um festival em Berlim. Músicos estariam livres da “escravidão” das gravadoras e poderiam vender suas músicas diretamente aos fãs. Todo mundo teria infinito acesso a livros e conhecimento.
 Vários estudos foram publicados sobre o tema. Em 2008, o editor da revista de tecnologia “Wired”, Chris Anderson, lançou um livro muito influente, “A Cauda Longa”, em que dizia que a imensa oferta de produtos na Internet acarretaria uma democratização de vendas e de informação.
Segundo Anderson, artistas mais famosos continuariam vendendo muitos discos, mas os menos conhecidos se beneficiariam com a “cauda longa”, em que a cultura e economia “se afastariam de um foco em um número relativamente pequeno de ‘hits’ (‘sucessos’) e rumariam para um número imenso de nichos de mercado”. Resumindo: no mundo da democracia digital, os “pequenos” sobreviveriam muito bem.
Não precisou nem de sete anos para a cauda longa de Chris Anderson virar cotoco.
Um livro recém-lançado nos EUA, “Culture Crash – The Killing of the Creative Class" (“O Assassinato da Classe Criativa”), de Scott Timberg, mostra que não só as previsões otimistas dos arautos da democracia digital estavam erradas, como aconteceu justamente o contrário: o mundo experimenta, hoje, uma ditadura cultural e um monopólio da informação como nunca se viu. E a ignorância só aumenta.
Alguns dados de “Culture Crash”:
- Em 1982, os músicos que formavam o 1% dos mais ricos da profissão nos EUA ganharam 26% das receitas com shows. Em 2003, o 1% levou 56% da grana de shows.
- Em 2005, 13,3% dos CDs lançados no mundo venderam mais de mil cópias. Em 2010, esse percentual caiu para 6,26%. Dos 75 mil discos lançados no mundo inteiro em 2010, apenas mil venderam mais de 10 mil cópias, o menor numero já registrado.
- Em 1986, 31 canções chegaram ao topo das paradas dos EUA. Elas eram de 29 artistas diferentes. Entre 2008 e 2012, só 66 canções chegaram a número um. E quase a metade era de seis artistas: Katy Perry, Rihanna, Flo Rida, Black Eyed Peas, Adele e Lady Gaga.
- Das 100 revistas mais vendidas nos Estados Unidos, apenas duas cobrem arte.
- Nos últimos 15 anos, cerca de 80% dos críticos e repórteres de arte de jornais norte-americanos perderam os empregos.
- Em 2001, dez sites respondiam por 31% do tráfego na Internet. Hoje, representam mais de 75%. Mesmo assim, a imensa maioria das matérias jornalísticas publicadas na web vem de jornais da “velha mídia” (em algumas pesquisas, 95%).
- Nos últimos oito anos, empregos para arquitetos, fotógrafos e designers caíram, em média, 25%.
- O interesse por literatura e artes nas universidades nunca foi tão baixo.
- O ganho médio de músicos é 30% mais baixo do que há dez anos.
Os dados são relativos aos Estados Unidos, mas certamente refletem a realidade geral.
A verdade é que as pessoas nunca leram tão pouco e tão mal, nunca se informaram tão mediocremente, e têm cada vez menos interesse por música, livros e cinema que não estejam no “mainstream”.
Existem artistas independentes que conseguem usar a Internet para divulgar seus trabalhos e têm carreiras de sucesso? Claro que sim. Mas Timberg mostra que, proporcionalmente, são poucos, e cada vez menos. Quem realmente se deu bem com a "democracia digital" foram as empresas de tecnologia, que usam complexos algoritmos para "guiar" e "personalizar" as buscas de cada usuário na web. Toda a utopia do "futuro digital livre" só serviu para enriquecer ainda mais Zuckerberg e amigos".

23 fevereiro, 2015

O Oscar é a sessão de terapia de Hollywood


O Oscar é a sessão de terapia de Hollywood. É só conferir os premiados de Melhor Filme de cada ano:

Em 2010, “Guerra ao Terror”: filme de baixo custo, dirigido por uma mulher, sobre o sofrimento dos “nossos soldados” no Oriente Médio. O concorrente e perdedor mais forte era “Avatar”, filme de altíssimo custo dirigido por quem? James Cameron, ex-marido da diretora de "Guerra ao Terror".

Em 2011, “O Artista”, filme que homenageia o estilo das comédias do cinema mudo.

Em 2013, “Argo”, filme em que produtores de Hollywood salvam “nossos cidadãos” sofrendo no Oriente Médio.

Em 2015, “Birdman”, reciclagem de críticas à Hollywood que sempre faz a comunidade hollywoodiana rir de si mesma. Depois das duas horas de filme, o efeito passa e eles voltam a se levar a sério.

A Academia também adora premiar filmes com temas “importantes”.

Em 2009, a farsa dos irmãos Coen sobre um judeu ou a farsa de Tarantino para matar Hitler não tinham chances perto de “Guerra ao Terror”.

Em 2010, o retrato acachapante da geração facebook (“A Rede Social”) e o incrível “Toy Story 3” perderam para “O Discurso do Rei”, filme em que um personagem Real vence suas próprias fraquezas.

Só pra lembrar que 'A Rede Social' fala de Mark Zuckerberg, um personagem real que a essa altura conhece as nossas fraquezas.

Em 2012, nem o realista “Amor” nem o espiritual “As Aventuras de Pi” nem Steven Spielberg filmando a vida de Abraham Lincoln conseguiram deter a vitória de “Argo”.

No ano seguinte, “12 Anos de Escravidão” mostrava um retrato impiedoso do escravismo. Se não fosse um filme com méritos artísticos talvez não ganhasse o prêmio máximo. Mas quem seria o coração de pedra que não lhe daria o Oscar?

Outro padrão de comportamento dos membros da Academia é premiar atores e atrizes que interpretem um personagem com alguma doença ou deficiência.

Essa tendência não é ruim quando se premiam grandes performances , como Dustin Hoffman vivendo um autista em "Rain Man" ou Daniel Day-Lewis em "Meu Pé Esquerdo".

Mas às vezes fica a impressão de que os membros votantes acreditam que as interpretações que imitam os personagens reais são muito superiores às interpretações que criam um personagem.

Pra ficar só nesse ano, o Oscar de melhor ator foi para Eddie Redmayne interpretando Stephen Hawking, e o prêmio de melhor atriz foi para Julianne Moore vivendo uma personagem que sofre do mal de Alzheimer.

O Oscar é ou não é uma sessão de terapia?

19 fevereiro, 2015

meu filho e eu em A Grande Troca

Uma vez contei a um amigo escritor, Denis Cruz, as agruras do meu filho João Felipe na sua infância intolerante à lactose. Ele descreve essa história na Inspiração Juvenil publicada esse ano pela CASA. Me emocionei ao lembrar do sofrimento que foi aquele tempo, do choro do Jofe nos exames, no garoto que não podia comer o que os outros garotos comiam. Isso me consumia terrivelmente. 
Admito que em meu desespero, eu não orei lá com muita paciência; briguei com Deus mesmo. Já o meu garoto reclamava, claro, mas quase sempre entendia tudo com uma incrível altivez. 
Ficou realista e bonito, Denis. Obrigado.

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A grande troca
Quinta, 19 de Fevereiro


Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás. Gênesis 2:17, ARA

João Felipe era um garoto que não podia ingerir qualquer alimento que contivesse leite, como queijos, pizzas ou doces. Seu corpo não desenvolveu a enzima lactase, que é capaz de digerir o açúcar presente no leite. Por isso, ele só podia tomar leite de soja, um alimento que, para uma criança, não é instantaneamente agradável.

Eu conheci Joêzer, o pai de João Felipe, e ele me contou que nos aniversários dos amigos, o garoto não podia comer das várias guloseimas disponíveis. Do bolo da festa, então, nenhum pedaço! Ele tinha que levar o próprio bolo.

João Felipe enfrentou seringas, agulhas, laxantes e remédios. Fez exames de pele, sangue, suor e passou por uma cirurgia. Chorava antes e depois de cada uma dessas intervenções; porém, conseguiu superar tudo isso.

Um dos momentos mais difíceis dessa jornada ocorreu quando esse pequeno herói tinha 11 anos. Para submeter-se a um exame mais sério, ele precisou ficar três dias sem comer. João Felipe só podia beber água. Não podia tomar nenhum suco ou sequer uma sopa.
O pai sofreu com o filho. Foi muito difícil ver seu garoto chorando e querendo se alimentar. Nesse momento difícil, Joêzer refletiu e orou: “Se pudesse, eu trocaria de lugar com ele. Meu Deus, não tem como eu trocar de lugar com meu filho?”

Joêzer não pôde assumir o lugar de João Felipe, mas eu conheço um Pai que assumiu o sofrimento e, inclusive, a morte de Seus filhos.
A humanidade foi condenada à destruição quando Adão e Eva comeram do fruto da árvore proibida (Gênesis 2:17). No entanto, Deus providenciou uma maravilhosa substituição. Por meio de Jesus Cristo, Ele trocou de lugar conosco para que não sofrêssemos a morte eterna. Fez o que o Joêzer e muitos pais que veem seus filhos sofrerem não podem fazer.

Você tem um Deus que morreu em seu lugar, e não há forma melhor para entender isso que ler o texto de João 3:16: “Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o Seu único Filho, para que todo aquele que nEle crer não morra, mas tenha a vida eterna.”


Na história da redenção, o Pai, por intermédio de Seu Filho Jesus, sofreu a morte que merecíamos. Aceite hoje essa grande troca!

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Hoje, o Jofe tem 16 anos e está muito bem de saúde e de cabeça. Não resisti e postei esse vídeo de 8 anos atrás, quando meu filho mais velho fazia o barítono, o Jofe fazia o 1º tenor e eu atrapalhava no 2º tenor. Eu brincava chamando o trio de "Dois Filhos de Joêzer":

17 fevereiro, 2015

o papa vai à periferia

Os movimentos do papa Francisco são acompanhados de perto pela mídia, pelos cristãos e pelas nações ocidentais sempre com muito interesse, ainda que os últimos papas tenham se destacado mais no campo da diplomacia política do que como vigilante moral do mundo. 

Não que os papas não tenham se preocupado com os rumos morais no Ocidente. Mas é reconhecidamente no pontificado de Francisco que se tem visto maior atuação em questões morais sociais e individuais.

Claro, vivemos num tempo em que as grandes questões ocidentais não estão na polarização ideológica da Guerra Fria, muito menos na polarização teológica de huguenotes e jacobinos. 

Por exemplo, no tempo em que o comunismo não era visto como opção ideológica, mas sim como ausência de moral patriótica e religiosa, o papa João Paulo II operou pouco discretamente para a derrocada do comunismo no Leste europeu. Até porque o papa era da Polônia, país bastante católico que depois de sofrer com o nazismo passou horrores com o comunismo.

Uma coisa, porém, era o irresistível apelo democrático e capitalista exportado pelos Estados Unidos via satélite. Outra coisa, era o apelo das comunidades “invisíveis” (a pobreza, a educação decadente, o tratamento aos imigrantes, o abandono das periferias). Essas questões espinhosas foram enfrentadas por alguns movimentos cristãos, como a Teologia da Libertação católica e o Evangelho Social protestante. Mas logo os adeptos perceberam que a igreja não iria se envolver de forma sistemática e institucional com essas questões.

Daí que a Teologia da Libertação e o Evangelho Social foram devidamente carimbados como movimentos de infiltração comunista. Pastores e padres envolvidos em causas sociais eram afastados de seus distritos ou paróquias. Isso foi nas décadas de 1960 e 1970, no auge das tensões políticas vividas em vários países sob ditaduras.

Naquela época, alguns tentavam casar marxismo com cristianismo; outros, desiludidos com a fé cristã, viviam sua ideologia como uma religião. 

Eis que surge o papa Francisco nomeando 20 novos cardeais (notícia aqui). Entre eles, cardeais da Etiópia, México, Vietnã e Mianmar. Somente um europeu e nenhum norte-americano.

Coerente com seu discurso contra a desigualdade de renda e a favor dos excluídos, o papa nomeou cardeais que operam alinhados ao seu pensamento. Nessa perspectiva, o símbolo do capitalismo selvagem, os Estados Unidos, e o símbolo da igreja elitizada, a Europa, são substituídos pelas regiões distantes dos grandes centros decisórios mundiais.

Mas se pode ver algo a mais. Entre os recém-nomeados cardeais, a maioria é proveniente de pequenas nações, em geral, pobres e subdesenvolvidas, e está envolvida com questões sociais, como o trabalho com imigrantes ou em zonas de extrema violência urbana. 

Mas é também nas periferias das cidades do chamado Terceiro Mundo que ocorre a expansão do pentecostalismo. As igrejas (neo)pentecostais têm se inserido com sucesso nas franjas urbanas e alcançado as malhas populacionais mais degradadas. O famigerado discurso da prosperidade não é o maior propulsor dessa expansão pentecostal; essas igrejas também são uma rede de proteção social, acolhendo os indivíduos marginalizados. Além disso, o sotaque popular e imediatista de suas práticas atrai grupos sociais que outras igrejas têm mais dificuldade para atingir.

Traduzindo as nomeações do papa: ele claramente se posiciona contra o envelhecido eurocentrismo e se direciona às periferias do mundo, tanto para enfrentar a miséria social quanto para competir com o avanço pentecostal.

Foto: Francisco e Bento XVI durante a cerimônia de nomeação de cardeais.

09 fevereiro, 2015

a teoria da conspiração acústica



Sabia que a afinação musical em 440 Hz é uma conspiração para nos deixar idiotas? Segundo essa teoria, as estruturas sociais foram abaladas desde que os nazistas (?!) alteraram a frequência de afinação dos instrumentos da nota Lá em 432 Hz para Lá 440 Hz.
E mais: a frequência em 432 Hz estaria conectada com todo o universo, pois as frequências vibratórias dos planetas, estrelas, da água e do corpo humano estão “afinadas” em 432 Hz. Portanto, como agora a afinação está em 440 Hz, estamos todos desconectados do cosmos e sofrendo de desordem mental e distúrbios sociais. É o que dizem várias matérias “científicas”. Haja inspiração holística!
Peguei meu arsenal caça-mitos e fui ver por que essa teoria não se sustenta:
1 - Não há registro histórico de que a afinação mundial algum dia tenha sido em 432 Hz.
Músicos que buscam reproduzir a sonoridade instrumental do século 17 afinam instrumentos em 415 Hz (equivalente ao Lá bemol na afinação moderna de 440 Hz), exceto os órgãos de igreja, que eles afinam em 466 Hz (o Lá sustenido na afinação moderna).
2 - Não foram os nazistas que mudaram a “lei” da afinação dos instrumentos musicais.
Na verdade, em 1858, com o intuito de padronizar a afinação dos órgãos das igrejas, instituiu-se a frequência de afinação em 435 Hz. Em 1926, a indústria musical americana padronizou a afinação em 440 Hz na fabricação dos instrumentos. Em 1936, a American Standards Association, o INMETRO americano, recomendou a afinação em Lá 440 Hz, e em 1955, e depois em 1975, esse sistema recebeu a certificação internacional ISO 16.
3 - Quando se ouve a mesma música tocada com a afinação em 432 Hz e depois em 440 Hz, quase não se percebe a diferença (Ouça "Noite Feliz tocada em 432 Hz e em 440 Hz)
Mas para os defensores dessa teoria da conspiração acústica, essa sutileza faz parte do plano (segundo alguns, dos Iluminatti). Além disso, eles argumentam que, como nosso corpo é constituído de bastante água, essas moléculas estariam sendo afetadas pela nova frequência de 440 Hz, alterando nossa disposição mental.
Como se no passado as pessoas fossem mais ordeiras, gentis e predispostas à paz por ouvir música afinada em 432 Hz!
4 - Uma afinação mais baixa pode ter efeitos psicoacústicos, mas isso não se traduz automaticamente em tranquilidade e "ordem" mental.
O que é mais perceptível é a mudança sutil do brilho e do peso sonoro dos instrumentos. Mas o detalhe é que esse padrão de 440 Hz não é uniformemente seguido no mundo. Vários países usam a afinação em 442 Hz, outros preferem 444, 447, 457.
Do jeito que os números estão subindo, já já essa afinação chega em 666 e aí virá um apocalipse acústico qual nunca se viu antes!
5 - Essa teoria da conspiração psicoacústica reprocessa a antiga crença grega da música das esferas, que se baseia num cálculo das frequências emitidas pelos corpos celestes em movimento.
Especula-se qual o “som” da órbita de cada planeta e aí se espera que essa seja a afinação universal que nos conecta ao cosmos?
Pra terminar, o final do vídeo traz as legendas: “O Lá em 432 Hz é lógico e puro. O Lá em 440 Hz promove o materialismo, a hostilidade e desconecta o ser humano da natureza”. Ou seja, essas coisas horríveis que não existiam na Idade Média!
Sem mais, meretíssimo.