29 outubro, 2014

Fala, Vinicius

Vinicius de Moraes tem um recado pra quem anda postando que vai embora do país depois da eleição:


15 outubro, 2014

ao professor, um poemeu

Ao professor que não sabia de cor os nomes dos rios da margem direita do Amazonas

O que faz o livro?
Tira o pássaro da gaiola sem grades.

E a borracha?
Apaga tudo o que não é saudade.

O que fazem as filas?
Estacionam a gente do lado de fora da vida.

O que faz um rio?
Sonha em virar cachoeira.

O que faz o professor?
Abre janelas.

12 outubro, 2014

filmes de criança e filmes sobre crianças

3 filmes para assistir com as crianças, noves fora a trilogia Toy Story, que você já deveria ter assistido com elas:


Wall-e
Um discurso ecológico sem ecochatice, um elogio divertido à vida saudável e uma homenagem à pureza dos filmes mudos.


Ratatouille
O preconceito e o esnobismo são piores que fast-food. A felicidade das coisas simples da vida.


Super 8
Assisti com meus filhos as ficções infantis Os Goonies e Viagem ao Mundo dos Sonhos. Eles acharam ambos bem fraquinhos e eu tive certeza que a memória da gente é enganosa. Prefira Super 8, um filme do século 21 que homenageia as ficções infanto-juvenis do século 20, mas que termina sendo melhor do que os homenageados.

Comentário do meu filho mais novo ao fim da sessão: “Esse filme é tão legal que eu queria esquecer tudinho só pra assistir como se fosse a primeira vez de novo”


2 filmes sobre crianças para ver sem as crianças:


Filhos do Paraíso
O drama de dois irmãos para recuperar um par de tênis. Simples e emocionante. Fora que é um alívio ver crianças que falam e se comportam como crianças e não como adultos mirins espertinhos.


Adeus, meninos
Só a amizade das crianças se salvará em tempos de preconceito? Também se passa durante a II Guerra Mundial, mas vá deletando o humor sem noção de A Vida é Bela ou o sentimentalismo de O menino do pijama listrado

07 outubro, 2014

Marina e a campanha de sete pecados

Após o resultado do 1º turno das eleições 2014, Marina Silva disse estar orgulhosa de sua campanha. Mas também pode estar se perguntando “onde foi que eu errei?”. Afinal, ela chegou a estar com o ticket para o 2º turno nas mãos e, pouco a pouco, sua candidatura foi perdendo fôlego.

Quais seriam os prováveis pecados de rota e estratégia na sua campanha? Como num jogo de 7 erros, achei alguns:

7) Fator emocional: a comoção geral em torno da morte de Eduardo Campos alavancou o crescimento súbito de Marina. Com o passar do tempo, a poeira assentou e o impulso emocional arrefeceu.

6) Amizade “indevida”: em 2013, muita gente foi às ruas gritar não só contra o governo, mas contra os empresários do transporte coletivo, contra a FIFA e também contra os bancos, ocasião em que várias agências foram depredadas. Quando o eleitor descobriu que Marina Silva tinha a amizade e o financiamento de Neca Setúbal, herdeira e acionista do Banco Itaú, ele pode ter desconfiado de que a amizade seria “indevida” dentro da ideia de nova política da candidata.

5) Nova política: ao ser confrontada nos debates sobre sua ideia de nova política, a posição de Marina não ficava suficientemente clara. Luciana Genro chegou a dizer à Marina que uma nova política não era feita de conciliação de posicionamentos com a velha politica, mas que uma nova política só era possível contrariando interesses. 

4) Letargia no pragmatismo político: Marina Silva, que possui uma biografia limpa e louvável, saiu do PT por, entre outras questões, discordar de posições ambientalistas. Ela saiu do PV para formar seu próprio partido (a Rede Sustentabilidade) novamente por discordâncias políticas e ela mesma, dado o seu perfil combativo, não era exatamente a ajuda que Eduardo Campos precisava para atrair aliados, como a bancada ruralista. Como candidata à presidência, Marina demorou a aceitar o apoio de Geraldo Alckmin em São Paulo, devido a sua rejeição ao PSDB (sendo que agora parece que apoiará Aécio Neves!). Nem nova nem velha política, o que transpareceu foi uma demora na articulação da política da vida real.

3) A equipe econômica: quando Marina deu a entender que seu ministro da Fazenda poderia ser Armínio Fraga, homem-forte da economia frágil do governo FHC, a notícia, embora possa ter causado boa impressão entre os banqueiros e especuladores da Bolsa, pode ter afastado dois tipos de eleitores: os que não perderam a memória e lembram do endividamento público, da taxa de juros e do desemprego no segundo mandato de FHC; os que acharam que colocar Armínio Fraga no ministério é como por a raposa pra tomar conta do galinheiro. Ou seja, se no governo PT, os banqueiros nunca ganharam tanto, com Fraga a coisa seria ainda mais descarada (vale lembrar que Fraga é nome certo na equipe econômica de um provável governo Aécio).

2) Os quatro tuítes de Malafaia: Marina achou que devia recuar em posicionamentos progressistas relativos ao aborto e ao casamento gay. Sua mudança não se deu em negociação com as lideranças religiosas mais diversas, sendo ocasionada pela pressão dos setores mais conservadores do cristianismo no Brasil. Há muitos cristãos que não se sentem representados por Malafaia ou Marco Feliciano. E uma fatia de eleitores deixou de se sentir representada por Marina.

1) Índice de confiabilidade: apesar de acenar com um sopro de novidade política (mas não econômica, diga-se), o programa de governo de Marina não apresentou definições claras sobre temas como educação e crescimento econômico. Embora, enquanto Aécio não crescia nas pesquisas, o empresariado nacional passou a conversar com Marina, o que se viu na reta de chegada foi um reflexo do pequeno índice de confiabilidade do eleitor nacional na candidata do PSB. Essa ideia do eleitor aparentemente foi baseada nas falas públicas de Marina, sem conhecer mais a fundo a sustentabilidade de suas propostas.

Particularmente, não acho que as coisas mudariam significativamente num governo Marina (até porque, ela mesma disse que buscaria governar com os melhores do PT e do PSDB). Penso que o modelo neoliberal seria mantido na economia e que, ela, por seu histórico de lutas por causas sociais, também iria manter programas federais de diminuição da pobreza.


Lula perdeu 3 eleições consecutivas antes de ser eleito presidente em 2002. Resta a Marina o desenvolvimento da ideia de conciliar o melhor dos dois mundos, ou dos dois partidos que há 20 anos dominam a política federal. A realização de tal projeto parece estar mais no campo dos sonhos do que na arena da vida política concreta, mas quem sabe ela poderá vir com nova força e seus irrepreensíveis ideais para uma terceira campanha.

22 setembro, 2014

a jovem que queria ficar rica com música

Na feira de profissões, uma estudante se aproximou e disse:
 - O que mais amo é música.
 - Então essa é a profissão pra você. Pois, não é ótimo fazer o que mais se gosta e ainda ser pago por isso?
Olhando a cena, alguns dos alunos que trabalhavam comigo perguntaram:
- Simples assim, professor?
Respondi-lhes:
- Certamente. Pois todo o que vier perguntar sobre o curso de modo algum o lançaremos fora
Outra estudante veio e perguntou:
- Vem cá, música dá dinheiro mesmo?
- Não. Dá prazer, drama, emoção. Dinheiro, nem sempre.
Ela ficou meio decepcionada e seguiu seu caminho.
Os alunos voltaram a perguntar:
- Por que o professor não insistiu?
- É para que ela não perca tempo, já que tempo é dinheiro. Mas música, não. Música é outra coisa.

12 setembro, 2014

matou Deus e foi ao cinema evangélico

Eu bem que gostaria que fosse diferente, mas Deus não está morto é um filme que, embora queira partilhar uma mensagem profunda, é raso de espírito. Deus não está morto, mas a qualidade do cinema evangélico não passa bem.

Não vou falar da performance dos atores, da fotografia ou dos diálogos, todos de um primarismo que se nivela a um seriado bíblico da TV Record. Isso até seria uma marca das produções religiosas nacionais (de qualquer crença). Aliás, muito espectador dessas produções invoca uma virtude cristã, como a condescendência, para assisti-las.

As carências técnicas seriam um problema sem importância, se o alto valor da mensagem que o filme deseja divulgar fosse transmitido com acuidade e grandeza de espírito e não só com suposta nobreza de intenção.

O enredo trata de personagens evangélicos que são perseguidos e humilhados, mas têm uma luz celestial que lhes afasta de toda incerteza ou falta de racionalização crítica. Parece que são capazes de superar doenças com doses de cânticos e orações.

Já os não cristãos são vilões caricatos que, se não acreditam na existência de Deus, é porque eles sofrem com traumas do passado ou de autossuficiência arrogante, já que todas as evidências estariam aí para providenciar a aceitação lógica da fé.

Não importa se o personagem é ateu ou cristão, ele é retratado por meio de ideias preconceituosas e estereotipadas. Ninguém parece de carne e osso, mas apenas fantoches que se revelam como um tipo de evangélico falacioso e um espécime de ateu presunçoso.

Para piorar, o filme acaba mostrando uma noção nada cristã de Deus: a do ser vingativo que não suporta que ninguém discorde dEle, ainda que esse alguém não seja pior do que aqueles que professam a fé nEle.

A menina islâmica se converte ao cristianismo? Há um pai autoritário que a punirá. O rapaz é humilhado por causa de sua retórica evangélica? Seu opressor será punido. O professor não acredita na obviedade da existência de Deus? O próprio Deus o punirá.

Ao final, os humilhados compartilham o gostinho de vitória, o que transmite a ideia de alguns setores evangélicos de hoje, que repetem chavões triunfalistas de prosperidade pessoal. Não é difícil ver esse pensamento circulando em adesivos colados nos carros e em alguns refrões gospel.

Se a intenção era falar com quem não é cristão, o filme mostra um envelhecido e antipático discurso em relação a quem não enxerga a vida pelo mesmo prisma. Se era rebater Nietzsche, o bigodudo filósofo alemão é abordado de forma superficial e rasteira. Se o objetivo era pregar para os iniciados, duvido que todo protestante vá comprar essa retórica que promete uma solução fácil para questões de resolução bem complexa.


É uma pena que, na tentativa de ser didático, o filme esbarre em argumentos simplistas. Se a Bíblia tivesse sido escrita com a falta de densidade de tantos filmes evangélicos, a fé cristã não teria motivado nem um aleluia de Handel, quanto mais a persistência e fidelidade milenar dos cristãos.

09 setembro, 2014

o incrível cinema que encolheu

Joe Gilles: Você é Norma Desmond, atriz do cinema mudo. Você era grande.
Norma: Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.

A Rede Cinemark anda reprisando clássicos do cinema: Bonequinha de Luxo, Lawrence da Arábia, O Poderoso Chefão I e II, Chinatown, A Felicidade Não se Compra, Taxi Driver. Só pelos títulos já dá pra concordar com a personagem Norma Desmond (aliás, de outro clássico, Crepúsculo dos Deuses): o cinema encolheu.

O cinema ficou “big”, mas raramente é “great” como costumava ser. Cinema “big” sempre existiu, mas nos últimos 20 anos o cinema é grande no sentido de bilheteria, número de explosões, de efeitos visuais, de marketing gigantesco e merchandising incomensurável.

Raramente é grande no sentido de grandioso, de tematicamente ambicioso, que visa o impacto emocional e não somente o sensorial, que não tem medo da transcendência.

Bonequinha de Luxo é do tempo em que havia comédias românticas baseadas em roteiros inteligentes e bons atores e não apenas em situações inverossímeis e rostinhos jovens. Lawrence da Arábia é sinônimo de magnificência, A Felicidade não se Compra (assim como Ben-Hur) parece feito por gente que entendeu o cristianismo. Taxi Driver é violento, não é para qualquer estômago de cristão, mas não faz apologia da violência nem se diverte com ela. Aqui, a violência e a violação dos indivíduos repercute a violência legalizada do Estado e a violação cotidiana dos cidadãos.


Na famosa saga da famiglia Corleone, o que se vê não é a glamourização da violência ou da máfia, como alguns enxergaram. Em O Poderoso Chefão II, percebe-se que a tragédia moral do chefão Michael Corleone é a tragédia moral da América, cada vez mais envolvida em corrupção e ganância. Nas primeiras cenas, os congressistas americanos estendem a mão aos mafiosos em negócios escusos. As famiglias e a América se acasalam para construir um império cuja fundação é poder, dinheiro e mentira. Nessa trajetória, morrem pessoas, famílias e a paz de consciência.

De um jovem herói da nação na II Guerra que não queria nada com a famiglia, Michael vai se tornando o espelho decadente de seu próprio pai, Vito Corleone. Um defensor intransigente dos negócios da famiglia e não da sua família, ele vai ficando cada vez mais taciturno e sombrio. Suas cenas são emolduradas pelas trevas, numa fotografia que escurece tudo em volta do personagem. Do mesmo modo que seu pai foi filmado na primeira parte da saga, rodeado pela escuridão.


Ao filmar a máfia como uma organização familiar, achou-se que o cineasta Francis Ford Coppola estava glamourizando a criminalidade. Nada mais falso. Nos Chefões, a violência não se apresenta divertida, não há piadinhas depois de explosões. Há apenas o mal que provem da violência. 

Na verdade, os Chefões são um relato de como o crime se institucionalizou nos Estados Unidos (e em qualquer outro país) em forma de organização lícita, operando como os governos, que mostram uma fachada limpa em contraste com a obscuridade de suas tramoias e conluios. Esses filmes são um retrato da decadência moral da América, de um país que recebia os imigrantes com as mãos da Estátua da Liberdade, mas que lhes fechava os punhos na vida real, mostrando a face escura do mal, como diz a letra da canção “Alagados”.

Isso é cinema realizado com ambição, feito por cineastas que gostam mais de cinema do que de dinheiro. Não por acaso, a equipe técnica é composta de colaboradores geniais: o diretor de fotografia Gordon Willis, que filmou a máfia como um quadro do pintor holandês Rembrandt; o engenheiro de som Walter Murch; o músico erudito Nino Rota, cujos temas musicais amplificam a grandiosidade e a solenidade do filme.

Abram-se parênteses para a fotografia ao estilo Rembrandt (acima, o quadro "Festa de Belsazar"): a luz só mostra os elementos essenciais. Na abertura do primeiro Chefão, m homem chora na escuridão pedindo vingança para sua filha violada. A única luz está sobre sua cabeça. A câmera mostra a mão de outro homem que lhe estende um lenço e, em seguida, vê-se o rosto de Vito Corleone/Marlon Brando que vai atender o pedido. São tramas que só poderiam ser tratadas na escuridão, enquanto lá fora, tudo é sol e luz no casamento da filha do padrinho Corleone.

No segundo Chefão, o filme abre com outra festa ensolarada na propriedade dos Corleone. Depois, vemos Michael Corleone/Al Pacino receber um senador na escuridão do seu gabinete. São tramas que só poderiam ser negociadas nas trevas. O fotógrafo Gordon Willis iluminou (e escureceu) dois mundos contrastantes: a aparência familiar e institucional que a máfia quer transmitir; as negociatas e a decadência moral que afundam nas trevas.

E os atores? Quem são os Robert de Niro, os Al Pacino, as Diane Keaton de hoje? Os melhores atores já passaram dos 70 anos de idade e há raros substitutos para eles num cinema preferencialmente feito para ser degustado com pipoca e refrigerante.

Em Hollywood, talvez haja menos espaço para grandes atores e grandes músicos ou grandes fotógrafos porque, embora haja artistas genuinamente grandes, o cinema se apequenou.