01 setembro, 2015

causa de morte de músicos em cada estilo musical

Alguém se deu o trabalho de fazer um quadro comparativo das "causa mortis" de músicos por gênero musical. De fato , trata-se de pesquisa conduzida pela professora Dianna Kenny, da Universidade de Sidney, que investiga as causas de morte precoce de músicos. 

Nesse quadro, músicos do gospel têm taxas menores de morte por câncer ou ataque do coração do que as dos músicos de blues, jazz, pop e country, mas músicos desses estilos morrem menos por assassinato do que os músicos gospel.

30% dos músicos de jazz e blues morreram por problemas cardíacos ou câncer, o que certamente foi causado pelo estilo de vida e não pela música que tocavam. Nesses estilos, há menos mortes por suicídio do que no punk (11%) e no metal (19%). Mais do que o dobro de suicídios no rock e no rap. Já no rap, as taxas de morte por câncer e problemas cardíacos é muito menor do que as taxas observadas em todos os outros estilos.

Um analista descuidado lê isso e vai recomendar a audição de uma dose diária de rap para diminuir as taxas de colesterol. Já vejo a manchete: "Hip Hop ajuda no combate ao câncer". Mas, lembre que as taxas de morte por assassinato de artistas do rap são as maiores entre todos os gêneros (mais de 50%).

Antes que o mesmo analista descuidado aponte o rap como causa de homicídio ("Hip hop mata mais que câncer" seria sua manchete), vamos lembrar que, se rappers morrem menos de ataque cardíaco, provavelmente seja porque eles morrem jovens. E não é por causa do estilo musical, mas, entre outros motivos, por problemas surgidos pelo tom crítico de suas letras ou por conflitos que envolvem  sua condição social de origem em locais urbanos de forte risco social.


Um estilo musical não é capaz de retardar ou apressar a morte de um músico. Mas o estilo de vida e as condições sociais e psicológicas de um artista podem estar na sua própria causa mortis. Roger Daltrey (da banda The Who) cantava nos anos 60 que esperava morrer antes de envelhecer ("I hope I die before I get old" - letra de My Generation). Bem, ao contrário de outros roqueiros de sua geração, Roger Daltrey já passou dos 70 anos de idade, contrariando as expectativas de sua própria música.


13 julho, 2015

o adventismo no mundo: analisando as taxas de expansão e retração

Encerrados os trabalhos da Conferência Geral da Igreja Adventista, é hora de avaliar alguns números das declarações estatísticas anunciadas no evento. Os números por si não podem falar tudo. Seria necessário olharmos para os fatores que constituem o contexto social e histórico de cada campo onde o adventismo está presente, a fim de compreender os números de expansão ou de estagnação do adventismo em diferentes regiões. 

Pretendo abordar somente a taxa de crescimento mundial dos adventistas, dedicando algumas linhas também à análise dos dados estatísticos da igreja. Em outra postagem, quero postar breves análises mais específicas do contexto adventista no Brasil.

Os números da Conferência Geral dão conta de 18.550,589 membros registrados até 31 de março de 2015. Logicamente, é um crescimento fenomenal considerando-se que o adventismo foi formalmente organizado em 21 de maio de 1863 com a inclusão de 125 igrejas e 3.500 adeptos.

Se a taxa de crescimento é exponencial, outro dado mostra que os níveis de perda de adeptos também cresceram bastante. Um relatório de reunião realizada na igreja adventista de Battle Creek, em maio de 1863, mostrava que aquela igreja havia sido inicialmente organizada com 72 indivíduos:

 “This church was organized at Oct. 24, 1861, with seventy-two members. Admitted since, thirty-­six. Removed nine. Deceased two. Membership at present, ninety-seven.”

Esse curto relatório mostra que 36 novos membros foram integrados à igreja de Battle Creek, enquanto 9 foram excluídos (ou “removidos”, conforme o jargão religiosamente correto). Isto significa que ¼ dos membros deixara aquela comunidade adventista.

Os dados dos últimos cinco anos (2010-2014) revelam que 5.563,677 membros integraram-se à Igreja Adventista em todo o mundo por batismo ou profissão de fé, e que 3.068,141 foram removidos ou registrados como “não encontrados”. Ou seja, a cada 5,5 pessoas que entraram pela “porta da frente” da igreja, 3 pessoas saíram pela mesma porta (ou pela “porta dos fundos”, em se tratando dos não encontrados).

À primeira vista, esses números parecem demonstrar que o crescimento, apesar de contínuo, é menor do que a expansão das décadas passadas. No entanto, ao se comparar esses dados com os registros dos últimos 50 anos (1965-2014), nota-se que a taxa de “saída de membros” também é contínua. Nesse período, a Igreja Adventista recebeu 33.202,016 novos membros e 13.026,925 saíram: uma taxa de perda de 39,25% membros. 


Como explicou David Trim, diretor do escritório adventista de arquivos, estatísticas e pesquisas, a igreja adventista não estaria sofrendo uma crise de crescimento, mas sim, "sentindo os efeitos da correção estatística". 

Em nível mundial, então, a cada 10 novos membros que entram, 4 deixam a igreja. Se os níveis de perda de adeptos se mantiveram em 40% desde os anos 1960, talvez não haja motivo para desânimo no ímpeto proselitista da igreja. Mais preocupante para os adventistas deve ser o índice de perda de membros dos últimos cinco anos (2010-2014). 


Nesse período, o adventismo cresceu a uma taxa estável de pouco mais de 1 milhão de membros por ano, mas perdeu adeptos em ordem decrescente: de pouco menos de 500 mil indivíduos que deixaram a igreja em 2010 até o registro de quase 800 mil que saíram em 2014.

Se esta década iniciou com a perda de 4 adeptos para cada 10 novos membros, chega-se à metade da década com a perda de 6 adeptos para cada 10 novos membros. A questão é: essa taxa representa um decréscimo gradativo irrefreável ou se trata de mais um ciclo que alterna períodos de expansão e retração no crescimento da igreja?

Vejamos, então, somente os dados auditados entre 1990 e 2014. 



Há registro de crescimento variável:
- 7% de crescimento em 1990
- menos de 6% em 1992
- pouco mais de 6% no ano seguinte
- 4,5% em 1997
- pico de 7,5% em 1999 (taxa mais alta dos últimos 15 anos)
- queda contínua até 2005 (3,5%)
- 5% em 2006
- menos de 2% em 2008
- nova subida para 3,5% em 2010
- queda contínua até a taxa mais baixa (1,5%) em 2013
- 2014 não chegou a registrar 2% de crescimento

A partir dos índices coletados nos últimos 25 anos, em que picos de crescimento alternaram-se com graves baixas, é possível observar dois pontos:

1)  cada pico de crescimento é seguido imediatamente de quedas vertiginosas.

2) picos de crescimento têm sido atingidos com taxas cada vez mais baixas (7,5% – 5 – 3,5 – 2)

A explicação para o primeiro ponto pode estar na tomada de impulso evangelizador após a constatação institucional de baixo crescimento. Após essa fase de ímpeto, em que a instituição busca fomentar ações evangelizadoras com a cooperação das congregações, a desaceleração parece inevitável. 

Alguns motivos podem estar na condição de vida dos evangelistas leigos, setor da igreja formado pelos adeptos. Diferentemente do corpo de evangelistas especialistas (pastores ou evangelistas remunerados) que podem dedicar seu tempo de trabalho a ações evangelizadoras, os leigos, por sua vez, precisam cuidar de sua subsistência e nem sempre todos podem manter o ímpeto evangelístico inicial.

Essa perda de ímpeto pode também estar no outro lado, o lado dos novos membros. Após à integração na nova comunidade de fé, os novos adeptos podem perder gradativamente o interesse pela igreja e, embora aceitando a veracidade de parte das crenças, eles deixam de ver sentido na manutenção da frequência à igreja e, então, afastar-se. Não deixa de ser também um caso de arrefecimento do ímpeto inicial (ou como dizem alguns cristãos, uma perda do “primeiro amor”).

Outro motivo para a perda de fiéis pode estar na reação negativa ao código de conduta da igreja. De modo geral, o sujeito contemporâneo, e aqui falamos do habitante das áreas urbanas do Ocidente, valoriza sua autonomia e independência de atitude e tem passado a ver as interdições eclesiásticas como uma legislação de consciência no que diz respeito a restrições a ornamentos (especificamente, joias), entretenimento (filmes e músicas populares), vestuário, penteados, maquiagem, consumo de carne (bovina e de aves) e café.

A perda gradativa de adeptos nos últimos anos coincide com as prescrições de comportamento público e privado para os adventistas lançadas no documento “Estilo de Vida Adventista”. Alguns indivíduos podem ter entendido que o reforço das restrições caracterizava um aumento na regulação da vida cotidiana, e sua reação foi o abandono do adventismo.

E, quanto ao segundo ponto, o que pode ter ocasionado o gradativo decréscimo nos picos de crescimento?

As razões são muitas e provavelmente não há disposição do leitor para continuar acompanhando por muito tempo estas análises. Vou insistir na perseverança dos santos, então.

Alguns motivos observáveis são:

- interesse por religião, mas desinteresse pela denominação: enquanto as crenças religiosas mobilizam a espiritualidade, as congregações constituídas de gente como a gente às vezes parecem mais preocupadas com a vigilância de condutas pessoais do que com o acolhimento fraterno. Como dizem, “Deus é bom, o problema é o seu fã-clube”.

- novos competidores no campo religioso: a expansão do pentecostalismo desde o final do século XX tem causado maiores obstáculos ao avanço do protestantismo. O fenômeno (neo)pentecostal trouxe ao campo religioso uma disputa pelo monopólio da salvação que talvez só se observou no período de inserção protestante em países de larga tradição católica.

- o fator euro-americano: o baixo crescimento, a estagnação ou mesmo a retração de membros adventistas em vários países europeus e nos Estados Unidos tem colaborado para diminuir os picos mundiais de crescimento. As taxas de crescimento na Europa e nos Estados Unidos não se aproxima dos níveis de crescimento do adventismo na América Latina e na África. 
Enquanto as regiões desenvolvidas (com maior taxa de renda per capita e nível de escolaridade) enfrentam baixo crescimento, estagnação e mesmo retração no número de adeptos, os países em desenvolvimento e do chamado Terceiro Mundo têm mostrado maiores níveis de crescimento. Muito embora, essas mesmas regiões também tenham registrado níveis de perda de membros não muito diferentes daqueles do Primeiro Mundo.

- contexto social e econômico: por que se cresceu muito mais entre 1997-1999 do que nos 15 anos seguintes? Já considerando o fator pentecostal, que tomou impulso mundial muito maior justamente nos anos 2000, é preciso lembrar que boa parte do planeta experimentou uma grave crise econômica no fim da década de 90. E não se deve descartar o fato de que os indivíduos tendem a buscar apoio espiritual em situações econômicas frustrantes. Além disso, as ações evangelizadoras adventistas tomadas próximas ao final do século e às portas do novo milênio parecem ter encontrado ambiente favorável ao clima místico mundial de despertar ou renascimento religioso provocado por uma simples passagem do tempo.

Essas considerações iniciais não são, evidentemente, conclusivas, mas espero que ajudem a nortear os questionamentos que os dados estatísticos suscitam. É provável que parte dessas breves análises ajudem a explicar o cenário do protestantismo geral ao redor do mundo. Na próxima postagem,  pretendo abordar o dados auditados no Brasil e as razões sociológicas que explicam os números. 


Fonte dos registros, slides e citações: 2015 General Conference Session Report: membership audits and losses (David Trim). Office of archives, statistics and researches.

26 junho, 2015

adeus a James Horner, o compositor dos filmes épicos

O compositor James Horner morreu na segunda-feira, 22/6, quando pilotava sua aeronave na Califórnia. Tinha 61 anos e um respeitável currículo de trilhas sonoras para o cinema. Sua parceria mais famosa foi com o cineasta James Cameron: Aliens, o resgate (1986), Titanic (1997) e Avatar (2009) têm música de James Horner.

Música de sonoridade ruidosa para o terror espacial de Aliens, percussão e música épica para Avatar e todo o melodramatismo musical para Titanic. Por esta última trilha, Horner ganhou os Oscars de Melhor Trilha Sonora (sim, é dele aquela flauta insistente que toca direto para Jack e Rose) e de Melhor Canção (sim, ele tem parte com “My Heart Will Go On”).

James Horner também é o autor da trilha sonora dos filmes Campo dos Sonhos, Coração Valente e Apollo 13 (as três indicadas ao Oscar de melhor trilha).

Sua música para Jornada nas Estrelas II: a Ira de Khan (1982) traz uma orquestração de metais fantástica, com um tema principal épico e nostálgico.



Minha trilha preferida de James Horner é a do filme Tempo de Glória (1989), um filmaço com Denzel Washington e Morgan Freeman sobre o primeiro regimento militar formado exclusivamente por soldados negros durante a Guerra Civil Americana.

James Horner utiliza um coro, cordas, metais e percussão marcial nos temas principais. Não se trata de um filme de glorificação da guerra, mas sim um filme sobre a revolta e a coragem de um batalhão destinado a uma vitória heroica, porém, com perdas humanas devastadoras. A música de Horner capta esse sentimento misto que advém de triunfos sem humanidade.



Valeu, James!

24 junho, 2015

CD Renascido: a solidez da doutrina na voz da fluidez musical - parte 1

Quando um compositor cristão faz uma música, ele atravessa o mesmo processo que um compositor de qualquer outra crença ou descrença: escolher a letra, a rima, a palavra certa; selecionar o som, a altura, o acorde.

O que distingue a composição de um músico para outro não é o processo, mas o paradigma. Explico. Se o processo é semelhante, o paradigma de composição é diferente porque os compositores têm pelo menos dois modos de perceber o ato de compor: ou o músico se alinha às premissas musicais e poéticas mais convencionais ou ele busca os ingredientes musicais e poéticos mais inovadores. É com essa segunda percepção que o compositor, cantor e maestro Daniel Salles vê a prática musical.

No CD Renascido, ele apresenta uma paleta variada de estilos e formas musicais que contêm o germe da invenção. Paradoxalmente, o que Renascido tem de inovação poética e musical, tem também de preservação da doutrina tradicional.

Enquanto a doutrina é inflexível, pois se trata de declarar princípios teológicos que raramente são alterados, a forma de cantar a doutrina não é imutável, pois se trata de usar códigos musicais que constantemente são modificados. O material de que é feito a doutrina tem um núcleo mais rígido, sólido. O material de que consiste a música é mais fluido, dinâmico. Renascido é um trabalho de solidez doutrinária na voz da fluidez musical.

Os exemplos musicais povoam o cd inteiro. Na canção “Quando o vento do espírito soprar” (ouça aqui), a transição de acordes alterados (cheios de sextas, sétimas e nonas), associados à tradição da MPB mais sofisticada, vai embelezando a canção que faz uma inquietante pergunta aos cristãos que não veem sua igreja crescer solidamente na obediência e na missão: “Por que será, por que razão, temos tudo nas mãos, mas não há fogo no altar?”

O compositor não se refere a milagres, curandeirismos ou manifestações extáticas como suposta prova do fogo da presença do Espírito Santo. Ele constata a falta de comunhão, de devoção e de amor mútuo entre os próprios cristãos, o que afastaria um maior poder de atuação celeste na vida da igreja. Mas a música não estaciona na constatação de paralisia e mornidão da igreja e recorre a citações de trechos bíblicos (Joel 2:13; Atos 2:17: nos últimos dias, vossos filhos profetizarão...):

“Quando a comunhão for a arma principal
E a rotina dos nossos dias sair do seu normal
Descerá sobre nós o fogo do Espírito
Viveremos o evangelho
E Jesus Cristo vai voltar”

No trecho acima, o arranjo musical apresenta acordes mais simples e timbres mais pesados (guitarras), enquanto a voz do cantor está mais firme e forte, o que revela a intenção de introduzir os (auto)questionamentos de maneira musicalmente reflexiva e chegar ao posicionamento final de esperança de maneira mais afirmativa.

Outras duas canções reforçam a combinação de manutenção da doutrina tradicional com exploração musical criativa: “Imutável” e “Sábado”. Na primeira, uma melodia cheia de curvas:

“Deus não muda, e a Palavra não se anula
Não é inflexível, [...] sempre permite mudar e mudar em função de uma escolha
[...] Por ser imutável, Deus continua me mudando”

Já a canção “Sábado” dá a esse ponto doutrinário um tratamento mais ameno. Em geral, somente as canções infantis adventistas têm tonalidades de leveza quando abordam o sábado. O que Daniel Salles faz é colorir o sábado de um modo menos rígido ou severo como às vezes esse dia é interpretado mesmo por pessoas que observam o sábado como o dia de descanso semanal.

“O sábado é o dia do sim, e não do não
Sábado faz parte da minha existência
Símbolo da alegria e da salvação”

A letra mostra tanto a alegria de guardar o sábado quanto o contraste entre o sábado e os outros dias. A interpretação vocal de Daniel Salles e Dirley Menegusso estampa felicidade. E toda essa demonstração de alegria e leveza encontra correspondência na escolha do estilo musical: o samba.

Evidentemente, é uma escolha musical pouco ortodoxa. Mas o arranjo musical não soa agressivo nem borra a mensagem doutrinária. A percussão é suave, sem batida forte de bumbo ou surdo, e a melodia em nada lembra rodas de samba ou desfiles de carnaval. O estilo musical pouco usual para falar do sábado funciona como indício de alegria e leveza e símbolo de musicalidade brasileira.

Seria como se o disco perguntasse: Por que é aceitável falar da volta de Cristo com marchas militares norte-americanas e não se poderia falar de sábado com a música de caráter mais brasileiro?

Uma resposta possível está no modo de evangelização protestante no Brasil, o qual trouxe consigo uma larga cultura musical popular norte-americana e descartou as expressões de musicalidade brasileira. Mas isso é assunto para outra postagem. O que se deduz dessa canção é que a doutrina é teologicamente preservada enquanto a forma de transmiti-la é musicalmente renovada.


CD Renascido: a solidez da doutrina na voz da fluidez musical - parte 2

*pequeno estudo sobre o CD Renascido, de Daniel Salles (parte 1 aqui).

No CD Renascido, ainda há outros vestígios de suavidade no tratamento de temas mais sérios. Na música “Cardiomegalia”, por exemplo:

no meio da noite veio uma vontade de acordar
 volume no peito que crescia feito bolo de maracujá,
sintomas de uma alegria que não cabia em mim [...]

Por que usar nessa canção um estilo rítmico mais animogênico/movimentado? Segundo a letra dessa canção,

“Na bíblia eu li que um homem coxo foi curado e se pôs a dançar
E quase explodindo de alegria sua cura teve de contar
Um tipo de cardiomegalia santa inflando o coração”

No cristianismo, não somente a cura física, mas também o aceitar das boas novas da salvação estimula a alegria que não se pode conter:

Não fica parado nem calado quem foi salvo da condenação
[...]”
“Quem recebeu a graça só consegue amar
Pois sente o calor da chama viva a queimar
O coração que cresce agora quer compartilhar
Pois sente que é nascido em Deus pra doar amor”


Na música “Pronto pra Amar”, o cantor diz que “só estarei pronto para amar alguém” quando deixar de olhar para si e mirar o exemplo de Cristo:

“Apenas quando eu esquecer de mim”, “me diminuir”, quando “eu olhar pra cruz”, “imitar Jesus”. Só então será possível “viver para espalhar a benção da graça”.

Estas duas últimas canções têm estilo e performance vocal que tendem ao black gospel norte-americano. Mas na verdade, ambas as canções têm um pé na rica herança do gospel negro estrangeiro e outro pé na rica musicalidade afro-brasileira.

Quando ouvem a expressão “afro-brasileira”, muitos cristãos já visualizam imagens de rituais de possessão e sons de tambores. No artigo "Música, religião e cor", a antropóloga Márcia Pinheiro percebeu que essa noção é muito presente no meio evangélico e que, por essa razão, os compositores evangélicos tendem a utilizar as expressões da música popular afro-norte-americana, como o soul e o rap.

Mas ao inserir, de forma bastante atenuada, as expressões musicais afro-brasileiras, como em “Sábado”, e afro-norte-americanas, como em “Cardiomegalia”, Daniel Salles mostra que é possível manifestar sem recalques e com tato a identidade musical negra, vista por alguns setores cristãos ainda como algo musicalmente inferior e teologicamente incorreto.

Entretanto, essa aparente subversão da forma tradicional de cantar os temas cristãos está somente nesses exemplos musicais citados acima. No restante do repertório, volta-se à musicalidade sem sobressaltos (para alguns ouvintes, claro).

Na canção “O efeito da graça”, a letra sofisticada de Mário Jorge Lima descreve o contraste entre a compreensão correta da graça divina e os pensamentos obtusos humanos sobre a graça:

“A graça e a sensação de culpa, a graça e a estúpida arrogância, a graça e a falta de transformação: são coisas mutuamente exclusivas”. A letra acrescenta: “A graça e o medo da condenação, a graça e o espaço dado ao erro, a graça e a alma sem submissão são coisas mutuamente exclusivas”.

A solução apresentada é:

“Mas quando a graça invade a nossa vida
Expulsa as trevas [...]
Traz liberdade e paz [...]”

O CD Renascido tem um forte componente autobiográfico. Poucos meses antes de produzir o CD, Daniel havia passado pelo tênue fio que separa a vida da morte. Após sua recuperação de uma doença gravíssima, cuja repercussão mobilizou seus irmãos de fé Brasil afora, ele só poderia incluir no repertório do CD uma experiência tão aguda. Daí várias canções repassarem o sentimento de dor, perda, cura, gratidão e recomeço.

Esse olhar em retrospecto para aqueles momentos não resultou em simples relato de cura física e agradecimento. Daniel Salles reconta sua experiência individual e a associa à vivência espiritual coletiva de sua igreja e dos cristãos de forma geral.

“Quem saiu de um leito frio, em quarto triste, de sons distantes,
saberá amar a vida tão resumida, abençoada e tão sofrida
Lágrimas a romper em dia de alegria, quando vier o sol”
[Renascido]

“Quanto mais escura for a noite
Mais e mais eu ponho a fé em Cristo
Quanto mais a dor aumentar
Mais e mais eu creio na promessa, o meu Senhor virá
Vou sorrir quando o sol chegar”
[Quando o sol chegar]

Para quem enumera relatos de dificuldade de sobrevivência e sociabilidade (em bom português, fome e preconceito racial), o componente autobiográfico mais dolorido comparece nas canções “Só eu sei” e “Se acostume comigo”. Mais uma vez, o autorretrato repassa a dor pelo filtro da superação alegre.

Por fim, três canções que, ouvidas consecutivamente, são um painel de três tempos de uma relação amorosa.

Na primeira, “Você me surpreendeu”, o começo de tudo, quando o amor desperta inesperadamente ou bate à porta quando se desdenha sua existência:

“Você reacendeu uma chama dormida,
outrora apagada por outros planos da vida”
ou
“Você me surpreendeu quando ao telefone
Percebeu que seu sonho era exatamente o meu”

Das coincidências e sonhos comuns dos estágios iniciais de uma relação, chega-se ao tempo em que se olha retrospectivamente. A canção seguinte se chama “Primeiro Amor” (ouça aqui), mas poderia intitular-se “o meio do amor”. Alguns trechos de sua letra podem ser interpretados assim:

“Não sei como caminhar sem ouvir o som da sua voz”: isso é a relação na perspectiva do agora.

“Eu não cruzei muitos caminhos pra te encontrar,
Eu não vivi outras história de amor assim”: isso é a retrospectiva.

“Você estava no começo e também vai estar no fim”: isso é a expectativa.

Por último, na canção “Vows Renewal” (renovação dos votos) estão as promessas de manutenção do amor nos momentos futuros. Não está aqui o fim, mas o sem-fim do amor. O amor que se renova, que se pereniza, o entendimento de que o amor não é só uma comédia romântica.

No dueto, Daniel e Rosane, esposa do compositor, cantam o amor na maturidade, na velhice. A canção diz que nas dificuldades da velhice “eu estarei lá”. E em outros versos, reaparece o estilo de Daniel de dizer as coisas mais sérias com tons de leveza:

“Quando o baby à noite acordar” e “quando a louça se acumular, eu estarei lá”.

Ao escutar o CD com outros ouvidos, menos dado a purismos teimosos, tem-se um trabalho musical que não fala apenas dos princípios da fé, da esperança, da salvação, da lei e da graça. Renascido fala das miudezas do cotidiano, das relações amorosas, da alegria de viver ou de reviver.


É assim que o mandamento do sábado é visto na perspectiva da graça, e por isso não é um peso para o compositor. É assim que a relação amorosa (o cotidiano) é vislumbrada na perspectiva do plano de Deus (o transcendente). É assim que quem esteve às portas da morte compartilha musicalmente a graça do renascimento.

08 maio, 2015

II Guerra Mundial: 8 filmes, 70 anos depois


8 de maio de 1945: há 70 anos, os combates da II Guerra terminavam na Europa, enquanto no Extremo Oriente a guerra ainda prosseguia. Para lembrar o Dia da Vitória (conhecido como o Dia V), deixe um pouco de lado de lado a fantasia da vingança de Bastardos Inglórios, o chororô de O Menino do Pijama Listrado ou qualquer filme de guerra com o Nicholas Cage e veja essa lista de 8 filmes sobre a II Guerra que provavelmente você ainda não assistiu.

[Antes da lista, quero lembrar que há 30 anos eu e o Kelvin Ferreira, dois pré-adolescentes filhos de professores num internato no Amazonas (IAAI), fomos sabatinados sobre a II Guerra pelo colégio inteiro numa tal de capela cultural. Mesmo sendo dois devoradores de bibliotecas, não tínhamos respostas para todas as questões, mas as que tínhamos teriam nos levado longe num Show do Milhão.rs]


Patton – O controverso general Patton foi até suspenso pelo alto comando por afligir seus soldados, mas era um estrategista tão genial e temido pelo inimigo que foi deslocado para uma missão fake com o único objetivo de despistar os alemães antes do desembarque das tropas aliadas (este evento passou para a história como o Dia D, não vamos confundir as letras). 


Quando voam as cegonhas - Jovem casal separado pela guerra. Se a premissa é comum, sua filmagem é incomum. Uma atriz incrível e uma fotografia fantástica, com ângulos inusitados e expressivos. Emocionante relato sobre as angústias e a força das mulheres que ficaram para trás na guerra.


A ponte da desilusão – No fim da II Guerra, um grupo de adolescentes alemães é subitamente recrutado para proteger uma ponte. A convocação deles acentua a insensatez de todas as guerras. Belo e trágico.


O Barco – E o ponto de vista dos alemães? Este filme se passa quase que inteiramente dentro de um submarino alemão, cuja tripulação não é constituída por demônios enlouquecidos, mas por seres humanos obedecendo a ordens e tomando decisões que envolvem riscos mortais inclusive para si mesmos. Ação e reflexão da loucura da guerra sem nenhum minuto entediante.

Roma Cidade Aberta – Uma cidade italiana lutando contra o exército inimigo com as únicas armas que lhe restam: a solidariedade e a abnegação em prol da liberdade. Representada por uma mãe coragem, um padre defensor dos direitos e um jovem grupo de resistentes, o filme é um milagre de técnica e emoção rodado com parcos recursos no calor da guerra.


Fugindo do Inferno – Irônico e épico ao mesmo tempo, narra com extremo vigor o plano de fuga de soldados confinados por nazistas num campo de prisioneiros. Atuações, montagem e trilha sonora primorosas.


A infância de IvanUm órfão de 12 anos serve de espião russo na II Guerra e vemos como a infância e a inocência são destruídas pela maldade da guerra dos adultos. Extraordinariamente bem filmado, tem um final sublime.
 



Noite e Neblina – O documentário francês Noite e Neblina (1955) foi o primeiro filme a enfocar o Holocausto. Utilizando imagens de arquivo que registraram as atrocidades nazistas contra os judeus, o diretor Alain Resnais alterna essas cenas absurdamente cruéis com imagens dos crematórios e campos de concentração, alterna o preto-e-branco de corpos jogados em covas coletivas com imagens coloridas das câmaras de gás vazias. O diretor procura os oficiais nazistas que perpetraram tamanho horror e ouve a mesma resposta deles: “Não sou o responsável”. Mas então, de quem é a culpa? Com apenas 32 minutos de duração, sem fotografia glamourosa, sem música lacrimogênea, esse filme deixa na mente a indignação e, principalmente, a avaliação de que um grupo social pode ser vitimado por meio do poder político e com a cumplicidade da maioria da população. 

22 abril, 2015

a lei musical da selva depois de 22 abril de 1500

Quando alguém gritou “Terra à vista” naquele de abril de 1500, os tripulantes de Pedro Álvares Cabral não faziam ideia de como seria a música dos nativos da terra de Santa Cruz. A primeira música que os exploradores ouviram quando chegaram aqui pode não ter sido a música da primeira missa rezada por esses lados do Atlântico. Pode ter sido um canto indígena.

O escrivão Pero Vaz de Caminha anotou isto em carta a El Rey: “Eles [os índios] folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita ... dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso...”

A epístola de Pero Vaz aos portugueses já adianta que o processo de submissão cultural dos nativos os levaria a praticar obrigatoriamente a música “dos nossos”, a música luso-europeia.

Os padres jesuítas, desde sua chegada em 1549, empregavam o canto como instrumento de catequese nas aldeias indígenas e seus aprendizes participavam das atividades musicais em missas e ofícios.

Imbuídos da missão de salvar as almas indígenas, eles utilizaram o canto e a prática instrumental para ensinar os princípios e valores cristãos, fazendo uma substituição de temas e melodias na prática musical dos nativos. Era assim que trabalhava o padre Aspilcueta Navarro, que, segundo o relato do padre Manuel da Nóbrega, “faz[ia] cantar aos meninos certas orações que lhes ensinou em sua língua”.

Mas já havia quem se queixasse da prática de colocar letra cristã em melodia da terra. Em carta de 1552 ao padre Manuel da Nóbrega, o bispo Pedro Sardinha reclamou que os meninos entoavam “cantares de Nossa Senhora em tom gentílico” [gentílico ainda era uma expressão usada para diferenciar cristãos e gentios ou não cristãos].

O padre Manuel da Nóbrega respondeu que uma forma de atrair os índios era “cantar cantigas de Nosso Senhor em sua língua e pelo seu tom”.

No fim, venceu o modelo de evangelização que recrutava as almas dos índios ao mesmo tempo em que descartava sua cultura musical. Assim, três anos após a chegada dos jesuítas, o método de catequese em que um texto cristão em língua indígena, como o tupi, era cantado com uma melodia também indígena foi proibido, passando a ser permitido apenas o método que utilizava um texto cristão em tupi cantado com melodia europeia, a música “dos nossos”.

Nesse sentido, as seguintes linhas da saudação angélica em tupi só poderiam ser cantadas com melodia europeia:
Sancta Maria Toupan su eieruré demembouira supé
tigburon oreue, ore memoan angat paua supé.
Emona ne toico Iesus.

Ao atribuir caráter pagão às sonoridades indígenas, exploradores e evangelizadores tiveram um bom motivo para promover a iniciação dos nativos em lições de instrumentos e melodias mais associadas à música sacra europeia. Ao mesmo tempo em que os índios ganhavam machados e violas do colonizador, eles se distanciavam de sua prática musical de origem.

Se a história se repete, ela se repete com variações, tendo em vista as interdições musicais modernas e o caso da proibição colonial de se cantar texto cristão com música nativa. Na nova lei da selva brasileira, prevaleceu a música do mais forte.




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Extraí as citações dos livros:
CASTAGNA, Paulo. Música na América Portuguesa. In: Moraes; Saliba. História e Música no Brasil. São Paulo: Alameda, 2010.
HOLLER, Marcos. Os jesuítas e a música no Brasil Colonial. Campinas: Editora Unicamp, 2010. 


16 abril, 2015

uma imagem que vale mil canções: história da música dos adventistas


A história da música adventista no Brasil passa obrigatoriamente pelos músicos nessa foto, tirada num encontro de músicos no Rio de Janeiro:
1ª fila, da esq. para direita: Mário Jorge Lima, Williams Costa Junior, Jader Santos
2ª fila: Evaldo Vicente, Valdecir Lima, Lineu Soares, Flávio Santos
3ª fila, à direita: Alexandre Reichert Filho

[Não conheço o trabalho de Wilson Almeida e Horly de Oliveira, na 3ª fila, da esquerda para direita. Por isso, vou mencionar somente os demais músicos].
No final dos anos 1970 e início dos anos 80, tendo como epicentro o Instituto Adventista de Ensino (hoje, UNASP-SP), eles viabilizaram uma mudança de paradigma sacro-musical que impactou a estrutura musical e poética tradicional e mobilizou um novo modelo de prática musical para as igrejas adventistas no Brasil.

Trata-se de uma foto carregada de capital simbólico, visto que reúne uma geração espetacular de letristas, maestros, instrumentistas, compositores e arranjadores que deram novos rumos à música dos adventistas. Além disso, em conjunto com a formação musical, eles também tinham domínio da teologia da igreja, o que lhes tornava especialistas na transposição da Palavra para a formato musical. E mais: eles atuavam, ou já haviam atuado, profissionalmente a serviço da instituição adventista, o que lhes dava "licença para modificar" (ainda que com restrições, impostas ou autoimpostas).    

Algumas mudanças geradas por esses músicos:

1) Linha melódica: as canções de pequenos saltos melódicos, tradicionais da canção rural americana, a qual era predominante nas coletâneas de música sacra adventista até o final dos anos 1970, foram gradualmente substituídas por músicas com maiores saltos entre as notas, próximos do lirismo musical brasileiro. Observe o início de um cântico composto nos anos 70: “Mãos” (Williams Costa Junior), em que a melodia estável é subitamente interrompida por um salto (em vermelho). 



A canção “Sorriso” (Lineu Soares/Valdecir Lima), dos anos 80, traz saltos melódicos bem mais amplos e só no final da estrofe o compositor interrompe a sequência de saltos.


Em suas composições, Costa Junior e José Geraldo Lima usavam notas de passagem que não fazem parte da tonalidade da canção, o que também é uma novidade que será adotada por outros músicos adventistas (principalmente aqueles que estiveram sob a benfazeja “jurisdição” musical de Costa Junior no IAE da década de 1980, como os músicos na foto - na época, também passaram por ali Jael Enéas e Wanderson Paiva).

Para ficar com dois entre tantos exemplos, veja as notas destacadas em círculos verdes nos trechos das partituras das canções  “Mãos” (acima) e “Conhecer Jesus” (abaixo). Nesta, as notas fá sustenido, sol sustenido e si natural não fazem parte da escala de Fá Maior, a tonalidade da canção. 


2) Harmonizaçãoesses compositores imprimiram na canção adventista nacional as harmonizações mais refinadas da MPB. As transições harmônicas mais elaboradas que já vinham sendo praticadas desde a bossa nova, no início dos anos 1960, foram incorporadas gradualmente pelos músicos adventistas nos anos 1970 e consolidadas na década de 1980. Houve um corte em relação aos corinhos norte-americanos, de estrutura harmônica mais simples e de poucas transições de acordes (como, por exemplo, nos cânticos "Caminhando", "(Estou) Seguindo a Jesus" ou "Lado a Lado").

Uma observação rápida: não se deve subestimar a influência do trabalho erudito de John Peterson com suas cantatas cristãs, e também do músico adventista Wayne Hooper, que desde os anos 1960 já inseria transições harmônicas mais complexas nos arranjos do quarteto King's Heralds, cujas músicas foram base das gravações do quarteto nacional Arautos do Rei por longo tempo. 

Observação 2: vários integrantes da foto foram diretores musicais dos Arautos do Rei ou fizeram música para o quarteto.

Observação 3: a formação vocal de quarteto passou a interessar mais aos adolescentes e jovens dos anos 80 com o quarteto Unipaz (com várias músicas de Flávio Santos e letras de Mário Jorge Lima e Valdecir Lima) e nos anos 90 com as mudanças harmônicas, instrumentais e (enfim, Brasil!) étnicas realizadas por Jader Santos no quarteto Arautos do Rei.

Essa harmonização mais rica tinha a ver com os interesses musicais dos compositores, mas também tinha relação com a nova melodia de suas canções, que pareciam exigir acordes mais complexos. Veja logo acima a sequência de acordes da canção "Conhecer Jesus".

Essa sofisticação harmônica já estava presente na composição “Conversar com Jesus”, de Alexandre Reichert Filho. Em 20 compassos, este corinho desprovido de refrão exibe maior desenvolvimento melódico-harmônico do que os cânticos estrangeiros que integravam as coletâneas adventistas até então. Nela, há vários procedimentos harmônicos (assinalados em vermelho na partitura abaixo) que sustentam a breve melodia.


 3) Integração de letra e música: na década de 80, Flávio Santos e Valdecir Lima lançaram a canção "Deus sabe, Deus ouve, Deus vê", cuja harmonia refinada e recheada de transições de acordes só encontra paralelo na sofisticação de sua letra. A canção começa em tonalidade menor (Si menor), o que reforça o clima de introspecção sugerido pelo início da letra ("você que se sente pequeno,..."). Mas, ao final, com os versos assertivos "Deus sabe, Deus ouve, Deus vê", a canção termina com um acorde maior (Ré Maior) na última palavra da letra ().

Todo o percurso lírico de angústia individual e inferioridade existencial, acompanhado de transições de acordes que evitam até o final a resolução de harmonia, é encerrado com a afirmação de segurança num Deus que sabe e cuida de todas as coisas. Essa segurança se reflete musicalmente por meio da finalização da música com um acorde maior, sugerindo estabilidade psicológica ao indivíduo que ouve a canção. E nossa escuta musical ocidental está acostumada com um acorde perfeito maior no final de uma música como sugestão de estabilização e resolução.

A busca pela integração entre letra e música não era uma novidade absoluta para a época. Novidade foi o tratamento mais rebuscado dessa interação entre palavra e som musical. Compare-se as canções da coletânea "Melodias de Vitória", dos anos 1950, com aquelas do álbum "Eu Sei de Alguém", anos 80.

Nesta última, as composições de Mário Jorge Lima para voz solista já celebram esse novo tratamento, em que a linha melódica sinuosa, cheia de curvas, discretamente à brasileira, encontra paralelo no refinamento poético da letra. Já na coletânea dos anos 50, o tratamento musical é distinto, não somente por causa da diferença de época, mas também devido à origem social e geográfica dos autores estrangeiros, ainda que estes compartilhassem da mesma fé dos brasileiros.

4) Atenuação/defasagem do ritmo: embora estivessem no chamado país do samba, e o hinário oficial de sua igreja estivesse recheado de ritmos populares norte-americanos (marchas e baladas rurais), o grupo de compositores da foto acima não adotou os gêneros de raiz nacional, como o samba, o frevo, o baião, a música sertaneja. No entanto, houve uma notável alteração rítmica. Canções no estilo de marcha militar (o cancioneiro adventista até os anos 1970 apresenta bastante canções nesse estilo rítmico) deram lugar a canções animadas, porém, sem ênfase na marcação binária militarizada, e a cânticos com defasagem rítmica em relação aos corinhos estrangeiros.

No meu entender, essa súbita atenuação do ritmo não se deve a uma suposta conscientização antimilitarista em pleno governo militar (anos 70-80), mas sim, à formação musical erudita e à nacionalidade daqueles músicos. Sua formação clássica pode ter influenciado uma busca por maior ênfase na melodia e na harmonia (e no arranjo orquestral), enquanto sua nacionalidade brasileira os posicionava mais ao lado da sutileza melódica e refinamento harmônico da bossa nova do que da ênfase rítmica e facilidade melódica das marchas militares e das canções country.

Como exemplo dessa defasagem rítmica, temos o cântico “Agora”, que foi o hino oficial do IV Congresso MV (Missionários Voluntários) realizado pelos jovens adventistas em 1973. Nesses eventos, os cânticos temáticos oficiais geralmente possuíam tonalidade maior, andamento acelerado e uma quase inevitável marcação rítmica marcial. A inovação de Costa Junior esteve em empregar tonalidade menor (Mi menor), andamento rítmico lento e cadências do ciclo harmônico das quintas (assinaladas em vermelho na partitura):





É claro que o breve resumo que fiz aqui não dá conta da contribuição desses músicos. Seriam necessárias muita página e paciência do leitor para que fosse examinada essa vasta obra.

Curiosamente, ao longo dos anos eles continuaram compondo em parceria. Dá até pra dizer que eles são uma espécie de "Segunda Escola do IAE" (na "Primeira" constariam os nomes de Flávio Garcia, Joel Sarli e Elias de Azevedo, entre outros. Estes foram menos compositores inovadores e mais tradutores/versionistas, regentes e cantores que estimularam a cena musical adventista a partir do seu local de estudo/trabalho).

Certamente seu trabalho musical inovador e de alta qualidade artística é incontornável e espero que esses poucos exemplos musicais tenham dado um vislumbre do cenário de alteração das formas musicais e de permanência do conteúdo teológico. De fato, as melodias curvilíneas, as harmonias refinadas, a poesia requintada das letras, os arranjos de piano mais elaborados (muitos desses músicos são excelentes pianistas) estavam a serviço da teologia da igreja.

Possivelmente, houve vozes resistentes àquelas mudanças, mas foi assim que a Igreja Adventista teve nesses músicos um veículo de transmissão moderno dos conteúdos teológicos tradicionais.

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Esse texto foi escrito com informações da minha tese de doutorado "A Mensagem na Música: estudos de Teomusicologia sobre os cânticos dos Adventistas do Sétimo Dia" (UNESP, 2014).
Esse trabalho está em fase de revisão e atualização para, quem sabe, publicação neste ano.