10 Julho, 2009

cem palavras: a fé e a esperança

A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou. Pois o humor sempre há de mudar, qualquer que seja o ponto de vista da razão. Agora que sou cristão, há dias em que tudo na religião parece muito improvável. Quando eu era ateu, porém, passava por fases em que o cristianismo parecia probabilíssimo. A rebelião dos humores contra o nosso eu verdadeiro virá de um jeito ou de outro. E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na verdade, da qualidade do clima ou da sua digestão naquele dia. Conseqüentemente, temos de formar o hábito da fé.


A esperança é uma das virtudes teológicas. Isso quer dizer que (ao contrário do que o homem moderno pensa) o anseio contínuo pelo mundo eterno não é uma forma de escapismo ou de auto-ilusão, mas uma das coisas que se espera do cristão. Não significa que se deve deixar o mundo presente tal como está. Se você estudar a história, verá que os cristãos que mais trabalharam por este mundo eram exatamente os que mais pensavam no outro mundo. Os apóstolos, que desencadearam a conversão do Império Romano, os grandes homens que erigiram a Idade Média, os protestantes ingleses que aboliram o tráfico de escravos - todos deixaram sua marca sobre a Terra precisamente porque suas mentes estavam ocupadas com o Paraíso. Foi quando os cristãos deixaram de pensar no outro mundo que se tornaram tão incompetentes neste aqui.
C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples, pp. 49 e 51

08 Julho, 2009

música e adoração: experiência e obediência

Não é difícil perceber que o debate em torno da música sacra tem tomado duas vertentes bem dicotômicas: ou é isso ou é aquilo, esse instrumento pode vs. aquele não pode, o gosto “jovem” vs. o gosto “maduro”, o clássico vs. o contemporâneo.

Insisto em dizer, todavia, que o problema não é a música nem o instrumento nem a dinâmica mutante da cultura musical. A discussão não deveria estar situada na oposição entre os pólos. Aliás, essa é uma oposição em que as opiniões pré-formadas de ambos os lados tem somente eclipsado o que deveria estar no centro do debate: o referencial bíblico que estabelece a adoração. Eu disse, referenciais de adoração, e não princípios musicais. Não há regras de elaboração musical da Antiguidade que devam ser obedecidas hoje. Há, de fato, princípios centrais teológicos que podem orientar o modo de adoração.

Sem um modelo biblicamente referenciado, corremos o risco de produzir uma música de louvor desarticulada e orientada por tendências culturais, pela última moda musical das mídias ou por algum artista popular. Note o que disse Harold Best, presidente emérito da Associação Nacional das Escolas de Música (EUA): “A música de igreja por excelência [...] deve estar embasada, não primordialmente na natureza da música e em estilos musicais, modelos de práticas ou perfeição acadêmica, mas em uma bem fundamentada perspectiva teológica”.

Traduzindo, a música de adoração é guiada por princípios teológicos e não pelo gosto dos mais tradicionais ou dos mais liberais.

A música pode ser vista como um ato de experiência humana. Coletiva ou individual, sua prática é geralmente dependente a) da cultura local, b) da finalidade, e c) da subjetividade do praticante. A essência da prática musical estaria relacionada, portanto, aos moldes culturais, funcionais e idiossincráticos de determinado grupo social e de sua música. Sacra ou secular, a música é sempre um ato de experiência.

Por outro lado, a adoração não se reduz a uma experiência sensível. Adoração é, antes da experiência, um ato de obediência. Coletivo ou individual, o ato de adorar é geralmente dependente a) da natureza da igreja, b) da natureza da missão, e c) da cultura do adorador. A essência da adoração estaria relacionada, portanto, aos modelos de interpretação bíblico-doutrinária. A natureza da música, por sua vez, depende da igreja e da sua missão.

A igreja que apresenta um culto bíblico entende que a adoração é uma resposta da criatura humana aos atos de Deus. Ou seja, ao contrário de cultos que buscam o favor de Deus por meio de rituais e músicas, a igreja não louva a Deus para garantir a salvação. Louva-se o Deus cujos atos salvíficos redimem o ser humano. Na Bíblia, são relatados diversos atos de adoração feitos logo em seguida a uma promessa revelada ou a uma intervenção salvadora de Deus. A adoração também não se restringe à participação no culto, mas é estendida ao cotidiano do adorador, que demonstra uma vida de adoração ou uma vida em adoração. Desse modo, a adoração é um ato de obediência.

Uma sugestão de referencial bíblico para a adoração é encontrada em Atos 2: 42: “Eles eram devotados ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações”.

n Ensino: proclamação do evangelho para a conversão e a mudança (KERYGMA)

n Comunhão, Partilha: participação, fraternidade, exercício dos dons para a edificação da comunidade (KOINONIA)

n Orações: culto, adoração (LEITOURGIA)

O texto bíblico citado não relaciona instrumentos ou estilos para a igreja. Alguns registros históricos indicam o predomínio do canto a capella e a ausência de instrumentos musicais no espaço cúltico apostólico, seja porque estes despertavam associações culturais indesejáveis seja porque poderiam ser ouvidos pelos perseguidores dos cristãos ou por causa de outro motivo. Se tomássemos o texto e o contexto daquela época e daquele lugar e o transplantássemos sem adaptações, tal ação seria apenas um pretexto para a exclusão autoritária dos instrumentos da prática musical religiosa.

A igreja que reflete em sua adoração os três modos/atitudes de sua missão deve procurar fazê-lo de forma regular, criativa, sistemática e cuidadosa. Quando isto não ocorre, há um desequilíbrio que tende a sobrepor um dos três modos sobre o outro. A fraternidade sem a doutrina faz da igreja um mero clube social. Onde a liturgia é sobreposta à comunhão dos leigos e ao ensino haverá um culto baseado na intenção subjetiva e na emoção do relacionamento pessoal com Cristo, e não na explanação objetiva e na pregação do evangelho.

Algumas comunidades religiosas têm empregado a música para estimular experiências sensíveis e emocionalistas por parte do adorador. A cruz e a graça de Cristo são pontos que certamente merecem a contrição e as lágrimas de gratidão. Entretanto, a adoração contemporânea referenda duas horas de louvor e quinze minutos de edificação doutrinária, concedendo à “liturgia gospel” o papel central em um culto que favorece o extravasar das emoções reprimidas e que, supostamente, permitiria ao adorador uma satisfação pessoal e uma transcendência espiritual inquestionáveis.

Em sua bem-sucedida operação espiritual-musical, o louvor contemporâneo está atento às últimas tendências musicais da mídia secular, o que pode estar na adoção de uma forma sensacionalista de cantar ou de um novo ritmo do verão. Porém, como escreve Ralph Martin, o ser humano adora “não simplesmente para satisfazer suas necessidades ou para sentir-se melhor, mas para expressar a dignidade de Deus” (The Worship of God, p. 27).

O adorador precisa, sim, de hinos e canções modernas que tornem o ato de cantar uma atividade agradável e prazerosa, balanceando o uso da linguagem do relacionamento pessoal com a linguagem que se dirige à soberania e à majestade divinas. Importa dizer que a música escolhida deve representar a identidade litúrgico-musical da igreja, equilibrando formas históricas e recursos musicais da modernidade, e que não há nenhuma base escriturística ou institucional que assinale o uso exclusivo do hinário para o louvor congregacional.

Por outro lado, nota-se que os ministérios de louvor que abdicam da tradição musical de sua igreja estão muitas vezes transplantando não somente o estilo musical, mas também as estratégias de adoração dos grupos neopentecostais, em que o louvor tem mais importância que a doutrina e qualquer forma musical é valorizada pelo seu impacto emocional e utilitário.

Este texto é um resumo da primeira parte da palestra "Música no Culto: doxologia, adoração, mensagem" proferida no Encontro de Músicos da ASP. Citações e referências indiretas extraídas do sexto capítulo do livro The Message in the Music (Woods & Walrath, eds).

04 Julho, 2009

ocupado em palestras

Nesse fim de semana, estarei no Encontro de Músicos da Associação Sul-Paranaense (ASP) realizando duas palestras (o que tem me impedido de atualizar o blog nos dois ultimos dias):

Música no Culto: doxologia, adoração, mensagem - sobre elementos musicais apropriados para as atividades musicais que fazem parte da programação do culto. Os tópicos relacionados são: o processo inicial antes da pregação pastoral que inclui música para a entrada das pessoas que comporão a plataforma, música para o ofertório e para o louvor congregacional; foi me pedido especialmente para falar sobre a música para os momentos finais do sermão.

O Uso dos Instrumentos na História do Cristianismo - vou apontar os registros históricos que falam da música no culto cristão primitivo, na Reforma Protestante, nos movimentos avivalistas norte-americanos e na igreja adventista do sétimo dia. Claro que metade da palestra será dedicada aos instrumentos de percussão nas igrejas. Nesse item, vou destacar alguns mitos que têm eclipsado uma compreensão mais abrangente e aprofundada sobre os instrumentos de percussão, como as experiências pseudocientíficas e as falas que atribuem "maldade inerente" a instrumentos musicais.

Minha participação será no domingo, dia 05, de manhã e de tarde. Para quem está em Curitiba, o evento será no Colégio Adventista do Portão, a partir das 9 da manhã.

Na semana que vem comento aqui o teor das palestras e a resposta dos participantes.

01 Julho, 2009

os reis da música e o cristianismo

O cristianismo é um dos fundamentos mais visíveis da construção da sociedade norte-americana. Desde os “Pais Fundadores” até os apelos de Bush II e Barack Obama à mentalidade religiosa da maioria da população, as políticas públicas ali têm sido implementadas tendo em vista determinados valores cristãos. A música pop não estaria totalmente alheia a algumas formas bem heterodoxas do pensamento dito cristão.

Religião e cultura pop no mesmo caldo? Pois, no caso da música popular, mais que todas as outras variantes doutrinárias do cristianismo, o pentecostalismo repercutiu na carreira de muito astro pop antes, durante e depois da fama.

E por que justo o pentecostalismo? De forma bem resumida, pode-se dizer que fatores como a maior liberdade de expressões físicas e espirituais na adoração e a característica de ritual catártico manifesto nos cultos pentecostais favoreceram tanto a consolidação do gospel na religião (entre 1920-1940) quanto na indústria pop (entre 1950-1970). Ou seja, se por um lado, artistas seculares entravam para igrejas pentecostais, como Tommy Dorsey, o formatador do gospel no início do século XX, por outro lado, artistas pop, como Ray Charles, apropriavam-se de modelos da canção gospel para dar novo fôlego a sua música.

De Elvis Presley já são bem conhecidas as gravações de standards da música gospel – "How Great Thou Art" (Quão Grande és Tu) e "He Touched Me" (Cristo tocou-me). Ele também admirava ícones da música gospel, como Jake Hess, de quem Elvis dizia ser um imitador vocal, e o grupo Jordanaires, que fazia backing vocal para o chamado rei do rock. No final dos anos 50, Jerry Lee Lewis era um cantor-pianista de formidável talento, cujas origens pentecostais se apagaram diante do enorme sucesso e também após uma infindável lista de polêmicas: envolvimento com drogas, disparos acidentais de arma de fogo, prisões, casamento com a prima menor de idade. Jerry Lee também é primo do telepastor Jimmy Swaggart. Quem conhece a vida e obra de Swaggart sabe que não se pode dizer que Jerry Lee Lewis deveria ter imitado os passos do primo evangelista.

Little Richard, outro astro do rock dos anos 50, chegou a abandonar a carreira musical e foi estudar num colégio adventista na Austrália, mas logo voltaria à estrada roqueira. Por sua vez, James Brown disse que suas performances atlético-ensandecidas no palco eram influência das frenéticas performances de pastores pentecostais a que assistiu na infância. O animadíssimo show de James Brown era uma cópia da pregação catártica dos pregadores que falavam em línguas incompreensíveis, pulavam, rolavam, cantavam, choravam e gritavam, sendo que a reação tanto da platéia de fãs e quanto da congregação religiosa era sempre no nível da euforia extremada.

Nos anos 60, o cantor Johnny Cash foi também um artista pop cuja conversão religiosa foi marcada por avanços e recuos. Preso algumas vezes, mas sem cumprir pena na cadeia, e com a carreira sendo destruída pelo vício em anfetaminas e barbitúricos, Cash conseguiria reabilitar-se com a ajuda da esposa June Carter e a decisão pessoal de converter-se ao cristianismo. O filme Johnny e June retrata a vida de Cash até esse ponto, num típico final feliz.

No entanto, o cantor voltaria ao vício devido ao abuso de drogas em sua busca por aliviar as dores que sofria em conseqüência de um ferimento no estômago. As contradições que pontuam a carreira de Johnny Cash podem ser observadas numa apresentação ao vivo pela TV em que se recusou a alterar a letra de uma canção com referência ao uso de drogas ("On the Sunday sidewalks / Wishin’, Lord, that I am stoned") e também em sua amizade com Billy Graham. Essa amizade o levaria a ser co-autor e narrador de um filme religioso, The Gospel Road. Nos anos 80, Cash lançaria um livro sobre a conversão de Paulo cujo título (The Man in White – O Homem de Branco) era uma paráfrase de seu próprio apelido, The Man in Black (“O Homem de Preto”, referência ao seu figurino nos shows).

Marvin Gaye foi um cantor que no início dos anos 70, com o álbum What’s Going On, permeado de questionamento crítico-social, chegou a ser um fenomenal sucesso de crítica e público. Filho de um pastor da House of God (Casa de Deus), uma igreja dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia que mesclava ortodoxia judaica com doutrinas pentecostais. Nos anos 80, quando o artista recuperava o prestígio que tinha na década anterior e voltava a morar com os pais, foi morto a tiros pelo próprio pai, que na época sofria com um tumor cerebral.

O último artista que quero citar aqui é Bob Dylan, considerado um dos maiores letristas da música popular americana. Na década de 60, foi celebrado por suas canções folk, sua voz sem apelos de estrelismo e por suas letras de forte cunho social, longas e poéticas, que narravam a vida do americano comum ora em meio a convulsões sociais e políticas ora às voltas com amores partidos. Na década seguinte, o divórcio após 12 anos de casamento levou Dylan a uma grave crise pessoal e artística, o que teria motivado sua conversão ao cristianismo.

Essa nova fase de Dylan, em que ele se aproximou de músicos gospel e compunha música de temática cristã, foi bem pouco aceita por fãs e críticos. Vale relembrar que, no começo dos anos 80, Bob Dylan mudou o curso e foi em busca de suas raízes judaicas, o que se refletiria nos novos trabalhos, que retomavam o formato da narrativa pessoal e introspectiva dos seus álbuns de maior sucesso.

É interessante perceber a reação dos fãs e admiradores de um artista que passa pela conversão. Quando um cantor de sucesso está em sua turbulenta busca espiritual, ele é tido como um catalisador das questões existenciais do ser humano. Quando esse mesmo cantor encontra o que aparentemente buscava, seus ouvintes perdem o alto interesse que tinham antes. No mundo da música popular, parece que o sucesso é só para aqueles que cantam como Bono Vox, da banda U2: I still haven’t found what I’m looking for / eu ainda não encontrei o que estou procurando.

29 Junho, 2009

volta ao mundo em cinco notas

Revolucionários e feministas, tremei! Desta vez, a luta é pela liberdade na indumentária feminina, nova bandeira do presidente Nicholas Sarkozy. Confira aqui. Agora a França estuda a proibição da burca das mulheres muçulmanas. Aqui de longe, esse vestuário parece mesmo imposição de macho-dominador-universal, mas será que, além dos ideais revolucionários, todo imigrante tem que assimilar outros baluartes da tradição francesa como a proibição do uso de nomes próprios em inglês, do desodorante e do banho diário?

Caros jornalistas, tende piedade daqueles a quem investigais! É só reparar o estado da peruca do ex-diretor do Senado Alexandre Gazineo quando ele teve que deixar o cargo pra ver que nem todo mundo reage bem à publicação de um “ato secreto”.

Segundo correligionários de José Sarney, a conquista da seleção brasileira em terras d’além-mar deve inspirar um novo e autobiográfico romance do escritor-senador. Disseram que é só elevar ao cubo o número de vinte e três jogadores mais comissão técnica que dará aproximadamente o número de familiares, apadrinhados e agregados em cargos públicos de confiança. Estaria faltando somente ele decidir se sua própria personagem terá paralelos com a carreira do presidente da CBF Ricardo Teixeira. Já lhe avisaram que a imprensa pode fazer maldosas elocubrações.

Ninguém duvida de que os Estados Unidos querem manter o posto de xerife do planeta. Barack Obama já renovou o contrato de permanência por tempo determinado das tropas militares e das empresas de construção civil no Iraque. Depois que o presidente americano matou rápida e impiedosamente uma mosca num programa de televisão, o mundo respira enquanto espera uma nova demonstração de força vindo da América. Não foi à toa que o ditador norte-coreano guardou os mísseis rapidinho!
Há quem aposte que a África do Sul, e não a China ou o Brasil, é que será a nova potência mundial do novo milênio. Depois de Nelson Mandela e da vuvuzela (aquela corneta da torcida sul-africana que soa como se um enxame de abelhas estivesse dentro da sua TV), periga o dialeto afro-anglo-carioca falado pelo treinador Joel Santana na Copa das Confederações ser adotado nas relações diplomáticas internacionais. Cá pra nós, tem mais chance que o esperanto! (vídeo aqui)

26 Junho, 2009

a música mais triste do mundo

"O rei do pop está morto". É assim que têm começado as notícias sobre a morte do cantor Michael Jackson, um astro da música cujo talento e carisma absolutos têm contrapartda em sua vida demasiadamente tumultuada. Para referir-se à Michael Jackson, o recurso da hipérbole é usual: a criança mais afinada da história da música popular, o disco de black music mais vendido (Off the Wall), o intérprete - e às vezes compositor - com mais canções que alcançaram o topo da parada pop (41 canções), o primeiro artista a colocar cinco canções de um mesmo álbum (Bad) em primeiro lugar, o cantor do videoclipe mais caro, o autor do álbum mais vendido (Thriller, com supostas 100 milhões de cópias vendidas, que rendeu ao cantor 94 prêmios), o promotor (inventor?) do passo de dança mais célebre - moonwalk, aquele em que se anda deslizando de costas, o artista mais bem pago da história, enfim, dono de tantos atributos de composição, voz e dança que lhe alcunharam de Rei do Pop.

Por outro lado, o rei da música pop era também o rei das excentricidades e escândalos. Relatos de abusos físicos e psicológicos por parte do pai-empresário-capataz de uma trupe extramente dotada composta por Michael Jackson e seus irmãos; processos em casos de pedofilia (em um dos casos houve acordo judicial, em outro foi absolvido por falta de provas); produções caríssimas que não obtinham um resultado próximo aos de seus primeiros discos; foi filmado pendurando o filho para fora da sacada de um hotel; sua produção teria pago ao traficante Marcinho VP pela autorização da filmagem de um clipe no morro Dona Marta, no Rio de Janeiro.

Avaliado por um especialista em saúde mental como portador de uma mentalidade de criança, Michael Jackson parecia viver num conto de fadas fantasioso e trágico ao mesmo tempo. Morou sozinho por 17 anos num rancho que chamou de Neverland, A Terra do Nunca, referência a história de Peter Pan, talvez para escapar das assombrações traumáticas da infância.

A transformação visual do cantor gerou controvérsias: seria para esconder queimaduras, seria resultado de cirurgias plásticas mal-sucedidas, seria uma busca pela juventude eterna. Segundo o próprio cantor, o aspecto bizarro de suas feições devia-se a uma doença de pele, o vitiligo. Seu casamento com a filha de Elvis Presley não convencia as pessoas. Sua conversão ao islamismo teria sido motivada por um débito astronômico a um sheik do Bahrein, país para onde se retirou solitariamente. Tudo o que cercava o astro era cercado pelo sensacionalismo e pela polêmica. O rei do pop tornava-se, assim, o rei mais triste do mundo.

O que fazer quando se é a maior celebridade pop e o maior vendedor de discos aos 24 anos? Fazer tudo em escala megaespetacular não adiantou muito e sua carreira tornava-se uma arquitetura da autodestruição. Mesmo sendo o artista que mais teria contribuído financeiramente para causas humanitárias, sua vida pessoal requeria um conforto que aparentemente ninguém conseguia suprir. Autor da melodia de "We Are the World" (a letra é de Lionel Richie), em que se cantava "somos aqueles que fazem um dia melhor", seu íntimo denotava um mundo interior em péssimo estado. Cantor de músicas como "Ben" (a letra é um elogio à amizade) e "You are not alone (Você nunca está sozinho)", Michael Jackson passou parte de sua vida em regime de estrita solidão. Compositor de hits alegres e eufóricos, sua trajetória particular tocava a música mais triste do mundo.

E a música mais triste do mundo é aquela escrita depois do apagar das luzes do palco, é a carência de afeto e sinceridade ofuscada pelo brilho da performance pública. As músicas, as imagens, os fãs ficarão por aí muito tempo ainda. Mas, infelizmente, para o ser humano Michael Jackson, ser rei do pop só lhe garantiu pouco mais que instantâneos de felicidade.

23 Junho, 2009

Batman quer ser Macbeth


Os super-heróis estão cada vez mais super-humanos. Em um passado não tão distante, Superman, Batman e Homem-Aranha eram seres mais preocupados em estragar os planos do vilão do que com a ética de suas próprias ações, mais ocupados em proteger a dupla identidade do que em debater-se com a esquizofrenia de sua dupla face.

Agora, os heróis estão mais próximos das desilusões e traumas humanos. O componente psicológico, mais do que o físico, dita as aventuras menos super e mais dark. O Superman não está mais naquele patamar inquestionável de protetor da humanidade. O Homem-Aranha se divide entre as grandes responsabilidades advindas de grandes poderes e o simples desejo de agradar a moça a quem ama. Batman é um incompreendido que vaga noite adentro movido mais pela vingança do que pela justiça. Nem as animações escaparam à sanha psico-humanizadora dos roteiristas da moda em Roliúdi. Em Os Incríveis, a família de ex-super-heróis aprende que, tão difícil quanto salvar o mundo, é salvar o casamento e saldar as dívidas.

Estes exemplos mostram que o espectador está preferindo heróis que não finjam sentir a dor que deveras sentem? Ou isso tudo é uma tentativa de transportar as histórias de super-heróis do terreno do entretenimento leve para a tragédia grega, e assim, obter uma credibilidade dramatúrgico-moral que nunca tiveram? Será que o Batman de Frank Miller quer ser como Macbeth, de Shakespeare?

Os últimos lançamentos de filmes de super-heróis demasiadamente humanos demonstram que os roteiristas andaram tomando gosto por Spinoza e Kant. Mas, afinal, isso deixa o resultado fílmico melhor ou pior? Pra ficar no terreiro filosófico, depende. Se a vontade era lustrar os personagens com o verniz da humanidade, que mal haveria. É possível que, em vez de projetarmos nossas vãs fantasias de superpoderes nos heróis, venhamos a questionar o papel dos heróis irreais em nosso cotidiano. Mas, pra usar o fraco de outro herói, essa discussão é o calcanhar-de-aquiles dos gibis transformados em filmes, haja vista que esse superherói tão psicologizado pode soar apenas como mera pretensão cinematográfica. Ou seja, receando a associação com a diversão rápida e barulhenta das aventuras em série, os produtores, diretores e roteiristas carregam seu personagem e sua história com metafísica, ética e meandros sociológicos.

Batman, por não ter recursos sobrehumanos como seus colegas de profissão, seria o personagem mais adequado à sobrecarga de tensão psicologizante. No recente O Cavaleiro das Trevas, ele se transformou num indivíduo em quem não se pode confiar. Suas reações são movidas por impulso e, como nenhum outro herói pop, ele é submetido às mais atordoantes questões existenciais. Quem é Batman, de fato? Suas ações são politicamente aceitáveis? Sua noção de justiça está pondo em risco a vida de pessoas que lhe são próximas? Enfim, Batman é como a polícia naquela canção: Batman para quem precisa de Batman (para quem? quem precisa?)

Os vários personagens do filme são confrontados com dilemas éticos. Batman precisa escolher entre a vida da mulher que ama e a cidade que pede um herói mais sereno e justo, e sobretudo, juridicamente legal. Esse novo herói, o promotor público Harvey Dent, será levado a níveis insanos de escolhas morais. A coletividade social está representada não apenas pelos protagonistas da história. Em dois barcos, dois grupos distintos da coletividade: de um lado, cidadãos comuns e mulheres com crianças, aquilo que representamos como pessoas de bem; de outro, presidiários, aquilo que se convencionou chamar de escória da sociedade. Ambos os grupos com o poder de destruir um ao outro.

Envolvido em todas as tramas, está a figura do Coringa, um provocador doentio que leva ao grau máximo de paroxismo as demandas éticas individuais e sociais. O Coringa entende os códigos que regem as condutas dos governantes, dos criminosos e da população em geral. Porém, em vez de agir em busca de reforma (ou revolução), ele prega o caos e a anarquia como modelo de confrontação política. Para ele, o ser humano corromperá a alma diante dos apelos da sobrevivência; Batman, no entanto, ainda crê que os homens podem tomar decisões eticamente sustentáveis e mais justas. E pode apostar, essa mistura de entretenimento com tintas teatrais de religião e sociologia não é gratuita.

Sim, todo esse drama existencial pode submergir na parafernália de som alto, montagem veloz e efeitos visuais. Sim, é válido reclamar da seriedade pretensiosa do que deveria ser só um passatempo esquecível. No entanto, quando o Coringa pergunta sarcasticamente à Batman por que ele é/está tão sério (why so serious?), alguém vai notar que até Batman tem seus dias de Macbeth.