12 setembro, 2014

matou Deus e foi ao cinema evangélico

Eu bem que gostaria que fosse diferente, mas Deus não está morto é um filme que, embora queira partilhar uma mensagem profunda, é raso de espírito. Deus não está morto, mas a qualidade do cinema evangélico não passa bem.

Não vou falar da performance dos atores, da fotografia ou dos diálogos, todos de um primarismo que se nivela a um seriado bíblico da TV Record. Isso até seria uma marca das produções religiosas nacionais (de qualquer crença). Aliás, muito espectador dessas produções invoca uma virtude cristã, como a condescendência, para assisti-las.

As carências técnicas seriam um problema sem importância, se o alto valor da mensagem que o filme deseja divulgar fosse transmitido com acuidade e grandeza de espírito e não só com suposta nobreza de intenção.

O enredo trata de personagens evangélicos que são perseguidos e humilhados, mas têm uma luz celestial que lhes afasta de toda incerteza ou falta de racionalização crítica. Parece que são capazes de superar doenças com doses de cânticos e orações.

Já os não cristãos são vilões caricatos que, se não acreditam na existência de Deus, é porque eles sofrem com traumas do passado ou de autossuficiência arrogante, já que todas as evidências estariam aí para providenciar a aceitação lógica da fé.

Não importa se o personagem é ateu ou cristão, ele é retratado por meio de ideias preconceituosas e estereotipadas. Ninguém parece de carne e osso, mas apenas fantoches que se revelam como um tipo de evangélico falacioso e um espécime de ateu presunçoso.

Para piorar, o filme acaba mostrando uma noção nada cristã de Deus: a do ser vingativo que não suporta que ninguém discorde dEle, ainda que esse alguém não seja pior do que aqueles que professam a fé nEle.

A menina islâmica se converte ao cristianismo? Há um pai autoritário que a punirá. O rapaz é humilhado por causa de sua retórica evangélica? Seu opressor será punido. O professor não acredita na obviedade da existência de Deus? O próprio Deus o punirá.

Ao final, os humilhados compartilham o gostinho de vitória, o que transmite a ideia de alguns setores evangélicos de hoje, que repetem chavões triunfalistas de prosperidade pessoal. Não é difícil ver esse pensamento circulando em adesivos colados nos carros e em alguns refrões gospel.

Se a intenção era falar com quem não é cristão, o filme mostra um envelhecido e antipático discurso em relação a quem não enxerga a vida pelo mesmo prisma. Se era rebater Nietzsche, o bigodudo filósofo alemão é abordado de forma superficial e rasteira. Se o objetivo era pregar para os iniciados, duvido que todo protestante vá comprar essa retórica que promete uma solução fácil para questões de resolução bem complexa.


É uma pena que, na tentativa de ser didático, o filme esbarre em argumentos simplistas. Se a Bíblia tivesse sido escrita com a falta de densidade de tantos filmes evangélicos, a fé cristã não teria motivado nem um aleluia de Handel, quanto mais a persistência e fidelidade milenar dos cristãos.

09 setembro, 2014

o incrível cinema que encolheu

Joe Gilles: Você é Norma Desmond, atriz do cinema mudo. Você era grande.
Norma: Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.

A Rede Cinemark anda reprisando clássicos do cinema: Bonequinha de Luxo, Lawrence da Arábia, O Poderoso Chefão I e II, Chinatown, A Felicidade Não se Compra, Taxi Driver. Só pelos títulos já dá pra concordar com a personagem Norma Desmond (aliás, de outro clássico, Crepúsculo dos Deuses): o cinema encolheu.

O cinema ficou “big”, mas raramente é “great” como costumava ser. Cinema “big” sempre existiu, mas nos últimos 20 anos o cinema é grande no sentido de bilheteria, número de explosões, de efeitos visuais, de marketing gigantesco e merchandising incomensurável.

Raramente é grande no sentido de grandioso, de tematicamente ambicioso, que visa o impacto emocional e não somente o sensorial, que não tem medo da transcendência.

Bonequinha de Luxo é do tempo em que havia comédias românticas baseadas em roteiros inteligentes e bons atores e não apenas em situações inverossímeis e rostinhos jovens. Lawrence da Arábia é sinônimo de magnificência, A Felicidade não se Compra (assim como Ben-Hur) parece feito por gente que entendeu o cristianismo. Taxi Driver é violento, não é para qualquer estômago de cristão, mas não faz apologia da violência nem se diverte com ela. Aqui, a violência e a violação dos indivíduos repercute a violência legalizada do Estado e a violação cotidiana dos cidadãos.


Na famosa saga da famiglia Corleone, o que se vê não é a glamourização da violência ou da máfia, como alguns enxergaram. Em O Poderoso Chefão II, percebe-se que a tragédia moral do chefão Michael Corleone é a tragédia moral da América, cada vez mais envolvida em corrupção e ganância. Nas primeiras cenas, os congressistas americanos estendem a mão aos mafiosos em negócios escusos. As famiglias e a América se acasalam para construir um império cuja fundação é poder, dinheiro e mentira. Nessa trajetória, morrem pessoas, famílias e a paz de consciência.

De um jovem herói da nação na II Guerra que não queria nada com a famiglia, Michael vai se tornando o espelho decadente de seu próprio pai, Vito Corleone. Um defensor intransigente dos negócios da famiglia e não da sua família, ele vai ficando cada vez mais taciturno e sombrio. Suas cenas são emolduradas pelas trevas, numa fotografia que escurece tudo em volta do personagem. Do mesmo modo que seu pai foi filmado na primeira parte da saga, rodeado pela escuridão.


Ao filmar a máfia como uma organização familiar, achou-se que o cineasta Francis Ford Coppola estava glamourizando a criminalidade. Nada mais falso. Nos Chefões, a violência não se apresenta divertida, não há piadinhas depois de explosões. Há apenas o mal que provem da violência. 

Na verdade, os Chefões são um relato de como o crime se institucionalizou nos Estados Unidos (e em qualquer outro país) em forma de organização lícita, operando como os governos, que mostram uma fachada limpa em contraste com a obscuridade de suas tramoias e conluios. Esses filmes são um retrato da decadência moral da América, de um país que recebia os imigrantes com as mãos da Estátua da Liberdade, mas que lhes fechava os punhos na vida real, mostrando a face escura do mal, como diz a letra da canção “Alagados”.

Isso é cinema realizado com ambição, feito por cineastas que gostam mais de cinema do que de dinheiro. Não por acaso, a equipe técnica é composta de colaboradores geniais: o diretor de fotografia Gordon Willis, que filmou a máfia como um quadro do pintor holandês Rembrandt; o engenheiro de som Walter Murch; o músico erudito Nino Rota, cujos temas musicais amplificam a grandiosidade e a solenidade do filme.

Abram-se parênteses para a fotografia ao estilo Rembrandt (acima, o quadro "Festa de Belsazar"): a luz só mostra os elementos essenciais. Na abertura do primeiro Chefão, m homem chora na escuridão pedindo vingança para sua filha violada. A única luz está sobre sua cabeça. A câmera mostra a mão de outro homem que lhe estende um lenço e, em seguida, vê-se o rosto de Vito Corleone/Marlon Brando que vai atender o pedido. São tramas que só poderiam ser tratadas na escuridão, enquanto lá fora, tudo é sol e luz no casamento da filha do padrinho Corleone.

No segundo Chefão, o filme abre com outra festa ensolarada na propriedade dos Corleone. Depois, vemos Michael Corleone/Al Pacino receber um senador na escuridão do seu gabinete. São tramas que só poderiam ser negociadas nas trevas. O fotógrafo Gordon Willis iluminou (e escureceu) dois mundos contrastantes: a aparência familiar e institucional que a máfia quer transmitir; as negociatas e a decadência moral que afundam nas trevas.

E os atores? Quem são os Robert de Niro, os Al Pacino, as Diane Keaton de hoje? Os melhores atores já passaram dos 70 anos de idade e há raros substitutos para eles num cinema preferencialmente feito para ser degustado com pipoca e refrigerante.

Em Hollywood, talvez haja menos espaço para grandes atores e grandes músicos ou grandes fotógrafos porque, embora haja artistas genuinamente grandes, o cinema se apequenou.

25 agosto, 2014

os desafios são barreiras ou estradas?

Ontem eu deveria ter assistido o clássico "Lawrence da Arábia", mas não foi possível. Tive que me conformar com o filme "Expedição Kon-Tiki". Para minha surpresa, comecei assistindo contrariado e terminei empolgado.
Quando garoto e ratinho da biblioteca do internato, li pela 1ª vez a história de Thor Heyerdahl, o norueguês que, junto com outros 5 experientes em maluquices, exceto um tripulante que era só um vendedor de geladeira, cruzou o Pacífico da costa do Peru à Polinésia numa jangada.
Foram 101 dias e 8 mil km de mar. Thor tem nome de super-herói, mas seu único poder é uma perseverança cega. Aliás, perseverança tem de enxergar além, e não deve enxergar muito bem ao redor, senão ela desiste.

Thor desafiou o mar e a National Geographic ao refazer, no século XX, o mesmo caminho feito há 1.500 anos por homens destemidos como eles. O que ele queria provar? Que, para as civilizações antigas, "os mares não eram barreiras, mas estradas".
Numa noite, a equipe conversa, estirada na jangada e olhando pro céu: "Há 1.500 anos, homens como nós navegaram sob o olhar dessas mesmas estrelas". "Parece que estamos sozinhos no universo". "Por isso ninguém responde ao sinal de rádio?". "Eles devem ter se destruído uns aos outros com as bombas de Hiroshima".
Alguém disse que andar pelo caminho de alguém vai te levar somente ao lugar onde esse alguém já foi. Para Heyerdahl, era preciso refazer o caminho porque a ciência estava esquecendo que ela é feita de explorações ao desconhecido e de limites humanos desafiados.
No trajeto, Thor será triunfante, mas ficará sabendo que sua esposa pode amar um explorador, mas não pode viver com ele. É, Thor, não se pode ter tudo na vida. E entre o amor à aventura heroica e a estabilidade familiar, a esposa sabe que Thor escolherá o primeiro e o fará antes que um aventureiro lance mão.
Eu ainda trocaria todos esses pensamentos estimulantes pela sessão de "Lawrence da Arábia", épico majestoso e incomparável. É, Joêzer, não se pode ter tudo na vida.

Foto em preto e branco da jangada real da expedição Kon Tiki, de 1947.

15 agosto, 2014

a tragédia na era da zoeira


A "era da zoeira" não poupa ninguém. Nem os mortos de velhice, como Niemeyer, nem os que se vão cedo demais, como Eduardo Campos.

Antigamente, as pessoas contavam piadas nos velórios. Isso servia para passar a noite e para aliviar a gravidade do mal irremediável.

Mas nas redes da zoeira social não se ri da morte, nossa desgraça inevitável, nem dos mortos, nossos companheiros nessa condenação misteriosa, mas se zomba da memória dos vitimados, da única réstia de sua vida que deixam aos ainda vivos.

A era da zoeira perde a oportunidade de enlutar-se com os enlutados e relembrar que a vida é sopro e a morte é mistério.

A era da zoação ininterrupta deixa de ver que "é melhor ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao coração", como registra o livro de Eclesiastes.

Pena que, assim como nos filmes da atualidade, haja tão pouco espaço para a reflexão na tragédia e tanto gosto por zoeira e comédia.

12 agosto, 2014

robin williams e a sociedade dos professores mortos

Todos os dias, milhares de professores entram nas salas de aula, fazem a chamada, abrem o livro didático na página 171, viram as costas para os estudantes e prescrevem na lousa seu pacto com a mediocridade.

São professores mortos de uma aula morta. Não aproveitam a oportunidade para fermentar ideias de grandeza na mente de seus alunos. Ao apequenar sua aula, o professor-zumbi subestima seu papel social.

Eu ainda ouço vozes: “Carpe diem, aproveite o dia, faça de sua vida algo extraordinário”. É a voz do ator Robin Williams, artista de vastos recursos cômicos e dramáticos, e que, infelizmente, acabou de entrar para a sociedade dos grandes atores mortos.

O professor John Keating (interpretado por Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos) não dá aulas no sentido formal e solene do termo. O que ele faz é tentar inocular nos estudantes o germe da curiosidade e do protagonismo da própria vida. 

Para isso, ele rasga o formalismo das tradições e, em vez de fazer os alunos decorarem estilos e conceitos literários, ele desvela a beleza da poesia. Há um brilho nos olhos do professor Keating quando ele fala de poesia, “porque poesia não é para compreender e sim para incorporar”, como escreveu o poeta Manoel de Barros.

Nascido de pai e mãe apaixonados pela docência e pela leitura, eu não poderia ser outra coisa a não ser um professor que há décadas vive um tórrido caso de amor com aulas e livros. E quando estive desanimado com a profissão que escolhi (ou foi ela que me escolheu?), aparece um professor como John Keating vivido por um Robin Williams cheio de fervor nos olhos. Viu só? Às vezes, a culpa é das estrelas... de Hollywood.

Outro professor inspirador é o educador musical Murray Schafer (este, de carne e osso e muitas ideias). Ele disse que, ao contrário do que se costuma dizer, para aprender não é preciso talento e sensibilidade, mas coragem e curiosidade

Em outras palavras, eu digo que é preciso coragem pra experimentar e fazer da vida algo extraordinário; curiosidade para sair da gaiola e voar além das certezas dos livros e dos professores mortos. 

No filme, seja por medo de sair da gaiola ou por preguiça, nem todos os alunos sobem nas carteiras como o professor Keating. E você? É curioso para descobrir o que não está nos manuais? Você quer ser o protagonista de sua profissão?

Ou, como perguntaria o personagem-título David Copperfield no livro de Charles Dickens, "você será o herói da sua própria vida ou esse papel será desempenhado por outro?" 

Aprenda a lição dos poetas mortos e entre para a sociedade dos professores e artistas vivos e que deixam viver. Ouça as vozes, carpe diem, aproveite o dia, vá ser grande.


P.S.: lembre que, no the end, o prof. Keating foi demitido. Mas uma demissão não é o fim.

07 agosto, 2014

robôs: músicos do futuro?

“Fazer música usando robôs instrumentistas me fascina. As pessoas frequentemente presumem que músicas emocionalmente poderosas têm que vir diretamente demãos humanas. Eu discordo disso e me divirto provando que essas pessoas estão erradas. Esse projeto é uma excelente maneira de explorar mais essa área” – Squarepusher

Imagine um guitarrista com 78 dedos e um baterista com 22 membros. Essa é a banda do compositor Squarepusher tocando no Japão. São os músicos do futuro? Sim, mas duvido que os instrumentistas humanos serão substituídos. Até porque já inventaram sintetizadores, teclados e o Garage Band, mas muita gente ainda prefere ouvir música tocada por gente.

Quando bandas de robôs se multiplicarem e proliferarem como duplas de pop-sertanejo, provavelmente elas serão bastante utilizadas em casamentos, recepções de formaturas e demais eventos em que a parte contratante quer pagar o mínimo possível para os músicos contratados.


30 julho, 2014

os Arautos do Rei e o segredo da relevância


Os Arautos do Rei são um quarteto vocal masculino que está em atividade há mais de 50 anos. Como um grupo consegue por meio século sem perder a força e a relevância?

Me atrevo a dizer que há, pelo menos, duas explicações plausíveis para a bem-sucedida longevidade do quarteto: a manutenção da ética da missão cristã e a capacidade de atualização da estética da música cristã.

No caso dos Arautos do Rei, essas características tem sido interdependentes. Isto é, as inovações musicais têm auxiliado o quarteto a se reposicionar culturalmente em meio à passagem das gerações. Com isso, ele mantém a relevância de sua mensagem teológica e o sentido de sua missão evangelizadora.

Alguns creem que o texto sagrado e imutável deve ser cantado com melodias compostas em algum passado distante. Para estes, é como se o tempo, e não a atitude de adoração e a prática do louvor, consagrasse a música.

Ora, a passagem do tempo nos dá uma falsa perspectiva a respeito de coisas e eventos. Dessa noção enganosa deriva a ideia de que somente as músicas compostas no passado, ou semelhantes ao estilo do passado, são sacras. Quem pensa assim esquece ou ignora que as tais músicas do passado um dia foram “contemporâneas” e, antes de enfrentar o teste do tempo, encararam o teste do zelo e da tradição.


Um exemplo: a canção “Hei de Estar na Alvorada”, que hoje soa tradicionalíssima, foi apresentada com certo receio pelo quarteto ao seu orador, Roberto Rabello. A música parecia “moderna” demais para o espírito cultural protestante conservador de 40 anos atrás.

Outro exemplo: as inovações propostas pelo maestro Jader Santos no final dos anos 1990 tinham o objetivo de manter o quarteto relevante junto à geração jovem que se expandira no meio cristão brasileiro. Hoje ninguém tem dúvidas de que a renovação etária dos componentes do quarteto realizada a partir do CD “Se Ele Não For o Primeiro” propiciou a renovação do seu público.


Alguns dirão que isso pode ter sido uma jogada de marketing a fim de encontrar outro nicho de mercado. Bem, da lógica do capital nenhum cristão está mais ileso. Entretanto, por outro lado, aquela renovação musical e etária atraiu a juventude para a audição da tradicional densidade teológica dos Arautos. A renovação do timbre vocal e instrumental diminuiu o fosso geracional de apreciadores do quarteto.

(Ressalto que a renovação também se deu em termos étnicos, visto que, além de cantores mais jovens, agora havia integrantes negros, os quais, além de musicalmente bastante habilidosos, deram ao quarteto uma configuração mais próxima ao quadro étnico das igrejas no Brasil).

Se o quarteto chegou aos 50 anos com um corpinho de 25, se os Arautos do Rei conseguem reunir em seus concertos públicos mais de duas gerações, é porque eles têm sido bem sucedidos na conservação da relevância teológica e musical em meio às rápidas mudanças culturais e artísticas.

Desse modo, a trajetória dos Arautos do Rei superou a perda de relevância e contraria o inevitável engessamento musical que decorreria do apego ao tradicionalismo cultural.

Recentemente, o quarteto lançou o videoclipe “Tenho Paz”. Nele, os integrantes andam num jipe por uma estrada e falam de paz com Deus e com os semelhantes. O acompanhamento é feito com um ukelele e a canção lembra as canções tranquilas do cantor pop Jack Johnson. Parece que isso tem sido suficiente para a instalação da controvérsia. 

Os críticos, quase sempre cultores do “estilo” dos antigos Arautos, já estão dizendo que o quarteto está se mundanizando, que a canção é um reggae (!), que os Arautos não são mais de Jesus...

Mais uma vez os críticos esquecem ou ignoram a história do quarteto, de suas inovações, todas elas empreendidas com moderação. Omitem, ainda, o fato de que essa é apenas uma dentro do repertório de músicas de andamento lento e reflexivo. Além disso, a beligerância dos opositores das inovações musicais solapa exatamente a característica de êxito cultural e espiritual dos Arautos: a capacidade de autoajuste que o mantém relevante musical e teologicamente para novas gerações.

Voltando à pergunta “como os Arautos conseguem se manter relevantes há mais de 50 anos?”, talvez a resposta esteja num ponto transcendental. Por que, como explicar que, numa mesma família, pais, filhos e netos gostem dos Arautos, ainda que apreciem músicas compostas em épocas distintas?

Arrisco a dizer que essa característica de inovação estética conjugada à manutenção da ética missiológica (ou missionária) pode conservar não apenas a credibilidade do quarteto, mas também o sentido e a preciosidade de sua mensagem por muito tempo ainda.

Isso não é uma profecia minha. Digo isso fundamentado na trajetória conhecida, e às vezes oportunamente ignorada, de um grupo musical que tem cativado tantas pessoas por tanto tempo.