30 janeiro, 2015

a fé e o amor se encontraram no cinema


Por que os filmes só mostram cristãos fanáticos?, me perguntou um amigo. Acho que pela mesma razão pela qual os filmes evangélicos só mostram ateus arrogantes: a necessidade de estereótipos, foi minha resposta.

Do mesmo modo que o cinema evangélico parece desconhecer a existência de vida feliz e digna entre ateus, o cinema hollywoodiano faz pouco caso da existência de vida inteligente e sensata entre cristãos.

Por isso, a raridade de um filme como A Força do Carinho (Tender Mercies), dirigido por Bruce Beresford e com roteiro premiado de Horton Foote. No filme, o grande Robert Duvall, em papel ganhador de um Oscar de melhor ator, vive um cantor country que não quer mais saber dos tempos de fama. Suas lembranças dessa época lhe trazem a amargura do alcoolismo, do divórcio e da perda de contato com a filha.

Ele vai parar num posto de gasolina de beira de estrada onde pede trabalho e teto para a proprietária, uma viúva que mora com o filho pequeno. Ali, anônimo e sem ilusões, Mac vai buscar a regeneração. Apesar de a história prever todos os clichês de superação e felicidade total, o filme não envereda por essas falsas expectativas. A história transcorre com calma, com poucos momentos de turbulência, como que acompanhando a conscientização do ex-cantor de sua nova vida.

E que papel o cristianismo desempenha na história?

Primeiro, há somente lampejos de cultos e devoção pessoal, mas o filme mostra uma igreja pacata, amistosa e bastante musical. Aliás, Rosa Lee canta no coral da igreja. Ela perdeu o marido na guerra do Vietnã, ele perdeu a esposa para si mesmo em sua guerra particular. A combinação da serenidade religiosa de Rosa Lee com a apresentação musical dela parece tocar Mac Sledge, que vai pedir Rosa Lee em casamento.

Em segundo lugar, Mac percebe que, para mudar completamente de vida e permanecer ao lado da viúva Rosa Lee, ele terá de entender e participar da vida religiosa daquela família.

Quando os personagens oram, eles agradecem pela vida que têm e pedem orientação espiritual para solucionar os problemas da vida. E eis aqui um diferencial desse filme em sua relação com a fé cristã: os personagens não são ridicularizados e nem tudo se resolve do jeito que eles esperam.

Até mesmo uma surpreendente cena de batismo é mostrada com respeito. Na volta pra casa após ser batizado, Sonny, o filho de Rosa Lee, diz que não está sentindo nenhuma mudança interior. Ele pergunta se vai experimentar esse sentimento. Mac sorri e diz: “Provavelmente, sim”.

Aliás, Sonny não é retratado com uma daquelas crianças de cinema que fala como adulto. Suas falas tem a astúcia e a surpresa das perguntas infantis.


Em terceiro lugar, o cristianismo comparece no título original Tender Mercies, uma expressão traduzida no Salmo 145:9 como "ternas misericórdias": O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras.

O filme evita o tom de pregação de regeneração pessoal do mesmo modo que evita cair no sentimentalismo romântico. Rosa Lee não se intromete no passado que teima em reaparecer na vida do marido. Ela se interessa genuinamente por ele, mas não o força a nada. Sua noção de que “o amor é paciente” se expressa em tons suaves de paixão e compaixão. São essas atitudes de terna misericórdia que fazem Mac agradecer por ter conhecido Rosa Lee. É o que vai lhe inspirar a procurar pela filha. É o que o motiva a dar tempo e atenção ao enteado Sonny.

Rosa Lee surge na vida de Mac como um tipo de anjo acolhedor, mas também não deixa de ser uma representação humana de Deus, dando abrigo ao perturbado cantor com suas atitudes firmes, gentis e serenas. É a encenação de um amor que não se encontra nos estereótipos humanos de amor. Como diz uma canção de Jader Santos: "O amor pode ser bonito, sincero e genuíno /  mas o amor tem que ser divino pra ser amor".


08 janeiro, 2015

o que a Europa vai fazer com essa tal liberdade?

Os chargistas da Charlie Hebdo publicaram caricaturas da religião islâmica. Sim, assim como publicaram sátiras do cristianismo, de políticos, economistas e celebridades. Sim, a violência da retaliação, além de injustificável, foi absurdamente desproporcional à publicação das charges. 

Tragicamente, na conta do fervor secularista e da intolerância religiosa, o saldo abominável acaba sendo de escárnio antirreligioso e retaliações brutais.

De fato, a liberdade de expressão é um direito fundamental e uma conquista do nosso tempo. Além disso, não há país livre sem uma imprensa livre e sem liberdade de opinar. 

Mas às vezes eu acho que vivemos no reino encantado da liberdade individual (ou ao menos na ilusão dessa liberdade), e ninguém parece interessado em responder à pergunta do filósofo Alexandre Pires: “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”

Parece que os deuses tradicionais foram substituídos pelo reino dos homens e estes entronizaram em seu lugar a liberdade de expressão. Mas calma lá com as propostas de regulação da mídia, faz favor. 

Diante do horror desse atentado, para se entender o injustificável, é preciso enxergar que estão em jogo questões culturais e civilizatórias que ainda dividem Europa e Oriente Médio.

Quando essas distintas sociedades colidem, o resultado é dolorosamente simples: assim como os secularistas mais radicais se valem do direito à liberdade de expressão constituído em seus países para satirizar a religião muçulmana, os muçulmanos mais intransigentes se valem do direito à retaliação constituído em seus países para vingar cruelmente a ofensa à sua religião.

Uma coisa é zombar de cristãos já plenamente experimentados na sociedade da liberdade de expressão (e que inclui sua liberdade de culto). Exemplo: quando o cristianismo é satirizado em charges e filmes, uma pequena turba de ofendidos costuma fazer barulho em entrada de cinemas e jornais, inclusive dando mais publicidade ao "ofensor". Mas, em geral, é só o que fazem.

Outra coisa, porém, é satirizar a fé de religiosos que ainda não vivenciaram o exercício da liberdade de expressão e de imprensa, como nas teocracias árabes.


Felizmente, sentado aqui desse lado “mais livre” do Atlântico, por enquanto posso supor que se um jornal islâmico zombar do Parlamento, do Papa ou da rainha da Suécia, é improvável que um grupo de europeus promova um atentado contra os chargistas muçulmanos – no máximo, espera-se que retruquem com lápis e papel.



As duas ilustrações são homenagens de cartunistas após o atentado.


30 dezembro, 2014

melhores livros, músicas e filmes de 2014

Em 2014, encerrei meu doutorado, publiquei um livro e lancei a "pedra fundamental" do meu projeto musical. Entre pesquisar pra escrever e pesquisar pra dar aulas, entre não ouvir para compor e ouvir para aprender, tive tempo pra ver filmes. Alguns deles, me fizeram considerar melhor a arte, a profissão e a profissão de fé.

Obs: nem tudo o que li, ouvi e assisti foi lançado em 2014, mas só deu pra ter acesso neste ano que se vai.

Livros

Os jesuítas e a música no Brasil colonial (Marcos Holler / Ed. Unicamp) – A atuação pedagógico-musical dos padres da Companhia de Jesus entre indígenas e os recém-chegados europeus é fartamente documentada com cartas e outros textos redigidos ainda no século 16. Tecendo a trama entre religião, arte e cultura, o autor busca explicações para entender porque os nativos aceitaram a cultura musical de seus colonizadores.

Os Irmãos Karamázov (Fiódor Dostoiévski / Editora 34) – Depois de mais de 20 anos, voltei a ler essa obra-prima, agora na premiada tradução de Paulo Bezerra, a primeira feita diretamente do idioma russo original. Quase mil páginas e dois volumes depois, não posso negar que esse livro é gigantesco em todos os sentidos. Partindo dos conflitos familiares que envolvem a família Karamázov – o hesitante Dmitri, o ateu Ivan, o religioso Alieksêi e o dissoluto pai destes três – Dostoiévski aborda a fé, a justiça, a política, os laços familiares, pintando não só um pinel da vida russa no século 19, mas um retrato do ser humano em vários aspectos de sua existência. Não é para ler em uma semana, mas para saborear com vagar e refletir com vigor.
Ah, sim: você não vai encontrar a tão citada frase “se Deus não existe, tudo é permitido”. Dostoiévski nunca disse isso. Alguns personagens do livro é que pensam ter ouvido isso da boca do personagem Ivan em uma das impactantes discussões religiosas da família Karamázov.

Ponto Final: crônicas sobre os anos 1960 e suas desilusões (Mikal Gilmore / Cia. das Letras) – cada capítulo deste livro cobre um músico ou banda significativa das revoluções musicais e culturais dos anos 1960 e 1970: Beatles, John Lennon, Bob Dylan, Bob Marley, Jim Morrison, Led Zeppelin, Pink Floyd, Johnny Cash, a lista segue. O autor, jornalista da revista Rolling Stone, analisa os feitos musicais e as conquistas sociais e políticas que estão relacionadas aos artistas, mas não deixa de fora o lado sombrio da inquietação espiritual, da desilusão política e do mergulho (para alguns daqueles músicos, sem volta) infernal nas drogas.


A religião entre o espetáculo e a intimidade (vários autores) – o espetáculo incide sobre a forma e o conteúdo das crenças? A intimidade tem se constituído em espaço de consumo nos ambientes religiosos? Fui ao Congresso de Ciências da Religião para lançar meu livro “Música e religião na era do pop” e trouxe este, uma reunião de artigos de especialistas participantes do congresso realizado em Goiânia.

O canto cristão na tradição primitiva (Xavier Basurko  / Paulus) – o que se cantava, como se cantava e o que escreviam os chamados Pais da Igreja. Basurko dispõe textos documentais sobre a música sagrada, fazendo desse pequeno livro uma preciosidade sobre a música das primeiras comunidades cristãs.



Músicas

Mistura Brasileira (Turíbio Santos) – um dos grandes violonistas nacionais, Turíbio Santos visita obras de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Tom Jobim, além de composições autorais, e oferece um trabalho primoroso de erudição e sabor popular.


Here’s to the Ones (Rhett Walker Band) – a combinação precisa de country e rock, gêneros primos, celebra a fé e convida à alegria e à reflexão com arranjos pulsantes e vocais vigorosos. Muito mais do que um Gaither Vocal Band turbinado.


Renascido (Daniel Salles) – a black music americana e a canção negra brasileira se encontram para falar de amor romântico e divino, de renascimento físico e espiritual, tudo com letras primorosas e arranjos que se destacam pela leveza.

Condição Humana (Guilherme Arantes) – ele ainda detém o posto de letrista inteligente, que tem soluções musicais bonitas de ouvir, que não vulgariza o pop e sabe cantar as coisas da vida como as duplas sertanejas de agora não sabem (ou não querem).

Herói da Fé (vários) – as letras maravilhosas de Mário Jorge Lima sempre tiveram um ótimo melodista em Lineu Soares. Poeta e músico se unem para contar a história do apóstolo Paulo em forma de oratório moderno. Os cantores convidados são Leonardo Gonçalves, Laura Morena, Joyce Carnassale, Riane Junqueira, Regina Mota e Marcel Freire. Há ecos de cantatas e arranjos da música clássica do século XX (Stravinski e Carl Orff estão entre os facilmente reconhecíveis), mas há também uma sinuosidade melódica nacional que está entre os momentos mais brilhantes dessa obra.


DVD Princípio (Leonardo Gonçalves) – registro ao vivo da musicalidade de um dos cantores mais relevantes da sua geração. Seja em arranjos de banda pop ou arranjos orquestrais, tudo é feito com muita erudição e refinamento. Letras que não falam o “evangeliquês”, e sim saltam os clichês para comunicar pensamentos sobre verdade, bondade, princípio e fim.


Filmes


Boyhood: da infância à juventude - Filmando ao longo de 12 anos, Linklater captou o adolescer em seus fragmentos e estabeleceu um novo paradigma para arte do cinema. As dores, as alegrias, os percalços, os sentimentos confusos, as experiências: está tudo ali, radiografado com precisão e espontaneidade impressionantes, acompanhando o desenvolvimento silencioso de um garoto comum.

Grande Hotel Budapeste - A artificialidade dos planos e cenários do cinema de Wes Anderson é o palco para a profundidade dos dilemas dos personagens. Divertido e terno. 



Os Esquecidos - Uma pequena obra-prima de Luís Buñuel que não desresponsabiliza os pobres pela miséria e pela violência (ao mostrar os pobres explorando os de sua condição também) e mostra uma sociedade patética em suas tentativas de corrigir e reprimir a delinquência juvenil. Não há um justo sequer, não, nenhum.

A Caça - A discussão sobre pedofilia ganha ares de tragédia social quando uma mentira devasta a vida de um professor. O suspense aqui é o horror da dúvida do espectador sobre o que aconteceu.


A Palavra - Um milagre da meditação, da contenção, da sobriedade, da fé, do cinema.

Viver - O mestre Akira Kurosawa dando uma lição de vida e uma aula de cinema. Depois de assisti-lo, você vai se perguntar porque tanta gente só decide viver quando descobre que tem pouco tempo de vida.



César Deve Morrer - A encenação de uma peça de Shakespeare atrás das grades. Homens de força e talento bruto. 

até o ano que vem!

08 dezembro, 2014

a música popular perdeu o tom

Nos últimos dias de sua vida, Tom Jobim pedia a sua irmã Helena para que lesse o Salmo 23, aquele do “O Senhor é meu pastor e nada me faltará...”. Olhando a obra musical de Tom, o que não falta é música que parece ter a centelha da arte mais divina.

Sua combinação de melodia enganosamente simples com harmonização rigorosamente complexa trouxe à música popular brasileira um sabor diferente, um jeito diferente, uma nova bossa.

Até o advento de “Ai seu eu te pego”, hit do Michel Teló, a canção brasileira mais conhecida no exterior era “Garota de Ipanema”. Assobie essa canção e perceba como a melodia sobe e desce sem esforço, como o desenho de ondas. Pode ter sido um achado genial involuntário, mas vindo de Tom, quem pode duvidar de que o balanço do mar e da garota que passa foram inscritos delicadamente na melodia sinuosa?

E a melodia de “Desafinado”, difícil e bela como a harmonia? E "Corcovado", em que a melancolia inicial de “Um cantinho, um violão” que deságua na alegria contida de “Ao encontrar você eu conheci o que é felicidade, meu amor”? E o encanto da repetição de letra, melodia e harmonia de “Águas de Março”?

No princípio, era “Chega de Saudade”. E a saudade se fez letra e música. As duas estrofes iniciais, uma queixa do amor distante, estão na tonalidade de Ré menor. No refrão, que promete o aconchego, a conjunção dos amores, a tonalidade passa para Ré Maior.

O clichê musical que associa tonalidade menor à tristeza e a maior à alegria ganhava, lá em 1958, uma obra-prima. Tudo feito com discrição e sofisticação. Afinal, isso é bossa nova, isso é muito natural.

Em Tom, o simples nunca é óbvio. Por causa da harmonização requintada, o simples ficava elegante. O “Samba de uma nota só” é o retrato em branco e preto do gênio jobiniano.

“Eis aqui esse sambinha feito numa nota só”, começa a canção, essa parte sendo cantada, de fato, repetindo-se a mesma nota. A letra avisa: “Outras notas vão entrar, mas a base é uma só”, e isso vai se confirmando musicalmente.


Lá na frente, a letra diz: “Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada”.  Isso é cantado num passeio por diversas notas, subindo e descendo, até que se canta:


“E voltei pra minha nota, como eu volto pra você”, voltando-se à nota repetida do início.

Quando analiso com os estudantes essa canção nas aulas de História da Música Brasileira, nossa percepção é a mesma: a carpintaria genial de Tom se camufla de simplicidade.

Mas há também um outro Tom Jobim, o compositor do formidável “Urubu”, disco-síntese de sua obra musical com canções sobre seus temas principais (a natureza, o afeto, a mulher) e belas peças orquestrais. Nesse álbum, o popular parece erudito e o erudito tem acesso popular.


Tom foi daqueles compositores que souberam fundir os elementos da matriz musical brasileira com os caracteres da musicalidade que chegava do exterior. Em Tom, o deslocamento da acentuação rítmica no compasso (a síncope) achava uma melodia tão cheia de curvas como a arquitetura feminina de Niemeyer.

A sedução melódica de Tom encontrou nos versos afetuosos de Vinicius de Moraes o casamento ideal. Eles estavam mais interessados na felicidade do amor presente do que em cantar o amor que se foi. Não por acaso, eles geraram “Chega de Saudade”.

Em Tom, o Brasil ficava ainda mais bonito. Mas já passaram 20 anos de sua morte e a música brasileira atualmente mais conhecida no mundo mostra que a moda é o funknejo de uma onamatopeia só [ou, pra quem entender, de uma progressão harmônica só: VIm – IV – I – V) .


Harmonia simplificada, letra despoetizada, a natureza desencantada, o amor vulgarizado. Saímos do tom.

02 dezembro, 2014

Princípio (ao vivo): a imagem, o som e a Palavra

Se uma imagem vale mil palavras, quanto vale uma imagem (e uma sonoridade) que comunica a Palavra?

Nessa perspectiva, um álbum cristão que, por algum tempo, ultrapasse em vendas as coletâneas de Michael Jackson, Elton John e Madonna e o mais recente trabalho de Taylor Swift tem um inegável simbolismo. Não, isso não representa a o triunfo do gospel sobre o mundo pop como gostariam de dizer os levitas mais afoitos. Até porque o pop e o gospel estão em amigável interação.

Esse 1º lugar, ainda que temporário, mostra para a indústria fonográfica a força do mercado cristão. Há evangélicos que abominam a expressão “mercado cristão” - e o fazem de forma tão depreciativa e ingênua quanto alguns detratores esquerdistas repudiam o “mercado capitalista”.

No entanto, verdade seja dita, nota-se um estímulo desenfreado ao consumo de artigos que ganham a alcunha de cristão somente porque são comercializados por empresários cristãos. Daí a existência de pulseira cristã, capa de celular evangélica, sandálias sagradas, toalhas espirituais e assim por diante. Esse merchandising realmente nada tem de evangélico e confirma à sociedade em geral que a força da grana ergue e destrói tradições belas.

Por outro lado, o objeto livro assume valor bem maior que o objeto CD ou DVD de músicas. Chego a pensar que, se fosse um livro denominacional que tivesse sido divulgado nos portais Terra e G1 e por dois dias liderasse a venda de livros de não ficção na Livraria Saraiva, muita gente honrada estaria proclamando que as portas do mundo se abriram à mensagem de Cristo.

Mercado, visibilidade evangélica: não é esse simbolismo mais óbvio que quero comentar a respeito do CD/DVD Princípio.

Em Human Accomplishment (2004), Charles Murray escreveu que “a religião é indispensável para impulsionar a realização da grande arte”. Não concordo integralmente com essa frase, mas quero usá-la para dizer que uma sólida compreensão da religião é indispensável para impulsionar a excelência na realização da arte cristã.

O álbum Princípio expressa noções teológicas que só advêm de estudos minuciosos da Bíblia e da literatura cristã. Somado a isso está a formação artística. Leonardo Gonçalves participa da elaboração de letras e da composição de melodias e arranjos. O resultado é que a solidez hermenêutica encontrou um valioso meio de expressão na carpintaria do discurso musical (Palavrantiga, João Alexandre, Stenius Marcius, Jader Santos, Lineu Soares & Valdecir Lima estão aí há anos provando a veracidade dessa equação).

Nesse sentido, pode-se debater a necessidade ou não de melismas vocais do cantor, mas não a sua precisão. Assim como alguém pode discordar da interpretação teológica das letras, mas não vai depreciar a sua enunciação.

Em suma, muitos discutirão a forma retórica, mas quem condenará a verdade enunciada?

Não é todo dia que uma produção cristã com músicas que agregam o contemporâneo e o tradicional, letras com densidade teológica e arranjos musicais sofisticados chega ao primeiro lugar do iTunes.

Quando isso acontece, vale considerar três questões:

1) É possível ser contemporâneo sem ceder aos modismos gospel.

2) É possível fazer letras modernas sem ser teologicamente superficial.

3) Se “Princípio (ao vivo)” lhe parece pop demais, eu lhe pergunto que mundo musical diferente teríamos se os recentes sucessos do pop nacional buscassem a excelência poético-musical e as alturas espirituais desse álbum...

21 novembro, 2014

interestelar ou a salvação vem de nós mesmos

Um filme pode ter furos no roteiro, pode ter especulações (pseudo)científicas, pode ser meloso e sentimental, pode ser lento; só não pode ser tedioso. E, pra mim, um dos dois maiores problemas do filme Interestelar é ser tedioso. O filme acorda e hiberna várias vezes.  

O segundo grande problema é o grau de solenidade que o diretor Christopher Nolan tentou conferir ao filme. Não há problema em usar o som de church organ (órgão de igreja) para emoldurar as cenas com uma aura de reverência ou sagrado. O cineasta Stanley Kubrick fez isso em 2001 - Uma odisseia no espaço, com resultados bem opostos (embora alguns possam considerar 2001 enfadonho e pretensioso). 

Por sua vez, Nolan utiliza essa sonoridade associada à solenidade em cenas onde o tom solene não cabe, talvez porque mal-dirigidas, como na cena de um personagem de olhar perdido pro horizonte. 

As citações a 2001 são muitas, mas parecem um pastiche, não só nos trechos com som de órgão (Kubrick usou o poema sinfônico “Assim Falou Zaratustra”, do compositor Richard Strauss), como também na cena do protagonista à deriva no espaço (o close do capacete do astronauta de Interestelar faz lembrar o bebê no útero na cena final de 2001, mas aquele não exala o senso de enigma existencial deste.

Mais souvenires de 2001: as gravações interestelares de pai e filha (em 2001, eles conversam em tempo real); as espaçonaves despencando por luzes e efeitos que vão levar os protagonistas a "outra dimensão"; o hospital das cenas finais. E remete ainda ao filme Contato: a filha cientista que busca resolver questões entre sentimento e razão e que não lida bem com a perda da figura paterna comparece em Interestelar na personagem Murph, filha do piloto Cooper.

Os robôs TARS e CASE de Interestelar são uma referência tanto ao monolito negro como ao computador HAL 9000, de 2001. Aliás, os robôs são uma fusão dessas referências. 

o robô-monolito TARS

o monolito e os astronautas de 2001


No entanto, enquanto HAL 9000 fala com gravidade e arrogância, à imagem e semelhança dos homens que o projetaram, TARS tem uma voz tranquilizadora que não condiz com o trágico e o solene de algumas cenas. Nolan disse em entrevista que é um risco querer chegar perto de algo grandioso como 2001. Mas algumas cenas de Interestelar mostram que ele tentou no mínimo dialogar com o filme de Kubrick e Arthur Clarke, embora o resultado tenha estacionado a anos-luz de distância.

A recorrência a 2001 transparece até no andamento lento de Interestelar. Contudo, enquanto em 2001 a lentidão serve à contemplação quase religiosa das cenas finais, no filme de Nolan a lentidão deixa o filme à deriva, indeciso entre a reflexão contemplativa e a ação ruidosa.

Recorrer a 2001 é quase inevitável quando se parte de uma história em que os pilotos viajam para fora da Terra com o intuito de encontrar uma solução para os males da terra. Enquanto no final de 2001, o piloto Dave Bowman renasce e transcende a espécie humana, o que remete a princípios religiosos de recriação e transcendência, em Interestelar não há intervenção do sobrenatural ou do divino. A salvação do homem está nas mãos do próprio homem.

Embora, a princípio, os personagens de Interestelar mencionem algo como manifestações sobrenaturais (fala-se que "eles" - seres celestiais? - estão por trás da ajuda ao homem), ao final se vê que foi o próprio homem o responsável pela sua salvação. Em nome da razão ou da fraternidade, a salvação vem de nós mesmos.

2001 deixa espaço para o mistério do sentido da existência, pois nada é muito explicado no filme. O espectador acredita ou não. Já em Interestelar, as seguidas explicações cientificistas dos personagens podem ser vistas como a justificativa da racionalização das ações humanas, e somente humanas. O espectador acredita se for plausível ou não. 2001 toca os limites da transcendência porque é espiritualmente plausível. Em Interestelar, vigora a ideia de que algo só é plausível porque cientificamente explicável.

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Escrevi sobre outros filmes em que o espaço sideral é o cenário dos debates existenciais:

Contato

Gravidade

Prometheus

14 novembro, 2014

inovação musical: isso é coisa de música sacra?


Handel sem O Messias, Bach sem A Paixão Segundo S. Mateus: se os críticos desses compositores tivessem vencido, a música sacra estaria desprovida de duas de suas maiores realizações. 

Na Inglaterra do século 18, George F. Handel era um alemão a serviço de Sua Majestade. Sem licença para ousar, mas com raro tino de espetáculo, Handel fazia sucesso na corte inglesa. Nem por isso conseguiu estrear em Londres aquela que viria a ser a sua obra mais famosa, o oratório O Messias. Ele foi, então, para Dublin, onde alcançou tamanho êxito que os empresários londrinos logo perceberam o potencial comercial da obra.

No entanto, inclusive por ser uma obra de caráter sacro exibida num teatro, e não em uma igreja, O Messias encontrou opositores entre músicos e eclesiásticos da corte.

Algumas alegações contra o oratório de Handel eram: o número excessivo de notas, a orquestração considerada mais apropriada para a ópera e não para uma peça sacra, a linha vocal dos solos que lembrava o estilo operístico, enfim, o trato espetaculoso da forma do oratório. Os críticos de Handel temeram a aproximação do oratório com a ópera e a banalização do texto bíblico.

Será que eu e você, que hoje ouvimos O Messias com enlevo espiritual, estaríamos entre os críticos de Handel trezentos anos atrás? 



Também na primeira metade do século 18, Johann Sebastian Bach trabalhava estimulado pelas palavras de Martinho Lutero de que a música deveria ser um "sermão em sons". Não por acaso, no Everest dos oratórios, A Paixão Segundo S. Mateus, Bach incorporava melodias inspiradas no poder dramático das árias operísticas, o que cooperava para ressaltar a força dos textos bíblicos de suas cantatas sacras. 

 No entanto, essa façanha teológica e estética de Bach parece não ter impressionado os ouvintes de sua época, visto que o único registro crítico veio de uma idosa na congregação: "Deus nos ajude! Isso é uma ópera-cômica!"

Quando trabalhou para a igreja em Arnstadt, os dirigentes eclesiásticos o censuraram por fazer "estranhas variações nos corais, misturando muitos tons diferentes de tal modo que a congregação ficava confusa por causa disso". Note que o caso do número excessivo de notas não era um "problema" só para Handel.

Os críticos de Handel e Bach demonstravam um ranço ético-musical que perdura até hoje: o de fazer da própria cultura musical-religiosa a medida de todas as músicas. Ao acreditarem que seus próprios valores musicais devem ser os únicos parâmetros de composição musical para outro indivíduo, muitos legitimam as crenças artísticas pessoais em detrimento do arcabouço cultural e expressivo do outro.

Posso até imaginar que, se Deus buscasse somente obras sacras de altíssima técnica musical, provavelmente Ele teria ficado muito bem acostumado às obras de Handel e Bach e poderia estar muito entediado com a qualidade da música atualmente consagrada a Ele. Os músicos contemporâneos devem agradecer todo dia pelo ouvido divino mais interessado na obediência e sinceridade do coração do que na "boa música" ou na aparência de louvor sincero. 

Por outro lado, acompanhar as tendências da música de seu próprio século não é garantia de que se está fazendo o que é correto ou justo, ou mesmo necessário. Contudo, se a mudança na música sacra se der menos pela novidade sem critérios ou pela acomodação ao mercado fonográfico e mais por uma mente consagrada e um genuíno interesse em nutrir a igreja e em comunicar o evangelho por meio de novas expressões artísticas, nossa geração terá compreendido o sério papel que tem a desempenhar no ministério da música.


Citações extraídas de James R. Gaines, Uma noite no palácio da razão, 2007.