03 abril, 2014

música clássica não é coisa de véio!

Não sei se você lembra ou era nascido, mas não faz tanto tempo assim que passava na TV um comercial de refrigerante(?) que era mais ou menos assim: um adulto todo engomadinho ouvia ópera com uma expressão de profundo tédio. Aí o narrador dizia: mas enquanto esse tempo (de ouvir ópera feito um velho caidaço?) não chega, aproveite para... Então aparecia uma menina toda feliz e animada ouvindo música pop e tomando seu xarope com gás.

Associar música clássica com caretice e música pop com modernidade é um truque barato dos publicitários para vender uma imagem de produto hype para descolados e afins. Uma pena, porque música clássica não é coisa de véio!

Música pop também pode ser absurdamente entendiante e chata como um bate-estaca, uma Macarena, uma Celine Dion cantando o tema do Titanic, uma Beyoncé se esgoelando e fazendo pose de stripper, uma Shakira rebolando pior que a Gretchen, um Restart que deveria ser reinicializado, um Marcelo Camelo, um discurso da Dilma...

Escutar uma ópera nem sempre é tarefa fácil. Tem coisa muito longa (4 horas!) que está além da minha capacidade de me concentrar e de ficar sem ir ao banheiro. Mas é covardia colocar uma peça clássica sonolenta e contrapor a um pop sacolejante. Mas não importa, sempre vai haver uma criatura que vai achar a nossa música preferida uma chatice.

E qual a solução para rejuvenescer o público? Aí é que está. O público de música clássica não é composto só pelas faixas da melhor idade. Vá a um concerto e veja quantos jovens estão interessados em assistir música orquestral ao vivo.

Mas há quem insista em "rejuvenescer" o repertório e que, na ânsia de atrair novos públicos, botam uma bateria de escola de samba pra acompanhar um concerto de Mozart ou então tocam a Quinta Sinfonia de Beethoven numa rave. O pessoal acredita que basta colocar percussão de axé e bateria eletrônica que os jovens virão. Isso parece estratégia evangelística gospel de tocar funk e pagode com letra religiosa para atrair a moçada...

Nem todos os meus sete leitores eram nascidos quando foi lançado o LP Hooked on Classics, um disco com medleys dos trechos mais conhecidos das peças clássicas mais conhecidas tocadas por uma orquestra acompanhada de uma batida eletrônica de dance music ou balada romântica (era o tempo dos Bee Gees!).

Pode ter fisgado alguma gente para a música clássica. Mas não sei se incentivou à escuta consciente das peças. Eu devia ter uns onze anos e lembro que eu gostava, mas meu professor de piano abominava. O Hooked on Classics de hoje é o André Rieu tocando o Bolero de Ravel. E agora sou eu que não consigo engolir isso.

Isso não significa que as fusões do "erudito" com o pop estão proibidas. Até porque o popular sempre rodeou a cabeça dos compositores de música clássica e rendeu obras maravilhosas, do barroco ao moderno. Pense em Villa-Lobos, em George Gershwin, em Aaron Copland, em Manuel de Falla, em Bartók, em Chopin, em Schubert, e a lista não termina.

Por outro lado, música pop não deve ser sinônimo de coisa descartável (embora muita coisa o seja, felizmente). Música pop não é feita só de sanduba com fritas e refri do MacDonalds. Tem uma dieta pop bem melhor. Pense em Stevie Wonder, em Beatles, em Bruce Springsteen, em Michael Jackson, em U2 (estou tentando escrever um nome brasileiro, mas não consigo ir além de Roupa Nova e Guilherme Arantes).

Se você sentiu falta de um artista mais contemporâneo, peço desculpas se não consigo ir além dos anos 80.

O importante é que a música, seja clássica ou pop, não se torne adversária dela mesma. Rótulo é coisa da universidade ou do mercado, de gente que precisa dar nome aos animais para dissecá-los ou vendê-los.

Como ouvintes e apreciadores, temos somente que escutar, compreender e tolerar os gostos alheios. Aliás, educação e tolerância melhoram a convivência, produzem paz mundial e preservam os dentes. A única coisa que não dá pra tolerar é o gosto musical dos outros num volume alto. Sou véio mas não sou surdo!

31 março, 2014

ditadura no Brasil: 50 anos, 5 músicas

Para o historiador Eric Hobsbawn, a contestação também é uma forma de patriotismo. Patriotas seriam aqueles que mostram seu amor pelo país desejando renová-lo pela reforma ou pela revolução (Nações e nacionalismos desde 1780).

Mas para a ditadura militar no Brasil, ser patriota significava ficar caladinho diante do regime que não tolerava críticas. 

O golpe militar de 31 de março de 1964 completa 50 anos. Ninguém vai cantar parabéns. Mas para lembrar a resistência político-musical naqueles anos de chumbo, selecionei 5 canções-símbolo (clique nos links para ouvir).


Em 1966, o primeiro prêmio no Festival de Música Popular da Record (na era pré-Edir Macedo) foi dado à “Disparada”, de Geraldo Vandré:

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar

O recado da música mal camuflava a crítica ao regime opressor: 
Porque gado a gente marca / Tange, ferra, engorda e mata 
Mas com gente é diferente.

Vandré dividiu o primeiro lugar do festival com prêmio com um futuro contestador, Chico Buarque, autor de "A Banda".

2 – "Pra não dizer que não falei das flores" (Caminhando e cantando)

Dois anos depois, Vandré seria mais explícito e o resto é história e canção:

Nas escolas, nas ruas, campos, nas construções / Somos todos soldados armados ou não.
Vem, vamos embora que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora não espera acontecer

Essa canção tem um verso que fala das flores vencendo os canhões. A ditadura não gostou dessa contrarrevoluçãozinha "paz e amor" e o desconforto na caserna foi publicado na revista Veja ( 9/10/1968): “Essa música é atentadora à soberania do País, um achincalhe às Forças Armadas e não deveria nem mesmo ser inscrita" [no festival de música].

O ano era 1968, ano do fatídico AI-5, que aboliu direitos civis básicos em nome da "segurança nacional". E a canção vencedora do Festival Internacional da Canção (da Rede Globo) foi "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim. Mas essa era uma canção de protesto muito enrustida para aquele ano e os intérpretes receberam do público politizado uma vaia tão grande quanto injusta.

No final das contas, Vandré sumiu do mapa e quando voltou, negando protesto político, levou o povo a dar vazão a todas as teorias conspiratórias de costume. Ele quebrou o silêncio décadas depois numa entrevista à GloboNews.


É claro que o regime militar dava preferência a canções “patrióticas” como "Eu te amo, meu Brasil":

As praias do Brasil ensolaradas 
O chão onde o país se elevou 
A mão de Deus abençoou 
Mulher que nasce aqui tem muito mais amor.

O ufanismo é coisa exagerada e fantasiosa: Mulher aqui tem mais amor do que na Espanha? O sol brilha mais aqui do que no Egito? Fortalecia-se o mito do Brasil que “vai pra frente”, de uma gente “guerreira”, de uma natureza abençoada. E ainda obrigavam a gente inocente cantar isso na escola. 


Chico Buarque foi o cantor mais vigiado pelo regime. Quando o disco chegou à lojas e essa canção começou a tocar nas rádios, Chico foi “convidado” a explicar para os militares o que ele estava querendo dizer com versos como:

Hoje você é quem manda, falou tá falado / Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda falando de lado / e olhando pro chão, viu

ou

Você que inventou a tristeza / ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado / cada lágrima rolada nesse meu penar
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia...

Chico disse que não tinha nada de político nessa canção, que falava de uma mulher muito má que lhe abandonara. Por mais esfarrapada que pareça, os censores acreditaram e liberaram o autor e a música. Não demorou e a ficha caiu (era mesmo o tempo da ficha telefônica), mandaram recolher os discos das lojas e a canção não tocou mais na rádio.

Chico foi proibido de cantar essa música nos shows e começou a ter dificuldades para gravar. Por algum tempo, ele teve que gravar ou compor com o codinome Julinho da Adelaide, pois nada do que ele escrevia era liberado pela censura.

5 – "Cálice"

Chico rides again! Em 1973, durante um evento realizado pela PolyGram, Chico e Gilberto Gil decidiram cantar uma canção previamente censurada, "Cálice". O refrão diz:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
de vinho tinto de sangue

A referência à angústia de Jesus no Getsêmani era apenas de superfície, na escrita. Na fala, o "cálice" soava também como "cale-se". A referência era à angústia do artista e do intelectual, tesourados, amordaçados, silenciados.


Quando Gil canta a melodia da música com uma letra qualquer e Chico vai dizendo "cálice" (cale-se), os microfones começam a ser desligados (a presença de um censor nos shows era praxe). Ironia das ironias, ambos iam sendo tragicomicamente "calados".

Há muitas histórias e canções proibidas e censuradas, muito mais cantores que não aceitaram facilmente o "cale-se". Pra citar outra canção de Chico Buarque (Vai Passar), isso tudo faz parte de uma "página infeliz da nossa história / passagem desbotada da memória / das nossas novas gerações".

21 março, 2014

a parábola do bom samaritano gospel

O primeiro:
O piano tocou a introdução, o coral cantou um salmo de Davi no estilo barroco, depois entoou um canto polifônico sobre o texto de Romanos 13. Parte da congregação achou que estava ouvindo a “verdadeira música sacra”. Outra parte não entendeu nada, mas achou tudo muito bonito, embora meio tedioso. E o regente saiu batendo no peito dizendo que música sacra não é para agradar as pessoas, e sim a Deus.

O segundo:
A bateria fez a introdução, o cantor pediu pra bater palma e mandou tirar o pé do chão, depois repetiu dez vezes um refrão de quatro versos. Parte do público não entendeu nada, e achou tudo muito constrangedor. Outra parte achou que agora a igreja conseguiria “alcançar os jovens”. E o showman saiu dizendo que o que importa é a letra e o coração.


O terceiro cantou uma música que ajudou a curar feridas, a dar esperança, a devolver confiança. Que música ele cantou? Não sei. Só sei que nem no Israel moderno se achou tamanha fé e louvor tão sincero.

09 março, 2014

O pregador que rasgava conselhos sobre música sacra

Duas ou três coisas que eu sei sobre o caso do pregador Horne, que rasgou livro de compilação de conselhos sobre música sacra sob o pretexto de que "ninguém" os pratica.

1 - Se isso foi uma atitude de coragem, estou esperando pra ver outro imaculado rasgar os Conselhos sobre Regime Alimentar, já que "ninguém" os pratica. Ou então é pra rasgar a página dos 10 Mandamentos sob a justificativa de que "ninguém" os pratica?

2 - A interpretação "zelosa" de alguns é diametralmente oposta à moderação e à intenção da autora dos conselhos.

3 - Assim como tem uma turma cantando pra torcida, tem outra turma pregando pra plateia e não para congregações. Parece que só a primeira turma merece reprimendas públicas.

4 - Cuidado com o pregador que ilude o público com generalizações. Mais cuidado ainda com quem rasga e queima livros.

5 - Na sua argumentação, o exterminador de páginas diz que por essas demonstrações musicais os crentes são tomados por um bando de fanáticos. Mas ele o faz com uma atitude típica de um fanático!

 6 – Alguns dos meus alunos na PUC-PR são evangélicos, e é curioso comparar o quanto eles apreciam a música de cantores adventistas com o quanto alguns pregadores batem na música de sua própria igreja. Os alunos acham a música dos adventistas moderada e bem-feita enquanto alguns pregadores chamam essa mesma música de mundana e profana.

7 - Tem gente que se estivesse viva desde o século 12, estaria rasgando o Hinário porque este não tem coros gregorianos e ainda tem músicas de origem secular ou que vieram de outras tradições cristãs. Pior: hoje a congregação pode até cantar! Valei-me!

25 fevereiro, 2014

10 melhores trilhas sonoras premiadas no Oscar

Na semana que precede a festa do troféu mais disputado do cinema, o Oscar, fiz uma lista de músicas premiadas ou injustiçadas na categoria "Melhor Trilha Sonora". A seguir, as 10 trilhas sonoras vencedoras do Oscar que, na ínfima opinião e gosto deste músico, são as melhores entre as oscarizadas (em ordem cronológica). Para ouvir, clique nos títulos dos filmes ou nos vídeos:

As Aventuras de Robin Hood (1938) | Autor: Erich von Korngold
Trilha sonora épica, sinfônica e triunfal que marcaria toda uma forma de compor para filmes de ação e aventura. E ainda tem tons românticos ou cômicos quando necessário.




A Ponte do Rio Kwai (1957) | Autor: Malcolm Arnold
O tema mais assobiado do cinema? Talvez sim. Nem o Domingão do Faustão, que usou até a exaustão a música desse filme, conseguiu destruir esse clássico.

Bonequinha de Luxo (1961) | Autor: Henry Mancini
Audrey Hepburn + "Moon River" derrete corações até hoje. Some-se a delicada trilha de Henry Mancini  e temos uma combinação perfeita.

Lawrence da Arábia (1962) | Autor: Maurice Jarre
O épico dos épicos possui uma trilha orquestral grandiosa.



Golpe de Mestre (1973) | Adaptação musical: Marvin Hamlisch
Tá certo que não se trata de uma trilha sonora original como as demais dessa lista, e sim de arranjos sobre a música do compositor Scott Joplin. Mas é só escutar aquele piano tocando o famoso tema no estilo ragtime dos anos 1920 pra entender porque selecionei essa trilha sonora.

O Poderoso Chefão - Parte 2 (1974) | Autores: Nino Rota e Carmine Coppola
O compositor Nino Rota nunca foi premiado por uma de suas trilhas inesquecíveis dos filmes de sua parceria com o diretor Federico Fellini. A Academia que concede o Oscar também desclassificou sua música para o primeiro filme da série O Poderoso Chefão com a justificativa de que o tema principal não era original, mas um arranjo de uma cançoneta italiana.




Tubarão (1975) | Autor : John Williams
O reinado de John Williams começa com uma trilha poderosa e marcante. O espectador passa mais da metade do filme sem ver o tubarão inteiro. Nem precisa. Só a barbatana e a música já são suficiente aterrorizantes.

Star Wars - Episódio IV (1977) | Autor: John Williams
Não há ruído no vácuo, mas há a música retumbante e triunfal se propagando no espaço. Nos episódios subsequentes, Williams desenvolve novos temas para os personagens sem perder o pique criativo. No vídeo, o próprio John Williams rege a orquestra tocando o tema de Star Wars.



O Tigre e o Dragão (2000) | Autor: Tan Dun
Trilha percussiva e também bastante melodiosa que evoca a serenidade e a agilidade de personagens e situações com muita graça e beleza.




O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei (2003) | Autor: Howard Shore
Um feito técnico e musical impressionante, dada a variedade e o uso criativo de temas musicais interligados com os personagens, objetos e eventos. Se você lembrou dos métodos de composição operística do compositor alemão do século 19 Richard Wagner, fez bem. Wagner só não aplaudiria porque devia achar impossível alguém compor algo tão bom assim.

29 janeiro, 2014

lembranças aos duzentos e muitos

Em 27 de Janeiro de 2013, 242 pessoas perderam a vida num incêndio na boate Kiss, na cidade de Santa Maria/RS. A maioria das vítimas ainda tinha vinte e poucos anos.

Escrevi essa canção como uma lembrança aos duzentos e muitos...


 


1 ano depois da tragédia, nenhuma autoridade tinha sido responsabilizada judicialmente.

22 janeiro, 2014

a insustentável leveza da gravidade

A dra. Ryan Stone perdeu uma filha e tudo o que ela faz após o trabalho é dirigir com o rádio ligado. Não importa a música nem o assunto. Ela só dirige. Ela se culpa? Ela culpa o destino, a vida, Deus? Não importa. Ela só dirige.

Agora que está suspensa sobre a Terra e um colega de trabalho lhe pergunta “O que você mais gosta aqui no espaço?”, ela só poderia responder: “O silêncio”. Mesmo na gravidade zero do espaço, Ryan carrega o peso da terra.

Isto é Gravidade (Gravity), filme de Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock e George Clooney, que tinha tudo para ser mais uma aventura espacial com pitadas de romance entre dois dos espécimes mais bonitos deste planeta.

Mas Gravidade está muito além. Acontece no espaço, mas não tem aliens. Tem naves espaciais, mas não tem clones de Darth Vader. É com a Miss Simpatia, mas ela não tem motivo algum pra sorrir. A mocinha não enfrenta vilões nem extraterrestres, e nem se apaixona por heróis que resolvem tudo aos 90 minutos do 2º tempo.

Gravidade se resume à luta de um ser humano pela sobrevivência. Uma mulher a princípio frágil, perdida e solitária, a dra. Stone crê que tudo é pesado demais para seguir lutando pela vida. É quando um homem que reage de forma leve ao peso da tragédia lhe desperta: “Ryan, você precisa decidir se quer morrer ou sobreviver”.


O filme consegue prender a atenção com drama e suspense. Mas eu perdi mesmo o fôlego com cenas e diálogos que levantavam questões existenciais:

“Eu só dirijo”.  

“Você tem que aprender a abrir mão”: Ryan precisa soltar a corda que não deixa viver nem ela nem o companheiro de voo. É necessário abrir mão de coisas significativas para viver e deixar morrer.

“Todos vão morrer um dia, mas eu vou morrer hoje”: falar de morte virou assunto proibido numa sociedade que não apenas oculta seus mortos, mas também foge da velhice, a última estação antes da morte, esforçando-se para parecer jovem. Não adianta um repórter lhe perguntar: O que você faria se soubesse que morreria hoje? É estupidez perguntar ou responder. Mas cada um saberá se vai morrer tendo perdido a vida.

“Ninguém nunca me ensinou a rezar”: o desejo intrínseco de esperar pela ação de um ser transcendente (um deus, uma ideia de Deus) está ligado à aparente necessidade de falar com ele/Ele na hora das aflições mais profundas ou mais superficiais. É por isso que talvez não existam ateus na hora do pênalti ou no perigo do naufrágio.

“Ou eu tenho uma história incrível quando chegar ou morro queimada em 10 minutos. De qualquer modo, não é culpa de ninguém”: a culpa que gostamos de atribuir ao prefeito, ao pai, à mulher, a Deus é o subterfúgio preferido para acalmar nossas consciências. "Não porás tua culpa nos outros" poderia ser o 11º mandamento.


Não sei se fiquei mais impressionado com o filme pelo fato de meus preconceitos ridículos em relação à Sandra Bullock se quebrarem diante de sua extraordinária atuação; ou se com o fato de saber que todo o cenário (os satélites, as estações espaciais, o belíssimo por do sol visto do espaço) eram criações da computação gráfica; ou se com o fato de, em tempos de franquias de heróis anabolizados, ainda existir um blockbuster com cérebro; ou com a brilhante música eletrônica iludindo a ausência de propagação de som no vácuo; ou com as tocantes questões metafísicas.



Finalizada a dramática aventura no espaço , restará ao indivíduo – como no poema de Drummond – por o pé no chão do seu coração, experimentar, humanizar, descobrir em suas próprias inexploradas entranhas a alegria de conviver. Ryan vai entender que todos têm de carregar o insustentável fardo da gravidade na terra. E que, mais de uma vez na vida, a gente tem que aprender a andar de novo.