09 Novembro, 2009

a intolerância e o vestidinho indefectível

A moçoila ousada e descolada se arruma em frente ao espelho, experimenta uma, experimenta duas, na terceira roupa ela se decide. Portando apenas um vestidinho vermelho, ela anda pelos corredores da faculdade e transtorna um grupo de universitários. O vestidinho causa furor e uma entidade moralizante “baixa” nos universitários, que veem no curto figurino da moça uma profanação do solo sagrado da academia.

Eles (e elas), movidos pelo zelo escandalizado típico dos jovens universitários tupiniquins, seres pouco afeitos a baladas, raves e que tais, não somente atiram a primeira e a segunda pedra na Madalena suburbana metida em trajes tão sumários, como também expulsam-na do prédio acadêmico. Só faltaram levá-la até a direção e gritar “Eis aqui essa mulher, magnífico reitor. Foi apanhada nos provocando, essa mulher deve morrer!” Teria Geisy Arruda, a dama-estudante de vermelho em questão, transtornado a turba com seu vestidinho vermelho indefectível?

Vejamos. Não, ela não passou pelos tubos de ventilação e deixou as intimidades à mostra como Marilyn Monroe. Não, ela não dançava sobre a mesa e as carteiras como as meninas teúdas e manteúdas dos filmes adolescentes. Não, ela não deixou a calcinha em casa como Britney Spears. Não, ela não descia na boquinha da garrafa como as chacretes modernas do axé. O que fez a moça, então, para disparar os instintos mais primitivos da malta?

Geisy teria faltado com o decoro ao usar um vestidinho vermelhinho tão pequeninho que mal cabia na palma da mão. Mas seria essa roupa mais inapropriada para o ambiente acadêmico do que o chinelão e a bermuda dos mancebos ou do que os tops mínimos das donzelas tropicais? Mais inadequado do que tudo isso é a intolerância e a violência dirigidas à qualquer pessoa, caloura ou veterana.

Para os moralistas espiando da janela, Geisy foi culpada pela agressão que sofreu. É o típico pensamento de quem acha que a vítima estuprada é que atrai a violência sobre si. Esses enxergam a mulher como uma lobinha sexy perturbando as mentes sadias dos homens cujos instintos de macho predador e pegador vêm à tona de forma incontrolável. Não basta à vítima a humilhação física; descarreguem-se nela as mais abjetas acusações: “Ela deu mole”, “vacilou”, “com essa roupa, ela tava pedindo por isso”...

Podem as moças passar a tarde escolhendo e cantando “Com que roupa eu vou?” e ainda que elas não saiam vestidas para arrasar, haverão machos famintos que salivarão olhudos ao menor sinal de exposição de carne feminina.

Tome-se a divulgação de algumas festas universitárias. O convite anuncia que até à meia-noite mulher não paga. Outros bares alardeiam que até à meia-noite mulher não paga bebida, e assim por diante. Apesar das celebradas emancipações femininas, ainda há mulheres que se servem de isca para a diversão masculina. Não que elas não queiram se divertir, afinal nesta terra de estudante de muitas baladas e poucos engenhos o prazer é um mandamento irresistível. E após a meia-noite, cinderelas e abóboras encontram príncipes e sapos ao som de qualquer música sem palavra difícil.

Mesmo que todas as festas de faculdade fossem de uma austeridade puritana, ainda assim os jovens intolerantes não tinham a mais ínfima justificativa para constranger, xingar e malhar aquela estudante como se ela fosse uma judas de minissaia. Até porque ninguém sabe de nenhum movimento universitário contra as peripécias amorosas e BBBices transmitidas ao vivo, não se sabe de manifestação de graduandos em prol da erudição das letras do funk.

De repente, os alunos da UNIBAN, faculdade onde ocorreu a inquisição da semana, foram acometidos de um pudor que arrepiaria até as tradições das ligas de senhoras em defesa da moral e dos bons costumes. Qual a providência tomada pela reitoria? Investigar o caso, punir os culpados pela cena de intolerância e sugerir um enxoval mais circunspecto à moça ousada e descolada, que usou aquele vestidinho porque iria emendar a aula com uma saída noturna, certo?

Qual o quê! A direção da faculdade houve por bem expulsar a moça do quadro de seus respeitáveis e honoráveis alunos. Assim, a vítima foi transformada em vilã e os agressores em juízes e protetores da ordem social. Ai daquele jovem universitário que acende os archotes da intolerância e desmoraliza a própria moral.


Imagem tirei daqui.

04 Novembro, 2009

o e-leitor

Quando os primeiros livros começaram a ser impressos na gráfica de Gutenberg no remoto ano de 1455, será que houve alguém que continuou preferindo estudar nos pergaminhos? Pois no nosso informatizado século há quem não goste da novidade revolucionária, o e-book. E não é por que a nova engenhoca do saber ainda custa caro.

Não se assuste com a chegada do e-book, o livro eletrônico que comportará toda a sua estante de livros. Vantangens prováveis: os livros que você quer (e conseguir comprar) a um click de distância; não amassa, não pega fungo, não tem mau cheiro nem solta as tiras; dá pra ler de noite; o portador do e-book será visto como alguém antenado - alguns dirão "descolado". Desvantagens possíveis: comprar de novo os livros que você já tem; ver uma estante ficar obsoleta; esbarrar num botão e mudar de página - ou de tela - no meio da leitura; reiniciar, resetar, reinicializar; virar o brontossauro da repartição caso não adquira um e-book.

Não há como negar que ler um e-book na fila do ônibus ou dentro do metrô pode ser uma aventura tão arriscada como exibir um celular de última geração. Não é como roubar livros de papel, algo tão insólito quanto o furto de chinelo velho. Talvez a democratização do produto e o barateamento dos preços faça com que o e-book não seja um objeto tão disputado, mas isso pode levar um bom tempo.

As crianças estão mais espertas, mas o que não mudará é o seu maravilhoso senso de ser inoportunas. Seu sobrinho iPodizado e iPhonizado lhe perguntará sem dó: “Como faz pra acessar essa coisa de papel que você lê?” Sua amiga ecochata: “Sabe quantas árvores se derruba para você ler esse livro?” Até o estagiário recém-contratado: “Deixa que eu encontro rapidinho essa citação do George Soros aqui no meu e-book”.

Nem os concursos bíblicos serão mais os mesmos. Imagine os participantes com seus iPhones e iTudo na mão: “Armas ao alto” (calma, arma é só como se chamava a Bíblia em antigos concursos). “Livro A, capítulo B, verso C”.

Os dedos voam, clicam num ícone, dois ícones, deslizam suave e digitalmente e encontram facilmente a passagem que brotam na tela junto com as personalizadas abas de tela. O hinário completo também estará lá (embora as letras das músicas cantadas nas igrejas já tenha sido teletransportada para o telão).

Nesses tempos linkados e logados em que vivemos, a ciência que se multiplica está pondo a Bíblia no bolso. A Bíblia virtual no bolso real do indivíduo, que fique bem entendido. A tecnologia pode auxiliar e muito a leitura e a propagação da Palavra. Como parafraseou meu irmão Julison portador de uma Bíblia no Formato de Hoje: “Escondi Tua palavra no meu iPhone para não pecar contra ti”.

Para as gerações acostumadas com o cheiro e a textura do papel, a transição poderá ser mais lenta e gradual que qualquer perestroika. Os traumas poderão gerar indivíduos que não subsistirão ao olhar para a estante então com apenas um fino e hirto e-livro onde antes esparramavam-se centenas de lombadas e capas duras. Haverá aquela espécime mais arredia à tecnologia, que passará os dias em sebos em busca de qualquer traço de celulose. Alguns se contentarão em espirrar alergicamente ao abrir um livro com vestígios de pó e traça. Os mais radicais, aqueles que nunca quiseram nem aprender como se liga um aparelho de DVD, dirão que no tempo deles é que a leitura era um prazer, que o nome de Gutemberg é desonrado a cada download de um novo livro e ainda lamentarão a decadência da humanidade.

Convertei-vos, ó idólatras do vinil e da celulose! Antes que venham os maus dias em que não podereis mais ser nem leitores nem e-leitores.

30 Outubro, 2009

para ler e ver

Fim de semana esticado até segunda. Troca de provedor de internet. Viagem com o Curitiba Coral por Blumenau e Floripa. Desculpas eu tenho para não postar um novo texto no blog. Mas posso indicar uns textos mais antiguinhos, mas não arcaicos, agarantcho-lhes:

Para o sábado, uma reflexão: o compositor cristão no tempo.

Para o domingo, uma dica para assistir: o ano em que meus pais saíram de férias.

Para a segunda, assista o filme, jogue bola, converse, leia um livro, ou coisa sempre melhor que o blog deste web-escriba. Bom descanso a todos!

28 Outubro, 2009

a religião ecológica

A causa ecológica, sempre preocupada com hábitos do velho homem, assegura que nosso planeta não passa de 2030. Resta somente repetir os versos de uma canção dos anos 80: É o fim da aventura humana na Terra. Uma das razões é o aquecimento gradual do sol, ex-amigo dos seres viventes. Banho de sol, nem pensar, mocinha. Resta aquela outra canção sobre um banho de lua para ficar branca como a neve!

Tirem as crianças do sol, deixem as crianças na sala! O sol agora pode causar doenças terríveis como alegria, prazer e vitamina D, coisas opostas a esse mundo que mergulha em depressão e neurose ecológica.

Não vá sair agora para o sol do meio-dia, melhor evitá-lo entre 10 da manhã e 3 da tarde. Claro que tomar sol em excesso pode causar câncer. Mas, diga aí, o que nesse mundo já não causa câncer? Veja também as estatísticas de morte no trânsito e pergunte quantos andam pensando seriamente em largar o volante. É completamente cabível abdicar de refrigerante e de certos programas de TV que também engordam e matam como colesterol ruim. Mas é descabido querer fugir do sol como se fôssemos dráculas.

Uma coisa é cuidar da saúde física e mental, buscar uma alimentação balanceada e diminuir o uso de impressão em papel quando possível. Outra bem diferente é não usar spray de cabelo porque isso contribui para o aumento do buraco nas camadas atmosféricas ou evitar o sol em qualquer hora, quesitos que adotei involuntariamente já que não tenho cabelos e moro sob o céu nublado de Curitiba.

Tem gente que fica à procura de uma paranóia pra viver, como aquela dos maçons-empresários que controlam o mundo como titereiros ou a dos capitalistas que enviam mensagens subliminares irresistíveis para dominar as mentes. Isso tudo é raia miúda perto do surto que conquista cada vez mais adeptos, a psicose da saúde do homem e da Terra.

O cinema também encampou essa ideia: documentários e documentiras anunciam ao mundo que nosso lar está se acabando e é bom aproveitar as belas imagens de savanas povoadas de zebras e leões antes que o tempo se vá. Personalidades, como Al Gore e Leonardo di Caprio, e filmes, como Home e Earth, repetem que o oceano está subindo, a temperatura mundial está subindo, a fumaça está sempre subindo. Alguém duvida de que a bilheteria de filmes do tipo também está subindo?

Por falta de uma ideologia melhorzinha, essa turma aderiu à causa ECOmênica, uma bandeira interreligiosa e suprapartidária. Bandeira não, um guarda-chuva ou guarda-sol que agrega gregos e baianos, antigos comunistas devoradores de criancinhas e novos capitalistas devoradores de almas, padres, pastores e presidentes, BBBs e budistas. Não duvide se Osama rimar com Obama para ser a solução da boa vontade entre os homens filhos de Gaia. Todos culpando a feia fumaça que apaga as estrelas e os flatos bovinos, equinos e muares.

Quando vejo uma multidão tão diversificada agindo de forma tão unânime por uma causa tão mundial, desconfio. Gente muito unânime só aprova credos e partidos que juntam seus trapinhos de diferença ideológica por uma causa salvacionista. Se você pensou em religião ecológica, acertou. De manifestantes que se atiram feito mártires na frente de tratores e navios a notícias sobre um apocalipse ambiental, a religião ECOmênica ganha predominância no altar das causas planetárias. O ECOmenismo ganha adeptos de todas as cores ideológicas e religiosas, pois converter-se a essa causa equivale à luta apaixonante pela sobrevivência da humanidade.

Afinal, quem em sã consciência pode renunciar à defesa da vida? Nada contra defender a vida e cuidar da natureza. É necessário sempre esclarecer sobre o ciclo da vida natural da qual fazemos parte. Reciclar, reutilizar, preservar são itens importantes que devem estar na nossa agenda. Não questiono também as evidências do aquecimento global, só desconfio da "verdade científica" que cerca o debate que um dia foi ambiental e hoje é item da agenda do poder político.

O problema é que a questão climática ganhou um selo de autoridade "científico" inquestionável. A mídia pouco dada a investigações chancela a questão ecológica. Surgem ainda informações manipuladas a fim de criar uma consciência global, que resultam na criação dos dias mundiais sem isso ou sem aquilo (sem carro, sem TV, sem luz elétrica por uma hora).

Curioso como esses tais dias mundiais exercem um fascínio nos países mais desenvolvidos. Principalmente na Europa, que fecha a cara para os imigrantes mas acena alegre para ursos e pinguins.

23 Outubro, 2009

cristianismo: letra e música

O que tem mais impacto sobre uma pessoa? A música ou a letra da música?

Essa é uma pergunta de difícil resposta e não raro vemos gente defendendo a supremacia da música sobre a letra ou vice-versa. Vamos àqueles que acreditam que a letra é predominante na recepção musical.

A letra, é claro, não é algo desimportante. As letras das canções de protesto de Chico Buarque e Geraldo Vandré miravam as injustiças e desmandos da ditadura , sendo que seus autores e intérpretes eram, no mínimo, frequentemente intimados a dar explicações sobre uma frase ou outra de uma música.

Tom Jobim foi inacreditavelmente vaiado no III Festival Internacional da Canção (1968), quando sua música "Sabiá", de harmonia sofisticada e letra lírica, venceu a simples e direta "Pra não dizer que não falei das flores", dos versos Caminhando e cantando e seguindo a canção...

A letra, para a plateia que estava na final do festival, parecia o elemento principal da estética musical. Apesar de não ser uma disputa da "canção mais politizada", os apupadores desqualificavam a melodia, o arranjo e a poesia de "Sabiá", mesmo que esta trouxesse, nas suas entrelinhas, o lamento de um sujeito forçado ao exílio. O contexto social "requeria" uma música que explicitasse os anseios políticos da plateia. No entanto, o júri não deu ouvidos à voz rouca dos festivais e premiou a canção de Jobim e Chico, considerada estruturalmente mais apurada.

Na música cristã, o debate é semelhante. Alguns defendem que a escolha do estilo musical é de ordem primordial para a adoração, sendo que os temas da cristandade devem ser tratados por meio de uma música alegre ou reverente ou alegremente reverente. Para esses, a letra religiosa merece estilos musicais que inspirem religiosidade ou que estejam tradicionalmente relacionados à alegria tranquila ou à solenidade sem artifícios.

Outros creem que a letra, ao tratar de temas cristãos, "sacraliza" de antemão qualquer estilo musical, pois a força literária prevalece sobre o impacto estritamente musical. O gênero musical estaria à serviço de um bem maior, a evangelização contextualizada, capaz de atingir diferentes nichos culturais. Além disso, chega-se a afirmar que a música não teria moralidade inerente.

Começando: nem todo estilo musical pode servir adequadamente às intenções do compositor. No caso da música secular, Carlos Lyra, ao ligar-se aos movimentos de resistência política universitária nos anos 60, renunciou à bossa nova, pois acreditava que esse estilo, referencialmente rebuscado, com influências jazzísticas e letras que versavam sobre "o amor, o sorriso e a flor", não servia como música de confronto e de protesto. A rusticidade do baião e do samba, além de associados a uma suposta raiz nacional (hoje discutível) e ao homem do povo, serviria melhor aos propósitos políticos dos movimentos da época.

Na música sacra, não é incorreto supor que nem todo estilo musical seja próprio para o louvor e a adoração. Se a bossa nova seria um elemento refinado e doce demais para as durezas da confrontação política, não seria o caso de perguntar se o pagode ou o heavy metal, por conta de suas referências, são realmente adequados para expressar os temas cristãos? Bastaria enunciar uma letra religiosa para cristianizar esses estilos?

Nossa recepção a uma canção é afetada pelas referências que ela traz. Quanto a isso, não é possível ficar imune. O teórico da música Leonard Meyer e o semioticista Umberto Eco afirmam que a música denota sentidos e referenciais inscritos culturalmente. Numa época de saturação de signos audiovisuais como a nossa, é difícil negar a referencialidade presente numa obra musical. Talvez o cantor ou o compositor cristãos não queiram que alguém se obrigue a fazer associações estilísticas ao ouvir determinada canção, mas eles também não podem evitar que alguém venha a fazê-las.

Edward Said dizia que é preciso uma mente madura para entender que o compositor erudito Richard Wagner foi um gênio musical e também um crápula. Confesso que dificilmente consigo separar o homem antissemita do gênio da ópera; então vai ver que eu não sou maduro mesmo.

No âmbito da música sacra, para muita gente é difícil deletar a referencialidade moral de boa parte do pop/rock quando esse estilo é adotado por professos cristãos. Por isso, dão preferência a estilos mais tradicionais de música sacra, o que talvez possa ser explicado pela evidência de que a música é entendida como uma questão de gosto. Assim, é possível que as pessoas se fixem em seus gostos culturais e relacionem esses gostos a uma noção de reverência e santidade que desenvolveram em sua vida cristã.

A evangelização contextualizada, aquela que procura "ser grega para os gregos e romana para os romanos" a fim de alcançar alguns dentre todos, não é facilmente criticável. Há resultados válidos, mas também vale alertar para o perigo do pragmatismo inquestionável, o evangelismo vale-tudo. Será uma analogia esdrúxula certamente, mas vejamos assim: se o boxe, mesmo em sua reconhecida violência, ainda conservava regras e pudores, as lutas de vale-tudo radicalizam a proposta de um combate e abrem espaço para quase todo tipo de golpe que seria considerado desonroso no boxe.

Por sua vez, o vale-tudo evangelístico abre espaço para toda forma musical pop e usa efeitos, performances, letras e estilos que, nem sempre injustamente, são considerados desonrosos para a mensagem cristã.

Finalizando: a escala musical ocidental não tem uma moral inerente. Mas como a música sempre está dentro de um contexto sonoro, social e sempre é produzida pelo homem, um ser moral, então é evidente que uma música cantada pode contradizer ou afirmar valores cristãos.

Não se discute aqui a qualidade da produção musical ou a intenção evangelística de um estilo gospel contemporâneo. Mas não posso concordar com a vã separação que se tenta fazer entre música e letra de uma canção. Ora, uma canção é exatamente a conjunção de letra e música. Os teóricos musicais já perceberam que nem sempre é válido analisar uma letra à parte de sua melodia, de seu arranjo e, por vezes, até da interpretação vocal.

Essa pretensa separação entre estilo musical e letra que compositores gospel andam a fazer, como se a letra fosse mais importante que a forma musical, revela não apenas um modo desavisado de pensar a música, mas também um modo pouco teológico de pensar o cristianismo.

21 Outubro, 2009

notícia para quem precisa de notícia

Lembra das sereias cujas vozes aveludadas vozes atraíam irresistivelmente os combatentes de Ulisses, o herói com algum caráter? As musas irresistíveis de hoje são a fama midiática e o desejo de ser celebridade. Quando a fama chama, não há decência, palavrinha ultrapassada, hein?, que resista.

Recentemente, um casal (e mais um sócio) aprontou uma típica jogada de marketing para divulgar um projeto de série para TV fazendo voar um balão que estaria carregando por descuido um de seus filhos. O alarme foi disparado, as imagens se espalharam, o serviço de emergência foi mobilizado, mas poucos dias depois a farsa foi descoberta. Esse golpe publicitário aparentemente inspirado nas aventuras da animação Up, em que uma criança e um ancião voam desastradamente numa casa-balão, virou caso de polícia porque envolveu, além da mentira descarada, uma criança. E criança perdida no espaço só pode nas ficções da TV.

Se Ulisses amarrou o próprio corpo no mastro da jangada para não se atirar no mar das sereias de voz maviosa voz, o sócio-pai, amarrando (metaforicamente) seu filho a um balão, demonstrava não ter resistido ao doce canto da sereia-fama e da sereia-grana (e nem sempre eventualmente, da sereia-cama). Agora responderá a processo judicial, coisa que não existe nas odisséias gregas de Ulisses.

As peripécias dos anônimos em busca da fama não merecem uma Ilíada, mas têm dimensões homéricas. Basta ver a quantidade de gente que se inscreve nas edições de reality shows que tomaram conta da TV mundial. Ou ainda a empolgação que muita gente mostra quando passa por trás de alguém sendo entrevistado na rua, ou as horas dedicadas a criar perfis e postar imagens pessoais no Orkut ou no Facebook.

O marketing pode ser planejado numa mesa, como fizeram os sócios da “farsa do balão”, ou ser completamente involuntário, como no caso da cantora Vanusa, cuja interpretação "remixada" do Hino Nacional andou lhe valendo novos convites para shows. Com premeditação ou não, importa dizer que esses eventos são, na verdade, pseudoeventos. São eventos fabricados para ter o significado de um evento que mereça a cobertura da mídia.

Assim, pouco interessa o fato; interessa a cobertura midiática do fato. A primeira-dama brincando de bambolê, o engarrafamento infinito, os estudantes sonolentos nas aulas do início do horário de verão, o craque de futebol flagrado numa boate, o cantor na praia, a ex-BBB no shopping: se o jornal noturno transmitiu é porque o fato era digno de nota, se os vespertinos sensacionalistas mostraram é porque o evento é urgente, se o portal de um grande conglomerado noticiou então o acontecido é importante .

Verdade ou ilusão também pouco interessariam, o que importa é a versão do fato que cada jornal, rádio ou TV apresenta. Sarney discursa no plenário: para qualquer jornal do país esse discurso não terá respondido às questões mais candentes, exceto para o jornal O Estado do Maranhão, que logrará a notícia de que Sarney fez uma contundente defesa de sua “ilibada conduta política”. O MST ocupa uma fazenda: para qualquer periódico do país esse ato representará o caráter hostil e vândalo dos movimentos sociais, exceto para uns parcos blogueiros, que acusarão a adulteração midiática dos reais motivos das mobilizações coletivas.

Ocorre, aqui, uma transubstanciação do evento: de pseudoevento ou fato relevante, a notícia, quando veiculada pelos canais de comunicação hegemônicos, converte-se em verdade senhorial, sendo que os muxoxos dos apresentadores após a divulgação das imagens do evento equivalem ao polegar dos césares no coliseu. Assim, quando os periódicos mais vendidos estão certos, eles sempre estiveram certos. Quando estão equivocados, eles ainda estão certos, até porque, na era da ausência fabricada de Deus, vox media, vox dei, a voz da mídia é a voz onipresente e onisciente.

Enquanto a voz do povo seria a famigerada opinião pública, a voz da mídia é a indispensável opinião publicada. A voz afônica das ruas será apenas pública, porque publicada mesmo é a opinião do pensamento ideológico do editor, que não raro é a expressão dos investimentos financeiros do sócio majoritário.

E quanto às notícias do jogador na boate, do cantor na praia e da ex-BBB no shopping, bem, me acordem quando eles forem flagrados numa biblioteca.

19 Outubro, 2009

cem palavras: fama para todos

Este "cem palavras" de hoje será o mais twitter, digo, o mais curto de todos o que já postei. Com menos de 140 caracteres, dois aforismos separados por 30 anos que apontam os rumos da democratização da fama:


No futuro, todo mundo será famoso por quinze minutos.
Na internet, todo mundo será famoso para quinze pessoas.