04 fevereiro, 2016

música secular na igreja


MÚSICA SECULAR NO CULTO
reportagem de Thiago Chagas, no Gnotícias
[meus comentários estão em negrito]

"Há, ao redor do mundo, uma nova tendência que surge entre igrejas evangélicas: usar músicas seculares como parte da liturgia durante os cultos. Em geral, as canções escolhidas possuem letras que não contradizem a fé cristã, mas a ideia não passou livre de polêmicas.

"No Brasil, a ideia não demorou a ser abraçada. No Facebook, o bispo Hermes C. Fernandes, que lidera a igreja Reina (Rede Internacional de Amigos) costuma compartilhar vídeos de momentos de louvor e adoração permeados com músicas seculares nacionais, numa iniciativa chamada de “Rastros da Graça”. Entre os intérpretes escolhidos estão Luiz Gonzaga, Raul Seixas e Lulu Santos, além de alguns cristãos, como Rebanhão e Oficina G3.

[cantar Raul Seixas no culto parece um ato realizado sem reflexão. Não se nega a relevância de sua obra musical, mas encaixotar Raulzito na igreja deve ser a última coisa que ele queria na morte]

"Em seu blog, Fernandes defende a iniciativa como forma de enxergar sinais do favor divino em toda a expressão humana, mesmo que essa não seja pautada pela fé: “Os puros hão de perceber sinais de esperança dentro da cultura. Rastros inequívocos da graça que nos fazem apostar que um novo mundo começa a emergir diante dos nossos olhos. Enganam-se os que pensam que por estarmos cantando canções seculares nos cultos, estamos traindo nossa fé e introduzindo o mundo na igreja. Não! Estamos apenas trazendo nos lábios sinais de esperança”, argumenta.

[muito músico popular acaba atuando como uma espécie de sacerdote secular, confortando e advertindo o público com canções de esperança, mudança e fraternidade. Mas essas músicas servirão ao propósito litúrgico de edificar a igreja e adorar a Deus?]

"No entanto, a ideia não tem unanimidade e recebe críticas. O pastor Renato Vargens, líder da Igreja Cristã da Aliança, comenta que, mesmo reconhecendo a graça comum sobre toda a humanidade, e ciente de que é possível ver a manifestação de Deus em uma música não religiosa, o culto é momento de adoração ao Pai.

“Antes de qualquer coisa é preciso afirmar que não sou dualista sacralizando algumas atitudes e comportamentos, bem como demonizando outros. Aliás, como reformado, acredito que Deus estabeleceu o conceito de graça comum, e que esta é a fonte de toda cultura e virtude que encontramos entre os homens. Isto é, em outras palavras […] significa que Deus em sua infinita graça e bondade concedeu aos homens a capacidade de fazer coisas boas, dentre as quais podemos enumerar os talentos para a arte, música, oratória, literatura, arquitetura, comércio, invenções e etc”, contextualiza Vargens.

[Vargens fala acertadamente como Paul Tillich, o teólogo da cultura que dizia que é um equívoco supor que a graça divina esteja presa à religião para poder influenciar a cultura e a sociedade]

Para ele, “o fato da graça comum ser uma doutrina no meu ponto de vista inquestionável, isso não me dá o direito de entoar canções seculares no culto”, pois estas “não foram compostas para a glória de Deus”, e sim, pensadas “exclusivamente no bem estar humano”.

"Listando outros motivos pelos quais se opõe à execução de músicas seculares durante os cultos, Vargens observa que elas “não servem para adoração congregacional, visto não terem sido compostas por alguém regenerado pelo Espírito Santo”.

[aqui discordo de Renato Vargens. O sinal de que alguém foi "regenerado pelo Espírito" é o batismo, é a frequência a cultos, é ter um cargo na igreja? Esses seriam somente sinais externos de uma regeneração que pode nem ter acontecido ou não estar sendo vivida]

Ele explica: “Nessa perspectiva o mesmo que entoa uma canção cuja letra dignifica Deus ou as causas do reino, é o mesmo que canta cânticos com impropérios e blasfêmias absolutamente antagônicas ao modelo de adoração ensinado pelas Escrituras”.

[de fato, não é porque Renato Russo cantou uma urgente mensagem de amor e compreensão  baseado em Coríntios 13 que se entoará a canção Pais e Filhos no culto. também não é porque Bono Vox canta que acredita na vinda do Reino que se irá cantar Still Haven't Found What I'm Looking For no final do sermão. tais canções possuem um forte componente religioso, mas não são litúrgicas nem foram feitas para o culto cristão, ainda que reforcem determinados temas cristãos]

"Mais adiante, o pastor destaca que “o simples fato de entoá-las em nossos ajuntamentos aponta para a secularização da igreja, bem como a implementação dos valores deste mundo”, o que seria uma oposição à função do louvor na Bíblia: “Todas as vezes que louvores congregacionais foram entoados pelo povo de Deus (tanto no Antigo Testamento, como Novo Testamento), foram feitos por aqueles que o Senhor anteriormente havia salvado. Para confirmarmos essa premissa basta olharmos para o livros de Salmos e Apocalipse que não veremos um louvor sequer com músicas não compostas por crentes no Senhor”.

"Para Vargens, a nova tendência entre evangélicos é um equívoco: “Mais do que nunca devemos referendar nossas liturgias e comportamentos na infalível Palavra do Senhor, contrapondo-nos assim, a qualquer ensino que fira a santidade de Deus. Lembre-se: culto, oferecemos a Deus e não a nós mesmos! Que tem que ser glorificado é Ele!”, conclui.

[alguém pode perguntar: mas, e aquelas músicas seculares que foram adaptadas e estão nos hinários? elas vêm de um contexto bem diferente. primeiro, sua época permitia esse procedimento. segundo, emprestou-se somente o componente musical da canção. a letra foi alterada para comunicar conteúdos cristãos. aqui se está falando de músicas seculares cantadas na igreja com sua letra original] 

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Nota na Pauta: confira a íntegra das duas opiniões nos blogs de Hermes Fernandes [músicas seculares nos cultos: estaria o mundo entrando mesmo na igreja?]

15 janeiro, 2016

O Menino e o Mundo é o Wendell Lira indicado ao Oscar

Alguém pode estar se perguntando de onde apareceu esse filme nacional que "ninguém viu" e que agora foi indicado ao Oscar de melhor animação.

Isso confirma que os exibidores do circuito comercial e as sessões da tv paga estão interessadas somente no mais do mesmo. É da Disney? É da Pixar? Tem princesinhas, monstrinhos, robozinhos, todos fofinhos? A gente exibe.

É do mestre Miyazaki? É esta delicada animação nacional? A gente ignora.

O que se nota é a tomada de todas as salas e espaços de TV pelas animações de personagens similares, histórias semelhantes, traçado idêntico e sucesso parecido.

"O Menino e o Mundo" narra a história de um garoto que sai à procura do pai e vai enfrentando um mundo hostil aos olhos de uma criança. A animação dirigida por Alê Abreu foge do traço realístico e prefere a simplicidade do desenho e a paleta de cores que parecem ter saído do nosso giz de cera de infância.

Ficar entre os cinco indicados ao Oscar de animação já é uma vitória para os realizadores de "O Menino e o Mundo". Não tem chances diante do peso pesado "Divertida Mente". Até porque não é toda hora que aparece um Wendell Lira ganhando de um Messi.


06 janeiro, 2016

o mito da música que transforma a água

"Música bonita gera cristais de gelo bonitos e música feia gera cristais de gelo feios". E que tal essa frase? "Palavras boas e positivas geram cristais de gelo bonitos e simétricos". O autor dessa teoria é o fotógrafo japonês Masaru Emoto (falecido em 2014). Parece difícil alguém com o ensino médio completo acreditar nisso, mas não só existe gente grande acreditando como tem gente usando essas conclusões em palestras sobre música sacra!

O experimento de Masaru Emoto consistiu em tocar várias músicas próximo a recipientes com água. Em seguida, a água foi congelada e, com um microscópio, Emoto analisou as moléculas de água. Os cristais de água que "ouviram" música clássica ficaram bonitos e simétricos, ao passo que os cristais de água que "ouviram" música pop eram feios.




Não bastasse, Emoto também testou a água falando com ela durante um mês. Ele dizia palavras amorosas e positivas para um recipiente e palavras de ódio e negativas para outro recipiente. Segundo ele, aconteceu o mesmo. Resultado? Cristais de água bonitos por causa das palavras positivas e cristais de água caóticos por causa das palavras negativas.



Claro que a comunidade científica não levou a sério essa experiência relatada por Emoto no livro Messages from Water (Mensagens da água), e sua teoria de que palavras e músicas "positivas" tornam o mundo melhor por causa da quantidade de água que há no mundo e no corpo humano foi facilmente refutada (leia aqui).

Esse experimento foi vendido como ciência e muita gente anda caindo nessa falácia. Christian Berdahl tem usado isso em palestras que já circulam em sites religiosos nacionais (aqui). No caso de Berdahl a situação é constrangedora, pois ele usa essa pseudociência  para supostamente provar o poder maligno da música gospel contemporânea. Ou seja, em vez de falar de letras gospel que contradizem doutrinas cristãs ou de estilos musicais inadequados para determinados contextos de adoração, ele prefere fazer seu público acreditar que as moléculas de água do nosso corpo reagem negativamente ao ouvirmos música contemporânea (pop ou sacra) e por isso estamos desequilibrados espiritualmente!

Agora que você já conhece um pouco da teoria de Masaru Emoto, eu lhe convido a vir e arrazoar comigo:

1) A linguagem se modifica de lugar para lugar. Então, como a água entendeu o japonês de Masaru Emoto? A água é poliglota?

2) Se o público de Masaru Emoto defendeu o autor dizendo que a água não reagiu ao idioma, e sim à intenção ao se falar palavras de teor positivo ou negativo, isso quer dizer que o H2O reage à inflexão vocal ou ao pensamento dos seres humanos?

3) H2O, em forma líquida ou congelada, não reage a emoções ou palavras humanas. As formações simétricas ou irregulares dos cristais de gelo são resultado da própria matemática "aleatória" que rege esse fenômeno. Impurezas e outras substâncias químicas presentes nos recipientes com água também contribuem para dar forma X ou Y para os cristais de gelo fotografados por Emoto.

4) Emoto admitiu que ele escolheu cristais que se encaixavam sua própria definição de "bonito" e que não usou processos científicos de seleção e análise. Chegou a dizer ainda que "às vezes a fantasia é o melhor meio de esclarecer a realidade" (The secret life of water, p. 126).

5) A cultura musical adquirida de Emoto o levou a decidir o que era música consonante/bela e dissonante/feia. Como se formariam os cristais cujas moléculas de água ouvissem a 5ª Sinfonia de Beethoven (pam-pam-pam-pam) ou as dissonâncias harmônicas da bossa nova: com padrões simétricos ou irregulares? E mais: a música japonesa tradicional (ou a música judaica, ou sul-africana ou andina), que possui seu código musical distinto, entraria em qual categoria estética, já que o fotógrafo japonês utilizou no experimento as músicas da cultura euro-americana?

Agora, vamos ao que disse Christian Berdahl:

O vídeo linkado acima tem mais de uma hora de duração, e o experimento de Masaru Emoto é convocado a partir do minuto 52. Berdahl conta à plateia que Masaru tocava música bonita (clássica) e proferia palavras positivas para a água: "O resultado foi aquilo", diz ele mostrando um slide com cristais de gelo organizados. E continua: "Você sabia que o som pode fazer aquilo?". Em seguida, mostra cristais com forma caótica e diz: "Tons dissonantes e música negativa formam padrões caóticos".

Ele informa que não estudou o assunto, e mesmo assim ele especula: "Quanto de água temos no nosso corpo? Se a música fez isso com um tolo recipiente com água, provavelmente pode fazê-lo com um tolo como eu". Melhor não comentar...

Berdahl mostra a playlist que gerou cristais bonitos: tem "Lago dos Cisnes", de Tchaikovski, "Sinfonia n. 40", de Mozart, e a "Pastoral" de Beethoven. Claro que os cristais feios só podiam ser obra do heavy metal e de uma versão de "Heartbreak Hotel" cantada por Elvis Presley.

Em nenhum momento Berdahl se perguntou como a água "ouviu" a música e como essa "escuta" foi preservada no processo de congelamento.

Sua conclusão é que se "ouvirmos coisas que nos enobrecem, elevam e edificam, somos transformados da mesma forma" - como a água! Como ele explicaria que a assim considerada nobre e edificante Nona Sinfonia de Beethoven, em cujo 4º movimento se canta uma ode à fraternidade entre os homens, que é a mesma música que recebeu a letra para o hino cristão "Jubilosos Te Adoramos", era usada durante os comícios nazistas?

Por que será que as moléculas de água presente nos corpos dos nazistas presentes nesse concerto (vídeo abaixo) não se enterneceram, não foram edificadas, não levaram os generais a tomar decisões nobres e fraternas?




A música, por si só, não tem poder para enobrecer ou perverter pessoas. A música (com letra) pode ajudar a reforçar algumas atitudes e comportamentos, mas não pode induzir ninguém a cometer um crime ou a praticar uma boa ação que já não esteja na vontade ou no sentimento de um indivíduo.  Primeiro o sujeito precisa ter a disposição mental de praticar algo, e só então a música pode reforçar sua atitude. E como no caso da Nona Sinfonia de Beethoven, essa atitude pode ser até mesmo completamente contrária ao propósito inicial do compositor.

13 dezembro, 2015

a força e a música de Star Wars: a primeira trilogia

Não é sempre que a cultura pop gera histórias com tanta ressonância moral dentro de seus produtos fabricados para o entretenimento rápido e indolor. A saga Star Wars é um desses produtos de alto valor de mercado, mas também com relevantes proposições éticas. O conflito entre o Bem e o Mal perpassa toda cinematografia americana, sendo a saga criada por George Lucas uma dessas obras que reúne o entretenimento familiar, o escapismo simples e um fundo moral absoluto. Por isso, vale explorar um pouco os temas do enredo e também os temas musicais da saga Star Wars. Nesta postagem, os episódios 4, 5 e 6.

Star Wars - Episódio IV: uma nova esperança 
O primeiro filme da saga ainda exala novidade, mesmo em confronto com a qualidade dos efeitos visuais do século 21. Mas o salto tecnológico dado com este filme, lançado em 1977, não é o que impulsiona a adesão de novos fãs. É a caracterização dos personagens, todos bastante carismáticos: o jovem e impulsivo Luke Skywalker, a valente princesa Léia, o sarcástico e arrogante Han Solo, o involuntariamente cômico C-3PO, o sábio e melancólico Obi-Wan Kenobi, o vilão Darth Vader carregado de traumas pessoais.

São estes ótimos personagens (e os atores que os incorporaram tão bem) que ajudam a desviar o foco dos diálogos canhestros.

Nenhuma teoria explica porque gostamos tanto destes personagens. Talvez a interação entre eles, talvez porque eles equilibrem uma inocência com alguma arrogância juvenil. Mas ainda fico com a ideia do crítico Roger Ebert: gostamos deles não pelas suas aventuras, mas porque no fundo somos nós olhando o mundo pelos olhos deles. São personagens demasiadamente humanos, com aspirações da criança que libertamos quando vemos filmes como esse.

A música: se a saga espacial de George Lucas foi buscar inspiração nas ingênuas aventuras espaciais de Flash Gordon dos anos 1930 e 40, a fantástica música de John Williams possui duas fontes: a ideia de leitmotiv oriunda de Richard Wagner, compositor alemão do século 19, e os temas musicais épicos de Erich von Korngold, músico que escreveu vários temas para filmes nos anos 1930/40.

O leitmotiv (ou motivo condutor) é um tema melódico ou uma progressão harmônica  que representa um personagem, um objeto ou uma ideia/conceito. Quando um personagem/objeto/ideia surge em cena ou é mencionado, toca-se o motivo musical relacionado. Isso será repetido nas aparições subsequentes e os temas podem ser modificados e entrelaçados conforme os conflitos de personagens e conceitos em cena.

Neste episódio da saga, John Williams estabelece o tema de abertura do filme, que será sempre tocado nas batalhas, e o tema da Força, cuja sonoridade é modificada várias vezes pelo compositor ao longo da saga. Por exemplo, note o modo reflexivo sugerido pelo tema da Força enquanto Luke olha pensativo e esperançoso no por do sol de Tatooine - nessa parte, o tema é tocado pela trompa e depois pelo naipe de cordas, sem concluir a cadência da harmonia. Veja em seguida o modo triunfal do tema na homenagem feita pela princesa Léia a Luke, Han e Chewbacca - agora tocado pelo naipe de metais, mais rápido e harmonicamente conclusivo.
Compare no vídeo abaixo. O primeiro modo a partir de 0:20 segundos e o outro modo a partir de 0:50 segundos.




Star Wars – episódio V: o império contra-ataca 
Enquanto o filme anterior lançara a pedra fundamental da saga, com todo o saldo de humor, ação e tecnologia, este episódio aprofunda o tema da escolha, com todo o débito moral que pode resultar de uma má decisão. Luke Skywalker amadurece ao confrontar seus medos e sua impulsividade. Surge ainda outro personagem extremamente carismático, o mestre Yoda, e a famosa revelação paterna que assombrou meio mundo.

A música: entram dois novos temas, o da Marcha Imperial, relacionado a Darth Vader, e o tema romântico de Han e Léia. O excepcional trabalho musical de John Williams não está tanto na composição dos temas (já explico), mas na costura que ele faz entre personagens, a ação na tela e os temas musicais. Por exemplo, na cena em que Han Solo é executado, ouvimos o tema principal da saga, mas não em tons triunfantes, em seguida a Marcha Imperial, pois Darth Vader comanda a execução, e por fim o tema romântico.

E qual o problema na composição dos temas? O problema é a semelhança de alguns desses temas com peças da música clássica. O início do tema romântico é semelhante a trechos do Concerto para Violino, de Tchaikovsky; o tema de abertura é muito semelhante ao tema de abertura do filme “Em cada coração um pecado” (1942), com música do já citado von Korngold.

Do mesmo modo, no episódio IV já havia temas de John Williams com sequências similares às de outras peças clássicas. A música tocada durante a caminhada dos robôs pelo deserto de Tatooine é idêntica à introdução de “Sacrifício”, uma seção da obra A Sagração da Primavera, de Stravinski.




Star Wars – Episódio VI: o retorno do jedi
É consenso dizer que este é o episódio mais fraco da primeira trilogia. Embora bastante divertido – é quase uma comédia –, não há o frescor do primeiro filme nem a profundidade do segundo. A trama se perde entre as batalhas na lua de Endor, as batalhas espaciais contra a Estrela do Morte (de novo) e a decisão mais difícil de Luke Skywalker. Dá pra dizer que são as cenas entre Luke e seu pai, com sua combinação de batalha existencial e física, que dão grandeza à saga. Ao final, Luke não é mais um garoto impulsivo, é quase um "homem de dores" com seu rosto que expressa o preço da missão de ser um jedi e o pesar pela perda familiar.

No mais, o ponto fraco da Estrela da Morte é um alvo fácil demais, os soldados do Império são incompetentes demais e os bonecos são ridículos demais (como disse meu filho, parecem saídos do Castelo Rá-tim-bum). E sim, a sabedoria zen-panteísta da Força é pueril e simplista. Mas ela serve ao propósito moral na luta do Bem (os Jedi) contra o Mal (o Império). Além disso, a ética Jedi está na boca dos personagens que gostamos e é ao lado deles que meninos e meninas de várias gerações têm fincado sua bandeira.


A música: os temas musicais são os mesmos e foram costurados com a técnica do leitmotiv. Mas talvez o filme padeça de um dos males de John Williams que seus fãs nunca admitirão: há excesso de música. 

A repetição dos temas começa a ficar óbvia e o tratamento orquestral já não é tão interessante quando nos dois primeiros filmes. Para piorar, a celebração da vitória tem como fundo musical um arremedo de samba, com um som artificial saído de tecla “demo” daqueles teclados Casio dos anos 80 (no vídeo abaixo, a partir do minuto 1:30). Não foi o melhor final dramático nem musical da trilogia, mas a essa altura já a música e a saga Star Wars já nos ganharam pela força.



03 dezembro, 2015

hino do impeachment


Eu devia estar orgulhoso e contente
com o processo de impeachment da presidente
"Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?"

Daí que veio pelo motivo errado
com cheiro de revanchismo
e quem passar pelo impítima
vai se fazer de vítima
pra tudo terminar em barganha
e a gente cheio de vergonha
"olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social"


é, raulzito, o impeachment é nosso "ouro de tolo"

28 novembro, 2015

convite musical + música e religião na era do pop

Anúncio do lançamento do meu livro "Música e Religião na Era do Pop" na Casa Aberta Juvevê. E mais a volta do trio em que canto com meus dois filhos. Ficamos parados por quase 3 anos, já que nosso primeiro tenor era um juvenil que se tornou um adolescente de voz grave.rs Deu tempo até de publicar um livro.


16 novembro, 2015

a música cristã além do dogmatismo

A revista Veja publicou matéria sobre Leonardo Gonçalves e os irmãos André e Tiago Arrais, juntamente com vários outros cantores cristãos brasileiros. Cantores de diferentes igrejas cantando juntos. Pode isso, irmão Arnaldo? Eles deveriam ser mais dogmáticos e se posicionarem o tempo todo sobre crenças fundamentais particulares? 

Não se exige da ADRA, agência cristã de ação humanitária, que ela faça panfletarismo doutrinário durante suas ações ao redor do mundo. Aliás, a ADRA é respeitada e elogiada não pela apologia de credos, mas por fazer um trabalho importantíssimo no auxílio a vítimas de catástrofes e tragédias. Esse trabalho prioritário é resultado da sua mentalidade cristã.

Fala-se muito na dificuldade do cristianismo contemporâneo de alcançar as chamadas “mentes secularizadas” ou “mentes pós-modernas”. No entanto, quando os músicos elaboram formatos contemporâneos para atrair essas “mentes”, quando o trabalho deles parece estar indo de vento em popa, surge alguém para chamar isso de ecumenismo gospel.

E olha que nem são atrações como o "Vale-Tudo gospel", evento que atrai tanto praticantes de lutas quanto controvérsias. Aliás, o nome do evento é sintomático de uma mentalidade pragmática que tem tomado conta das ações de proselitismo evangélico.

Do mesmo modo que alguns forçam a interpretação sobre o que é “pós-moderno”, especula-se equivocadamente sobre o caráter ecumênico de músicos de diferentes denominações cristãs que se unem com a finalidade de organizar encontros em que se fale de música, de cultura, de técnica artística e acabam suscitando o interesse pelo conhecimento do evangelho.

------ Se você é cristão e é um reconhecido profissional de sua área, você recusaria um convite de uma igreja para falar de sua especialidade com profissionais de outras igrejas cristãs? Ou diria que não iria se sentar com transgressores da lei? Ou diria que não iria discutir com perdidos, ou com falsos profetas ou com metidos a intelectuais? ------------

No caso específico dos adventistas, a dieta vegetariana, o estilo de vida, as obras médica e educacional tem sido quesitos tradicionais de atração dos olhos de todos para sua igreja. Mas surgem coisas inesperadas, como a ascensão do médico Ben Carson entre os presidenciáveis norte-americanos, fato que tem motivado a curiosidade da mídia sobre quem são e no que creem os adventistas.

Outro fator inesperado, pelo menos para as expectativas dos pioneiros do adventismo no século 19, é a ascensão da música popular no cotidiano da juventude. A facilidade do acesso à música, o tempo de escuta, a forte presença dessa música na mídia e o interesse pela vida pessoal dos cantores admirados são evidências do triunfo da música pop.

Os cantores não ficaram tanto tempo debatendo a natureza dessa música, mas não perderam tempo em empregar essa música para atrair pessoas ao evangelho – no jargão evangélico, para “salvar pessoas”.



A reportagem da Veja é sobre o indie gospel, termo que segundo a revista descreve um tipo de música cristã que foge aos clichês de letra e arranjo musical do universo gospel nacional. O texto aborda os encontros do Loop Sessions + Friends, evento que reúne o batista Mauro Henrique (vocalista do Oficina G3), o adventista Leonardo Gonçalves e o católico Guilherme de Sá, da banda Rosa de Sarom: “o trio cultiva uma sonoridade muito diversa da que existe na música gospel tradicional, que é mais afeita a cantos de louvor para levar a multidão fiel ao êxtase”.

A matéria avalia que as letras dos cantores retratados no texto chegam a ser mais sofisticadas do que o repertório do pop nacional: “em vez de falarem explicitamente de Deus e religião, os letristas usam alusões e metáforas, muitas vezes mais elaboradas do que o eterno discurso de autoajuda de grande parte do rock brasileiro secular, de Nando Reis a Pitty”.


Há pessoas que criticarão exatamente o fato de não falar explicitamente sobre Deus e religião em todas as canções desses músicos. Mas, então, como é que se quer alcançar as “mentes pós-modernas” com o discurso religioso tradicional? Algumas igrejas fazem treinamento para ações evangelizadoras e não se diz a elas para sair falando de Deus e religião no primeiro contato com os outros. Por que os músicos agiriam diferente?

A música não é só a coluna mestra do mercado gospel. Essa pode ser a visão econômica marxista sobre isso, e não está errada. Mas não é só isso. A música tem sido a ponte de comunicação entre os cristãos e também a base de lançamento de estratégias que atraiam as pessoas não para a música, mas para o Eterno centro da mensagem da música. O "indie gospel" também faz parte desse movimento. É um equívoco desprezar suas múltiplas faces (Marcela Taís, Rodolfo Abrantes, Palavrantiga e Oficina G3 são alguns deles).

Precisamos conhecer o trabalho que está sendo feito a fim de não incorrer em generalizações e especulações que desqualificam a missão que cada indivíduo envolvido acredita que possui. O evangelho ainda é o mesmo, mas as pessoas e os métodos não são as mesmas. Numa sociedade extremamente diversificada e multicultural, seria prudente não medir a importância do trabalho cristão do outro pela régua que me deram quando a igreja ainda estava nascendo.

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Matéria completa da Veja, aqui