20 fevereiro, 2017

a música depende da sua imaginação

5 conselhos do pianista Theolonius Monk:
IMPOSSÍVEL
“Tudo que você achar que não pode ser feito, alguém virá e fará”

TREINAMENTO 
“Permaneça em forma! Às vezes um músico espera por um show, e quando vem, ele está fora de forma e não consegue tocar”

NOTAS
“Uma nota pode ser tão curta quanto um alfinete ou tão grande quanto o mundo, isso depende da sua imaginação”

IMPROVISO
“Não toque tudo (ou o tempo todo). Deixe algumas coisas acontecerem. Improvise. O que você não toca pode ser mais importante do que o que você toca”

RITMO
“Só porque você não é um baterista, não significa que você não precise marcar o tempo”
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Nascido no Estado da Carolina do Norte e criado em Nova York, Thelonius Monk era um autodidata que aprimorou um estilo de poucas e longas notas, com intervalos mais duradouros e doses de improviso.
Aos 13 anos, ele tocava órgão na igreja que a mãe frequentava. O trabalho do músico conquistou espaço nas sessões de jazz e competições do clube Minton’s Playhouse, no Harlem, por volta de 1940. Foi lá que ele conheceu outros solistas importantes da cena nova-iorquina do jazz, como Duke Ellington.
O estilo marcante de Monk impressionava. No piano, os longos intervalos entre uma nota e outra, aliados ao ritmo complexo criado com menos notas que o costumeiro para a época, fizeram de Thelonious Monk um pianista diferente dos colegas solistas.
Nos anos 1940, Monk, Miles Davis e Charlie Parker já revolucionavam mostrando os primeiros sinais do bebop jazz, um estilo marcado pela complexidade, velocidade e improvisação, do qual Monk acabaria se distanciando mais tarde.
Monk morreu longe dos palcos, em 1982, aos 64 anos. Isolado e sem um diagnóstico claro sobre a possibilidade de ter transtorno bipolar ou esquizofrenia, ele passou os seus últimos dias na mansão da escritora inglesa Pannonica Rothschild, mais conhecida como “baronesa do jazz” ou “Nica”.
Em 1960, o saxofonista Steve Lacy, colega de jazz e amigo do pianista, transcreveu os conselhos e reflexões sobre música e vida deixados por Thelonious Monk. O material foi publicado em 2012 pelo site “Lists of Note”.
(copiei da matéria de Matheus Ribeiro para o Expresso: https://goo.gl/P2BJ5G)
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No vídeo, Monk e cia. em ação na clássica 'Round Midnight:

15 fevereiro, 2017

los perfeccionistas musicales #1


Certa ocasião, um grupo de perfeccionistas musicais se aproximou do mestre com uma pergunta:
- Qual a diferença entre o louvor raiz e o louvor nutella?

O mestre respondeu-lhes, então:
- O louvor raiz tem três estrofes e refrão, o louvor nutella tem uma estrofe repetida por mais tempo que um hino de 5 estrofes. O louvor raiz fala da criação, da cruz e da redenção em um mesmo hino. O louvor nutella fala de derramamento e milagre. O louvor raiz diz que Deus é amor. O louvor nutella repete estou apaixonado por Jesus. O louvor raiz fala de obediência. O louvor nutella fala de celebração. O louvor raiz diz que sou pecador e preciso da graça. O louvor nutella diz que sou vencedor e que Deus determinou minha vitória.
Eles se entreolharam satisfeitos com a resposta, pois assim como o pessoal do facebook, todos eles se achavam raiz. 

- Entretanto - prosseguiu o mestre – assim como muito louvor nutella cansa pela repetição, tem louvor raiz que não toca mais ninguém. Raiz sem nutella é intragável. Nutella sem raiz não é saudável. Deveis usar vossas habilidades musicais para combinar a tradição e a modernidade. Quão bom seria se temperásseis as sólidas raízes da doutrina com a musicalidade moderna sabiamente escolhida!

Ao ouvirem estas palavras, os perfeccionistas musicais saíram um a um, pois desejavam que a música sacra não tivesse mudança nem sombra de variação.

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Esta postagem é a primeira da minha série "Los perfeccionistas musicales", que vai tratar principalmente de música sacra, mas também vai abordar a música e o que fazemos com ela em geral. 

23 dezembro, 2016

a opinião pública e a opinião publicada sobre os evangélicos

Parece que tem uma revista que quer ficar de boas com potenciais consumidores.
O dossiê Brasil Evangélico fala de protestantes e pentecostais sem a habitual ironia vista em suas matérias sobre os evangélicos. Em texto de quatro páginas, a ADRA [Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais]  é bastante elogiada e as crenças adventistas são tratadas com respeito.
Todos os textos reconhecem o trabalho social dos evangélicos - são boas matérias sobre batistas, mórmons, assembleianos... 
Acho ótimo. Mas reportagens como essa mostram que a opinião pública (mídia, universidades) só ressalva as igrejas quando estas aparecem como ONGs. A função espiritual e as diferenças teológicas seriam somente propulsoras de intolerância e, lá vem, fundamentalismo.

É claro que o objetivo e o escopo da Superinteressante não é proselitismo religioso e nem detalhar minúcias teológicas do cristianismo evangélico no Brasil. O que tem chamado atenção da mídia é o expressivo crescimento numérico dos evangélicos e a visibilidade social que essa expansão acarreta. O Dossiê da revista cobre somente as igrejas que continuam crescendo. Luteranos, anglicanos, presbiterianos e metodistas, embora desenvolvam trabalhos educacionais e sociais, ficaram de fora dessa edição da Superinteressante.

A expansão evangélica atraiu os olhares daquilo que se chama opinião pública - embora diga-se que "não existe opinião pública e sim opinião publicada" (frase atribuída a Winston Churchill). Bem, no paraíso da opinião pública, neopentecostal não entra. Por isso, o dossiê castiga a música gospel (só visualizada na ótica do mercado), a teologia da prosperidade, o lobby político, o templo de Salomão, a esquisitice, a bizarrice, a malafaíce. 

É inegável que vários grupos de novos pentecostais promovem certos desvios teológicos, usam controversas estratégias de atração e abusam da boa fé de pessoas em situação de risco. Mas as reportagens também poderiam abordar a transformação socioeconômica, a rede de afetos que ampara milhares de famílias partidas, o envolvimento sadio dos jovens.
 Infelizmente, como o pior é sempre melhor para a cobertura midiática, é essa opinião publicada que vira opinião pública.

19 dezembro, 2016

Steven Spielberg, 70 anos: os 10 melhores filmes

Steven Spielberg acaba de completar 70 anos de idade. Soa estranho que o cineasta que melhor soube mexer com nossas fantasias e medos infantis já seja um ancião. É verdade que ele deixou um pouco suas criaturas fantásticas e seus caçadores de aventuras indestrutíveis e preferiu dar aula de História. Alguns preferem seus ETs, dinossauros e Indiana Jones; outros gostam mais de seus filmes sobre escravidão e II Guerra Mundial. Eu prefiro os bons filmes que ele faz, porque para mim importa sua incrível capacidade de contar histórias, sejam reais ou sobrenaturais.

Seus prós são muitos

- até seus filmes medianos têm enquadramentos incríveis 
- dirige atores infantis como ninguém: ele dirigiu uma Drew Barrymore garotinha em ET e um Christian Bale pré-Batman e pré-adolescente em Império do Sol
- chamou John Williams para compor as trilhas dos seus filmes
- os efeitos visuais de seus filmes servem à trama e não ao exibicionismo tecnológico
- tem pleno domínio na filmagem de cenas de ação ou suspense: os 20 minutos iniciais de Resgate do Soldado Ryan, os três primeiros Indiana Jones, as explosões em Munique

Mas é humano e tem problemas

- escorrega para o dramalhão na parte final de vários de seus filmes: quando a gente já entendeu que é pra chorar, ele prolonga demais a cena e manda aumentar a música.

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Nos seus filmes históricos, ele parte do painel amplo de uma tragédia coletiva para chegar ao drama individual de pessoas arrastadas pelo turbilhão da História: em Soldado Ryan, ele não fala de combate, e sim de caráter; em Amistad, é a dignidade do escravizado.


Nos filmes de fantasia, ele se nivela ao mundo infantil: em ET, sua câmera está quase sempre na altura das crianças protagonistas; em Contatos Imediatos, os adultos são docemente infantis. Spielberg também fica com a pureza da resposta e da fantasia das crianças.

Um top 10 possível dentro de uma filmografia tão boa:


10. Prenda-me se for capaz


Não se divirta se for capaz.

9. Minority Report


Continua atualíssimo.


8. O Resgate do Soldado Ryan


A bandeira americana tremulando quase atrapalha. Mas o que é importa é a nobreza de atitudes.


7. Munique


O olho por olho israel-palestina cega todo mundo.


6. Império do Sol


Filmaço dolorido e otimista.

5. A Lista de Schindler


Sem palavras. Toquem a trilha.


4. Contatos Imediatos do 3º Grau


Spielberg revela ser um adulto genialmente infantil.



3. E.T., o extraterrestre


Terno, divertido e extraordinário.


2. Os Caçadores da Arca Perdida


A obra-prima dos filmes escapistas.


1. Tubarão


Spielberg, 28 anos, na boca do seu tubarão que revolucionou o cinema. Depois dele, ritmo, música, suspense e até o marketing nunca mais foram os mesmos.


26 novembro, 2016

Hacksaw Ridge e o testemunho da fé na Europa

Hacksaw Ridge é o título em inglês do filme de Mel Gibson que conta a história do socorrista adventista Desmond Doss, soldado americano alistado na II Guerra Mundial que se recusou a pegar em armas por objeção de consciência. Servindo entre 1942 e 1946, sua coragem para resgatar feridos o levou a salvar muitos companheiros de batalhão. No Brasil, o filme se chamará Até o Último Homem, e vai estrear nos cinemas em 12 de janeiro de 2017.



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Karolina e Monika, de Cracóvia, Polônia, passaram muito tempo neste último mês em seu cinema local. Gêmeas adolescentes recém-batizadas (foto), elas vestem camisas que lembram o uniforme que Desmond Doss teria usado na II Guerra Mundial. Atrás da camisa está escrito "Desmond Doss salvou 75. Jesus salvou a todos. Eu sou adventista como Desmond Doss - me pergunte mais".
Elas não estão sozinhas. Mais de 100 jovens adventistas em cidades de toda a Polônia passaram o mês de novembro como voluntários nos cinemas, na rua, em uma feira de livros e em exibições especiais do documentário sobre Desmond Doss, "The Conscientious Objector", em suas igrejas locais.
O resultado? Pessoas já estão tendo estudos bíblicos com pastores depois de assistir ao filme de Mel Gibson e pelo menos 100 foram a uma Igreja Adventista pela primeira vez.


Tudo isso não aconteceu por acidente. Marek Micyk, diretor de jovens da Igreja Adventista na Polônia, juntou-se ao consultor de relações públicas Michal Rakowski e a um grupo de jovens para formular um plano que pudesse maximizar o testemunho da igreja durante o lançamento do filme nos cinemas.
A equipe de Micyk traduziu a página da Wikipedia sobre Doss para o polonês, que já foi visualizada 33.000 vezes nas últimas três semanas, sendo o terceiro maior resultado da página sobre Doss no mundo, logo depois do inglês e do francês. A equipe projetou um site de propriedade da igreja, DesmondDoss (em polonês) que foi acessado 35.000 vezes por 8.500 usuários. Micyk está mais orgulhoso da fanpage Desmond Doss PL no facebook, onde o infográfico mais popular foi visto por 209.000 usuários. Muitos jovens adventistas poloneses mudaram suas fotos de perfil do facebook para imagens do cartaz do filme e a frase "Eu sou um adventista como Desmond Doss".

Voluntário adventista na Feira Internacional de Livros da Cracóvia

"É fantástico", afirma o pastor Marek Rakowski, Secretário Executivo da Igreja Adventista na Polônia. "Um estranho paradoxo é que em um país que é um dos mais católicos da Europa, falar sobre espiritualidade e outras religiões é geralmente tabu. Este filme quebrou o tabu e deu a igreja uma voz".
Essa "voz" chegou a níveis mais altos do que o esperado tanto na Polônia quanto na Hungria. Em ambos os países, o distribuidor de filmes entrou em contato com a Igreja Adventista pedindo ajuda para verificar a precisão da tradução.
Não só os membros da igreja foram capazes de ajudar com uma tradução precisa e uma compreensão de conceitos teológicos, como o sábado bíblico do sétimo dia, mas a Igreja Adventista terá um spot de 15 segundos de mídia antes da exibição do filme em cada cinema e um espaço em cada cartaz do filme com seu endereço na web quando o filme estrear em 29 de dezembro. Os líderes da igreja igualmente irão a duas mostras especiais para a mídia em exibições VIP onde poderão falar sobre questões de liberdade e tolerância religiosas. Tudo isto sem custo algum para a igreja.
"Em toda a minha vida como adventista do sétimo dia nunca vi a nossa igreja ganhar tão boa cobertura na mídia", diz Marek Rakowski, o secretário da Igreja Adventista na Polônia.
Durante uma pré-estreia especial na Polônia, designada apenas para a imprensa, YouTubers e outros formadores de opinião, o porta-voz adventista, pastor Andrzej Siciński, juntou-se a outros dois especialistas (um comandante da unidade de contra-terrorismo aposentado e um padre católico), que refletiram sobre o filme durante um painel de discussão.
Os adventistas também montaram um estande durante a exibição do filme para a imprensa, distribuindo pendrives com materiais de mídia sobre Doss e os adventistas. Isso levou Siciński a ser convidado para falar em outros programas dos meios de comunicação.


Michal Rakowski está impressionado. "Se a Igreja tivesse pago uma campanha publicitária deste tipo, usando a mesma mídia, calculamos que custaria 180.700 euros! Esse é um preço que é totalmente inacessível para os adventistas na Polônia, onde há apenas 5.820 membros em uma população de 38,5 milhões".
Róbert Csizmadia, Secretário Executivo da Igreja Adventista na Hungria, disse que em meio a "tanta guerra, inimizade, terrorismo e pessoas verdadeiramente com sede de paz e amor, temos algo positivo a oferecer".

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Veja também: desmonddoss.com.br
 O premiado documentário de Terry Benedict "The Conscientious Objector" no youtube.

31 outubro, 2016

Lutero e a Reforma da música - parte 1


Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522.
Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos.
Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico.
As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor simbólico na mente religiosa popular. Assim, a menos que os textos entrassem em contradição com os dogmas luteranos, os cantos tradicionais e os motetos polifônicos católicos eram mantidos no rito luterano.
Lutero explicava que, assim como não se pretendia “abolir o ofício de pregar, mas objetivamos restaurá-lo novamente ao seu lugar justo e apropriado, também não é nossa intenção eliminar o serviço [litúrgico], mas restaurá-lo novamente para o seu uso correto" [“Concerning the Orders of Public Worship”, Luther’s Works 53, p.11]
Seguiu-se, então, uma variedade de práticas. Em algumas cidades, cantava-se partes da missa (como Introito, Kyrie, Agnus Dei, Gloria, Credo) em latim ou em alemão, usava-se canto polifônico ou melodias mais simples, canto melismático (várias notas em uma sílaba) ou canto silábico (uma nota para cada sílaba). Essa variação linguística e musical estava de acordo com o pensamento de Lutero sobre a diversidade de usos da música na igreja:
"Que cada igreja tenha a música segundo seu próprio livro e costume. Pois, eu mesmo não gosto de ouvir as notas, em um responsorial ou noutro cântico, modificadas daquilo a que fui acostumado na juventude. Nós estamos interessados em mudar o texto, não a música" [“Preface to Burial Hymns”, in Luther’s Works 53, p. 328].

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Esta é uma brevíssima amostra do pensamento de Lutero sobre música. Por enquanto, ficam algumas considerações extraídas das ideias ilustradas no texto:
- As ações de renovação não precisam descartar a tradição musical da congregação, os cânticos a que muita gente foi acostumada na juventude
- A unidade do discurso teológico não está em contradição com a diversidade da retórica musical

[a pintura acima: Martinho Lutero em família, de G. A. Spangenberg (1886)]

14 outubro, 2016

marchando para a guerra ao som de hinos

Quando fez sessenta anos de idade, o velho rei ainda se lembrava da manhã em que viu um grupo de cantores marchando à frente de pelotões de soldados que permaneciam surpreendentemente na retaguarda.
Ele lembrou do silêncio interrompido pela voz alta dos cantores e sorriu sozinho ao lembrar que, enquanto eles entoavam cânticos de louvor, os três exércitos inimigos do outro lado da montanha começaram a lutar uns contra os outros numa estranha e encarniçada batalha que os destruiu por completo.

O velho rei prendeu o sorriso por um instante, olhou para os lados para assegurar-se de que ninguém o visse rindo feito um idoso senil, e então cantou os primeiros versos da música que ouvira naquela guerra em que nenhum dos seus soldados precisou entrar em combate: “Rendei graças ao Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”.

O dia em que a música foi uma arma de combate foi relatado em 2 Crônicas 20, capítulo da Bíblia que registra uma ordem divina para que o rei Josafá posicionasse seu exército atrás dos levitas cantores na batalha do deserto de Tecoa contra os exércitos moabitas, amonitas e meunitas.

Em se tratando de utilização de artefato musical na guerra, o povo de Israel era reincidente. A primeira vez havia sido séculos atrás, quando os levitas marcharam por sete dias consecutivos ao redor das muralhas de Jericó. Naquela ocasião, os levitas foram na retaguarda e iam tocando buzina de carneiro. É claro que os muros daquela cidade não eram tão mal feitos a ponto de caírem ao som de shofar e vozes. Na verdade, nem contrabaixos, guitarras e microfones explodindo um hard rock no volume máximo teriam essa capacidade.

Essa não foi a primeira nem a última vez na história em que se cantou hinos antes de uma batalha, visto que os generais entendiam que a invocação musical eleva o moral dos combatentes. Antes de começar a perseguição campal aos fugitivos escoceses em 3 de setembro de 1650, Oliver Cromwell liderou o exército inglês no canto do Salmo 117: “Aleluia! Povos todos, louvai o Senhor, nações todas, dai-lhe glórias…”

Louvar a Deus após a vitória também foi um comportamento típico dos antigos batalhões europeus. Essa conduta religiosa e musical é retratada numa peça de William Shakespeare em que os britânicos entoam um cântico de gratidão a Deus: “Que ninguém se vanglorie ou tome o louvor que é de Deus somente”, diz o rei Henrique V. “Deus lutou por nós… que todos cantem Non Nobis e Te Deum”. Non nobis, não a nós, Senhor.

Na manhã do dia 5 de setembro de 1757, 33 mil soldados prussianos foram para o campo de batalha cantando hinos luteranos. Após o combate em que venceram um exército austríaco com o dobro do tamanho, eles entoaram o cântico Num danket alle Gott em agradecimento a Deus, conforme descrição de Thomas Carlyle:

“Escuridão total; silêncio, rompido por um granadeiro prussiano que, com voz solene de tenor, entoa uma música sacra: um hino conhecido, do tipo familiar do Te Deum, a que 25 mil outras vozes, e todas as bandas regimentais, logo aderiram:
Agradeçam todos vós a Deus
Com coração, mãos e vozes
Que coisas maravilhosas fez
Em quem o mundo exulta”
No livro Canhões de Agosto, a historiadora Barbara Tuchman relata que esse mesmo hino foi cantado entusiasticamente por uma multidão de alemães em 1o de agosto de 1914, quando a Alemanha entrou na guerra.

Em outras batalhas, o apoio divino era invocado pelos dois lados do conflito. Na Guerra Civil Americana, soldados do Norte (União) e do Sul (os confederados) cantavam as estrofes do hino “Lutai por Cristo” [Stand up, stand up for Jesus]:

Lutai, lutai por Cristo
Soldados sois da cruz
Alçai seu estandarte
Bem alto deixai brilhar sua luz
Hinos não ganham batalhas, mas a empolgação com que se cantava devia fazer os soldados acreditarem que Deus iria lutar com eles contra o exército inimigo. Talvez ocorresse a eles que o exército do outro lado também havia cantado com todo o entusiasmo ao mesmo Deus. No entanto, ao final do dia, só um dos batalhões estaria cantando hinos de gratidão.

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- A imagem no topo do texto é a gravura O Coral de Leuthen, de Arthur Kampf (1887). Frederico, o Grande, foi retratado cantando em pé com os soldados. Algo pouco provável, considerando-se o ateísmo do monarca.
- Assista trecho do filme Henrique V (1989), em que os ingleses cantam Non Nobis Domine após a batalha de Agincourt: