18 maio, 2020

o adventista Little Richard



Foi num sábado que faleceu aos 87 anos o mais famoso ex-aluno da universidade adventista Oakwood College: o cantor Little Richard. Ele mesmo, um dos pioneiros do rock, que cantou sucessos como "Tutti Frutti" e "Good Golly Miss Molly", o homem do inconfundível wop-bop-aloo-bop-alop-bam-boom.

Assim como vários outros cantores, Little Richard foi criado nos bancos de igrejas evangélicas da América. No auge do sucesso, em 1957, se sentindo em falta com sua fé e passando por problemas financeiros, anunciou que estava deixando tudo para se tornar pastor. Pesou nessa decisão um incidente em que uma forte turbulência afetou a aeronave onde ele viajava e Richard disse ter visto luzes brilhantes de anjos protegendo o voo, o que ele tomou como um sinal de Deus.

Ele, então, foi estudar em Oakwood e durante cinco anos só gravou música gospel. Durante esse período, ele participou de uma campanha evangelística ao lado do pregador adventista E. E. Cleveland. Na ocasião, a revista Review and Herald (setembro/1958) registrou que “duas ex-estrelas da música, Joyce Bryant e Richard ‘Little Richard’ Penniman testemunharam do poder redentor de Deus” e que “o ex-roqueiro fez um apelo aos antigos fãs ali presentes e mais de 300 pessoas atenderam. Ele fez uma tocante oração por eles”.


Little Richard voltaria aos palcos seculares em 1962, junto com sua banda The Upsetters (da qual fez parte um jovem Jimi Hendrix). Em turnê pela Europa, os Beatles, então pouco conhecidos, abriram seus shows. Após uma tragédia familiar e problemas com uso de drogas, Little Richard gravou um disco em 1979, God’s Beautiful City, em que constavam o hino “Tudo Entregarei” e testemunhos de sua conversão. Em 1981, ele lançaria a música “Where would I Go without the Lord” [Para onde eu iria sem o Senhor]. 



Ele só conciliaria sua veia roqueira com o ministério cristão em meados dos anos 80, quando deixou de criticar o mundo do pop e passou a combinar rock com a mensagem cristã, o que ele mesmo chamou de "messages in rythm". Ele continuou a pregar em diversas igrejas evangélicas e também falava da sua fé
durante seus shows: “O mundo está no fim. Aproximem-se de Deus”, ele dizia. A plateia se dividia entre risos e aplausos.

Após deixar os estudos em Oakwood, a relação de Little Richard com a Igreja Adventista foi mais discreta. Ele não foi ministro adventista ordenado, mas se considerava um adventista do sétimo dia, congregando-se aos sábados em igrejas de Los Angeles ou de alguma cidade onde tinha shows agendados, como atestam membros da Igreja Adventista Central do Rio de Janeiro que o viram entrar no templo com sua equipe numa manhã de sábado e permanecer ali durante parte do culto.

Nos últimos 30 anos de sua vida, Little Richard recebeu as maiores homenagens da crítica e da indústria da música que um artista do seu quilate mereceu receber. Nesse tempo, ele continuou cantando e lembrando nos seus shows: “Eu canto rock’n’roll, Deus me ama. Eu sou um cantor de rock, mas também sou um cristão”.

Eu vou rir? Vou aplaudir? Vou apenas refletir que dentro de um dos grandes cantores de todos os tempos também havia um espaço vazio onde ele resolveu colocar sua fé.

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Informações em The life and times of Little Richard (livro, 2003); Spectrum Magazine (11/9/2009) e IAMAonline.

06 março, 2020

los perfeccionistas musicales #5 - o homem que calculava síncopes

O HOMEM QUE CALCULAVA SÍNCOPES

Certa manhã, o mestre se retirava do templo quando um homem o interpelou:
- Mestre, hoje contei 89 síncopes no louvor 'Vinde às Águas' e 137 em 'O Melhor Lugar do Mundo'?

Ao ouvirem a palavra "síncope", alguns publicanos desmaiaram de terror. Outros tantos se aglomeraram em torno do mestre a fim de ver se o que ele responderia estava de acordo com a tabela de Regulamentações e Proporções da Boa e Verdadeira Música. A maioria, entretanto, seguiu seu caminho para casa, pois era gente simples que tinha mais o que fazer.

Os que ficaram, ouviram do mestre:
Síncopes, tétrades, terça menor, anacruse...São apenas elementos estruturantes da música. Ai de vós que contam síncopes no templo e engolem correntes de whatasapp em casa. Por que vos detêm em terraplanismos musicais? Credes vós que não há síncope em vossos cânticos tradicionais e que os Arautos do Rei só acentuam sílabas no tempo forte da música? 

Outro homem então perguntou:
- Mestre, sei que entendes sobremaneira de música, mas o problema da síncope não é quando ela aparece de vez em quando, principalmente no final de um verso, e sim quando ela está em praticamente todos os compassos, fugindo às proporções da Boa e Verdadeira Música. 

Ao que o mestre prontamente respondeu:
Ninguém canta marcando a síncope, pois a síncope é como a crase. Porventura vós falais "eu vou aa feira", marcando a crase para que todos vejam que vós sabeis o que é crase, ou a crase só aparece quando escreveis "eu vou à feira"? A síncope está na partitura assim como a crase está no livro. Mas ninguém canta com síncope do mesmo modo que ninguém fala com crase.   

Ao ouvir tais palavras, eles se foram para suas casas, reconsiderando as ideias. Mas alguns deles não mudaram de entendimento, pois haviam endurecido o coração de tanto ouvir palestras sensacionalistas.

24 janeiro, 2020

Nabucodonosor e a música da Babilônia

Quando visitei o museu arqueológico Paulo Bork (Unasp - EC), vi um tijolo datado de 600 a.C. cuja inscrição em escrita cuneiforme diz: “Eu sou Nabucodonosor, rei de Babilônia, provedor dos templos de Ezágila e Égila e primogênito de Nebupolasar, rei de Babilônia”. Lembrei, então, que nas minhas aulas de história da música costumo mostrar a foto de uma lira de Ur (Ur era uma cidade da região da Mesopotâmia, onde se localizava Babilônia e onde atualmente se localiza o Iraque). Certamente, a lira integrava o corpo de instrumentos da música dos templos durante o reinado de Nabucodonosor.

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Fig 1: a lira de Ur

No sítio arqueológico de Ur (a mesma Ur dos Caldeus citada em textos bíblicos) foram encontradas nove liras e duas harpas, entre as quais, a lira sumeriana, cuja caixa de ressonância é adornada com uma escultura em forma de cabeça bovina.

As liras são citadas em um dos cultos oferecidos ao rei Nabucodonosor, conforme relato no livro bíblico de Daniel, capítulo 3. Aliás, nesse mesmo capítulo, seis instrumentos musicais são nominalmente descritos nos versos 5, 7, 10 e 15, junto com a expressão “e toda sorte de música”.

A versão da Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA) traduz o nome dos instrumentos assim: “No momento em que ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles e de toda sorte de música, vos prostrareis e adorareis diante da imagem de ouro que o rei Nabucodonosor levantou” (Livro de Daniel, 3:5).

A versão ARA usa a mesma lista de instrumentos nos quatro versos mencionados. Mas ocorre um pequeno conflito a respeito, pois há controvérsia sobre a tradução do nome dos instrumentos citados, sendo que alguns deles não possuem registro de existência nessa época da história da Mesopotâmia. O livro de Daniel foi escrito parcialmente em aramaico [1], sendo que a tradução Septuaginta (LXX, tradução do Antigo Testamento para o grego “koiné”) parece ter usado nomes de instrumentos gregos porque, talvez, as fontes estivessem escritas em um aramaico helenizado (com influência grega). Para complicar, os instrumentos aparecem com termos ligeiramente diferentes.

Na versão King James: cornet, flute, harp, sackbut, psaltery, dulcimer
Na versão Católica: trombeta, flauta, cítara, lira, harpa, cornamusa
Na Nova Versão Internacional: trombeta, pífaro, cítara, harpa, saltério, flauta dupla 

A Lista de Instrumentos

TROMBETA: no aramaico, “qarna” [os nomes dos instrumentos estarão grafados sem os acentos]. Em grego, “keras”, em inglês “horn”, em hebraico, "qeren". Esta palavra é usada na Bíblia para designar um berrante (shofar ou qeren), significando o chifre de um animal ou o chifre que é soprado por uma pessoa. Alguns tradutores utilizaram "trombeta" ou "buzina". A LXX traduziu como “salpinx”, que significa trompete. A versão King James, do século 17, usa o termo “cornet”, que em português foi traduzido como trombeta ou corneta. O termo hebraico para trombeta [de metal] é chatsoserah. Portanto, a tradução mais precisa para "qarna" ou "qeren" é "berrante". Na Bíblia, ele aparece sendo usado com um instrumento de sinalização, e não como um instrumento para acompanhamento musical.

PÍFARO: no aramaico, “mashroqita”, e em hebraico, “sharaq”, que pode ser a origem etimológica do termo grego “syrinx”, nome alternativo para flauta de Pã. A Vulgata (tradução da Bíblia para o latim editada no fim do século IV e início do séc. V) usa o termo "fistula", traduzido na versão King James simplesmente como “flauta”. Mas em algumas passagens bíblicas da Vulgata é utilizado o termo "organon", que o teólogo Jerônimo (autor da edição Vulgata) compreendia como a flauta de Pã. No entanto, as flautas de Pã eram desconhecidas no mundo antigo em épocas anteriores à dominação grega. No hebraico, o termo para flauta é "ugab". A tradução Almeida Revista e Atualizada (AAA) usa o termo “pífaro”.

HARPA: na tradução LXX, “kithara”. No hebraico, “kinnor”. Na versão ARA, é cítara. Outras versões traduzem como harpa. Este instrumento musical é comumente traduzido nas versões bíblicas ora como harpa, lira ou cítara. Considerando que o termo hebraico para harpa é "nebel", que o aramaico de Daniel 3 usa "qaytros", e que o aramaico do Targum no livro de Isaías 5:12 usa o termo "qatros", alguns estudiosos entendem que este termo é uma aproximação com a palavra khitara, sendo que a tradução mais precisa, segundo o livro Musical Instruments of the Bible, é lira.


Fig. 2: Detalhe do painel "Estandarte de Ur" com homem tocando uma lira, encontrado no sítio arqueológico de Ur. Ver semelhança com a lira sumeriana na figura mais acima.

GAITA DE FOLES: no aramaico, “sabb’cha”, traduzido na Septuaginta como “sambyke”. A versão King James dá o termo “sackbut” (sacabuxa, similar ao trombone de vara moderno) e a ARA usa o termo gaita de foles. A Nova Versão Internacional (NVI) traduz como "flauta dupla", mas no hebraico, este tipo de flauta chama-se "chalil".

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Fig. 3: assírio tocando flauta dupla

Em outras trechos da Bíblia, chalil é vertido como "gaita". Para complicar, a versão Católica usa o termo "cornamusa", um instrumento de palheta dupla que data do período renascentista. No entanto, a versão Vulgata  usou o termo “sambuca”. Para Jeremy Montagu, que foi professor em Oxford e autoridade em arqueologia musical, a tradução mais correta seria “bow harp”, tipo antigo de harpa em formato de arco (se alguém souber o nome deste instrumento em português, agradeço). 

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Fig. 4: "harpa curva" africana.

Na versão King James, o termo usado é “dulcimer”, instrumento de cordas percutidas com origem nos tempos do rei inglês Henrique VIII. O dulcimer é também um tipo de saltério percutido com um plectro, ou palheta. Poderia ser a harpa horizontal dos povos mesopotâmicos?

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Fig. 5: músicos da corte tocando harpas horizontais. Painel do século 7, encontrado no sítio arqueológico de Nínive. Compare com o santur abaixo.


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Fig. 6: santur iraniano.

No verso 7 de Daniel capítulo 3, são mencionados cinco, e não seis instrumentos. Desse modo, os instrumentos dulcimer (King James), flauta dupla (NVI) e gaita de foles (ARA) não aparecem.

O último instrumento surge no aramaico (no verso 7) como “sumponyah”, o que seria uma aproximação do grego “symphonia”, também usado na versão Vulgata e que certamente não significa dulcimer ou gaita de foles. O termo tem mais semelhança com o conceito moderno de tocar ou soar instrumentos ou vozes em conjunto (sinfonia). O que complica é que esse termo se assemelha à expressão final “e toda sorte de música” usada nos outros três versos (5, 10 e 15), no aramaico “v’chol z’ney z’mara”, que significaria “todo tipo de música”. O termo z’mara, de acordo com o que pude verificar (e não sou autoridade em arqueologia musical) pode ou não significar música instrumental com a possível adição de instrumentos de sopro.

A expressão “toda sorte de instrumentos de música” ou “toda sorte de música” parece incluir outros instrumentos usados na Mesopotâmia àquela época, como harpas horizontais (com caixa de ressonância e tocadas com uma palheta, e não diretamente com os dedos nas cordas), harpas verticais (cordas tocadas com os dedos), trombetas de metal, flautas duplas, tambores variados, címbalos e sinos. Enfim, o capítulo de Daniel 3 descreve uma orquestra babilônica.

Como era a música da Babilônia?

Nos sítios arqueológicos foram encontrados diversos tabletes mesopotâmicos em escrita cuneiforme cuja tradução revelou maneiras de tocar esses instrumentos e até mesmo a afinação e antigas escalas musicais. Assim, sabe-se agora que na antiga Babilônia havia padrões de afinação diatônica e dentro de sete escalas musicais diferentes e interrelacionadas. Uma dessas escalas, aliás, é semelhante a escala ocidental que soaria como o ocidental “dó-ré-mi-fá-sol-lá-si”, sem sustenidos (ver na figura abaixo a 3ª escala de baixo para cima). Os textos mesopotâmicos mencionam técnicas de dedilhado, nomes para os intervalos de quarta e de quinta e o nome das escalas.

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Fig. 7: as sete escalas usadas desde 1800 a.C. (os nomes das notas e os sustenidos são ocidentais a fim de facilitar a compreensão do leitor)

Surpreende que povos daquela região, como os sumérios e os babilônicos, tenham usado escalas e intervalos que se assemelham aos praticados no Ocidente, com maior proximidade, claro, com a teoria musical da Grécia Antiga. Não se sabe como soaria a música deles de fato, mas conforme diz a estudiosa Anne D. Kilmer, “não precisamos de muito esforço de imaginação para sugerir que os gregos, como disse Pitágoras, aprenderam a teoria musical juntamente com a matemática da Mesopotâmia”.


Vídeo: improvisação na réplica de uma lira sumeriana



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Notas:
[1] Segundo a Bíblia de Estudo da Andrews University, o aramaico do Livro de Daniel 2:4 a 7:28 pertence à fase imperial do idioma, quando era o meio de comunicação oficial do império medo-persa.


Fontes:
KILMER, Anne D. The musical instruments from Ur and Ancient Mesopotamic Music. Expedition, vol. 40, issue 2, 1998.
MONTAGU, Jeremy. Musical Instruments of the Bible. Londres: Scarecrow Press, 2002.

26 dezembro, 2019

O Silêncio, de Martin Scorsese

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O jovem padre Sebastião Rodrigues (vivido pelo ator Andrew Garfield, de Até o Último Homem) viaja para o Japão do século 17 a fim de descobrir o paradeiro do padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson). Correm boatos de que o padre Ferreira apostatou após várias horas de terrível tortura. Ao ver com seus próprios olhos a feroz perseguição aos cristãos japoneses e missionários europeus, Rodrigues começa uma viagem para dentro de sua própria fé, vivida agora em meio à dúvida e à tortura: por que Deus está em silêncio?

Essa viagem existencial e espiritual é contada sem pressa e com muita consistência pelo cineasta Martin Scorsese, dando tempo para o espectador acompanhar como o padre Rodrigues é obrigado a esconder sua fé, para não trazer morte cruel aos fiéis, e a calar sua dúvida, para não se abater pelo desespero.

Rodrigues é delatado às autoridades e descobre seu próprio Judas, o japonês Kichijiro, homem que viu sua família inteira executada na fogueira, e que vive atormentado pela traição e pelo medo da morte.

Esta é a história de Silêncio, que se passa no Japão do início do século 17, quando havia cerca de 300 mil cristãos no país e, em menos de 50 anos, esse número foi reduzido drasticamente. Motivos comerciais, políticos e religiosos levaram à expulsão de missionários católicos europeus e, entre 1614 e 1640, mais de 5 mil cristãos foram mortos. Numa das primeiras execuções públicas, 26 cristãos japoneses e europeus foram crucificados no inverno de fevereiro de 1587, próximo à cidade de Nagasaki, onde hoje se vê um monumento em sua lembrança ("Museu e Monumento dos 26 Mártires" - foto abaixo - conheça o museu aqui).


Colégios e hospitais foram fechados e o clero nativo foi perseguido. Mesmo assim, persistiu uma atividade missionária clandestina só interrompida por uma caça sistemática e cruel aos fiéis. Os principais métodos de execução eram a fogueira e o suplício da água (os cristãos eram amarrados a troncos fincados na areia do mar e alguns resistiam até 3 dias à força da maré).

Mas os supliciados não renunciavam à fé e até entoavam cânticos e salmos em meio ao que chamavam de “martírio glorioso”. Os espectadores desses cruéis espetáculos também cantavam o Magnificat e o Te Deum.

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Por um algum tempo, o martírio reforçou a fé dos japoneses, até que o xogunato Tokugawa criou meios de longa tortura que levaram milhares de cristãos à apostasia. Muitos cristãos, quando viam sua família inteira ameaçada de morte pelo fogo ou pelo afogamento, atendiam à ordem de pisar na “fumie-e” (uma imagem de Cristo ou de Maria inscrita numa placa de metal). Isso equivalia ao sinal de renúncia da fé.

No filme, uma das cartas do padre Rodrigues revela confiança: “Um dia compreenderemos claramente por que a perseguição, com todos os seus sofrimentos, foi a nós concedida – pois tudo o que Nosso Senhor faz é para o nosso bem”. Outras vezes, mostra o questionamento do padre: Por que tem que ser assim, “por que tamanho sofrimento é infligido aos camponeses japoneses?” O padre, aliás, admira a resistência da fé dos japoneses cristãos, mas se preocupa ao ver “que eles às vezes parecem ter maior adoração pela Virgem do que por Cristo”.

O filme Silêncio é uma adaptação do maravilhoso livro homônimo do escritor japonês Shusaku Endo. Ao filmá-lo, o cineasta Scorsese demonstra que captou muito bem as questões da fé e a fé no meio das questões. Aliás, a edição que possuo deste livro traz um prefácio escrito pelo próprio Martin Scorsese, que escreve: “O Silêncio é a história de um homem que aprende – tão dolorosamente – que o amor divino é mais misterioso do que imagina; que Ele deixa muito mais aos caminhos humanos do que percebemos; e que Ele está sempre presente...mesmo em Seu silêncio”.

O filme não tem trilha sonora além do canto dos mártires. Não há fundo musical para reforçar o drama, e também não há pressa para narrar a história de um cristianismo sem caminho de flores que só encontra paralelo na atual experiência dos cristãos no Oriente Médio. Não vou dar spoilers aqui. Só digo que o filme vai encaminhando uma declaração de fé que raras vezes se vê no cinema.

13 agosto, 2018

a malandragem de por a culpa na raça


Essa foto antiga de um elegante ancião negro é provavelmente a última fotografia em vida do maior dos escritores brasileiros: Machado de Assis. Na época, ele era o presidente da recém-fundada Academia Brasileira de Letras e havia publicado algumas obras-primas. Mas... para algumas pessoas, a grandeza literária e a dedicação ao trabalho não caracterizam a etnia de Machado. Para elas, deve ter havido malandragem no caminho...
Se a fala recente do general Hamilton Mourão distinguindo a malandragem como um componente típico dos africanos, e por tabela, dos afro-brasileiros, lhe parece reacionária e coisa de um passado vergonhoso, lembre que esse pensamento ainda representa muita gente.
Essas atitudes que reduzem etnias a uma categoria cultural negativa estão fortemente enraizadas no nosso tal “Brasil cordial”. Veja o que escreveram o crítico literário José Veríssimo e o embaixador Joaquim Nabuco sobre Machado de Assis quando o escritor faleceu em 29 de dezembro de 1908.
Veríssimo, no Jornal do Commercio: “Mulato, foi de fato um grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida”.
Nabuco, em carta-resposta: “Eu não teria chamado o Machado de mulato (...). O Machado para mim era um branco, e (...) quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só vi nele o grego”.
Foi preciso buscar no distante ideal grego um modelo para encaixar o grande romancista, contista, cronista e jornalista que foi Machado de Assis, e assim, negando-lhe a cor associada à “malandragem”, caracterizá-lo como “negro de alma grega” ou somente como “branco”.

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A foto anexada foi recém-descoberta pelo pesquisador Felipe P. Rissato, que a encontrou na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional da Espanha em uma matéria intitulada “Homens públicos do Brasil” publicada pela revista argentina Caras y Caretas, n. 486, de 25 de janeiro de 1908. A revista não informa a data da foto e nem o contexto. A legenda original diz: “El escritor Machado de Assis presidente de la Academia de la Lengua Brasileña”.

13 junho, 2018

a generosidade não está nos manuais


Corre na internet o vídeo em que um segurança impede que um cliente pague um almoço para uma criança que vendia chiclete no shopping. Nele, vemos duas formas de violência em estado bruto.
1) Uma criança pedindo (e não comprando, como é regra dos nossos shoppings) comida. E numa situação de viver da caridade de quem lhe detesta, uma criança com fome é a primeira violentada.
2) Um segurança que obedece cegamente ao manual de conduta dos nossos shoppings. E sob a condição de perder o emprego caso não cumpra zelosamente o manual, ele se obriga a perder a compaixão, a compostura, a humanidade.
*
Quanta violência já não foi cometida por pessoas que não hesitam em dizer "estou apenas cumprindo o meu dever"?
*
Mas nesse mesmo vídeo, "tanta violência, mas tanta ternura", como nos versos de Mário Faustino. O cliente resiste e vai "cometer" ali um "crime de generosidade". Oferecer um prato de comida a quem pede é uma violação do manual do shopping. Vai ver os proprietários temem que a generosidade se espalhe e uma horda de famélicos invada seu latifúndio.
Antes invadissem mesmo. E nos esfregassem no rosto nossa insensibilidade, nossa má vontade, nossas vis prioridades, já que os filmes, os bestsellers, as canções populares e os púlpitos, meu Deus, até os púlpitos não nos transtornam nem transformam, mas apenas nos contam histórias antes de irmos passear nos nossos shoppings enquanto o sono não vem.

Mas, divago.

Minha admiração por todos aqueles que vão além do manual, além do seu dever, e doam, pagam, partilham, adotam. São esses que diminuem o clamor de crianças violentadas.

05 junho, 2018

los perfeccionistas musicales: quando os jovens cantam


Certo dia, um grupo de perfeccionistas musicais veio até o mestre trazendo alguns desbravadores e jovens que estiveram num encontro cristão na Amazônia. Um dos principais do grupo disse:
- Mestre, estes jovens foram vistos cantando e pulando ao som de tambores. Cumpra-se, então, o manual.
Respondeu-lhes o mestre:
- Não são estes jovens os mesmos que estão estudando e trabalhando pela sua fé enquanto vós dormis a tarde inteira do sábado e acordais mais tarde na manhã de domingo?
O mestre seguiu lhes dizendo:
- Arregalai vossos olhos quando os mais jovens se excedem por poucos instantes ao som de uma música mais empolgante e fechai vossos olhos para o fato de que as festas religiosas que vossos pais também realizavam fora do templo eram muito mais animadas com adufes, pandeiros e danças. E digo-vos, ainda: Há entre vós mestres e doutores que criam músicas e revistas distintas para cada idade, mas que também criam somente discórdia e falso pânico quando crianças e jovens agem distintamente conforme a idade que possuem.  
Um a um, os perfeccionistas musicais começaram a se retirar contrariados, pois amavam mais a letra da tradição do que a um de seus jovens irmãos.

o adventista Little Richard

Foi num sábado que faleceu aos 87 anos o mais famoso ex-aluno da universidade adventista Oakwood College: o cantor Little Richard. Ele ...