25 agosto, 2014

os desafios são barreiras ou estradas?

Ontem eu deveria ter assistido o clássico "Lawrence da Arábia", mas não foi possível. Tive que me conformar com o filme "Expedição Kon-Tiki". Para minha surpresa, comecei assistindo contrariado e terminei empolgado.
Quando garoto e ratinho da biblioteca do internato, li pela 1ª vez a história de Thor Heyerdahl, o norueguês que, junto com outros 5 experientes em maluquices, exceto um tripulante que era só um vendedor de geladeira, cruzou o Pacífico da costa do Peru à Polinésia numa jangada.
Foram 101 dias e 8 mil km de mar. Thor tem nome de super-herói, mas seu único poder é uma perseverança cega. Aliás, perseverança tem de enxergar além, e não deve enxergar muito bem ao redor, senão ela desiste.

Thor desafiou o mar e a National Geographic ao refazer, no século XX, o mesmo caminho feito há 1.500 anos por homens destemidos como eles. O que ele queria provar? Que, para as civilizações antigas, "os mares não eram barreiras, mas estradas".
Numa noite, a equipe conversa, estirada na jangada e olhando pro céu: "Há 1.500 anos, homens como nós navegaram sob o olhar dessas mesmas estrelas". "Parece que estamos sozinhos no universo". "Por isso ninguém responde ao sinal de rádio?". "Eles devem ter se destruído uns aos outros com as bombas de Hiroshima".
Alguém disse que andar pelo caminho de alguém vai te levar somente ao lugar onde esse alguém já foi. Para Heyerdahl, era preciso refazer o caminho porque a ciência estava esquecendo que ela é feita de explorações ao desconhecido e de limites humanos desafiados.
No trajeto, Thor será triunfante, mas ficará sabendo que sua esposa pode amar um explorador, mas não pode viver com ele. É, Thor, não se pode ter tudo na vida. E entre o amor à aventura heroica e a estabilidade familiar, a esposa sabe que Thor escolherá o primeiro e o fará antes que um aventureiro lance mão.
Eu ainda trocaria todos esses pensamentos estimulantes pela sessão de "Lawrence da Arábia", épico majestoso e incomparável. É, Joêzer, não se pode ter tudo na vida.

Foto em preto e branco da jangada real da expedição Kon Tiki, de 1947.

15 agosto, 2014

a tragédia na era da zoeira


A "era da zoeira" não poupa ninguém. Nem os mortos de velhice, como Niemeyer, nem os que se vão cedo demais, como Eduardo Campos.

Antigamente, as pessoas contavam piadas nos velórios. Isso servia para passar a noite e para aliviar a gravidade do mal irremediável.

Mas nas redes da zoeira social não se ri da morte, nossa desgraça inevitável, nem dos mortos, nossos companheiros nessa condenação misteriosa, mas se zomba da memória dos vitimados, da única réstia de sua vida que deixam aos ainda vivos.

A era da zoeira perde a oportunidade de enlutar-se com os enlutados e relembrar que a vida é sopro e a morte é mistério.

A era da zoação ininterrupta deixa de ver que "é melhor ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao coração", como registra o livro de Eclesiastes.

Pena que, assim como nos filmes da atualidade, haja tão pouco espaço para a reflexão na tragédia e tanto gosto por zoeira e comédia.

12 agosto, 2014

robin williams e a sociedade dos professores mortos

Todos os dias, milhares de professores entram nas salas de aula, fazem a chamada, abrem o livro didático na página 171, viram as costas para os estudantes e prescrevem na lousa seu pacto com a mediocridade.

São professores mortos de uma aula morta. Não aproveitam a oportunidade para fermentar ideias de grandeza na mente de seus alunos. Ao apequenar sua aula, o professor-zumbi subestima seu papel social.

Eu ainda ouço vozes: “Carpe diem, aproveite o dia, faça de sua vida algo extraordinário”. É a voz do ator Robin Williams, artista de vastos recursos cômicos e dramáticos, e que, infelizmente, acabou de entrar para a sociedade dos grandes atores mortos.

O professor John Keating (interpretado por Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos) não dá aulas no sentido formal e solene do termo. O que ele faz é tentar inocular nos estudantes o germe da curiosidade e do protagonismo da própria vida. 

Para isso, ele rasga o formalismo das tradições e, em vez de fazer os alunos decorarem estilos e conceitos literários, ele desvela a beleza da poesia. Há um brilho nos olhos do professor Keating quando ele fala de poesia, “porque poesia não é para compreender e sim para incorporar”, como escreveu o poeta Manoel de Barros.

Nascido de pai e mãe apaixonados pela docência e pela leitura, eu não poderia ser outra coisa a não ser um professor que há décadas vive um tórrido caso de amor com aulas e livros. E quando estive desanimado com a profissão que escolhi (ou foi ela que me escolheu?), aparece um professor como John Keating vivido por um Robin Williams cheio de fervor nos olhos. Viu só? Às vezes, a culpa é das estrelas... de Hollywood.

Outro professor inspirador é o educador musical Murray Schafer (este, de carne e osso e muitas ideias). Ele disse que, ao contrário do que se costuma dizer, para aprender não é preciso talento e sensibilidade, mas coragem e curiosidade

Em outras palavras, eu digo que é preciso coragem pra experimentar e fazer da vida algo extraordinário; curiosidade para sair da gaiola e voar além das certezas dos livros e dos professores mortos. 

No filme, seja por medo de sair da gaiola ou por preguiça, nem todos os alunos sobem nas carteiras como o professor Keating. E você? É curioso para descobrir o que não está nos manuais? Você quer ser o protagonista de sua profissão?

Ou, como perguntaria o personagem-título David Copperfield no livro de Charles Dickens, "você será o herói da sua própria vida ou esse papel será desempenhado por outro?" 

Aprenda a lição dos poetas mortos e entre para a sociedade dos professores e artistas vivos e que deixam viver. Ouça as vozes, carpe diem, aproveite o dia, vá ser grande.


P.S.: lembre que, no the end, o prof. Keating foi demitido. Mas uma demissão não é o fim.

07 agosto, 2014

robôs: músicos do futuro?

“Fazer música usando robôs instrumentistas me fascina. As pessoas frequentemente presumem que músicas emocionalmente poderosas têm que vir diretamente demãos humanas. Eu discordo disso e me divirto provando que essas pessoas estão erradas. Esse projeto é uma excelente maneira de explorar mais essa área” – Squarepusher

Imagine um guitarrista com 78 dedos e um baterista com 22 membros. Essa é a banda do compositor Squarepusher tocando no Japão. São os músicos do futuro? Sim, mas duvido que os instrumentistas humanos serão substituídos. Até porque já inventaram sintetizadores, teclados e o Garage Band, mas muita gente ainda prefere ouvir música tocada por gente.

Quando bandas de robôs se multiplicarem e proliferarem como duplas de pop-sertanejo, provavelmente elas serão bastante utilizadas em casamentos, recepções de formaturas e demais eventos em que a parte contratante quer pagar o mínimo possível para os músicos contratados.


30 julho, 2014

os Arautos do Rei e o segredo da relevância


Os Arautos do Rei são um quarteto vocal masculino que está em atividade há mais de 50 anos. Como um grupo consegue por meio século sem perder a força e a relevância?

Me atrevo a dizer que há, pelo menos, duas explicações plausíveis para a bem-sucedida longevidade do quarteto: a manutenção da ética da missão cristã e a capacidade de atualização da estética da música cristã.

No caso dos Arautos do Rei, essas características tem sido interdependentes. Isto é, as inovações musicais têm auxiliado o quarteto a se reposicionar culturalmente em meio à passagem das gerações. Com isso, ele mantém a relevância de sua mensagem teológica e o sentido de sua missão evangelizadora.

Alguns creem que o texto sagrado e imutável deve ser cantado com melodias compostas em algum passado distante. Para estes, é como se o tempo, e não a atitude de adoração e a prática do louvor, consagrasse a música.

Ora, a passagem do tempo nos dá uma falsa perspectiva a respeito de coisas e eventos. Dessa noção enganosa deriva a ideia de que somente as músicas compostas no passado, ou semelhantes ao estilo do passado, são sacras. Quem pensa assim esquece ou ignora que as tais músicas do passado um dia foram “contemporâneas” e, antes de enfrentar o teste do tempo, encararam o teste do zelo e da tradição.


Um exemplo: a canção “Hei de Estar na Alvorada”, que hoje soa tradicionalíssima, foi apresentada com certo receio pelo quarteto ao seu orador, Roberto Rabello. A música parecia “moderna” demais para o espírito cultural protestante conservador de 40 anos atrás.

Outro exemplo: as inovações propostas pelo maestro Jader Santos no final dos anos 1990 tinham o objetivo de manter o quarteto relevante junto à geração jovem que se expandira no meio cristão brasileiro. Hoje ninguém tem dúvidas de que a renovação etária dos componentes do quarteto realizada a partir do CD “Se Ele Não For o Primeiro” propiciou a renovação do seu público.


Alguns dirão que isso pode ter sido uma jogada de marketing a fim de encontrar outro nicho de mercado. Bem, da lógica do capital nenhum cristão está mais ileso. Entretanto, por outro lado, aquela renovação musical e etária atraiu a juventude para a audição da tradicional densidade teológica dos Arautos. A renovação do timbre vocal e instrumental diminuiu o fosso geracional de apreciadores do quarteto.

(Ressalto que a renovação também se deu em termos étnicos, visto que, além de cantores mais jovens, agora havia integrantes negros, os quais, além de musicalmente bastante habilidosos, deram ao quarteto uma configuração mais próxima ao quadro étnico das igrejas no Brasil).

Se o quarteto chegou aos 50 anos com um corpinho de 25, se os Arautos do Rei conseguem reunir em seus concertos públicos mais de duas gerações, é porque eles têm sido bem sucedidos na conservação da relevância teológica e musical em meio às rápidas mudanças culturais e artísticas.

Desse modo, a trajetória dos Arautos do Rei superou a perda de relevância e contraria o inevitável engessamento musical que decorreria do apego ao tradicionalismo cultural.

Recentemente, o quarteto lançou o videoclipe “Tenho Paz”. Nele, os integrantes andam num jipe por uma estrada e falam de paz com Deus e com os semelhantes. O acompanhamento é feito com um ukelele e a canção lembra as canções tranquilas do cantor pop Jack Johnson. Parece que isso tem sido suficiente para a instalação da controvérsia. 

Os críticos, quase sempre cultores do “estilo” dos antigos Arautos, já estão dizendo que o quarteto está se mundanizando, que a canção é um reggae (!), que os Arautos não são mais de Jesus...

Mais uma vez os críticos esquecem ou ignoram a história do quarteto, de suas inovações, todas elas empreendidas com moderação. Omitem, ainda, o fato de que essa é apenas uma dentro do repertório de músicas de andamento lento e reflexivo. Além disso, a beligerância dos opositores das inovações musicais solapa exatamente a característica de êxito cultural e espiritual dos Arautos: a capacidade de autoajuste que o mantém relevante musical e teologicamente para novas gerações.

Voltando à pergunta “como os Arautos conseguem se manter relevantes há mais de 50 anos?”, talvez a resposta esteja num ponto transcendental. Por que, como explicar que, numa mesma família, pais, filhos e netos gostem dos Arautos, ainda que apreciem músicas compostas em épocas distintas?

Arrisco a dizer que essa característica de inovação estética conjugada à manutenção da ética missiológica (ou missionária) pode conservar não apenas a credibilidade do quarteto, mas também o sentido e a preciosidade de sua mensagem por muito tempo ainda.

Isso não é uma profecia minha. Digo isso fundamentado na trajetória conhecida, e às vezes oportunamente ignorada, de um grupo musical que tem cativado tantas pessoas por tanto tempo.




24 julho, 2014

Ariano Suassuna é que sabia das coisas


Ler Ariano Suassuna é se ver representado facilmente: "O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso". Não sei você, mas eu vivo num rodízio dos três.

Eu, que não consigo ficar em fila sem um livro na mão, gosto dessa: "Quem gosta de ler não morre só".

Essa frase aqui é minha selfie: "Dizem que todas as pessoas têm um lado bonito. Então acho que sou um círculo".

P.S: nacionalista até à medula, Suassuna repreenderia o uso de "selfie".

Quem já ouviu Stevie Wonder, Dave Brubeck e George Gershwin, não vai discordar dessa: "Madonna e Michael Jackson são muito limitados. É ofensivo dizer que representam a cultura americana".

E como resistir a essa frase?: "Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver".



adeus, Ariano. 

13 julho, 2014

o messianismo na pátria de chuteiras


O Brasil republicano nunca escondeu uma queda pela monarquia. Na música, o povo precisa coroar o rei da voz, o rei das multidões, a rainha do rádio, ou simplesmente, o Rei. No futebol, se há o Rei Pelé, temos o manto sagrado, a camisa “amarelinha”.

Boa parte do povo brasileiro vê sua seleção de futebol como uma família real com direitos permanentes e mundiais sobre o trono. Nossa seleção seria a única e genuína proprietária do cetro. Assim, quando vencemos um torneio, o mundo se ajoelha bendizendo as glórias imorredouras do país do futebol. Se perdemos, fomos vítimas de maquinações ocultas de usurpadores, ou então, apenas autorizamos a vitória temporária dos adversários.

Como não conseguimos vencer nossas mazelas sociais e econômicas e ainda somos vassalos dos feudos financeiros globais, nosso futebol representa nossa esperança de fazer frente aos países mais desenvolvidos mas sem pentacampeonato mundial. Entram em campo, então, os salvadores da pátria. Da pátria de chuteiras, claro.


Nessa Copa de 2014, esse messianismo foi experimentado de forma ainda mais vívida. Para começar, os anciãos-líderes anunciaram que o Brasil deveria e iria ganhar a Copa. Instaurou-se o mito da infalibilidade da realeza. Nossa casta de atletas teria a obrigação de vencer dentro de seus domínios.

Diante de um dever cívico e aristocrático tão grandioso, os jogadores calçaram suas chuteiras como guerreiros empunhando espadas e, após o triunfo heroico, deram entrevistas como se tivessem sobrevivido à invasão da Normandia. Mais do que notáveis profissionais da bola, graças à tradição de triunfos homéricos eles estão acostumados a ser celebrados como super-heróis e reverenciados como seres mitológicos.

Copa após Copa, o Brasil aguarda o novo rei, o novo messias que mostrará ao mundo nossa independência e onipotência futebolística. Um dia já foi Zico e já foi Ronaldo, agora é Neymar.

Esse messias secular é eleito de quatro em quatro anos e com ele está o poder de fazer o Brasil esquecer por 30 dias a miséria, a desvalorização da educação, a corrupção e a insegurança. No entanto, o manto sagrado e o marketing infernal às vezes são pesados demais para os novos candidatos a rei.

Por exemplo, foi tamanho o fervor do hino cantado a cappella pelos torcedores, que os jogadores foram levados à emoção incontida. Choravam desbragadamente, não como um filho teu que não foge à luta, mas sim como meninos à beira de um ataque de nervos.

Felizmente, em caso de derrota demasiadamente humilhante, general e comandados são devidamente achincalhados e postos em seu devido lugar, isto é, ao nosso lado, como gente sujeita a falhas. De divino, podem exibir dotes em lances geniais. Mas nunca deixam de ser humanos, demasiadamente humanos e só.