28 novembro, 2015

convite musical + música e religião na era do pop

Anúncio do lançamento do meu livro "Música e Religião na Era do Pop" na Casa Aberta Juvevê. E mais a volta do trio em que canto com meus dois filhos. Ficamos parados por quase 3 anos, já que nosso primeiro tenor era um juvenil que se tornou um adolescente de voz grave.rs Deu tempo até de publicar um livro.


16 novembro, 2015

a música cristã além do dogmatismo

A revista Veja publicou matéria sobre Leonardo Gonçalves e os irmãos André e Tiago Arrais, juntamente com vários outros cantores cristãos brasileiros. Cantores de diferentes igrejas cantando juntos. Pode isso, irmão Arnaldo? Eles deveriam ser mais dogmáticos e se posicionarem o tempo todo sobre crenças fundamentais particulares? 

Não se exige da ADRA, agência cristã de ação humanitária, que ela faça panfletarismo doutrinário durante suas ações ao redor do mundo. Aliás, a ADRA é respeitada e elogiada não pela apologia de credos, mas por fazer um trabalho importantíssimo no auxílio a vítimas de catástrofes e tragédias. Esse trabalho prioritário é resultado da sua mentalidade cristã.

Fala-se muito na dificuldade do cristianismo contemporâneo de alcançar as chamadas “mentes secularizadas” ou “mentes pós-modernas”. No entanto, quando os músicos elaboram formatos contemporâneos para atrair essas “mentes”, quando o trabalho deles parece estar indo de vento em popa, surge alguém para chamar isso de ecumenismo gospel.

E olha que nem são atrações como o "Vale-Tudo gospel", evento que atrai tanto praticantes de lutas quanto controvérsias. Aliás, o nome do evento é sintomático de uma mentalidade pragmática que tem tomado conta das ações de proselitismo evangélico.

Do mesmo modo que alguns forçam a interpretação sobre o que é “pós-moderno”, especula-se equivocadamente sobre o caráter ecumênico de músicos de diferentes denominações cristãs que se unem com a finalidade de organizar encontros em que se fale de música, de cultura, de técnica artística e acabam suscitando o interesse pelo conhecimento do evangelho.

------ Se você é cristão e é um reconhecido profissional de sua área, você recusaria um convite de uma igreja para falar de sua especialidade com profissionais de outras igrejas cristãs? Ou diria que não iria se sentar com transgressores da lei? Ou diria que não iria discutir com perdidos, ou com falsos profetas ou com metidos a intelectuais? ------------

No caso específico dos adventistas, a dieta vegetariana, o estilo de vida, as obras médica e educacional tem sido quesitos tradicionais de atração dos olhos de todos para sua igreja. Mas surgem coisas inesperadas, como a ascensão do médico Ben Carson entre os presidenciáveis norte-americanos, fato que tem motivado a curiosidade da mídia sobre quem são e no que creem os adventistas.

Outro fator inesperado, pelo menos para as expectativas dos pioneiros do adventismo no século 19, é a ascensão da música popular no cotidiano da juventude. A facilidade do acesso à música, o tempo de escuta, a forte presença dessa música na mídia e o interesse pela vida pessoal dos cantores admirados são evidências do triunfo da música pop.

Os cantores não ficaram tanto tempo debatendo a natureza dessa música, mas não perderam tempo em empregar essa música para atrair pessoas ao evangelho – no jargão evangélico, para “salvar pessoas”.



A reportagem da Veja é sobre o indie gospel, termo que segundo a revista descreve um tipo de música cristã que foge aos clichês de letra e arranjo musical do universo gospel nacional. O texto aborda os encontros do Loop Sessions + Friends, evento que reúne o batista Mauro Henrique (vocalista do Oficina G3), o adventista Leonardo Gonçalves e o católico Guilherme de Sá, da banda Rosa de Sarom: “o trio cultiva uma sonoridade muito diversa da que existe na música gospel tradicional, que é mais afeita a cantos de louvor para levar a multidão fiel ao êxtase”.

A matéria avalia que as letras dos cantores retratados no texto chegam a ser mais sofisticadas do que o repertório do pop nacional: “em vez de falarem explicitamente de Deus e religião, os letristas usam alusões e metáforas, muitas vezes mais elaboradas do que o eterno discurso de autoajuda de grande parte do rock brasileiro secular, de Nando Reis a Pitty”.


Há pessoas que criticarão exatamente o fato de não falar explicitamente sobre Deus e religião em todas as canções desses músicos. Mas, então, como é que se quer alcançar as “mentes pós-modernas” com o discurso religioso tradicional? Algumas igrejas fazem treinamento para ações evangelizadoras e não se diz a elas para sair falando de Deus e religião no primeiro contato com os outros. Por que os músicos agiriam diferente?

A música não é só a coluna mestra do mercado gospel. Essa pode ser a visão econômica marxista sobre isso, e não está errada. Mas não é só isso. A música tem sido a ponte de comunicação entre os cristãos e também a base de lançamento de estratégias que atraiam as pessoas não para a música, mas para o Eterno centro da mensagem da música. O "indie gospel" também faz parte desse movimento. É um equívoco desprezar suas múltiplas faces (Marcela Taís, Rodolfo Abrantes, Palavrantiga e Oficina G3 são alguns deles).

Precisamos conhecer o trabalho que está sendo feito a fim de não incorrer em generalizações e especulações que desqualificam a missão que cada indivíduo envolvido acredita que possui. O evangelho ainda é o mesmo, mas as pessoas e os métodos não são as mesmas. Numa sociedade extremamente diversificada e multicultural, seria prudente não medir a importância do trabalho cristão do outro pela régua que me deram quando a igreja ainda estava nascendo.

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Matéria completa da Veja, aqui