31 julho, 2013

crianças e música clássica

O que é música clássica? Só as crianças tem a pureza da resposta para essa pergunta.
Não estou fazendo merchan. Mas se uma propaganda incentiva pode incentivar a criançada a curtir música clássica, eu compartilho.

22 julho, 2013

um grito no escuro, três preconceitos claros

Que impressão você tem das igrejas cristãs? Sua impressão procede de estudos de casos, envolvimento pessoal ou se baseia em ideias preconcebidas e/ou inflexíveis sobre determinadas igrejas?

Em 1980, Michael e Lindy Chamberlain acampavam com a família numa região turística na Austrália. Numa noite, a mãe viu seu bebê de nove semanas ser levado por um dingo para fora da barraca. Muitas pessoas saíram para procurar o bebê, mas ninguém o encontrou.

Após um primeiro período de compaixão da comunidade pelo sofrimento do casal Chamberlain, vários boatos maliciosos começaram a circular nas ruas e na mídia. A mãe, então, foi acusada de matar a própria filha – ou numa explosão de depressão pós-parto ou num suposto ritual religioso adventista. A cobertura jornalística sensacionalista e o preconceito religioso se misturaram a motivações políticas locais e, num julgamento sem provas conclusivas que tomou proporções inéditas no país, Lindy Chamberlain foi condenada à prisão perpétua.

Em 15 de setembro de 1988, após passar três anos e meio na prisão, o verdadeiro casaquinho que o bebê usava na noite do fatídico evento foi encontrado com evidências de que teria sido atacado por um dingo. Lindy Chamberlain foi libertada e declarada inocente de todas as acusações.

Preconceito religioso

O casal Chamberlain era adventista do sétimo dia e, seguramente, a ignorância em torno das práticas de culto e do estilo de vida dos adventistas na Austrália (ou pelo menos na pequena cidade onde moravam) incitou a população local a espalhar a falsa suposição de que o nome do bebê, Azaria, significava “sacrifício selvagem”, mesmo que sacrifício humano sempre tenha sido uma prática impensável no Adventismo do Sétimo Dia.

Quando não se conhece o fato, instala-se o boato. A grande mídia australiana não fez uma pergunta simples: qual a motivação de Lindy Chamberlain para matar o bebê? Lindy não era mentalmente desequilibrada, não era uma mãe violenta, nem mostrava sinais de depressão. Faltou à mídia, ainda, o senso jornalístico mais elementar de examinar as práticas e rituais dos adventistas.

Atualmente, as mídias brasileiras cobrem eventos evangélicos de massa, cujas marchas ruidosas e finanças assombrosas se consolidam no pensamento nacional como o único tipo de evangélico existente. A uniformização da amostragem midiática sobre os evangélicos contribui para corroborar as ideias preconcebidas sobre os cristãos.

Preconceito emocional

Durante todo o processo, Lindy não demonstrou ser a vítima materna que muitos esperavam. Ela não era dada a rompantes de choro em público e falava com calma e firmeza durante as entrevistas. Ela não era uma personagem de “novela”, digamos assim. Ela foi taxada de mulher fria e sem emoções, capaz de matar um bebê.

O filme Um Grito no Escuro (1988) faz um ótimo retrato do clima de insinuações maldosas surgido entre a população e fomentado pelo mau jornalismo (ou jornalismo do mal?). A postura firme e sem maniqueísmos emocionais de Lindy Chamberlain está presente na magistral atuação de Meryl Streep, que tem a difícil tarefa de fazer com tenhamos compaixão por uma mulher que não se esforça para fingir simpatia em público.

O diálogo travado entre ela e seus advogados dá indícios de que se ela se comportasse “corretamente” no tribunal e nas entrevistas à mídia, ela teria sido absolvida. No entanto, Lindy não se comportava como uma mãe vitimizada, mas como alguém irritada com o absurdo das falsas acusações e cujo rosto expressava profunda amargura.
O filme não é uma produção evangélica, mas credita a serenidade do casal a sua confiança em Deus e à crença adventista na esperança de rever sua filha na ressurreição (por ocasião da segunda vinda de Cristo)

Preconceito social


O filme também ajuda a iluminar alguns traços sobre a fé e a personalidade de Michael Chamberlain. Ele demonstra muita convicção ao falar de vida saudável (cenas o mostram falando contra o fumo e a bebida alcoólica e exercendo seu vegetarianismo), mas no tribunal ele se mostra confuso. 

Ao contrário da maioria dos filmes que representam evangélicos como espertalhões ou imbecis, este filme mostra a momentânea confusão do pastor que não entende as razões de estar passando tamanho sofrimento e linchamento psicológico. Ele se pergunta o que Deus quer dele. É um retrato de um ser humano arrasado pela dor da perda de uma filha e pelo sentimento de abandono divino.

Isso, é claro, não ajuda a melhorar a impressão do público e do júri sobre o casal. Assim, temos um casal de tranquilos adventistas ser tragado pelo turbilhão de boatos maldosos e inépcia policial.

Por não comerem o alimento que “todos” comem, por não beberem o que “todos” bebem e por serem religiosos numa sociedade que despreza a religião, eles são tratados como párias sociais.

Por não se portarem segundo as expectativas sentimentais da população, por não se expressarem com o emocionalismo que garante audiência, eles são tratados como párias emocionais.

Por serem uma minoria adventista que contrasta com o ecumenismo evangélico, eles são tratados como marginais religiosos, quando sua religião é marginalizada.

Seu estilo de vida é antissocial, suas personalidades são antimidiáticas e sua religião é considerada anticristã. Os párias fundamentalistas estão prontos para o linchamento público.

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Detalhes das investigações e conclusões sobre o caso do desaparecimento do bebê Azaria na Wikipédia (em inglês).


O filme Um Grito no Escuro (A Cry in the Dark) recebeu prêmios do cinema, entre eles, o de melhor atriz para Meryl Streep no Festival de Cannes e da Associação dos Críticos de Cinema de Nova York. Ver IMDB.

Fotos do casal Chamberlain copiadas do Google imagens.

10 julho, 2013

O garoto que chamava um jambeiro de USS Enterprise

Diário de bordo. Data estelar: 1983, um dia qualquer, 15:00. Eu já terminara os deveres da escola e as lições de piano – aquelas que o professor tinha mandado e aquelas que eu gostava. Logo começaria mais um episódio de Jornada nas Estrelas – naquele tempo, a gente não era obrigado a chamar seriado estrangeiro pelo título original. “Voyage to the Bottom of the Sea” era Viagem ao Fundo do Mar, “Get Smart” era Agente 86 e “Star Trek” era Jornada nas Estrelas.

O Capitão Kirk, o Sr. Spock e o Dr. McCoy estão às voltas com mais um ataque de inimigos dos terráqueos após uma expedição perigosa a um planeta desconhecido. Perigo e exploração no espaço: o que mais poderia pedir um garoto de 13 anos que lia Julio Verne como quem saboreava um jambo colhido no pé!

Desligada a TV preto e branco, chega a tripulação, quer dizer, minha turma. Cada um conta o que assistiu: “Você viu quando o capitão Kirk escapou dos tiros?” “E a cara do Spock, sem entender a emoção do dr. McCoy?” “E o teletransporte tirou eles de lá bem na hora!”.

Com esse mesmo espírito de louvor à aventura espacial, subimos na USS Enterprise NCC-1701, quer dizer, o jambeiro em frente de casa. Eu, o maiorzinho da turma e profundo conhecedor do espaço sideral entre as folhas, assumo meu galho de comando:
- Sr. Sulu, acionar a dobra espacial.
- Para onde vamos, capitão?, me pergunta o dr. McCoy, isto é, o Julison, meu irmão.

[Dependendo da necessidade de improvisar roteiro e tripulação, o Julison seria o Scott, o Raulison (o caçula) seria Sulu e o Wilker, McCoy. E até uma enorme escada abandonada no chão poderia servir de Enterprise!]

Logo depois, eu e o Spock, quer dizer, o Rogério, descemos para explorar um remoto planeta no intergaláctico quintal perto da árvore. Ameaçados pelos 2 ou 3 amigos que no episódio de hoje são nossos inimigos, disparamos nossos lasers feitos de sobras da marcenaria e pedimos ajuda da tripulação. E se não é o Scott nos teletransportar para o jambeiro a tempo...

Diário de bordo. Data estelar: 2013, julho. Assistir o novo Star Trek, ouvir o velho tema musical, ver a impulsividade de Kirk, a serenidade de Spock, as piadinhas do McCoy, a impaciência do Scott, a velocidade da dobra, os defletores, Sulu, Checov e Uhura, é como rever velhos amigos. Sou teletransportado de volta ao meu jambeiro num colégio adventista a 80 km de Manaus, corro descalço pela  grama, subo na minha nave, apanho outro jambo e saboreio minha infância outra vez.