22 junho, 2012

Lady Gaga vai para o show ou para a cruz?


A cantora Lady Gaga cancelou sua apresentação em Jacarta, Indonésia, devido a problemas de segurança. Num país de maioria muçulmana, seria uma temeridade se expor aos riscos da ameaça feita por grupos islâmicos que desaprovavam o show da artista em seu país.

Segundo matéria do portal UOL, o empresário da cantora, Troy Carter, comparou os protestos feitos contra o show de Lady Gaga à crucificação de Cristo: “Jesus Cristo foi crucificado. Acontece”.

Em suma, o empresário acha que estão pegando a Lady Gaga pra Cristo. Embora, pelas performances e pelo figurino, Lady Gaga esteja sempre vestida para o show e não como quem vai para a cruz.

A comparação é obviamente exagerada, mas das duas, uma: talvez o empresário tenha dito isso com ironia ou ele acredita mesmo que Lady Gaga é a Joana d’Arc da liberdade de expressão.

Se for ironia, vá lá, cada um ouve como quer. Mas se ele acha que Lady Gaga está virando mártir, das duas, uma: ou ela encara o risco de uma fogueira e faz o show ou volta e fica fazendo escândalo nos indiferentes países de raiz judaico-cristã.

Se ela prefere a segurança, tudo bem, não é justo por em risco a sua vida e a vida do público indonésio por causa de música. Mas se ela encara a fogueira e vai pro show, das duas, uma: ou ela cria um escândalo político ou um escândalo religioso. O que em terras islâmicas, é a mesma coisa.

Para algumas estrelas do pop, mesma coisa é um escândalo sexual e uma provocação religiosa. Então, das duas, uma: quando é motivo sexual, vá lá, não se deve dar opinião sobre as peripécias íntimas de ninguém. Mas quando é questão religiosa, das duas, uma: ou não passa de ignorância ou é desdém quanto a aspectos da fé.

Se for ignorância, tudo bem, o conhecimento progride pouco a pouco. Mas se for desdém, das duas, uma: ou é uma música falsificadora (como em “Judas” ou “Alejandro”) ou é um golpe de marketing. O que para muitos artistas e empresários do ramo, registra-se no caixa como a mesma coisa.

15 junho, 2012

a Paixão impopular e o triunfo do Messias

O compositor de música religiosa mais respeitado de todos os tempos é Johann Sebastian Bach. No entanto, em sua época, o próprio Bach era menos apreciado do que hoje. Sua maravilhosa A Paixão Segundo S. Mateus, considerada um Everest no Himalaia da música clássica, foi executada somente quatro vezes durante sua vida. Em nossa época secularizada, a obra de Bach é muito mais apreciada, encenada e gravada.

A música sacra de Bach foi composta para ser executada na igreja. Os fiéis que ouviram A Paixão na sexta-feira de Páscoa em 1727 (ou 1729) se dirigiram à Thomaskirche (Igreja de S. Tomé) para assistir a um culto com ótima música, e não para ver a estreia de uma obra musical de um grande compositor.

Situação bem diferente passou George Frederic Haendel. Quando seu oratório O Messias estreou em 13 de abril de 1742, certamente havia vários religiosos presentes, mas a estreia aconteceu num teatro em Dublin. Os teatros não tinham o hábito de apresentar peças sacras, mas após a oposição inicial, O Messias foi encenado 56 vezes, incluindo igrejas e teatros, e continuou sendo constantemente apresentado após a morte de Haendel.

Olhando com mais atenção, podemos entender as diferenças de recepção à obra de Bach e Haendel, dois compositores que compartilhavam da fé cristã.

A cidade: na época em que compôs A Paixão, Bach morava em Leipzig, uma cidade provinciana comparada à população 20 vezes maior de Londres. Tanto Dublin quanto Londres atraíam a nobreza europeia e a elite de pensadores do continente. A menor relevância da cidade pode ser a causa do anonimato do oratório de Bach. A Paixão só seria executada fora de Leipzig em 1829, por obra do compositor Felix Mendelssohn.

O público: o público de Bach ia à igreja por tradição, costume ou fé. O Messias teve um público pagante desde a estreia.

A montagem das peças: A Paixão exigia uma grande estrutura (aumentada conforme as revisões de Bach): dois corais, cada qual com sua orquestra, um terceiro coro de sopranos com apoio do órgão, nove solistas vocais e cinco instrumentais. O Messias requer somente um coral, quatro cantores solistas e três solistas instrumentais. Mesmo hoje, as igrejas têm mais facilidade para encenar O Messias.

Os finais das obras: O Messias se divide em três partes, cada qual concluindo com um coro. A segunda parte termina com o logo famosíssimo “Aleluia”, e Haendel optou por compor uma parte final ainda mais triunfal e estrondoso. O coro final, “Digno é o Cordeiro”, é mais longo, mais tonitruante (com instrumentos de metal e tímpanos), e conclui com a repetição exaustiva de um "Amém". Subitamente, um compasso de silêncio. Em seguida, o retorno em fortíssimo por mais três compassos, para um final grandioso. Os aplausos são inevitáveis. (Se preferir, assista a partir do minuto 2:00)




A Paixão também se encerra com um grande coro, mas o volume da música vai diminuindo, como num fade-out, com as palavras finais: “Felizes são teus olhos que se fecham por fim”. (Se preferir, assista a partir do minuto 8:00). O historiador Tim Blanning afirma que aí pode estar a diferença entre compor para uma congregação e compor para uma plateia.




A recepção pública: as reações dos religiosos da época não foram tão diversas das do público religioso moderno. A combinação de atributos associados à música popular e à ópera teria levado uma senhora a exclamar durante a audição da Paixão: “Deus nos proteja, meus filhos! É como se estivéssemos numa ópera cômica” (1), enquanto a obra de Haendel foi contra-indicada porque não passaria de melodias de ópera com letra de oratório. Mas O Messias recebeu grande aclamação desde sua estreia: "O sublime, o grandioso e o delicado, adaptados às mais elevadas, majestosas e comoventes palavras, conspiraram para extasiar e encantar coração e ouvido arrebatados” (2).

Ambas as peças usam passagens bíblicas – A Paixão emprega os capítulos 26 e 27 do evangelho de Mateus e O Messias compila trechos de Isaías, dos Salmos e outros livros. Os dois oratórios extraíram versos da Bíblia, mas a música resultou bem diferente. Um final induz à reflexão e à contrição; o outro inspira a esperança e o triunfo. 

Como conclusão a esse diálogo histórico e musical, podemos dizer que a música sacra assume formas diferentes quando o público e o local de performance se diversificam. E isso não é de hoje.

Notas: (1) The New Bach Reader, p. 327.
           (2) The Dublin Journal, abril/1742, citado em O Triunfo da Música, p. 97.

12 junho, 2012

todo homem odeia o george clooney


É sempre assim. Lá vem sua mulher, sua namorada, sua companheira no filme bom e no filme ruim com um DVD nas mãos. Pelo olhar exultante já até se adivinha: é um filme com George Clooney. 

Você até se esforça para pertencer ao civilizado mundo dos homens contemporâneos: pendura a toalha de banho corretamente, serve a mesa do jantar, não quebra os copos na pia, ouve pacientemente a esposa enumerar a lista de compras pelo telefone do trabalho (talvez na frente das amigas!), e é capaz de chegar ao nível sênior de macho alfa, que é fazer compras jó-pacientemente num hipermercado no domingo pela manhã.

Então você está lá no sofá com aquela cara de quem sabe que não basta ser marido, tem que assistir a comédia romântica junto. Aí surge o George Clooney. Não bastava apenas o cara ser um rosto bonito e charmoso? Tinha que ser elegante? Tinha que ser discreto? Tinha que dirigir bons filmes? Tinha que ser ator de recursos seja para a comédia romântica, para a sátira, para o suspense, para o drama jornalístico? Tinha, ainda, que defender as causas mais nobres? E ganhar prêmios da crítica e da indústria do cinema?

A maioria dos homens sente-se um neanderthal perto de George Clooney. Por isso, meu amigo neanderthal, chegou a hora de darmos o troco. Homens imperfeitos, uni-vos!

Vamos adotar o que já sugeriu o também ofendido Luis Fernando Veríssimo: “Se não podemos ser iguais a George Clooney, então só nos resta caluniá-lo”.

Esconda o controle da TV, troque os cabos do DVD, anuncie que você radicalizou e agora só vê reprises do Discovery Channel. Dissemine spams, se possível no formato Power Point com a foto pichada de George Clooney (ideia do Veríssimo), espalhe que ele prefere Maradona a Pelé e que ele veste a camisa do Hugo Chávez. Fale pra sua namorada que ele odeia o seriado Friends.

Se todo esse rol de maldades não funcionar, então torça para que ela prefira filmes de galãs falecidos. Portanto, se ela quer assistir de novo a ...E o vento levou, assista com ela a segunda milha.

Apesar do George Clooney, há esperança. Se você é calvo, e sua mulher achar o calvo Zidane mais bonito que o babyface Cristiano Ronaldo, parabéns meu amigo. Conserva o que é teu (jamais diga “conserva tua coroa”) e vá ser feliz, não é todo dia que alguém acha que a desbeleza é fundamental.

Se ela preferir os penteados do Neymar, resista! O amor e a submissão têm limites!

Mas, se você não faz o tipo atlético e, mesmo assim, sua namorada fizer uma careta de desdém quando um superstar aparecer num filme saindo do mar todo sarado e exibido, é porque você é o eleito. Case-se com ela antes que um conquistador lance mão.

NNP: este web-escriba invoca o direito constitucional de não publicar fotos do mencionado galã do título desta postagem. Longe dos olhos, longe da comparação!

05 junho, 2012

os 11 mandamentos da vida digital


I – Não subirás ao teu leito, tu e tua mulher, cada qual com seu iPad; há tempo para tudo debaixo do teu teto.

II – Não retuitarás elogios feitos a ti e a tua obra, pois, assim, não permitirás que a soberba faça ninhos sobre tua cabeça.

III – Só mostrarás no Facebook fotos do teu próximo se assim teu próximo concordar; porém, se ele vier a ti, instando para que removas tal foto, vai tu ao Facebook e procede segundo sua vontade.

IV – Não atualizarás teu status com que informações de que estás a jantar com os amigos justamente no momento em que estás com os amigos; conecta-te é com eles, ora, pois.

V – Não cobiçarás a fama nas redes sociais, pois, ao assim proceder, amontoarás fotos fofas e textos plagiados em tua busca desesperada por likes, comments, shares e retweets.

VI – Não exibirás a todo instante as imagens de onde estás nem informarás a toda hora o que estás fazendo, para que tua vida na Terra não se torne uma revista CARAS aberta.

VII – Não baixarás para ti mil e um CDs, se tu escutas sempre os mesmos três.

VIII – Ao acordares, não busques em primeiro lugar verificar tua caixa de entrada de e-mail.

IX – Respeitarás os feriados em lugares em que não há conexão de internet. Não fiqueis ansiosos quanto a alguns dias offline.

X – Não inculcarás aplicativos mil a ti e a teus filhos. Antes, sê moderado.

XI – Não tuitarás frases do sermão do pastor durante o próprio sermão, para que teu próximo não seja tentado a ler tais mensagens enquanto também está nalguma igreja e fiqueis tu e teu próximo desconectados da Palavra.