31 março, 2008

O gênero musical do novo século - II

No início do ano, postei um texto sobre o gênero musical do novo século, onde eu tomava como referência um artigo do site People Listen to it, escrito pelo musicólogo Gabriel Solis. O site americano é de estudantes, compositores e professores da área de música da Universidade de Illinois. Pois bem. Este site descobriu o meu artigo sobre o tema e fez uma atualização onde dá o link para meu texto no blog Nota na Pauta e diz que também aponto um processo de síntese de gêneros em algumas produções musicais brasileiras de hoje, à semelhança do que Solis percebe na música norte-americana. Abaixo, amplio alguns dos exemplos que citei no meu artigo.

As fronteiras entre a cultura erudita e a cultura popular parecem estar bastante atenuadas em um certo universo musical que comporta compositores do mundo todo, cujas experimentações sonoras expandem os limites da escuta. Um trabalho representativo no Brasil é o de André Mehmari, jovem compositor-residente da Banda Sinfônica de São Paulo. Seus arranjos de piano no cd Piano e Voz ressaltam ainda mais a interpretação refinada de Ná Ozzetti e a beleza das canções. Mehmari não acompanha, e faz mais que um dueto, em que contraponto, harmonia e citações musicais revestem seu piano de rara inventividade. Procure ouvir a delicada canção A ostra e o vento, que recebe uma introdução que rememora o tema de Nino Rota para o filme Amarcord.

Um dos trabalhos mais criativos dos últimos anos é Medúlla, da cantora Björk. O álbum não é fácil de se rotular: Pop? Erudito? Crossover? Björk emprega poucos recursos instrumentais além da voz humana manipulada digitalmente, estendida, multiplicada, recriada. E o resultado vale a pena ser utilizado como objeto de estudo nas classes de música de concerto contemporânea. E também nos seminários universitários de música popular.


Mesmo na pouco conhecida música religiosa moderna, cuja faceta mais famosa é o gospel, entendo que no Brasil esses processos de síntese de estilos têm seus representantes. No cd Viver e Cantar (analisado nesse blog), o cantor e produtor Leonardo Gonçalves e seu irmão, o compositor e arranjador André Gonçalves, inovam ao trazer para a música religiosa diversas expressões culturais e musicais, como o coro gregoriano, o estilo judaico, o arranjo pop ao lado das cordas eruditas, a variedade de interpretações vocais (da recitação poética ao canto mais suave).

O campo para a criatividade musical nunca esteve tão aberto, pois, em contraste com outras épocas, o final do século XX foi o tempo para convívio de todos os estilos. O moderno ao lado do arcaico, a bossa junto com a palhoça, Carmen Miranda com Beatles, a guitarra acompanhada de berimbau, e até mais que o convívio, a fusão, a síntese, o sincretismo estilístico, com os gêneros musicais aglutinados, entranhados, casando para dar como fruto um outro estilo.

Hoje, ninguém tem que seguir uma vertente de mão única, tipo ser dodecafonista ou pós-romântico, concretista ou nacionalista, sambista ou ou jazzista. Atualmente, se pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Importante é aprender a não cair na mera invencionice ou na mistureba tosca e sem personalidade, necessário é saber reorganizar, recriar os estilos para que surjam novas maneiras de fabricar sons e silêncios. Os músicos de hoje também podem dizer: "há muitos estilos. Preferimos todos".


Acima, obra de Fernando Botero: "Los músicos" (1991).

26 março, 2008

As bem-aventuranças segundo Bush

Como lembrança pela passagem do quinto ano da presença dos EUA no Iraque, rabisquei esta singela e-missiva pela efeméride tão trágica para as milhares de famílias iraquianas e americanas despedaçadas diariamente.
O plenipotenciário global, George W. Bush, em seus atributos de comandante-em-chefe da ignorância política e da violência econômica, esteve passando em revista as tropas israelenses no começo do ano. Segundo os jornais, o american president foi à região para tentar acelerar o processo de paz. Não me digam! Será que em vez de Bush, o Jack Bauer de Guantánamo, ele quer sair do Salão Oval para entrar na história como Bush, o pacificador?

Não que eu queira viver no "mundo encantado de Saddam ou Bin Laden", mas veja como funciona a história nesse admirável mundo novo. Primeiro, Bush Filho vem a público qual um profeta hebreu dizer que ouviu a voz de Deus. A menos que o Senhor intervenha e desmascare esse baalim travestido de pacificador, será o apocalypse now. Valha-nos, my Lord!

Depois, Bush Jr. resolve andar por onde Jesus andou. Repito para que ninguém vos engane: andar POR ONDE e não COMO Jesus andou. Assim, é provável que em suas reminiscências soletradas a um escriba de Roliúdi, Bushzinho nos conte como peregrinou pela Terra Santa com mais seguranças do que seguidores de Cristo, de como achou que teria que andar sobre as águas da Galiléia pois o preço do barril de petróleo estava por demais e inflacionou o preço do passeio de barco, de como teve uma iluminação para ser menos intransigente mas deixou pra lá porque não sabia o que significava “intransigente” e, last but not least, de como conseguiu continuar um discurso ao vivo do Monte das Bem-Aventuranças depois que o teleprompter emperrou.

Abaixo, trechos do “monte” de bem-aventuranças que Bush revelou aos homens:

Bem-aventurado Bush, o pacificador, porque dele é a terra e tudo que nela há;
Bem-aventurado o estadunidense cristão, porque “pelo menos ali ele sabe que é livre” (aqui, Bush quis mostrar que sabia poesia e citou o refrão do hino patriótico God bless the USA);
Bem-aventurados os mansos que ficam ainda mais mansos com um empréstimo americano;
Bem-aventurados os humildes de coração valente, porque eles serão como Mel Gibson;
Bem-aventurada a TV americana, que tem o direito de ficar calada sobre as maldades da política externa dos EUA;
Bem-aventurado o cinema americano, que esconde os pobres da América, expulsou Chaplin, elegeu Reagan e divulga em 1000 salas os 1001 tiros de Rambo;
Bem-aventurada a nossa civilização judaico-cristã-ocidental, porque tem o MacDonald pra lhe alimentar de dia e a CIA pra lhe vigiar de noite.

Após essas palavras, Bush the King desceu do monte confiante como nunca e foi proceder ao apressamento da pacificação do reino. Para tanto, teve uma idéia que nenhum redator da Casa Branca jamais teria e a fez espalhar pelos quatro poderes (principalmente o quarto), dizendo com sua sempiterna boa vontade presidencial: “Não vim trazer a espada, mas a paz”. Após um breve silêncio, os mísseis voltaram à ação.

Como pode ser bom o estado democrático. Posso fazer graça com Bush sem que ninguém me censure (no reino de Osama, o gracejo seria impossível). Nem Bush pode apagar as coisas boas da América.
Mas também é bom poder denunciar, se não a nudez do rei, pelo menos seus trapos de imundície.

21 março, 2008

A odisséia de Arthur C. Clarke


Arthur C. Clarke, escritor de ficção científica, acabou ficando muito mais conhecido por uma história que escreveu para o cinema, em parceria com o cineasta Stanley Kubrick: 2001 – Uma odisséia no espaço, marco histórico da arte em qualquer tempo (embora o filme seja também adaptação de outro conto de Clarke, “A Sentinela”). 2001 é reflexivo e lento demais para muita gente – alguns o acham muito pretensioso, outros preferem menos filosofia e mais ação. De fato, 2001 não é fácil, mas as discussões propostas pelo filme, a origem e o sentido da existência humana, o homem prisioneiro da tecnologia, o mistério do monólito, que seria uma representação da incomunicabilidade entre o sobrenatural e o homem, tudo isso parece vir da mão de Clarke, autor de uma ficção científica humanista.

O escritor também deixa como legado as Três Leis de Clarke, um conjunto de provocações à ciência e à ficção científica, publicadas em “Profiles of the Future” (1962):

1) Quando um cientista mais velho e distinto afirma que algo é possível, ele quase sempre está certo. Quando ele afirma que algo é impossível, muito provavelmente ele está errado.

2) A única maneira de descobrir os limites do possível é aventurar-se para além dele, através do impossível.

3) Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica.

A primeira “lei” deve ser resultado da crítica que lhe fizeram quando afirmou, ainda nos anos 40, que o homem chegaria à Lua antes de 2000. Ele também dizia que os autores de ficção científica costumavam antecipar as realizações tecnológicas do homem: dos meios de comunicação aos meios de locomoção.

A ficção científica sempre me fascinou. Lembro-me de, na pré-adolescência, ler algumas páginas de Da Terra à Lua, de Jules Verne, e ficar olhando para a noite escura lá fora imaginando uma aventura espacial. Na época, meus pais aceitaram um convite para lecionar num colégio um pouco afastado da cidade de Manaus, e o céu estrelado amazônico é uma das minhas mais fortes lembranças. Na estante da sala, uma coleção quase completa da obra de Jules Verne, com Vinte Mil Léguas Submarinas e Viagem ao Centro da Terra. Naquele tempo, havia também as sessões vespertinas de Jornada nas Estrelas (eu e meus irmãos assistíamos as viagens registradas no diário estelar da Enterprise e saímos para refazer ludicamente as aventuras com os amigos vizinhos em uma nave imaginária – mas de madeira de verdade!)

Mais tarde, vieram Isaac Asimov e Ray Bradbury. Philip K. Dick, como Arthur Clarke, só descobri através dos filmes. Li menos esses autores do que vi os filmes baseados em suas obras. E alguns filmes de sci-fi (science-fiction), existencialistas ou de batalhas tecnológicas, foram substituindo os livros.
O Dia em que a Terra Parou, de Fred Zinemann, e seus alienígenas pacifistas;

Fahrenheit 451, de François Truffaut, adaptado de conto de Bradbury, mostra uma sociedade inquisitorial queimadora de livros e de liberdade de consciências;

Blade Runner, de Ridley Scott, adaptação de novela de Philip K. Dick, traz um futuro sombrio, com um apuro visual e um equilíbrio narrativo entre ação e questões metafísicas nunca mais visto (mais a trilha de Vangelis);

1984, adaptado de livro homônimo de George Orwell, escrito em 1948, apresentava a sociedade vigiada pelo “Grande Irmão (Big Brother)”;

A.I. – Inteligência Artificial (adaptado do conto “Superbrinquedos duram o verão todo”, de Brian Aldiss) e Minority Report (de Philip K. Dick), ambos de Steven Spielberg, apresentam questões instigantes, com dosagem eficiente de ação, mas também derrapam nos minutos finais – o primeiro devido a um esoterismo sentimental e inconvicente e o segundo por uma resolução um tanto brusca das propostas.

A Guerra dos Mundos, com os aliens invasores do livro de H. G. Wells, foi um fenômeno naquela adaptação radiofônica de Orson Welles que assustou Nova York em 1939. Foi levado em 1953 ao cinema; e também em 2005 por um Spielberg cujos aliens bonzinhos de ET e Contatos Imediatos de 3º Grau já tinham telefonado e voltado pra casa.

Isaac Asimov teve seus O Homem Bicentenário e Eu, Robô adaptados (lembram das 3 leis da robótica?) e foi contratado como consultor científico especial no primeiro filme da série Star Trek.

E 2001, pelas imagens extraordinárias, pela genial utilização da música de Strauss (Richard e Johann II) e Georgy Lygeti e pelas idéias de Arthur C. Clarke.
Sobre "O fim da infância", considerado o melhor de Clarke

18 março, 2008

Globo e Record: a novela da vida irreal

O mais recente capítulo da disputa via satélite entre Globo e Record foi ao ar na semana passada. Como de costume, uma das redes de televisão sentiu-se ofendida e, machucada em seu ego continental, partiu para o contra-ataque. O conflito entre ambos as redes começa em tom jornalístico, mas no fim das contas, toma feitio de folhetim. Mas o que foi que aconteceu mesmo?

Na novela Duas Caras, da Globo, há um núcleo evangélico do “mal” (segundo o autor da novela, há outro núcleo, o do “bem”). Pois este grupo de crentes, liderados por uma fanática, se insurgiu num dos capítulos contra um triângulo amoroso formado por um homossexual, uma ex-drogada e um garçom. A tal evangélica, liderando a turba, fez soar as trombetas de Jericó, invadiu uma casa, atirou pedra na ex-drogada como se não tivesse pecados, depredou uma cama, ameaçou matar uma grávida que carregaria a própria besta do Apocalipse. Enfim, foi um Baal-nos-acuda, um cruzamento de A Profecia com As Bruxas de Salem.

A reação da Record? Queixas de ofensa moral contra os evangélicos, retratados como um bando de dementes. Mas, recentemente, a novela Vidas Opostas mostrava um grupo de policiais extremamente violento e corrupto. Como o Capitão Nascimento e sua tropa de elite ainda não estavam na moda, a quadrilha passou vários meses exibindo brutalidades no vídeo. Alguém lembra de algum batalhão ter reclamado do retrato “realista” de policiais? Que havia policiais do “bem”, havia. Mas o glamour, o enquadramento vistoso, a grande interpretação fica para os bandidões, para o bonde do “mal”. Entre o bem e o mal, assim caminha o tosco maniqueísmo dos roteiristas. A desculpa rota e maltrapilha é a de sempre: é isso que o público quer ver. É mesmo, cara pálida, perdão, cara parda?

E a Globo, favorável aos católicos mas que nunca teve nada de santa? Aliás, santidade só dá audiência na visita no Papa. Bem, ninguém pode acusar o canal da família Marinho de construir uma imagem idealizada dos católicos. Nos anos 70, a novela Roque Santeiro não teve autorizada sua exibição, pois além de desagradar os militares no poder, ainda passava uma idéia menos hipócrita de padres e fiéis. E, veja só, naquela década, a Globo amaciava com os generais no Jornal Nacional (proibida que estava de veicular notícia ruim dentro do Brasil), mas mostrava metáforas bem explícitas do autoritarismo, da hipocrisia e da corrupção na novela que vinha em seguida, O Bem Amado.

Anos depois, o mesmo Dias Gomes voltou à carga na minissérie O Pagador de Promessas, em que um fiel católico do campo tenta entrar com uma cruz dentro de uma igreja, mas é proibido pelo padre local de cumprir sua promessa. O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, também apresentava um contexto bastante crítico das autoridades católicas. Algumas novelas fazem lá seu gracejo: ora é um padre chegado ao álcool, ora é um bispo autoritário ali, ora é uma falsa beata acolá.

De fato, o evangélico, em especial o neopentecostal, cada vez mais imerso numa cultura de vale-tudo na adoração e de sacralização do consumo, está conseguindo atrair para si mais um sentido de banalidade e alienação do que de força moral e intelectual. O pragmatismo segue quase ensandecido em busca de novos membros, com muitos desses “apóstolos” cheios de convicção e pouca boa-fé.

A Record, tão sensível quando se trata de investigar os líderes da Universal e tão surda ao estudo doutrinário e teológico mais sério, imita a Globo até nos cenários de telejornal, utiliza seus programas domingueiros como palco de “defesa da fé”, enquanto suas novelas seguem o mesmo caminho fácil da busca de audiência. A Globo, cujos telejornais não se cansam de mostrar a fé popular nos "santos", finge-se de moderna e sem preconceito, mas vem oferecendo um cardápio musical decadente, um tradicionalismo estético na programação e, sim, um retrato enviesado e unidimensional de quem não professa a fé de seus executivos e autores.

Às vezes, se pergunta onde está o retrato de cristãos que fazem campanhas de doação de sangue, que pesquisam nos espaços acadêmicos com seriedade, que trabalham com afinco, que não gritam nem entram em transe nos cultos, que se vestem com discrição e elegância (mas sem parecer que tiraram os trajes de um baú do século XIX), que procuram equilibrar a fé e a ciência, que amam e são amados, se divertem, fazem planos dignos, que têm suas falhas também, que são tradicionais mas não arcaicos e liberais mas não libertinos.

Estou porventura criando algum personagem absurdo? Idealizado? É demais para a criatividade de um escritor, de um cineasta? Pois há muitos desses cristãos, talvez ocultos demais por conta própria, certamente ocultados demais pela TV e o cinema. Por isso, parece que os versos de W. B. Yeats, no poema The Second Coming, ainda estão valendo:“Falta convicção aos melhores/ enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”. Mas também pode ser que os bons mantêm a retidão e a esperança, mas infelizmente parece que isso dá cada vez menos audiência.

Leia também: a igreja eletrônica e a fé no mercado

Leia trechos do livro da jornalista Elvira Lobato sobre a Ig. Universal

12 março, 2008

A Muralha

Em tempos de BBBoçais na TV, o Canal Futura está reapresentando a minissérie A Muralha. A minissérie aborda diversas facetas do Brasil-Colônia, como o trabalho dos jesuítas, a escravidão indígena, a incipiente luta contra o autoritarismo português, a corrupção dos oficiais instituídos pela metrópole, a luta das mulheres que ficavam em casa enquanto os maridos saíam para desbravar as matas.

Importa dizer que o programa que exibe a minissérie se chama “Faixa Comentada”, e antes de cada segmento apresentado há uma entrevista com os atores, cenógrafos, roteiristas e diretores da obra. Mas também há entrevistas com especialistas acadêmicos, professores e historiadores, como Eduardo Bueno, sobre costumes culturais e práticas comerciais e religiosas da época, o que acaba sendo bastante esclarecedor.

A reconstituição dos lugares do período colonial, situado no local de estabelecimento do que viria a ser a futura cidade de São Paulo, é cuidadosa, sendo que a taba dos índios foi construída por indígenas reais. Eles também interpretam alguns dos personagens indígenas (outros são interpretados por atores profissionais, como Stênio Garcia e Maria Maya - esta atriz faz ótimo trabalho ao reagir inopidamente e conversar empoleirada em baús ou batentes).

Brancos, mestiços, índios. Padres, judeus, comerciantes. Todos estão presentes não como personagens históricos, mas como portadores de dramas e tragédias pessoais, que sofrem, riem, amam, fazem planos que atolam no lamaçal da Vila de Piratininga. A Igreja Católica é retratada sem maquiagem, isto é, são discutidas desde sua coerção na conversão de judeus ao celibato dos padres, passando pelo seu posicionamento ao lado do poder econômico dominante. Os índios possuem sentimentos, não são meros figurantes como nos filmes americanos, alguns com mais senso de dignidade do que os colonizadores. Há mulheres que usam a sedução para conseguir favores (o que é mostrado de forma cômica) e há mulheres que procuram ser fortes, de grande nobreza de alma – sejam índias ou brancas. Há homens de firmeza e bravura, outros demonstram covardia e cobiça.

Não há o falso heroísmo dos antigos livros de história. As roupas estão sempre amarfanhadas, a pele das pessoas empapada de suor, alguns querem voltar para o reino de Portugal e deixar essa terra inóspita e nada hospitaleira. O preconceito contra índios, mulheres e judeus é contado sem romantização de vítimas. A violência e a exploração (comercial, eclesiástica ou sexual) são narradas sem a glorificação da brutalidade, ao contrário dos épicos do cinema.

A Muralha também ofereceu a Tarcísio Meira o maior papel de sua carreira na TV. Como Dom Jerônimo, um homem de enorme poder e maldade, Tarcísio dá grande complexidade a um personagem que teria tudo para ser retratado de forma unidimensional. Ele comunica ódio, hipocrisia, paixão e ambição com seus resmungos, gestos e olhares que ora expressam asco, ora transmitem compaixão.

A direção de atores soube tirar partido da qualidade do elenco, que nunca parece representar, mas simplesmente demonstra incorporar os personagens com seus muitos temores e breves alegrias. Ainda há a ótima trilha sonora de Sergio Saraceni, cuja música não tenta apenas recriar a sonoridade da época, mas é quase um personagem a mais, integrando-se às tramas da minissérie.

Seguramente, A Muralha está no nível (ou acima, arrisco a dizer) de clássicos globais, como O Tempo e o Vento ou O Primo Basílio. Pois não busca o entretenimento fácil e esquecível, mas procura marcar um retrato de um país que mudou mais na superfície do que em profundidade. Com as entrevistas de especialistas, a minissérie ainda contribui até para nos educar, algo que não seria papel das TVs, costumam dizer os defensores de um hegemônico e lucrativo reino da diversão.

O programa é transmitido às 21:30 no Canal Futura.

06 março, 2008

Fábulas Menores de Moral Mínima - 3

BREVÍSSIMO RELATO DO HORRENDO LABOR DE UM BISPO-DEPUTADO E DE SUA IMOLAÇÃO PESSOAL EM FAVOR ILÍCITO OU NÃO DOS SEMELHANTES

"A vida de um parlamentar é muito ruim, um sacrifício. Chega de manhã e sai à noite. Se você vai a um casamento, tem que abraçar 100 pessoas que você não conhece. Se você está em casa com a família, tem que atender a um pedido político ou até mesmo ir a um enterro de eleitor. É um sacrifício pessoal".

Isto é parte do depoimento do Bispo Rodrigues à Justiça Federal do Rio de Janeiro. Ele é réu no processo do mensalão. No dicionário dos 40 acusados, réu é aquele político inocentemente envolvido em teorias conspiratórias da oposição; e, mensalão, bem, mensalão não existe, é só um esquema de financiamento de parlamentares governistas e aliados que dá nas cabeças dos juízes do STF.

E não está mais aqui quem perguntou o que uma frase do “Bispo” da Universal está fazendo na seção dedicada à fábulas menores de moral mínima.


SOBRE MENINOS E LOBOS

Numa era inexistente, quando os animais achavam que sabiam falar, a família Lobo foi sacudida por mais uma intempérie. Dessa vez, não eram as focas ávidas por uma reportagem que despertavam aquela casa. Era o próprio caçula o causador da agitação.
- Pai, grande Lobo. Dá-me a parte que me cabe. Já aprendi o suficiente por aqui, é hora de plantar meus próprios laranjas, digo, meus próprios laranjais.
- Filhinho, você ainda é só um lobinho. O mundo lá fora é cruel para quem não tem advogado.
- Não quero mais ser um lobinho. Isso é nome de escoteiro-mirim.
-Pior. É como se chama um quisto subcutâneo, gracejou o Lobo-do-mar, irmão mais velho e navegado.
- Viu só como falam de mim? Minha hora de ir já chegou. E quem sabe faz a hora, meu pai, não espera acontecer.
- Filho, deixe dessas citações da juventude. E você bem sabe o que andam dizendo da gente por aí, que fizemos uma lobotomia com a cigarra que cantava essa música. Mas se você vai embora mesmo, leve pelo menos esse terno de pele de cordeiro. Vai lhe ser muito útil.

O caçula Lobo mal passou um mês fora de casa e já estava sendo investigado por associação ao tráfico – havia sido flagrado na companhia de membros do PCV (Pequeno Chapéu Vermelho) -, e por formação de alcatéia com um parente distante, Lobisomem, uma espécie de lobo negro da família.

Como a paciência dos leitores é mais curta que essa história, lhes faço um resumo: o lobinho pródigo voltou à sombra do pai, que lhe deu seu próprio e digno posto naquela terra. Porém, como o tempo é um coveiro que nunca aprendeu a enterrar o passado, todo o reino ficou sabedor das maracutaias ocultas. Foi assim que El Rey, com seu apego às metáforas, cunhou uma máxima de moral mínima: “Filho de lobão, lobinho é”.

03 março, 2008

De Bach em Bach


O que é um homem sem sua peruca barroca, não? Desprovido desse acessório, Johann Sebastian ficou parecendo o carroceiro da praça em frente da igreja onde tocava. Sem nenhum demérito aos valorosos e anônimos carroceiros de Leipzig.

Na reconstituição do rosto de Bach (confira mais detalhes aqui), parece que o compositor ganhou mais melanina, o que o torna um tanto moreno demais para os padrões germânicos desde sempre. Já pensou, o pai da música erudita-ocidental-cristã não ser tão branco como pintaram? Se isso for verdade, o processo de ‘branqueamento’ dos ícones culturais já vem de longe mesmo. Não faz muito tempo que aqui no Brasil se tinha retratos de Carlos Gomes e Machado de Assis (há outros e muitos) “lavados e enxaguados” em Omo progress do tipo sua pele nunca mais será a mesma.

Também se conta que a Globo embranqueceu Chiquinha Gonzaga naquela minissérie em que a maior compositora popular brasileira foi vivida pelas “morenas” Regina e Gabriela Duarte.

Branco ou moreno, feio ou bonito, também consta que Bach preferiu não seguir a tradição de casar com a filha do werkmeister e organista da Marienkirche de Lübeck para poder assumir esse que era um dos cargos mais concorridos do país. O organista era o grande Buxtehude e, se a filha de Buxtehude pareceu não suscitar em Bach grandes admirações, talvez fosse porque Johann Sebastian já estivesse comprometido com alguém (ou com outro plano profissional), ou não quisesse mesmo se comprometer com tal figura.

Bem, melhor mesmo é procurar ouvir a obra musical de Bach, sem dúvida, um dos cumes do Himalaia artístico e cultural da humanidade.