28 março, 2009

L.I.V.R.O.

Lendo o que Millôr Fernandes escreveu sobre o livro, não sei dizer se rir ou ler é que o melhor remédio. Quando ambos (ler e rir) estão na mesma embalagem a saúde está garantida.

L.I.V.R.O: Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas

É um insuperável conceito de tecnologia de informação. L.I.V.R.O não tem fios nem baterias. Não é conectado a nada e é facílimo de abrir - qualquer criança pode operá-lo. É formado por sequências de páginas numeradas, com milhares ou milhões de informações. As páginas são unidas por sistemas de lombadas, que as mantém automaticamente em sequência correta. Dados inseridos nas duas faces da folha duplicam a quantidade de dados e reduzem os custos. Um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. Nunca apresenta "erro geral de digitação" nem precisa "reinicializado". E a informação fica exatamente no local em que você a deixou mesmo com o L.I.V.R.O fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo sem necessidade de configuração.

20 março, 2009

a adolescentização da música cristã

Para Edgar Morin, o surgimento da ética da adolescência firma valores e preconiza um estilo de vida próprio. Isso não é ruim. Afinal, passaram-se milênios tratando a criança e o adolescente como um adulto em miniatura. Entretanto, a sociedade de consumo tem se modelado pelas aspirações do arquétipo do imaginário da juventude: imediatismo, pouco senso de historicidade, vontade de transgredir e preferência pela cultura do lazer.

A renovada música cristã não ficou imune a essas mudanças e a adolescentização cultural também perpassa as suas formas de composição e divulgação. O gospel tem mirado preferencialmente o público jovem, alvo também da indústria do entretenimento midiático.

Os cantores gospel tendem a reconfigurar os hinos da tradição cristã de uma maneira que, supostamente, a juventude irá preferir. A tendência de formatar um evangelismo digerível para as faixas etárias juvenis pode dotar de relevância e sentido os conteúdos bíblicos. Porém, essa releitura musical tem se pautado primordialmente por estilos dançantes e pop. Como exemplo secular, cito aquela propaganda de refrigerante que faz um arranjo estridente de pop/rock para a belíssima e serena What a Wonderful World (a versão clássica tem a voz rouca de Louis Armstrong, lembrou?). Nos círculos musicais evangélicos, o interpretar dos clássicos submeteu-se a retórica do grito, do ruído e da velocidade.
A fim de não perder o público jovem, os programas gospel de rádio e TV mimam-no com cantilenas pop para ouvir no som do carro e ladainhas infindáveis mas palatáveis. Além disso, a efemeridade confere às novíssimas canções (e a alguns novos cantores) a fama transitória característica da indústria musical pop. Não há, também, resenhas e críticas em revistas ou sites que apontem excessos ou mercantilização: tudo serve para evangelizar e salvaguardar o jovem crente do mundo.

Não estou dizendo que os hinários não contenham algumas melodias esquecíveis e letras empostadas que não falam ao espírito moderno e muito menos quero dizer que o melhor da música cristã foi composto há 150 anos ou que não há lugar para letras simples e facilmente memorizáveis. Nenhum repertório geral está consolidado para sempre. Por outro lado, vale refletir sobre os recentes critérios de elaboração musical que têm reduzido a música sacra a conceitos individualistas de gosto e têm transformado o fator de inovação em uma banalizada estratégia de marketing.

Assim como a superficialidade poética tem substituído a densidade teológica e a teatralidade gestual tem se tornado uma marca pessoal do cantor evangélico, os esforços de comunicar-se com a juventude, se podem dar sentido e relevância aos conteúdos bíblicos tradicionais, em algumas situações também têm se deixado modelar pelos estereótipos da indústria do pop adolescente.

17 março, 2009

cem palavras: fé e música

Minha fé é o grande drama da minha vida. Eu sou um crente, assim canto palavras de Deus para aqueles que não têm fé. Dou canções de pássaros para aqueles que moram nas cidades e nunca as ouviram, faço ritmos para aqueles que só conhecem marchas militares ou jazz, e pinto cores para que não vê cor alguma.

Olivier Messiaen (1908-1992)

12 março, 2009

a função e o lugar do ministério da música

Douglas Reis, jovem capelão em Joinville, comentou alguns aspectos relevantes sobre a função e o lugar da música e do músico nas igrejas cristãs. Selecionei os trechos finais (e em seguida faço meus comentários).

"O movimento adventista entende que sua missão envolve um convite mundial à verdadeira adoração (Ap 14:7). Sugiro que o descarrilamento da música religiosa adventista esteja ligado a dois fatores: (1) o abandono da verdade bíblica do ministro da música, sacerdotes assalariados que oficializavam o louvor no santuário, e (2) o abandono do ministro de seu papel como construtor da base conceitual para a adoração adequada.

"No contexto atual, o ministério adventista carece de atuar no sentido de inserir e fortalecer a visão correta para os adoradores nos últimos tempos.Disto não se infere que o pastor deva substituir o músico ou controlar arbitrariamente a produção musical; mas deve ele formar a base filosófica, por assim dizer, a fim de que o músico, com o conhecimento técnico, componha, traduza, cante, produza, toque, reja, enfim, apresente música aceitável a Deus.

"Entretanto, o ideal seria o restabelecimento gradativo do ministro da música (sacerdotes-músicos), abrindo-se espaço para aqueles que possuem conhecimento teológico e musical atuarem. Se ministros se posicionarem e ministros-músicos surgirem, haverá uma dupla restauração. Assim, mudanças positivas no que se refere à forma de culto se realizarão em cada nível organizacional".

A partir daqui, tomo a palavra:
Sou músico e por isso sempre seria suspeito para levantar a bandeira do ministro de música remunerado. Entretanto, nas palestras que já fiz em São Luís ou Curitiba, sempre falei da falta que faz um serviço musical conduzido por especialistas. Há pastores que não buscar maior compreensão sobre cultura musical e há músicos que negligenciam o estudo que lhes proporcionaria maior densidade teológica. Não se pode exigir de pastores e músicos uma formação sólida em áreas distintas, mas um aprofundamento intelectual traria maior valorização no âmbito de complementaridade que há entre essas áreas.

Costumo defender cursos de formação para o exercício (leigo ou profissional) do ministério da música nas igrejas. O currículo poderia oferecer aulas de regência, canto, história da música sacra, gestão ministerial e noções de sociologia da música (pelo menos).

Já sugeri (como se eu fosse algum notável a ser ouvido) o fomento de atividades para os diretores de música, instrumentistas e cantores semelhante às reuniões trimestrais que preparam leigos para a melhor atuação à frente de cargos como escola sabatina, ancionato etc).

Mas é bom saber que há jovens teólogos/pastores que apontam a necessidade de reordenamento operacional no ministério da música. Só especialistas sérios poderão auxiliar na minimização de conflitos, na qualificação litúrgica, na conscientização da seriedade da função de cantores e músicos.

Aqui, o texto completo de Douglas Reis.

10 março, 2009

everybody loves ronaldo

Imagine o seguinte roteiro:

Terceira cirurgia no joelho, mais de um ano em trabalho de recuperação, especialistas falando em todas as mídias que um certo atleta está acabado para o esporte. Esse é só o mote. Vamos para as emocionantes cenas finais.

Esse atleta amado por uns e criticado por alguns, longe do melhor da forma espetacular de outros tempos, esse quase ex-jogador entra em campo no meio de um clássico. Pra criar mais suspense, seu time está perdendo para o maior rival.

Pois é só entrar em campo e ele já desfere um chute de longa distância: a bola caprichosamente beija o travessão e vai para fora. Foco na torcida, que se acende e pula entusiasmada. Corta para o locutor surpreso, mas garantindo um proverbial “eu já sabia”.

A partida está acabando. Close no suor do esforço do craque, flashback do treinamento duro para conseguir voltar a jogar. Então, no último minuto do jogo, a bola é lançada para dentro da pequena área. Câmera lenta, close no rosto crispado desse atleta. Corta para o zagueiro adversário que sobe para cabecear a bola e não acha nada. O tempo se arrasta como nos bons melodramas do ramo. O atleta sobe e cabeceia.

Silêncio. Não se ouve grito de torcida, de locutor, até a trilha sonora para. A bola entra, é gol. Corta para a corrida do atleta em direção à torcida enlouquecida, seus companheiros correm para comemorar com ele. Close no sorriso do tipo “ele-é-o-cara” do técnico. Jogo empatado. Quem ganha é o craque de volta a sua profissão de vencedor. The end. Sobem os créditos com música triunfal.

Você sabe que estou a falar de Ronaldo e sua volta aos gramados de futebol. Se o que contei fosse um roteiro de um filme, alguém diria: “Que final forçado! Isso não acontece na vida real!” Mas quem viu as tantas vezes em que Michael Jordan resolveu partidas e deu títulos ao time do Chicago Bulls com o cronômetro quase zerado, sabe do que estou falando.

Ronaldo e seus erros fora de campo o revelam como um fenômeno demasiadamente humano. Mas, talvez pelo seu jeitão discreto diante das câmeras, talvez pela sua fala pausada meio infantil, talvez por ter acostumado um país a apreciar suas proezas desde meninote, Ronaldo é mimado pelos brasileiros, sempre prontos a perdoá-lo e torcer por ele, como que a espera de novos feitos.

A vida da gente, entre a ascenção e a queda e uma nova subida, daria um filme. O melhor é que, não importa o roteiro mais surpreendente que se escreva, o roteiro da vida real continua insuperável.
Para outras incríveis histórias que o esporte conta, leia "a esperança é uma bola na área".

Imagem via sergeicartoons.

05 março, 2009

por que ouvir os clássicos?

Erudita também é a música de invenção Herbie Hancock e Hermeto Paschoal, pra ficar em dois músicos com H. Clássico é uma roupa que os compositores eruditos de hoje não vestem, até porque consideram clássico o figurino do regente. Eles fazem música contemporânea. São compositores que bebem em todas as fontes e, após ruminação intelectual, regurgitam novas sonoridades que espantam a platéia de oito amigos e três professores.

Não quero dizer que há sabedoria na multidão de ouvintes da enésima execução da Sinfonia nº 40 de Mozart. Mas é que os clássicos, emprestando uma frase de Ítalo Calvino, ainda não terminaram de dizer o que tinham para dizer. Ao contrário de boa parte da música experimentalista do século XX, que rejeita o juízo de valor, renega a funcionalidade e esvazia o sentido interpretativo, a música clássica suporta as muitas interpretações e continua sendo um porto seguro de escuta.

Enquanto a música erudita contemporânea, sem generalizações, é ouvida num concerto, mas não acompanha o espectador nem até o estacionamento (ou ao ponto de ônibus, no meu caso), os clássicos ressoam pelos corredores da mente por muito tempo ainda. Sei que as sinfonias ímpares de Beethoven são mais admiradas. E destas, por mais que eu me deixe levar pelo canto fraterno e majestoso da Nona ou sempre me surpreenda com a engenharia sonora do primeiro movimento da Quinta (sim, o pam-pam-pam-pam e suas variações milagrosas), é o doce alegretto da Sétima Sinfonia que fala comigo como se fossemos grandes amigos.

Cá com minhas idiossincrasias, à parte a ópera Don Giovanni e o filme Amadeus, quase nada mais de Mozart ou sobre Mozart me fascina. Se bem que tenho na estante um livro comprado em 2006 nos tempos das vacas gordas e que já passou da hora de abri-lo: Mozart – Sociologia de um Gênio, escrito pelo também genial Norbert Elias. Para compensar, Brahms (o lirismo reflexivo da sinfonia nº 3, o quinteto para clarinete nº 115) e sua densidade ecoam inapelavelmente após sua audição. Não recomendo muito mais. Não sou especialista em Brahms (embora cada vez menos, sou defeituosamente generalista em quase tudo).

Stravinski é conhecido pela narrativa instável e surpreendemente atual de A Sagração da Primavera. O que hoje, com a poeira assentada, já se fixou como clássico, foi um dia uma revolução com aqueles compassos retalhados, sobrepostos, percutidos, servindo de base para que Stravinski tomasse nas mãos o odiado intervalo Dó-Fá sustenido e montasse um acorde de Dó Maior tocado simultaneamente ao de Fá sustenido Maior. Experimente fazer isso num piano próximo a você e veja que aquilo só podia dar polícia na estréia.

O pânico que se tinha (e se tem) da percussividade rítmica! Enquanto na Paris de 1913 a polícia apartava a querela entre apupadores e apoiadores da obra de Stravinski, no Rio de Janeiro recebia ordem de prisão quem trouxesse na mão um pandeiro ou um violão.

Hoje é o Dia da Música Clássica no Brasil e estou a falar de forasteiros. É que nunca fui de entrar na procissão nacionalista de defesa da soberania musical. Não acho que a música seja um caso de “verás que um filho teu não foge à luta”. Mas aprecio, e muito, a obra para violão de Villa-Lobos, cujo nascimento foi nesse dia, em 1887. Já não gosto tanto das invencionices das variações de temas folclóricos e muito menos do pavoroso filme que fizeram de sua vida (disso sim, fuja, meu filho!).

Mas vou relacionar algumas obras brasileiras que, se você ainda não conhece, vale como iniciação. Vou pular o haydniano Padre José Maurício Nunes Garcia e as óperas de Carlos Gomes. Não por não serem bons; eles são. Mas vá de Alberto Nepomuceno e sua Sinfonia em Sol Menor; se deleite com as valsas brasileiras para piano de Francisco Mignone; a narrativa orquestral de Tributo a Portinari, de César Guerra-Peixe; a sinfonia nº 5, de Cláudio Santoro. Outros nomes menos, digamos, clássicos ficam pra depois.

Por último, ou se quiser comece com ele, conheça Camargo Guarnieri, cujo primeiro nome é Mozart. E eis um Mozart a ser mais reconhecido. Passeie pelos multivariados Ponteios, são 50, comece devagar com aqueles gravados pela pianista Laís de Souza Brasil; ouça os concertos para piano e orquestra (o de 5 é imperdível); descubra o maravilhoso vigor do primeiro movimento da Sinfonia nº 2 (Uirapuru).

Por que ouvir os clássicos? A riqueza e a excelência dessas obras inesgotáveis respondem.


Serviço:

Hoje, a partir das 21 horas, saiba que a TV Cultura de São Paulo (e também a rádio Cultura FM online) transmitirá o concerto inaugural da OSESP direto da Sala São Paulo, estreando seu novo regente, o francês Yan Pascal Tortelier, após a conturbada saída de John Neschling.

Caso perca o programa da noite de 5 de março, nesse link está a agenda de transmissões do programa Noites Clássicas neste mês de março.

Assista o concerto de abertura da OSESP online no IPTV Cultura.

03 março, 2009

a música por grandes músicos


O dia 05 de março foi sancionado oficialmente como Dia Nacional da Música Clássica. Como estamos na antevéspera dessa nova efeméride tupiniquim, aproveito a ocasião para deixar que os músicos falem da música. Particularmente, não aprecio o termo "música clássica". Fica parecendo uma música congelada no tempo que estará deslocada atualmente, o que é uma inverdade.

"Música erudita" é um termo excludente e até esnobe, que privilegia as formas instrumentais postas na pauta da notação ocidental. E de nota na pauta, já lhe basta esse blog morno que não aquece o pensamento do amigo leitor. Além disso, se a música de Miles Davis, Dave Brubeck, Tom Jobim, Ennio Morricone, Noel Rosa, Paco de Lucía ou a banda de frevo-jazz do maestro Spok não tiverem, a seu modo, um alto grau de complexidade e sofisticação, então não sei mais o que quer dizer "erudito".

Cada um desses termos tem uma explicação para iniciados (inclusive a expressão redutora
"música de concerto"). Deixemos que os músicos falem da música, mesmo porque eles não diziam que estavam compondo música barroca ou romântica ou classicista, salvo os compositores do século XX que reviravam os rótulos e conceitos e se inseriam com prazer dentro deles (pontilhista, serialista, minimalista etc).

Nada pode impedir-me de apreciar e desenvolver tudo o que os grandes mestres deixaram atrás de si, porque não faria sentido para cada um começar do princípio; mas é preciso que seja um desenvolvimento ao melhor nível das minhas capacidades e não uma repetição inútil do que já foi (Felix Mendelssohn-Bartholdy).

As artes são o mais seguro meio de se esconder do mundo e são também o meio mais seguro de se unir a ele (Franz Liszt).

Richard Wagner, no seu estilo totalizante: A música é para as outras artes, no seu conjunto, o que a religião é para a igreja.

A minha ideia é que há música no ar, há música a nossa volta, o mundo está cheio de música e simplesmente cada um tira para si aquela de que precisa (Edward Elgar).

Tudo está escrito numa partitura, exceto o essencial (Gustav Mahler).

Houve e há, apesar das desordens que a civilização traz, pequenos povos encantadores que aprendem música tão naturalmente como se aprende a respirar. O seu conservatório é o ritmo eterno do mar, o vento nas folhas e mil pequenos ruídos que escutaram com atenção, sem jamais terem lido despóticos tratados (Claude Debussy).

Sem revelar que admirável música seria essa (que se parece mais com religião), diz Pablo Casals: A música expulsa o ódio dos que vivem sem amor. Dá paz aos que não tem descanso e consola os que não têm descanso. Os que se perderam encontram novos caminhos, e os que tudo rejeitam encontram confiança e esperança.

Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade, sem esperar resposta.

Se essa última não lhe parece tão boa quanto as citações anteriores, saiba que quem a disse foi Heitor Villa-Lobos, cujo dia de nascimento (5 de março de 1887) foi escolhido para fincar um dia de celebração da música clássica - ou erudita, de concerto, artística; você escolhe.

Citações via Meloteca.