30 abril, 2008

A última lista de cinema


O American Film Institute (AFI) divulgou outra lista de 100 melhores filmes americanos de todos os tempos. É um instituto do cinema anglófono e, assim, ninguém vai encontrar na lista filmes de Kurosawa, Fellini, Truffaut, Bergman ou Buñuel. Mas a lista impressiona pela quantidade de filmes que modelam até hoje a forma de fazer e assistir cinema.

As décadas de 60, com 17 filmes, e a de 70, com 20 filmes, tiveram mais filmes incluídos na lista. Mas o final do século até que não está tão ausente, com 11 filmes dos anos 90. Essa lista não é formada só de arrasa-quarteirões, tipo Os caçadores da arca perdida (nº 66 na lista), mas Steven Spielberg é o cineasta com mais filmes (cinco) na lista, sendo A Lista de Schindler (nº 8) o mais bem colocado.

O cinema americano é um cinema de ação, beijos e risos, às vezes tudo isso ao mesmo tempo. Não por acaso, filmes leves que combinam esses fatores foram os mais lembrados. Se reunirmos as comédias, os musicais, as animações, as aventuras fantásticas, os faroestes, os romances e os thrillers de ação e suspense, veremos que se chega a pelo menos 60 filmes. É claro que uma ficção científica como 2001 – uma odisséia no espaço (nº 15) não é uma aventura espacial como Guerra nas Estrelas (nº 13), nem uma comédia como MASH (nº 54) destina-se ao riso inocente como O Mágico de Oz (nº 10). Mas a aventura filosófico-existencialista de 2001 e a sátira ácida ao militarismo de MASH são a contrapartida mais erudita e politizada da mesma Hollywood.

Hollywood também é a máquina que ergue astros com a mesma facilidade com que os destrói. Cineastas e roteiristas retratavam essa roliúdi falsa e insidiosa ou então adentravam os bastidores do teatro e da TV para criticar as engrenagens do show business. Essa tendência de cuspir no prato que se come (e com todos os méritos) está representada na lista da AFI por comédias aparentemente cândidas como Cantando na Chuva (nº 5), e por dramas como A Malvada (nº 28) e, talvez o maior de todos no tema, Crepúsculo dos Deuses (nº 16). Mas filmes como Nashville, Rede de Intrigas e Cidadão Kane (o eterno nº 1 dessas listas) abordam com menor ou maior ênfase o mundo dos espetáculos. Cidadão Kane? Ora, quer maior espetáculo do que a imprensa?

O filme de guerra é outro gênero bem representado na lista. Se esse gênero é servo da propaganda belicista americana, dos filmes publicitários da II Guerra Mundial aos Rambos e Top Guns da Era Reagan, por outro lado, há filmes que procuraram mostrar o desastre da política intervencionista americana – Platoon (nº 86), O Franco-Atirador (nº 53), - a insensatez da guerra – A Ponte do Rio Kwai (nº 36) e Apocalypse Now (nº 30) ou a difícil readaptação social após a guerra – Os melhores anos de nossas vidas (nº 37). As guerras também servem de pano de fundo para romances – E o Vento Levou (nº 6) e Casablanca (nº 3), e épicos - Lawrence da Arábia (nº 7) é um dos raros filmes em que os árabes têm rosto e personalidade, antes de virarem meros alvos satanizados pelas mãos dos Braddocks do cinema.

A crítica social e política está presente nas discussões sobre o delacionismo (Sindicato de Ladrões), as questões latifundiárias (As Vinhas da Ira), o preconceito racial (O Sol é para Todos, No Calor da Noite e Faça a Coisa Certa), o caos urbano (Taxi Driver), a corrupção política (Todos os Homens do Presidente), a contracultura (Sem Destino), entre outros temas candentes.

Todos esses gêneros e temáticas servem tanto às formulações conservadoras quanto ao pensamento mais progressista, o que desmente a idéia de um cinema americano monolítico e unidimensional e revela a presença de discursos ideologicamente opostos na decantada Hollywood, símbolo de um cinema industrial que "ergue e destrói coisas belas".

Listas sempre são discutíveis, mas podem auxiliar a aumentar nosso campo de visão sobre a arte e a sociedade; depois de conhecer esses filmes cada um pode montar e remontar suas preferências, sendo essa lista uma boa introdução a um cinema de maior qualidade e exigência estética.
A lista completa, com direito a links de sinopses e fotos dos filmes, pode ser conferida aqui. E a foto na cumeeira desse texto é de Tempos Modernos, classificado em 78º lugar na eleição da AFI, mas que é o primeiro na minha lista pessoal.

26 abril, 2008

O ouvido "escutante"


“À você, possuidor de um cérebro de aço e uma fria e inquebrantável vontade (garantias de sua influência no século XX, agora e depois), à você eu confesso que não penso mais em termos musicais, ou pelo menos não muito, embora eu acredite com todo meu coração que a Música sempre permanecerá como o mais refinado meio de expressão que temos. É que simplesmente acho as peças – se velhas ou modernas, de qualquer forma é só uma questão de datas – totalmente acometidas de pobreza, manifestando uma falta de habilidade de ver além da mesa de trabalho. Elas cheiram à lâmpada, não à sol... Sinto que, sem descer ao nível das colunas de fofoca ou das novelas, o problema pode ser solucionado de algum modo. Não há necessidade de fazer música para pensar!... Seria suficiente se a música pudesse fazer as pessoas ouvirem...”

- carta de Debussy a Paul Dukas, 1901


Antes do e-mail usava-se o meio epistolar para comunicar-se à distância. Bem antes da geração MySpace, escrevia-se uma missiva com papel e tinta e os nomes de Debussy e Dukas eram famosos na virada do século. Hoje, Claude Debussy pode ser ouvido na cena final do filme 12 Homens e um Segredo (na cena das fontes é Clair de Lune que se ouve ao fundo), e Paul Dukas comparece na melhor seqüência de Fantasia – a mágica se volta contra Mickey ao som de Aprendiz de Feiticeiro.

Dukas baseou-se em uma narrativa de Goethe sobre um jovem feiticeiro que tenta fazer com que vassouras encham baldes d’água, mas o resultado é o feitiço voltando-se contra o feiticeiro. A peça é cheia de humor e virtuosismo orquestral e funciona bem na animação de Disney, em que a direção musical é do maestro Leopold Stokowski.

Debussy construiu sua magnífica obra, chamada de impressionista, criando novos modos de orquestração que revelavam efeitos sonoros originais. Ele não procurava pintar um retrato objetivo do mundo, mas parecia elegantemente sugerir nuances, provocar o imaginário, suscitar atmosferas. A tradução de títulos de suas peças podem revelar sua intenção de retratar algo que escapa ao tato e à visão, aos sentidos mais diretos, enfim, parecendo sempre flutuar no intangível: Nuvens, A Catedral Submersa, Diálogo do vento e do mar, Estampas, Imagens.

A obra desses dois compositores mantém a comunicação com o público contemporâneo, talvez porque o estilo de ambos não está associado ao cerebralismo que Debussy enxergava nas peças de outros colegas. Isto é, ele percebia que as peças de alguns músicos eram pobres porque manifestavam a luz da mesa em que trabalhavam e não a luz do sol ou da lua, estas sim, capazes de revelar um músico imerso em sentimentos e sentidos mais vívidos e mais espontâneos. Essa busca pela expressão de uma imagem poética (romântica?) foi deixada de lado e novos tempos exigiam novas idéias musicais, sendo que nem todas essas novas músicas apreciamos como deveríamos e nem todas são tão boas como se quer que acreditemos.

Há música demais no mundo, hiperabundância de música; quem precisa de tanta música? Por isso, é atualíssima a preocupação de Debussy quanto à tendência de se fazer música para pensar, quando ainda nem se aprendeu a ouvir. Ou, o excesso de música está inibindo a capacidade de ouvir algo além de música.

A seguir, Claire de Lune com arranjo para orquestra de Leopold Stokowski.


17 abril, 2008

Deus: crer ou não crer


Deus existe? A maioria das pessoas acredita que sim, mas dentro dessa maioria há grupos que pouco se importam com os fundamentos bíblicos do cristianismo e outros que se importam tanto com os dogmas que se esquecem de ser cristãos; há aqueles que invocam Jeová para praticar atrocidades e aqueles que invocam a Deus para que os defenda de tamanhas atrocidades. Por tudo isso, não é de espantar o crescimento do grupo dos que declaram não ser adeptos de nenhuma religião (de 3% em 1990 saltaram para 7% em 2007)1. Pelo menos é o que se responde na hora fria da entrevista do pesquisador do IBGE, em horas menos incertas, não se sabe qual seria a resposta.

Discute-se hoje o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Há 200 anos, bem poucos negariam a criação de Adão e Eva, o dilúvio, a travessia do Mar Vermelho, a batalha de Davi e Golias, a ressurreição de Cristo, o apocalipse, o fim e o recomeço, o Alfa e o Ômega. Entretanto, como percebe o sociólogo Fredric Jameson, as histórias da Bíblia, nos dias de hoje, não são mais tomadas literalmente, mas figurativa e alegoricamente, e assim são “destituídas de seu conteúdo exótico ou arcaico, cuja linguagem e figuração essencialmente abstratas (ansiedade, culpa, redenção) podem agora... ser oferecidas ao público diferenciado de habitantes das cidades do Ocidente para serem recodificadas em termos de suas próprias situações privadas”2

Há também pessoas que acham que Deus é um ser conveniente demais para ser de verdade e que, com tantos motivos para inventá-lo, Ele não passaria de uma invenção humana. Porém, não será a crença na não-existência de um plano de salvação da humanidade que parece conveniente? Explico por quê. Sem a possibilidade de ser julgado por seus atos e por sua fé, muitos adorariam fazer o que bem entendem da vida (e já não o fazem?) sem ter que dar explicações a nenhum ser sobrenatural e estraga-prazeres. Parafraseando Luc Ferry, seria o caso apenas de tomar o que esse mundo individualista oferece de melhor e começar a corrigi-lo com umas boas doses de humanismo. Nenhum céu a perder, nenhuma eternidade a ganhar. Para estes, o sentido da vida é que a vida não teria sentido. Muito conveniente, não?

Há outro grupo de não-crentes: os que fazem questão de erradicar a religião. Em entrevista a The New Republic, o escritor Ian McKewan falou de seu ateísmo e disse que a idéia de suprimir a religião é terrível. sua frase parece mais sensata em tempos dos exterminadores Dawkins, Hitchens e cia, pregadores fundamentalistas de uma retórica anti-religião. Estes são denominados “brights” e renegam qualquer pensamento de explicação sobrenatural da história do universo e do homem. Alguns deles, como Daniel C. Dennett, em Quebrando o Encanto, considera impossível o convívio entre ciência e religião, como se o indivíduo não pudesse conciliar ambas. Hitchens, em Deus não é Grande, é um polemista, e como tal, chega a apregoar a irrelevância do cristianismo na tradição cultural da humanidade. Bem se vê que na luta para suprimir a fé e eleger exclusivamente a Razão, pode-se perder a razão.

Sobre um personagem de um conto em Ficções, Jorge Luis Borges diz que “Buckley não acredita em Deus, mas quer demonstrar ao Deus não-existente que os homens mortais são capazes de conceber um mundo”. Interpreto essa frase como dirigida ao grupo daqueles que até crêem na existência de Deus, mas prefeririam que Ele não existisse, pois seria um "obstáculo" aos seus planos de vida. Os manuais do ateísmo e do agnosticismo estão disponíveis nas estantes e mesmo debaixo do braço de alguns discípulos, como se fosse uma Bíblia às avessas, pronta para ser sacada pelos Buckleys de hoje nas situações em que precisam "provar" que Deus não existe ou que as coisas não são bem assim como Moisés, Lucas e João contaram. Como escreve João Pereira Coutinho: “Acho estranho que um ateu se preocupe com aquilo que, para ele, não existe. Nada é mais estranho do que um ateu convicto que não acredita em Deus e abomina Deus”.

Por fim, há outro grupo: é o daqueles que não viram, mas crêem. Daqueles que em pleno terceiro milênio mantém um estilo de vida respaldado em um livro mal-interpretado, reprimido, mas incrivelmente capaz de fazer refletir e mudar histórias pessoais ainda hoje. A despeito de alguns denominados cristãos envergonharem a fé que dizem professar ou da mídia ocultar os bons cristãos, se alguém chegar a perguntar se é possível ainda haver fé na terra, pode apostar que tal pessoa não conhece ou finge ignorar outros modelos de viver o cristianismo, com inteligência e fé, dignidade e esperança.
Nem todos os ateus nos apontam o dedo no rosto e nem todos os cristãos ficam exaltados quando alguém não concorda com o que dizem. A vida é complexa, e Deus, o Deus de "todo aquele que nEle crê", é um Ser simples e complexo ao mesmo tempo. E todos, em algum momento de suas existências, se vêem diante da chance de escolha entre o Deus vivo de Pedro e Paulo e o Deus não-existente de Marx e Nietzsche.


1- Pesquisa Datafolha, abril de 2007.
2- Jameson, F. Pós-modernismo, 1997, p. 387.

11 abril, 2008

Notas semínima noção

O que o garoto do quadro ao lado vai ser quando crescer? Músico é que não vai querer ser. Ou então já é o músico mais tímido de todos os tempos. Não se espera, hoje, que um professor vá colocar seu aluno nessa posição, a menos que queira castigar o garoto. Pode ser que ele tenha aprontado uma como a daquele moleque que chegou pra aula de violino e o professor lhe pergunta: “Estudou as duas peças que lhe passei?”. E o garoto, pimpão: “Claro que sim”. Foi quando menino viu, estirado num canto, o violino que tinha esquecido em sala na aula passada.

Jorge Coli coletou algumas “peças” musicais no Caderno Mais da Folha de S. Paulo. Cá por mim, não sei dizer se as frases a seguir são de autores que não levaram a sério os estudos ou que não levam a sério a internet. Ou as duas coisas.

Bach está morto desde 1750 até os dias de hoje.

Ópera é uma canção que dura mais de duas horas.

O Bolero de Ravel foi composto por Ravel.

A harpa é um piano pelado.

Mozart morreu jovem. Sua maior obra é a trilha do filme Amadeus.

Os maiores compositores do Romantismo são Chopin, Schubert e Tchaikovski. No Brasil, são Roberto Carlos e Daniel.

Meu compositor preferido é o Opus.

Carmen é uma ópera e Carminha Burana é sua filha.

John Cage inventou os 4 minutos de silêncio.

Há uma espécie de Corais feitos por Bach, que se chamam Florais e são usados como remédios milagrosos.

Messias é uma missa de Handel cuja originalidade é ter muitos aleluias.

As Fugas de Bach são famosas porque ele não queria ficar preso em nenhum sistema.

Música atonal é aquela sem som ou que explorou o não-som, mais ou menos quase um anti-som. Seus mais importantes criadores são da família Berg: Schoenberg, Albanberg e Weberg.

E assim caminha o anedotário (involuntário?) do mundo da música. Você conhece mais algum?

07 abril, 2008

"Escolhi Acreditar": fé e razão

A canção "Escolhi Acreditar", letra de Mário Jorge Lima e música de Lineu Soares, foi gravada há dez anos, creio eu, mas é interessante constatar sua capacidade de manter-se atual. E esse talvez seja o primeiro ponto que pode ser ressaltado aqui: a capacidade que tem uma canção de manter-se relevante para uma geração acostumada a trocar de música preferida tão rapidamente. A letra aborda a fé religiosa no cenário moderno, em que os apóstolos da descrença tentam opor fé e razão, religião e ciência. Esta canção procura responder poética e teologicamente ao dualismo da religião da fé e da religião do humanismo.

Modernas teorias, novas formas de pensar
Existem por aí nos meios intelectuais
Que vão do ateísmo mais profundo e radical
Até o humanismo com tinturas sociais

Os versos acima não são comuns na música cristã contemporânea. São poucos os letristas que conseguem reunir termos como “modernas teorias” e “ateísmo” em tão poucas linhas. “Humanismo com tinturas sociais”? Missão quase impossível. Um verso diz que tais teorias nascem nos meios intelectuais, mas isto não é um sinal de antiintelectualismo do autor. O autor nota que a filosofia e a ciência podem às vezes funcionar como uma fachada para a criação de preconceitos ideológicos provenientes de um intelectualismo que aposta suas fichas num antropocentrismo estéril.

E hoje mesmo a crença tenta se modificar
E quer que o homem seja o fim da sua pregação
Senhor dos seus problemas, dos seus sonhos e ideais
Buscando aqui e agora a total libertação

John Carroll descreveu o humanismo como uma idéia de auto-suficiência humana e o estabelecimento de uma ordem inteiramente humana na terra, “em que a liberdade e a felicidade prevalecessem sem quaisquer apoios transcendentais”, ou seja, “o homem é todo-poderoso, se sua vontade for suficientemente forte”.

No entanto eu escolhi acreditar
Que existe um plano para a salvação
E que há um Deus no céu a governar o meu viver
Mas que me dá poder até pra aceitá-lo ou não
O seu reino é liberdade é amor
Espera sem forçar a decisão
Ele é descomplicado, não confunde o pecador
E fala tanto a minha mente como fala ao coração

Nessa parte, o corte é radical. A declaração de fé não surge como resultado de manipulação sobrenatural ou adesão interesseira. É uma escolha que assinala o instante em que a razão da mente une-se às razões do coração – parafraseando Descartes, a letra parece dizer que “a fé tem razões que a própria razão desconhece (fala tanto a minha mente como fala ao coração). O autor insiste em cantar que o Deus no qual escolheu acreditar é o Deus da liberdade pessoal: espera sem forçar a decisão, o que faz lembrar dos versos bíblicos “O Senhor... espera pacientemente pelo arrependimento” humano.

O ser humano hoje só volta para si
Buscando atender necessidades essenciais
Mas sem levar em conta que há uma vida superior
Que poderá suprir os seus anseios mais reais

Cada vez mais o ser humano parece perder um sentido teleológico da vida, de que sua existência possui uma finalidade ou de que a história terrestre destina-se a uma resolução última de todos os conflitos entre o Bem e o Mal. Assim, perdida a esperança, os homens se voltam para realização dos desejos acreditando que não têm mais do que esta vida, e a despenderão em agrados pessoais. O sociólogo Zygmunt Bauman afirma que a inquietação a respeito da eternidade foi retirada da agenda humana, ou que a agenda da vida está sendo elaborada “de tal modo que pouco ou nenhum tempo foi deixado para cuidar de tais inquietações”.

E há os que procuram tudo racionalizar
Só crendo no que a ciência e a cultura podem ver
Querendo um milagre pela lógica explicar
Se fecham para as coisas do espírito e da fé

Aqui, a letra aborda a falsidade da oposição entre ciência e religião. Porém, ambas podem ser distintas, mas não precisam ser excludentes. Vale ressaltar como o ateísmo proselitista de Dawkins e Hitchens menciona o pior da religião: o autoritarismo, a perseguição religiosa e política, a manipulação da boa-fé (esses termos podem ser ligados à democracia e ninguém dirá ser a favor da eliminação da democracia). E de outro lado, esses e outros autores furtam o melhor do cristianismo – tolerância, perdão, justiça, ética, liberdade de consciência – e procuram temperar sua receita de lógica humanista fechada para as coisas do espírito e da fé.

No entanto eu escolhi acreditar
E esperar assim em meu Jesus
Filósofos e mestres nunca irão avaliar
Aquilo que o amor de Deus mostrou na cruz
O meu Deus é poderoso e é real
Só nEle eu encontrei, enfim, perdão
Prefiro depender de sua força sem igual
E quero ter, então, por Ele transformado o coração

O autor, enfim, elabora uma lista de motivos de sua escolha:
O filosoficamente imensurável amor divino aceito pela fé;
A cruz como símbolo da redenção da humanidade;
A transcendência onipotente (o meu Deus é poderoso) e a imanência da presença de Deus (e é real);
O perdão como parte integrante do caráter de Deus;
A submissão do homem ao amor e poder divinos (prefiro depender...)
A conjunção entre anseio humano por ser transformado e a capacidade divina de graça transformadora.

A música separa as regiões vocais médio-graves para as estrofes onde a letra aborda os contrapontos ideológicos e filosóficos da cultura moderna em relação às escolhas da fé. A melodia sobe para regiões mais agudas quando pretende marcar as razões das escolhas da fé. Música e letra são compatíveis com a temática, equilibrando erudição e simplicidade no tratamento dos temas melódicos, poéticos e teológicos.

ATUALIZAÇÃO

O autor da letra de "Escolhi Acreditar" é Mário Jorge Lima e não Valdecir Lima, como escrevi no post acima. Nem mesmo o sobrenome semelhante, nem a histórica parceria com Lineu Soares ou a estatura poética de ambos os letristas justificam essa infração grave. Graças ao controle de qualidade exercido pelas pessoas que lêem esse blog já providenciei as correções.