11 outubro, 2013

existe mesmo um louvor que agrada a Deus?

Já li textos sobre música sacra que me dão a impressão de que o autor tem a fórmula da música que agrada a Deus. Uns garantem que só os hinos antigos sem acompanhamento de guitarras ou percussão podem agradar a Deus. Outros, que qualquer sonoridade contemporânea é capaz de agradar a Deus.

O que nenhum desses lados refletiu é que a postura de agradar a Deus com esse ou aquele tipo de música não possui nenhuma base bíblica.

Segundo um texto de recorte bem tradicional, o cristão deve louvar a Deus mesmo com uma música da qual não gosta e considera ultrapassada, tediosa e formal. Então o louvor é um sacrifício, talvez com duplo sentido: uma tortura para quem canta, ou para quem ouve uma música da qual não gosta; e um sacrifício de louvor capaz de agradar a divindade. Esse último sentido (sacrifício para agradar a divindade) me parece muito próximo da magia, a qual, de acordo com alguns pensadores (Durkheim e Weber incluídos), difere na religião.

Na magia, o sacrifício é usado para constranger a divindade a realizar os desejos humanos. Na Bíblia, nos tempos em que havia sacrifício de cordeiros, esse ato não tinha o objetivo de aplacar a ira divina, mas de estabelecer um sinal de que um sacrifício futuro sepultaria todos os sacrifícios: a morte de Cristo, como um tipo de “Cordeiro que tira o pecado do mundo”.

O louvor, portanto, não seria um sacrifício (a não ser quando a congregação é torturada com hinos que considera tediosos ou com as tediosas repetições ad infinitum de um refrão gospel).  O louvor musical é uma resposta humana aos atos de Deus, e não um sacrifício para agradar ou constranger a Deus.

Ao analisar o conteúdo bíblico a respeito de louvor e adoração, não encontrei nenhuma referência ao gênero especial de música que agradaria a Deus. Contudo, há bastante menção à atitude de quem louva a Deus. Certas passagens bíblicas recomendam que o louvor seja feito com
- “júbilo e com arte” (Salmo 33:3),
- com “espírito e entendimento” (I Coríntios 14:15),
- sem hipocrisia (Amós 5:23 – “afastai o estrépito de vosso cântico, porque não ouvirei a melodia de tuas violas”, a não ser que “corra a justiça como as águas”).

Nenhuma menção sequer a estilo musical.

O que alguém pode inferir, então, é que toda forma de louvor é válida. De fato, nada parece contrariar esse pensamento, a não ser o bom senso de que a ausência de regulamentação bíblica para o estilo musical não significa ausência de critérios para o louvor.

E onde estariam então esses critérios? Alguns deles estão na carta do apóstolo Paulo aos coríntios. Ele escreveu que “todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam” (I Coríntios 10:23). Me parece que não há desaprovação bíblica para nenhum estilo musical, mas há uma advertência em relação à adequação ou conveniência do estilo. A preocupação do cantor, então, deveria ser a mesma que a do pregador: edificar a igreja.

Num culto coletivo, nem sempre há um subgrupo social em destaque, mas sim a presença mista de várias gerações e faixas etárias. Há também nas congregações gostos e comportamentos musicais que têm menos a ver com conversão pessoal e mais com distinção de tipos de instrução e cultura.

A conclusão lógica é de que não é possível agradar a todos de uma vez. De fato, mas usar essa conclusão para assegurar o predomínio ou de músicas antigas ou de cânticos recentes não é bíblico. Como assim não é bíblico?

Volto a Paulo: “Ninguém busque seu próprio interesse, e sim o do outro” (I Coríntios 10:24). Descontando o fato de que ainda assim não vai haver unanimidade, a busca por agradar o gosto musical e cultural da congregação de forma geral, e não particularizada, é um bom princípio.

No entanto, Paulo amplia esse pensamento em carta aos crentes de Éfeso: “Enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5: 18-21).

Os cristãos não discordarão de que a sujeição de “uns aos outros no temor do Senhor” é um princípio incontestável. Nesse sentido, pode existir um louvor que agrada a Deus. Ora, se Deus estiver rodeado de anjos que O louvam continuamente, me parece que Ele tem a Sua disposição um louvor bem superior aos dos humanos. Talvez essa seja uma das razões pelas quais Ele olha a atitude de quem O louva e não para o estilo do louvor.

O louvor não é um sacrifício. O que se sacrifica é o “eu”, o gosto pessoal, no púlpito que serve para glorificar a Deus e edificar a congregação. É no altar da sujeição de uns aos outros que os mais velhos aceitam os novos sons e os mais novos não desprezam a tradição.