24 fevereiro, 2010

jovens, belos e mortos

Não é de hoje que a juventude tenta eternizar-se morrendo em plena flor da idade. Lord Byron já preconizava: morra jovem, viva para sempre. Nos anos 60, o hit da banda The Who proclamava “I hope I die before I get old [espero morrer antes de envelhecer]”. Essa canção tem o emblemático título My Generation.

O poeta morto aos 37 anos, Arthur Rimbaud, é também símbolo do artista que "extrai a rica seiva da existência vivendo intensamente toda a loucura da vida", ou então, só vivendo la vida loca. Acho que foi outro poeta, Paulo Leminski, que disse que se Rimbaud vivesse hoje ele seria um roqueiro. Difícil discordar em face de tanto roqueiro amargurado que anda nas cabeças e anda nas bocas das velhas e novas gerações.

O mundo tem visto algumas dezenas de artistas rimbaudianos (e também algumas centenas de suicidas medíocres) levados inexoravelmente pela morte mitificadora, seja no front de batalha, como o poeta romântico inglês Byron; seja em tragédias na estrada, como o ator James Dean e o cantor Francisco Alves, ou no ar, como Richie Valens; seja por meio da preferência dos ídolos jovens, a overdose, e aí a lista é grande.

Quando Goethe publicou Os sofrimentos do jovem Werther, em 1774, os jornais passaram a registrar um aumento no número de casos de suicídio de gente na flor da idade. Tirar a própria vida lhes servia de último bilhete amargo de não-conformismo em relação à sociedade do fim do século 18. Era o mal de fim de século.

É claro que o charme wertheriano tem se tornado algo mórbido, daí que autoassassinar-se num rompante desesperado, como Kurt Cobain e Sarah Kane, pode ser menos socrático que tomar uma taça de cicuta, porém seria mais dionisíaco, diria Nietzche.

O mal de fim de século 20 foi a AIDS. Logo apareceria quem dissesse que isso era castigo para os impenitentes roqueiros, que queriam abraçar Deus e o mundo, ou só o mundo. Renato Russo e Cazuza, consideradas as maiores forças da poesia do rock made in Brazil nos anos 80, não abriam mão da liberdade individual movida a hedonismo, contestação e autodestruição.

O suicídio de um popstar no auge na fama é tão difícil de entender quanto a celebridade que brigou pelo reconhecimento público e depois de alcançar a fama põe óculos escuros e peruca para não ser reconhecida.

Talvez ao ver certas estrelas cadentes encurtando a carreira (não raro, por causa de outro tipo de carreira), como Whitney Houston, os astros que atingem o sucesso, com medo da morte em vida, partem logo deste mundo cruel. Para eles, o problema não é lidar com o fracasso. O problema é lidar com o sucesso depois que se alcança sucesso.

A busca de prazer, o fascínio das drogas, o isolamento social: máscaras para esconder o verdadeiro eu que não consegue lidar com o sucesso ou com o fracasso pós-sucesso. Às vezes, só o artista sabe quem ele mesmo é de fato, e vê o circo de fãs, produtores e shows como um engodo. Ele não é capaz de se enganar por tanto tempo. Às vezes, seus amigos sabem quem ele é de fato, e o veem como uma ilusão insustentável. Outras vezes, o público descobre quem o artista é de fato – um ser humano feito da mesma matéria comum que o próprio público – e vai embora em busca de outro engano.

Os filmes sobre esses artistas seguem o que o Ministério dos Roteiros de Roliúdi adverte: são “baseados numa história real”, geralmente mais baseados que história real. As cinebios de Ray Charles, Johnny Cash e Cazuza são contadas invariavelmente assim: artista-incompreendido-que-se-autodestrói-mas-encontra-paz-interior. Se assim foi, que bom para eles, não? Triste é morrer sem acertar as notas promissórias assinadas nas folhas da própria consciência.

10 fevereiro, 2010

cem palavras: o tempo e o dever

Há algo mais necessário hoje do que o uso sábio do tempo? Para tudo temos a resposta pronta "Não tenho tempo". Nunca temos tempo para nada porque o tempo nos tem. A falta de tempo não janta com os amigos nem folheia livros grossos; a falta de tempo não brinca de carrinho no tapete, o que torna o pai mais íntimo do William Bonner que dos filhos.

Há mais necessidade de gente que, mais do que cumprir dignamente o dever, cumpra deveres dignos. É o que aprendo com Hillel:

Se eu não for por mim, quem o será? E quando sou por mim, o que sou? E se não for agora, quando será?

Não digais, quando eu tiver um tempo livre, vou estudar - talvez, jamais tereis um tempo livre.

Onde não houver homens, esforçai-vos para agir como um homem.

E para quem tem muita iniciativa no tempo, mas pouca "acabativa" no dever, servem as palavras do rabino Tarphon:

Não sois obrigado a concluir a obra, mas tampouco estais livre para desistir dela.

08 fevereiro, 2010

pragmatismo ou PRAGAmatismo?

Há um argumento no livro Joyful Noise, de Ed Christian, sobre a música cristã contemporânea, que pede uma reflexão: a música não deveria ser julgada por gostos pessoais, mas pelos seus frutos espirituais.

Podemos ler esse argumento de dois modos. Um, pela perspectiva pragmática que parece endossar. Dois, pela modernização das estratégias a fim de tornar relevante e significativo a “velha e feliz história” às sociedades modernas.

Ações pragmáticas não são intrinsecamente ruins. Elas se tornam contraproducentes quando os meios utilizados para chegar ao fim distorcem o padrão de interpretação bíblica (no caso específico, o padrão teológico adventista). Para pensar antes do culto: a visão utilitária da música como ferramenta de evangelização encontra respaldo teológico, é uma estratégia de sobrevivência no mercado das religiões ou apenas atende a procura de gratificação e liberação das pessoas?

As escolas adventistas existem para quê? Existem não somente para dar aos filhos dos membros da igreja uma educação escolar pautada pelos princípios que a igreja advoga, embora muitos dos membros que podem não queiram, e muitos que querem não podem. Existem também para revelar a mensagem bíblica de salvação. Isso é ou não é pragmatismo?

Os hospitais adventistas existem para quê? Repito a resposta acima substituindo educação por atendimento clínico. Por sua vez, o Natal é devidamente cristianizado pelo desejo de alcançar pessoas que se mostram mais suscetíveis ao evangelho nesse período do ano.

No entanto, a escola não vai adotar o evolucionismo só para atrair novos alunos. A escola ensinará as teorias do evolucionismo, mas não as defenderá em detrimento do criacionismo bíblico. Não é porque se respeita o feriado junino e os brincantes dos festejos que festas juninas serão realizadas com boi-bumbá, quadrilha e fogueira no pátio dessas escolas. O pragmatismo precisa ter limites ou se derrapará para um “vale-tudo” criticado até porque não é cristão. Sem limites e reflexões a respeito, o pragmatismo vira PRAGAmatismo.

Algumas igrejas adventistas costumam fazer confraternizações em espaços adjacentes (pátios cobertos ou salões de jovens). Almoço ou jantar, se é um evento oficial que envolve os membros e convidados, o cardápio é via de regra vegetariano. Embora nem todos os membros sejam adeptos desse regime alimentar, a igreja segue o princípio geral que sustenta enquanto instituição.

Na música sacra não há um princípio tão claro quanto há nas recomendações alimentares e educacionais. Talvez porque a dinâmica da evolução musical ocorra de forma diferente em relação às funções do corpo humano e às estruturas do saber humano. Caso contrário, a Bíblia traria referências explícitas ao modo de compor. Contudo, nem os escritos de Ellen G. White, que fundamentavam biblicamente a interpretação adventista sobre vários temas, revelam quais os acordes que servem ou não à liturgia ou citam nominalmente os estilos mais adequados.

Vemos, porém, que o princípio de unidade congregacional permeia os eventos oficiais da igreja, e as estratégias de escolas e hospitais buscam o respeito à visão institucional.

No tocante à música congregacional dos cultos (a doxologia que envolve entrada do pastor e das pessoas que comporão a plataforma, o ofertório, as mensagens musicais, incluindo as músicas de apelo, os momentos do canto congregacional ou louvor, a música de saída do templo), as pessoas que fazem parte do ministério da música precisam visar a igreja como um todo, e não como grupos heterogêneos de gostos musicais.

É a comunidade (adventista) que está em adoração; não é meu gosto musical que está sendo adorado. Se é a comunidade reunida é adventista, não há razão para cantar, nesses momentos específicos, músicas extremamente associadas com o formato "louvor & adoração" da moda. Não porque alguns pensem que são canções doutrinariamente pobres ou musicalmente repetitivas. Esse argumento apenas reflete o infeliz senso de superioridade musical de alguns.

O argumento correto é o de unidade congregacional. Não é hora para associações religiosas inoportunas nem para inovações irreverentes ou que venham a constranger uma parte que seja da igreja.

Ok, os mais velhos são mais rapidamente constrangidos, mas apesar de ser impossível agradar a todos, a maioria conhece a forma adequada de celebrar em conjunto. Isso não quer dizer que só as músicas com mais de 100 anos devem ter preferência. Como exemplo, nos cultos matutinos do sábados, considerado o culto central da igreja, pode-se alternar hinos vibrantes ou meditativos, mas não de funeral, você sabe, com músicas contemporâneas dos CDs do Ministério Jovem, não as mais animadas, você sabe, e ainda com canções conhecidas de grupos e cantores da igreja.

Nem funeral nem oba-oba. Os extremos levam ou ao formalismo estático ou ao êxtase informal. Deus é Senhor mas é Pai. Jesus é o Salvador mas é Amigo. Mas nem o Pai nem o Amigo são colegas de recreio.


04 fevereiro, 2010

clima: é 8 ou 80

Em São Paulo, são as águas de março (e janeiro e fevereiro) fechando o verão e o trânsito. O prefeito Gilberto Aquassab resolveu encomendar o mais novo meio de transporte para a cidade, bem mais adequado às intempéries da trovejante briga entre São Pedro e São Paulo:




Fotos cortesia amigos do Outra Leitura via e-mail.

O clima está 8 ou 80. De Curitiba à Porto Alegre, passando por Indaial (SC), o povo está que não se aguenta de calor na sauna sulista.


Charge by Kayser.

03 fevereiro, 2010

tempos modernos: modo de usar



Quantos espectadores que veem o título Tempos Modernos, em vez de lembrar-se da telenovela global homônima, saberão que se trata também de uma obra-prima de Charles Chaplin?
E quantos (menos ainda, certamente) que assistem a Viver a Vida sabem que esse é também o título de um admirável filme de 1962 do francês Jean-Luc Godard?
Ninguém é menos feliz por não saber de uma coisa ou de outra. Conheço gente mais feliz e mais saudável que não lembra nem do título de todos os filmes que assistiu quanto mais dos nomes dos diretores.
A questão é outra. É notar como uma mensagem dotada de significado próprio pode ser tomada apenas em sua configuração superficial quando adaptada para outro meio ou para outro formato, revelando-se uma mensagem de segunda potência. “Mensagem de segunda potência” é como Umberto Eco denomina o resultado das produções da mídia que tomam uma referência particular e moldam-na de acordo com uma nova significação, geralmente com uma função consolatória e distante do original.
O filme de Chaplin, por exemplo, faz uma sátira da ideia de progresso tecnológico como progresso humanístico. As desventuras silenciosas de Carlitos são um grito contra a opressão patronal e a mecanização do trabalho. Suas peripécias são entremeadas com um humor terno e popular que são a marca do gênio de Chaplin.
A telenovela, por sua vez, não extrai apenas o título e a vontade de fazer rir com o uso da tecnologia (há um supercomputador falante) e ainda dilui o pensamento da obra original. Há trama; mas há concisão? Talvez haja risos, mas há reflexão? Talvez haja drama, mas há delicadeza?
Novelas, dizem, foram feitas apenas para o entretenimento do trabalhador fadigado após mais um dia extenuante de labor. O corpo cansado, insistem, não tem neurônios para maiores elucubrações. Ah, é? Então porque é que nas férias o mesmo trabalhador não está mais disposto a exercícios intelectuais do que antes?