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Mostrando postagens com o rótulo cinema e religião

O Silêncio, de Martin Scorsese

O jovem padre Sebastião Rodrigues (vivido pelo ator Andrew Garfield, de Até o Último Homem ) viaja para o Japão do século 17 a fim de descobrir o paradeiro do padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson). Correm boatos de que o padre Ferreira apostatou após várias horas de terrível tortura. Ao ver com seus próprios olhos a feroz perseguição aos cristãos japoneses e missionários europeus, Rodrigues começa uma viagem para dentro de sua própria fé, vivida agora em meio à dúvida e à tortura: por que Deus está em silêncio? Essa viagem existencial e espiritual é contada sem pressa e com muita consistência pelo cineasta Martin Scorsese, dando tempo para o espectador acompanhar como o padre Rodrigues é obrigado a esconder sua fé, para não trazer morte cruel aos fiéis, e a calar sua dúvida, para não se abater pelo desespero. Rodrigues é delatado às autoridades e descobre seu próprio Judas, o japonês Kichijiro, homem que viu sua família inteira executada na fogueira, e que vive atorm...

a teologia em Batman vs. Superman

Alguns críticos têm apontado que os super-heróis estão substituindo Deus na mentalidade contemporânea. Esse pessoal ainda crê piamente que, depois de um filme do Superman , os espectadores sairão mais descrentes na Bíblia, mais crentes no super-herói, e com uma louca vontade de comprar pipoca e coca-cola. O Superman não está substituindo Deus. Nem se trata de substituição, mas de metáfora. Sim, uma metáfora como as crônicas de C. S. Lewis e a Terra Média de Tolkien. Nem toda metáfora do cristianismo é coerente ou convincente, mas é fato inegável que as pessoas gostam de narrativas, símbolos, parábolas, metáforas, enfim, de boas histórias que recontem suas histórias preferidas. Outros críticos disseram que os novos heróis são os antigos deuses gregos repaginados. No entanto, um ateniense - ou um romano - não aceitaria um deus que habita entre os humanos e que ainda dá a vida por eles. O filósofo Lucien Jerphagnon ressaltou a constatação do apóstolo Paulo de que Cristo era l...

a fé e o amor se encontraram no cinema

Por que os filmes só mostram cristãos fanáticos?, me perguntou um amigo. Acho que pela mesma razão pela qual os filmes evangélicos só mostram ateus arrogantes: a necessidade de estereótipos, foi minha resposta. Do mesmo modo que o cinema evangélico parece desconhecer a existência de vida feliz e digna entre ateus, o cinema hollywoodiano faz pouco caso da existência de vida inteligente e sensata entre cristãos. Por isso, a raridade de um filme como A Força do Carinho ( Tender Mercies ), dirigido por Bruce Beresford e com roteiro premiado de Horton Foote. No filme, o grande Robert Duvall, em papel ganhador de um Oscar de melhor ator, vive um cantor country que não quer mais saber dos tempos de fama. Suas lembranças dessa época lhe trazem a amargura do alcoolismo, do divórcio e da perda de contato com a filha. Ele vai parar num posto de gasolina de beira de estrada onde pede trabalho e teto para a proprietária, uma viúva que mora com o filho pequeno. Ali, anônimo e sem ...

a insustentável leveza da gravidade

A dra. Ryan Stone perdeu uma filha e tudo o que ela faz após o trabalho é dirigir com o rádio ligado. Não importa a música nem o assunto. Ela só dirige. Ela se culpa? Ela culpa o destino, a vida, Deus? Não importa. Ela só dirige. Agora que está suspensa sobre a Terra e um colega de trabalho lhe pergunta “O que você mais gosta aqui no espaço?”, ela só poderia responder: “O silêncio”. Mesmo na gravidade zero do espaço, Ryan carrega o peso da terra. Isto é  Gravidade  (Gravity), filme de Alfonso Cuarón, com Sandra Bullock e George Clooney, que tinha tudo para ser mais uma aventura espacial com pitadas de romance entre dois dos espécimes mais bonitos deste planeta. Mas  Gravidade  está muito além. Acontece no espaço, mas não tem aliens. Tem naves espaciais, mas não tem clones de Darth Vader. É com a Miss Simpatia, mas ela não tem motivo algum pra sorrir. A mocinha não enfrenta vilões nem extraterrestres, e nem se apaixona por heróis que resolvem tudo aos 9...

um grito no escuro, três preconceitos claros

Que impressão você tem das igrejas cristãs? Sua impressão procede de estudos de casos, envolvimento pessoal ou se baseia em ideias preconcebidas e/ou inflexíveis sobre determinadas igrejas? Em 1980, Michael e Lindy Chamberlain acampavam com a família numa região turística na Austrália. Numa noite, a mãe viu seu bebê de nove semanas ser levado por um dingo para fora da barraca. Muitas pessoas saíram para procurar o bebê, mas ninguém o encontrou. Após um primeiro período de compaixão da comunidade pelo sofrimento do casal Chamberlain, vários boatos maliciosos começaram a circular nas ruas e na mídia. A mãe, então, foi acusada de matar a própria filha – ou numa explosão de depressão pós-parto ou num suposto ritual religioso adventista. A cobertura jornalística sensacionalista e o preconceito religioso se misturaram a motivações políticas locais e, num julgamento sem provas conclusivas que tomou proporções inéditas no país, Lindy Chamberlain foi condenada à prisão perpétua. Em ...

Not Today: filme da conscientização espiritual e social

Quando os créditos finais de um filme listam o “coordenador de oração” antes das equipes de figurino e maquiagem, você sabe que se trata de uma produção religiosa. Not Today [Hoje não] estreou nos Estados Unidos em 12 de abril e custou 1, 6 milhão de dólares bancados pela Friends Church , igreja de Yorba Linda, Califórnia. A ideia para o filme veio durante uma viagem à Índia, onde, em 2002, a igreja construía escolas para os “Dalit”, classe de indianos considerada a mais baixa no sistema de castas, que não tem direito à educação nem tem acesso aos tribunais. O pastor do Ministério de Artes da igreja, Brent Martz, conta que a situação de pobreza extrema do povo Dalit tem levado famílias a venderem suas filhas para a prostituição. Isso motivou a igreja a fazer um filme que servisse de alerta contra a rede internacional de tráfico de menores e contra um sistema de separação social semelhante ao antigo apartheid na África do Sul. “A mídia é a linguagem da nossa cultu...

o fim do mundo: seis ficções e uma verdade

O cinema trata o fim do mundo como se fosse verdade. Uma verdade de duas horas. O espectador fica em suspense quando assiste “O Dia depois de Amanhã”. Quando o filme acaba, ele sai para comer como se não houvesse amanhã. Para Hollywood e para o vendedor de pipocas, o fim do mundo pode ser só ficção, mas o lucro é bem real. Como os maias “agendaram” a destruição do planeta para o dia 21/12/12, vamos lembrar de seis ficções e uma verdade sobre o fim do mundo: Ficção 1: Presságio O começo : números e cálculos feitos por uma garota há mais de 50 anos são interpretados como previsões (acertadas) de catástrofes. O fim : aniquilação total. O lado religioso : em meio a várias referências bíblicas (4 cavaleiros, profecias), arruma-se até uma espécie de “nave de Noé”. Ficção 2: O Fim do Mundo O começo : cientista descobre que um planeta desgovernado atingirá a Terra. O fim : colisão de planetas. O lado religioso : uma arca de Noé espacial levará alguns habitantes sorteados pa...

as quatro perguntas de Prometheus

O ano é 2093. A nave Prometheus parte em missão exploratória confidencial para um planeta onde estariam os criadores da raça humana. Esse remoto local - uma incrível e revolucionária descoberta - não foi  tirado de um livro. Estava inscrito em paredes de cavernas. A tradição do Gênesis está longe. Mas a figura de um criador, não. O filme segue a visão conciliatória de criacionismo com evolucionismo; seríamos fruto de um Criador organizando o acaso. Ou seja, viemos de uma “evolução acompanhada”. Mas dar atenção só a esse ponto é perder a contundência de algumas perguntas que o filme faz. E não quero perder a chance de explorá-lo teologicamente.  A decisão de crer Nem todos na astronave querem fazer perguntas aos criadores, chamados de Engenheiros. A antropóloga Elizabeth Shaw está entre aqueles que estão em busca de respostas. Ela perdeu a mãe quando ainda era criança. E é na infância que ela aprende que existe um céu maravilhoso aonde a vida é eterna. Inquieta...

o contato entre ciência e fé

Religiões como o cristianismo e o judaísmo partem da crença de que Deus criou o mundo. Sua busca não consiste em provar a existência de Deus, mas em entender a revelação divina para os habitantes do mundo. Teorias científicas como o evolucionismo partem da suposição de que não há Deus. Sua busca não consiste em provar a não-existência de Deus, mas em entender os mecanismos e processos que teriam formado o universo e o ser humano. Dito assim, parece que não existe nenhum ponto de contato entre religião e ciência. No filme Contato (1997), em que a astrônoma Ellie Arroway (Jodie Foster) acaba captando sinais de vida extraterrestre emitidos do espaço, a religião e a ciência vão convergir e se opor em vários momentos. Como todo filme de ficção científica, Contato tem seus malabarismos tecnológicos nada científicos, e nem por isso implausíveis. Mas é no campo das ideias que envolvem teologia e ciência, evidência empírica e experiência subjetiva que o filme abre alguns portas in...

o falso profeta e o sangue negro

Uma paulada no falso profeta que se mete em negociatas e outra no negociante que prediz falsamente que a riqueza do petróleo será de todos. Isto é Sangue Negro , a história de um homem movendo montanhas pra encontrar petróleo e de um religioso atrás de almas e dólares. O império do automóvel, do petróleo e dos computadores foi construído por empreendedores que, sem eira nem beira, e por seus próprios méritos espalharam a riqueza mundo afora. Eles seriam os  self-made-men , um mito do capitalismo norte-americano. O mito está menos na impressionante persistência do empreendedorismo e mais na distribuição da riqueza. As megaempresas foram erguidas à custa de muita exploração de mão-de-obra, de chantagens, subornos e acordos espúrios entre governos e indústrias. Um enriquece muito, alguns enriquecem bastante e muitos não enriquecem nada. Como eu disse, trata-se de um mito, mas não tem nada de conto de fadas. Muito sangue correu. Aliás, o título original do filme San...