23 dezembro, 2016

a opinião pública e a opinião publicada sobre os evangélicos

Parece que tem uma revista que quer ficar de boas com potenciais consumidores.
O dossiê Brasil Evangélico fala de protestantes e pentecostais sem a habitual ironia vista em suas matérias sobre os evangélicos. Em texto de quatro páginas, a ADRA [Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais]  é bastante elogiada e as crenças adventistas são tratadas com respeito.
Todos os textos reconhecem o trabalho social dos evangélicos - são boas matérias sobre batistas, mórmons, assembleianos... 
Acho ótimo. Mas reportagens como essa mostram que a opinião pública (mídia, universidades) só ressalva as igrejas quando estas aparecem como ONGs. A função espiritual e as diferenças teológicas seriam somente propulsoras de intolerância e, lá vem, fundamentalismo.

É claro que o objetivo e o escopo da Superinteressante não é proselitismo religioso e nem detalhar minúcias teológicas do cristianismo evangélico no Brasil. O que tem chamado atenção da mídia é o expressivo crescimento numérico dos evangélicos e a visibilidade social que essa expansão acarreta. O Dossiê da revista cobre somente as igrejas que continuam crescendo. Luteranos, anglicanos, presbiterianos e metodistas, embora desenvolvam trabalhos educacionais e sociais, ficaram de fora dessa edição da Superinteressante.

A expansão evangélica atraiu os olhares daquilo que se chama opinião pública - embora diga-se que "não existe opinião pública e sim opinião publicada" (frase atribuída a Winston Churchill). Bem, no paraíso da opinião pública, neopentecostal não entra. Por isso, o dossiê castiga a música gospel (só visualizada na ótica do mercado), a teologia da prosperidade, o lobby político, o templo de Salomão, a esquisitice, a bizarrice, a malafaíce. 

É inegável que vários grupos de novos pentecostais promovem certos desvios teológicos, usam controversas estratégias de atração e abusam da boa fé de pessoas em situação de risco. Mas as reportagens também poderiam abordar a transformação socioeconômica, a rede de afetos que ampara milhares de famílias partidas, o envolvimento sadio dos jovens.
 Infelizmente, como o pior é sempre melhor para a cobertura midiática, é essa opinião publicada que vira opinião pública.

19 dezembro, 2016

Steven Spielberg, 70 anos: os 10 melhores filmes

Steven Spielberg acaba de completar 70 anos de idade. Soa estranho que o cineasta que melhor soube mexer com nossas fantasias e medos infantis já seja um ancião. É verdade que ele deixou um pouco suas criaturas fantásticas e seus caçadores de aventuras indestrutíveis e preferiu dar aula de História. Alguns preferem seus ETs, dinossauros e Indiana Jones; outros gostam mais de seus filmes sobre escravidão e II Guerra Mundial. Eu prefiro os bons filmes que ele faz, porque para mim importa sua incrível capacidade de contar histórias, sejam reais ou sobrenaturais.

Seus prós são muitos

- até seus filmes medianos têm enquadramentos incríveis 
- dirige atores infantis como ninguém: ele dirigiu uma Drew Barrymore garotinha em ET e um Christian Bale pré-Batman e pré-adolescente em Império do Sol
- chamou John Williams para compor as trilhas dos seus filmes
- os efeitos visuais de seus filmes servem à trama e não ao exibicionismo tecnológico
- tem pleno domínio na filmagem de cenas de ação ou suspense: os 20 minutos iniciais de Resgate do Soldado Ryan, os três primeiros Indiana Jones, as explosões em Munique

Mas é humano e tem problemas

- escorrega para o dramalhão na parte final de vários de seus filmes: quando a gente já entendeu que é pra chorar, ele prolonga demais a cena e manda aumentar a música.

*****

Nos seus filmes históricos, ele parte do painel amplo de uma tragédia coletiva para chegar ao drama individual de pessoas arrastadas pelo turbilhão da História: em Soldado Ryan, ele não fala de combate, e sim de caráter; em Amistad, é a dignidade do escravizado.


Nos filmes de fantasia, ele se nivela ao mundo infantil: em ET, sua câmera está quase sempre na altura das crianças protagonistas; em Contatos Imediatos, os adultos são docemente infantis. Spielberg também fica com a pureza da resposta e da fantasia das crianças.

Um top 10 possível dentro de uma filmografia tão boa:


10. Prenda-me se for capaz


Não se divirta se for capaz.

9. Minority Report


Continua atualíssimo.


8. O Resgate do Soldado Ryan


A bandeira americana tremulando quase atrapalha. Mas o que é importa é a nobreza de atitudes.


7. Munique


O olho por olho israel-palestina cega todo mundo.


6. Império do Sol


Filmaço dolorido e otimista.

5. A Lista de Schindler


Sem palavras. Toquem a trilha.


4. Contatos Imediatos do 3º Grau


Spielberg revela ser um adulto genialmente infantil.



3. E.T., o extraterrestre


Terno, divertido e extraordinário.


2. Os Caçadores da Arca Perdida


A obra-prima dos filmes escapistas.


1. Tubarão


Spielberg, 28 anos, na boca do seu tubarão que revolucionou o cinema. Depois dele, ritmo, música, suspense e até o marketing nunca mais foram os mesmos.