25 julho, 2007

MORREM OS POLÍTICOS, FICAM AS CAPITANIAS


Os portugueses, ao aportarem nas praias tupiniquins, não demoraram a perceber que, para otimizar a relação colônia-metrópole e maximizar os dividendos obtidos na terra em que se plantando, explorando e matando, tudo dá, resolveram conceder infindáveis hectares a donatários particulares.

Com os certificados de posse e de direitos e deveres em mãos, os donatários passavam a gerenciar latifúndios de tamanho variável, ora do tamanho do Ceará ora do tamanho da Bahia. Como de hábito, os coronéis donatários distribuíam terras a quem quisesse cultivá-las, desde que, como de hábito, os que assim desejassem e, como de hábito, também os que assim não desejassem, contribuíssem para a frutificação ilícita da árvore genealógica do donatário.

Era premente, para o desenvolvimento negociado da pátria-mãe gentil, a construção de engenhos, os quais, para melhor informação dos trabalhadores a respeito das boas obras do donatário, deviam possuir uma torre altaneira com antena retransmissora das mentiras da oposição e da justa verdade do dono da torre. Aliás, como de hábito, as torres deveriam ser registradas em nome de alhures, que recebiam o meigo nome de uma fruta tropical. Bananas, goiabas, laranjas.

O donatário era autoridade plenipotenciária em seu latifúndio, exercendo seu poder para nomear funcionários e aplicar os rigores da lei. Todos estavam debaixo da lei, mas a lei seria rigorosa para anônimos e a graça seria concedida em abundância para os conhecidos. Conhecidos do donatário ou parentes, entenda-se.

Essas terras públicas doadas a personalidades privadas, digo, que privavam da generosidade régia, foram denominadas sem sutileza de “capitanias hereditárias”. O poder, assim, era passado com amor filial de pai para filho (a expressão “presente de mãe” é uma constatação mais recente das empresas de telefonia celular).

Portanto, um dono de sesmaria teria sempre garantido o leite da prole, pois são direitos do oligarca: isentar-se de taxas e investigações importunas, adquirir torres de TV, descomunais porções de terra e bovinos milionários, divulgar a filha como governante exemplar e, para garantir a hereditariedade cartorial, empregar o pai ou o filho como suplente.

Esses donos do mar e da terra fundavam vilas com o nome do pai, praças com o nome do filho e rodovias ladrilhadas com o próprio e santo nome. Com o tempo, a população já estava rezando em nome do pai, do filho, da filha, do genro, do mais chegado que um irmão...

Nelson Rodrigues já dizia que a glória é necrófila, ou na versão de Daniel Piza, morrer faz bem a reputação. Compadecer-se do luto familiar é um dever; não esquecer os feitos dos capitães hereditários, também. Sejam eles do brasão Barbalho, Magalhães, Maluf, Jereissati, Calheiros, Sarney ou Collor.

Com a morte de ACM, de novo se vê que, para justos e injustos, pelo menos por enquanto, a cova no chão ainda é a parte que nos cabe neste latifúndio.

11 julho, 2007

7 MARAVILHAS OU 7 ERROS?


A foto acima é o clichê paisagístico do turismo brasileiro. E é muito provável que a função de mirante, e não a engenhosidade da construção, também tenha contribuído para a eleição da estátua do Cristo Redentor como uma das 7 novas maravilhas do mundo.

A rigidez da estátua, que reune no mesmo ato de abrir os braços tanto a benção como o sacrifício , é levemente disfarçada pelo drapeado da vestimenta, mas ainda assim, há demasiada fixidez no monumento. Vista como nessa foto, ganha em significado mas perde em beleza própria, tornando-se pequena em meio a grandiosidade do relevo natural. Na verdade, algumas canções acabaram fixando o imaginário de beleza da construção no mundo todo, principalmente o Tom Jobim de Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara ou Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo (esta, com letra de Newton Mendonça).

Li a notícia sobre a tal "farsa das 7 maravilhas". Tudo bem que se pode desconfiar, às vezes até paranoicamente, de tudo. Mas não lhe parece um tanto estranho que a tal farsa tenha sido "descoberta" por espanhóis, franceses, gregos e alemães. Todos estes, de países que ficaram de fora da lista final das 7 maravilhas.

Ora, qualquer lista que se preze de forma alguma pode ser fidedigna. Qualquer lista representa uma opinião que nunca representará a maioria, por estranho que isso pareça. Há interesses de instituições e pessoas por trás, é claro, mas isso é o que faz uma lista ser o que é - é só lembrar da convocação oficial que apelava ao coração carioca-patriota que bate no peito desafinado do brasileiro que não desiste nunca.

E se a torre Eiffel e o castelo espanhol, as colunas gregas e o castelo alemão, todos tivessem ficado entre as 7 maravilhas eleitas? Ainda haveria denúncia de farsa, de histeria coletiva nacionalista?

A despeito da legitimidade ou não da tal lista - e podemos lembrar que a lista das 7 maravilhas do mundo antigo também é só uma lista, - o queixume das partes reclamantes deixa transparecer o velho eurocentrismo de guerra (o que no velho mundo quer dizer guerra mesmo).

Assim como eurocêntrica é a soberba alemã noticiada em jornal: "se o castelo Neuschwanstein fosse eleito, o gosto mundial estaria mais refinado". Ou seja, se mais monumentos ao "bom gosto" europeu fossem eleitos, e não essas "heresias arquitetônicas" como as ruínas de Petra, Macchu Picchu ou pirâmides maias (Valei-nos, São Cristóvão Colombo!), isso seria uma prova de que "The Civilization" e "Der Kultur" teriam prevalecido sobre a evidente ausência de pendores artísticos destes povos não-crismados. Assim, a colonização, a aculturação e o morticínio finalmente teriam valido a pena, e o arianismo contra asiáticos e latinos (pra eles somos todos chinas e cucarachas), teria vencido mais uma vez.
Não votei, mas minha lista seria diferente também. Mas, convenhamos, esse choro europeu só revela que, se a lista é uma farsa virtual, a dor-de-cotovelo é muito real.

10 julho, 2007

ARAUTOS DO REI - PARTE II

Jader Santos é um perito em músicas sobre a volta de Jesus – Eu não me esqueci de ti e Chegou a hora. Na canção Eu quero olhar, gravada pelos Arautos do Rei, Jader propõe um tipo de música que não tem a sequência estrofe-côro e na qual praticamente cada verso possui uma melodia própria. O compositor não fez concessões nem à rima fácil nem ao típico refrão.

A música começa com o narrador dizendo:

Eu quero olhar pra cima e ver aquela nuvem aparecer um pouco escura / mas não de chuva, só uma mancha a mais no céu / E se eu olhar com atenção verei ainda que há uma luz / assim brilhante que num instante vai se tornar bem maior

O desejo de quem espera a volta de Jesus pode ser nublado por sinais que são a contrafação do advento real de Cristo: uma nuvem parecida, prodígios “em nome de Deus”, falsos cristos. A atenção ao que diz a Bíblia é o melhor preparo para não ser confundido.

Em seguida, cada verso descreve características do Esperado:

Sim, é Jesus que triunfante e exultante vem como Rei / Sim, é Jesus, o Pai amante que os seus filhos vem receber / Sim, é Jesus, o humilhado, o que foi morto e reviveu / O que foi homem e que foi Deus, e que voltar nos prometeu

Os dois primeiros versos contrastam com os dois últimos – o Rei triunfante é mencionado também como Deus humilhado. Jesus é o líder-servo e homem-Deus. As partes “o que foi morto” e “o que foi homem” estão interrelacionadas com as partes “reviveu” e “que foi Deus”, reafirmando o contraste entre a morte, própria do estado atual do homem, a ressurreição, própria da divindade, e a capacidade de Jesus de transcendê-las. Ele não apenas vive, mas é A Vida.

Tremam diante dEle todos os povos / Reinos, nações e línguas, todos O adorem / O Grande Juiz voltando está: Justiça haverá afinal!

Alguém pode entender que nesse trecho, o letrista parece manifestar que teme a Deus pelo medo, que Deus manipula as pessoas para O adorarem. No entanto, não é uma questão de manipulação, mas de motivação. O ser humano O adora por causa do amor de Deus (“O amor de Cristo nos motiva”) por causa do que Deus fez, faz e está fazendo por nós. Adoração é “o transbordar de um coração grato, impulsionado pelo sentimento do favor divino” (Anônimo).

Na música, o trecho anterior é cantado em fortíssimo, como num clamor. A partir de agora, a música é suave, com um lirismo que expressa que a bendita esperança se realizou e que a esperada volta de Cristo será de forma visível e audível:

Enfim chegou Quem nós aguardávamos,Quem nossa alma almejou / Quem nossos olhos sonharam ver,Quem os nossos ouvidos sonharam ouvir

Quando os anjos vieram confortar os atônitos discípulos que viam Cristo ascender ao céu, disseram: “Esse mesmo Jesus que vistes subir, voltará outra vez”. Os discípulos o reconhecerão, assim como nós, porque Ele será o mesmo, dessa vez com grande glória e majestade:

Filho de Maria, Leão de Judá, Estrela da Manhã, vem enfim brilhar

A seguir, a música retoma o tom triunfal ao mesmo tempo em que fala da esperança de vida eterna, de uma vida sem os males terrenos, de uma vida de fato em íntima comunhão:

Quero pra sempre contigo morar, Não mais viver a tragédia do mal / Quero em Teus braços me aconchegar Quero Teu nome pra sempre louvar.

Von Hügel dizia que “grandes realidades, ainda invisíveis, requerem para sua apreensão uma incorporação figurativa na imaginação”. Cantar a vida eterna é meditar e incorporar em nossa mente a grande realidade divina que em breve se verá face a face.

09 julho, 2007

ARAUTOS DO REI: Aqui é seu Lugar


Quando o compositor Jader Santos promoveu a mudança de maior impacto na história do quarteto Arautos do Rei com o CD “Eu não sou mais eu”, talvez não imaginasse que este histórico grupo vocal masculino, para manter-se na altitude musical a que o próprio compositor o conduziu, teria que aparentemente recuar na linha evolutiva da música adventista no Brasil.

Como explicar, então, o suposto passo atrás que teriam dado com o CD “Aqui é seu lugar”? O líder musical não é o jovem Silmar Correia? Os integrantes não são os mais jovens da história do grupo?

Porém, o que parece um recuo ao tradicionalismo e ao museu obsoleto da hinologia protestante, na verdade, é um dos maiores saltos de qualidade dados pela música cristã brasileira.

A “revolução sem grito” de Silmar e Evaldo Vicente oferece sutilezas só perceptíveis em audições sucessivas. A mudança não está em primeiro plano, como geralmente se nota em alguns CDs que buscam a modernização de repertório a qualquer custo.


A sequência de músicas segue uma coerência temática ou narrativa. “Aqui é seu lugar” é o convite manso e gentil; a música “Foi por mim” relembra o significado da cruz do Calvário a “mim”, mas não exclui o “foi por ti”; depois vem “Portas abertas”, saindo do Gólgota para a igreja moderna, que deve ser um lugar de aconchego e promessa confortadora. Afinal, ali é o “seu lugar” já mencionado.

Paz é a palavra-chave do planeta para o 3º milênio. E a canção ‘Paz’ responde ao apelo atual com cinco certezas muito necessárias ao cristão: a volta de Jesus (paz é a certeza de que Cristo irá voltar); a vida eterna (paz é a segurança de que o céu é nosso lar); a validade do sacrifício vicário de Cristo na cruz (paz é ter na cruz os pecados perdoados); Cristo ressuscitado conosco (paz é ter Jesus caminhando ao nosso lado); e, acesso ao Senhor da Paz (paz é Jesus). Na era da insônia e da depressão, essa canção também rememora as Escrituras (‘Em paz me deito e logo pego no sono, porque Tu, Senhor, estás comigo’) no verso moderno de Valdecir Lima (essa paz restaura o sono e afasta a ansiedade).

Assim, como as portas foram abertas para mostrar o senso de pertencimento a um lugar, para ressaltar o sentido da cruz e para apontar a saída de paz para o homem, vem então o convite ao louvor na música seguinte: “Salmo 103”. A letra assegura que o louvor não é um ato de petição, mas uma resposta aos atos salvadores de Deus.

O letrista (Valdecir Lima) também substitui o eu-lírico, o narrador em 1ª pessoa, pelo “nós”. Ou seja, os feitos de Deus são direcionados ao indivíduo singular, porém a adoração e o louvor partem de uma coletividade plural beneficiária das ações divinas.

Muitas vezes, o papel da lei e da graça na vida cristã não é imediatamente compreendido. As faixas 7 (“A Tua Lei’), e 8 (“Graça”), valorizam tanto a lei quanto a graça, num equilíbrio bem significativo.

Desde Hamurábi, desde os Dez Mandamentos, o contrato social firmado nas constituições, nos códigos e nas leis costuma ser fixado, digamos, em material não-perecível. Visto que a cultura oral pode ser vítima de adições e subtrações legislativas elaboradas segundo a memória curta de cada geração, passou-se à cultura letrada a fim de se perenizar a regulamentação das condutas humanas. Não que a forma rígida (pedra, papel ou CD-ROM) seja capaz de evitar a alteração das regras, mas que seja pelo menos aplicativa enquanto dure.

Assim, a lei de Deus continua a mesma. Contudo, os homens foram subtraindo partes e adicionando contrapartes ao sabor de suas tradições inventadas. A canção “A Tua lei” não vê a lei de Deus como algo ultrapassado ou um fardo pesado. Ao contrário, enxerga a lei como: a mais bela expressão do Teu coração/É Teu próprio caráter; reflete a grandeza e a Tua beleza; perfeita, como Tu és perfeito; tem a verdade e os princípios do amor. A canção usa a própria Bíblia (a cultura letrada) para a afirmação de amor à lei (os salmos 19: 7,8; e 119: 1, 16, 47, 105, 151).

Se os autores de “A Tua Lei” têm a palavra bíblica como fonte da exaltação da lei divina, Daniel Salles, o jovem compositor de “Graça” se serve da experiência humana para exaltar a graça divina.

“A Tua lei” tem rica orquestração de cordas – mais uma tapeçaria orquestral tecida por Ronnye Dias. Por sua vez, “Graça” usa os vocais fortíssimos e as notas mais agudas no refrão e faz uma citação instrumental do hino “Graça Excelsa (Amazing Grace)”.

Esse é um CD que tem muita substância para estudos mais meticulosos, e um blog como este não dá conta, mesmo alongando-se e contando com a boa vontade do leitor. Por isso, obrigado, porque até aqui o Senhor lhe deu paciência para ler estas mal traçadas.

Mas não posso deixar de comentar a música “Eu quero olhar”, de Jader Santos. Leia aqui.


02 julho, 2007

MELHORES FILMES: CADA UM COM SUA LISTA

Recentemente, o American Film Institute anunciou sua lista de 100 melhores filmes de todos os tempos. Claro, como boa instituição americana e monoglota que é, só entraram na lista filmes que falassem a língua dos homens. Isto é, o idioma monossilábico de John Wayne ou o verborrágico de Woody Allen.

Noves fora esse pequeno detalhe característico, a lista apresenta clássicos jurássicos - Cidadão Kane, Casablanca, Cantando na Chuva - , e recentes - O Poderoso Chefão, Os Imperdoáveis, Blade Runner. Todos esses, filmes de incontestáveis qualidades.

Mas a fila anda e eis que surgem alvíssaras cinematográficas dos últimos 10 anos. Cava-se um espaço na lista para O Senhor dos Anéis, O Sexto Sentido e Titanic. Todos esses, filmes de incontestável impacto na bilheteria.

"Meu precioso", "I see dead people", "my heart will go on": essas são algumas das 'contribuições' dos filmes senhor dos anéis, 6º sentido e titanic à cultura mundial. OK, todos são assistíveis. Mas se era pra colocar filmes dos últimos 10 anos, precisava ser com um olho na catraca do cinema?

Opções de substituição havia: O show de truman, quero ser john malkovich, moulin rouge, magnolia, fargo, qualquer filme que o Clint Eastwood fez no século 21, como menina de ouro ou a conquista da honra.

Lista é tão individual quanto as digitais. Então, fazer o quê? Como there's no business like show business, os Parreiras do "cinema de resultado" devem ter votado em massa.