20 setembro, 2007

Fábulas Menores de Moral Mínima

A atuação dos parlamentares brasileiros é coisa de fábula. No entanto, sinto frustar leitores interessados em colher boas lições para sua vida terrena, já que a história política parece sempre terminar com uma moral mínima.

Atualização em novembro/2009: a primeira fábula, para refrescar a memória, é sobre as histórias contadas pelo senador Renan Calheiros para desmentir as denúncias de seu enriquecimento agropecuário. A segunda é da época em que o barbudo Lula e o bigodudo Sarney estavam às voltas com os quarenta deputados acusados de envolvimento com o tal mensalão, enquanto o careca e casado Renan Calheiros envolvia-se com uma jornalista.

A VAQUINHA MÁGICA

No dia em que Joãozinho saiu da periferia pra vender a única vaquinha da família, mal sabia que ia virar fábula. Ao chegar à feira agropecuária da cidade, o menino logo viu outro menino, e sabe-se que os meninos dessa idade sempre acham outros meninos com sua idade. Os dois começaram a brincar e, bola vai bola vem, os meninos dessa idade nunca aprendem que futebol encurta as tardes, o sol já descia, a feira se desarrumava e a vaquinha não fora vendida. Foi então que o outro menino disse a Joãozinho: “Pra você não dormir com a pele marcada de cinto, eu troco as minhas sementes de feijão mágico pela sua vaquinha triste”. Mal sabia Joãozinho que aquela era uma vaquinha mágica.

O resto da história todos já sabem: a mãe de Joãozinho jogou fora as tais sementes, que viraram um enorme pé de feijão, aonde morava um gigante burguês, de quem o menor Joãozinho roubou uma galinha dos ovos de ouro, galinha essa que morreu de desgosto com a queda do preço do ouro nas Bolsas, e Joãozinho virou motoboy do shopping que construíram no lugar do pé de feijão. Quanto ao outro menino, com sua lábia precoce se tornou político. E hoje, quando lhe acusam de ter enriquecido ilegalmente, ele responde: “Meu único patrimônio são essas vaquinhas mágicas”.


40 HOMENS E UM DESTINO

Ali Babá chamou Um-dos-40 e disse, “Preciso falar com o bigodudo. O barbudo viajou, mas o bigodudo pode me ajudar. Afinal, o bigodudo já foi rei e quem foi rei não perde as concessões, digo, a majestade”. Um-dos-40 então lhe disse, “O bigodudo tem uma filha de recados. Mande seu recado por ela”. O conselho do bigodudo veio rápido como uma nota fiscal fria, “Meu caro e careca Ali Babá, diga lá que quem já não teve amante, empreiteira e fazenda, que atire a primeira vaca, quer dizer, pedra”.

Mas a mulher do caro, careca e feioso Ali não podia concordar com tal proposta e tratou de engendrar outro plano, porque ter fazendas com vacas milionárias, tudo bem, mas ter uma vaca, digo, amante, aí já é demais e vai contra minha religião. E pensando bem, vai ver essas palavras inconvenientes nem saíram da boca do bigodudo, pois o homem, pôxa vida, é um homem das letras.

Quando o barbudo voltou de viagem, disse ao feioso e ao bigodudo, “Nessa minha viagem, não achei nada de podre no reino da Dinamarca”, ao que o bigodudo replicou, “mas por aqui a coisa andava fedendo pro nosso lado”, ao que o feioso explicou, “não era nadica de nada. Mesmo assim, eu fui logo dizendo que se ninguém me apoiasse, o Ali Babá aqui iria dedurar 40 ladrões aí”.

16 setembro, 2007

NOVO TOM - parte 1


Assim como os corais jovens dos colégios, a proposta do Novo Tom sugere, tanto quanto possível, uma aproximação da juventude por meio da linguagem musical do jovem moderno. Há críticos que desestimulam essa proposta, temendo uma demasiada associação com os estilos musicais da moda. Porém, esquecem que as igrejas costumam adotar a Bíblia na versão Linguagem de Hoje como um modo de estimular a leitura das Escrituras, mesmo com o risco de mal-entendidos que se apresentem nessa versão facilitada (em que a linguagem poética desaparece do livro dos Salmos).

Dizem que a proposta musical do Novo Tom pegou a corrente do pragmatismo musical em curso na modernidade. Ao lado do pragmatismo retórico do cristianismo atual, o grupo teria cedido ao "vale-tudo" a fim de falar do evangelho para a juventude moderna. Entretanto, esse argumento de exagerado pragmatismo é uma falácia sem tamanho, pelo menos quando se trata do grupo Novo Tom.

Uma das correntes do pragmatismo religioso pós-moderno é a apresentação de mensagens de teor ético: os direitos humanos, a defesa do ecossistema, a paz no mundo. O teólogo Leonardo Boff, por exemplo, fez um upgrade filosófico e atualizou seu discurso ético-religioso: nos anos 60 era a Teologia da Libertação, baseada na liberdade política e no programa de amparo às classes desfavorecidas; agora seu discurso é ecológico-espiritual. As intenções são inegavelmente boas e só um cínico as combateria. Mas, a presença de Deus na história dos indivíduos está um tanto ausente desses discursos. Mais recentemente, o papa Bento XVI, em sua cruzada ainda tímida em favor da guarda santificada do domingo, recomendou o primeiro dia da semana para “preocupações ecológicas”.

O grupo Novo Tom também aborda o tema da paz. Porém, não fala da paz como uma espécie de fraternidade demagógica. O título do CD já introduz sua idéia de paz: Pode Cair o Mundo, Estou em Paz. Assim, a paz não é a unificação do pensamento global, mas um sentido de segurança exterior e placidez interior, só inteiramente adquirida pela confiança em Deus. Como exemplo, metade das doze canções do CD menciona a palavra “paz” relacionando-a a ações e atributos divinos: a frase-título (na canção "Estou em paz"), o autor da eterna paz (em "Nosso lar não é aqui"), na oração encontro paz e em seu perdão encontro paz (em "Falar com Deus"), só em Teus braços encontro paz (em "Descansar"), frutos de paz Ele quer nos doar (em "Deus tudo pode"), este nome traz a paz e Príncipe da Paz (em "Cristo").

Alguém vai argumentar que as frases acima são quase obrigatórias nas canções cristãs. Contudo, há duas razões para não crer na casualidade da palavra “paz” nesse álbum do Novo Tom: 1) o letrista principal é Valdecir Lima, o que é uma certidão de propósito literário e teológico; 2) a “paz divina” é uma ideia recorrente ao longo das canções desse CD.

Além de sinalizar a paz em metade de suas canções, este CD também tem uma característica: o contraste súbito de intensidade entre o muito forte (fortissimo) e o muito suave (pianissimo). Num exercício de encontrar conexões entre a música ouvida e o significado que ela pode sugerir, num exercício de semiótica musical para complicar um pouco, é possível relacionar a força vocal e o impacto dos contrastes repentinos de intensidade ao símbolo comum da tormenta humana subjugada pelo poder da paz divina.

Nos anos 70, uma canção jocosa chamada “Pare o Mundo, Eu Quero Descer”, fez sucesso no Brasil. Mas a música “Estou em Paz” não pede para sair do mundo, nem por brincadeira. Certificada pela oração de Jesus (João 17:15), que pediu ao Pai que não nos tire do mundo, mas que nos livre do mal, a canção declara o “estar no mundo, mas em Deus confiar”. Seu refrão,

(...) Não temo o futuro, pois tenho Deus comigo
Pode cair o mundo, estou em paz

é cantado no final com bastante força em “(pode) cair o mundo”. Aqui, o contraste se faz de dois modos: 1) o fortissimo vocal e orquestral em “cair” é subitamente interrompido pelo pianissimo em “mundo”; 2) a parte cantada em “ca-ir o mun...” dá um salto para baixo na sílaba seguinte (“...do”), traduzindo o cair, o desabar do mundo. O verso final “estou em paz” completa a frase e encerra a música de forma serena, com um vocal em uníssono.

Esse contraste, além de ser ouvido, pode ser visualizado nas fotos do CD antes mesmo de tirá-lo do invólucro de plástico - que como todos os demais CDs do planeta, exige um conjunto de técnica e paciência para abrí-lo civilizadamente. Na capa frontal, há uma criança sentada numa escadaria com a típica placidez infantil quanto está só e entretida com um objeto. A parte de trás do CD traz a habitual ordem das músicas e também uma foto ao estilo já clássico do artista futurista Marinetti, que traduzia com traços velozes o movimento urbano. Os veículos passando velozmente no ruído caótico das cidades é o contraponto escolhido para a calma confiante de uma criança em paz.

Entendi que o Novo Tom quer afirmar que, enquanto o homem pode espalhar a paz no mundo, isto só é possível pela efetivação da paz de Deus em cada indivíduo. Sai a narrativa grandiloqüente de paz global, como se as diferenças pudessem ser resolvidas por discurso ou decreto, e entra em cena a vivência individual da comunhão com Deus como propiciadora de uma verdadeira fraternidade, refletindo os versos daquele hino, “haja paz na Terra, a começar em mim”.

As canções “Nosso Lar Não é Aqui” (também de Lineu e Valdecir) e “Cenas” (Daniel Salles) também se valem da alternância de potência e serenidade musicais. Na primeira, ouvimos um coro infantil breve em baixo volume seguido de introdução instrumental estrondosa com bateria, metais e guitarra. Essa introdução é contrastada subitamente pela leveza da voz de Joyce Carnassale acompanhada apenas de violão e alguma percussão. A singeleza do coro das crianças é retomada, contudo, escondendo os acordes sofisticados e a quebra de acentuação rítmica, o que provoca certa instabilidade proposital.

A música “Cenas”, que começa sobrepondo vozes que recitam versos bíblicos, descreve as imagens da paixão de Cristo com a característica dramaticidade evangélica. O martírio é amplificado em versos (com Seu corpo a sangrar; não podia respirar; as feridas abertas; açoites tão cruéis) que procuram comover o ouvinte. As cenas descritas detêm a força das palavras emocionalmente necessárias para o propósito espiritual da música, que alcança seu clímax com um vocal de extrema energia.


NOVO TOM - parte 2


Retomando o que falei sobre pragmatismo musical no 1º texto sobre o grupo Novo Tom, vejamos como o grupo lida com essa questão em suas músicas. Não entrevistei seu diretor musical ou o letrista, mas acabei identificando por minha conta e risco os sinais do pensamento evangelístico-musical do grupo nos arranjos e no repertório do CD Pode Cair o Mundo...

Focando em dois aspectos: 1) a particularidade vocal do grupo; 2) a aproximação com a linguagem musical urbano-contemporânea.

A qualidade vocal dos componentes do Novo Tom é incontestável. A base vocal feminina (Riane Junqueira, Joyce Carnassale, Lanny Soares) que acompanha o grupo desde que este se chamava Tom de Vida por certo contribui para a singularidade sonora identificável do Novo Tom. As cantoras do grupo possuem uma característica vocal sem excesso de vibratos, com timbre moderno e energia nos agudos – nada de soprano lírico corolatura, ufa, ainda bem.

As vozes masculinas me pareceram determinadas pelo estilo anasalado na dicção, com ênfase nas vogais e certa americanização nas consoantes (m, n, d, t são as letras, digamos, mais afetadas). Nas canções dramáticas, os tenores assumem um tom de vigor quase operístico, escutado na técnica da dicção, no alcance estratosférico da voz, na verve da interpretação. Isso tudo está nas canções “Estou em paz” e “Cenas”, que os solistas perfazem com rara felicidade.

O percurso musical do Novo Tom enveredou cada vez mais na aproximação dos gêneros populares urbanos. Mas, ao contrário da maioria das bandas evangélicas modernas, o Novo Tom prefere o caminho da reorganização musical à transposição estética integral. Explico: a transposição estética integral ocorre quando um gênero musical (rock, reggae, samba) é transcrito ou copiado por grupos musicais cristãos com toda semelhança de melodia, arranjo vocal e instrumental, e uso de figurinos e adereços típicos.

Isso pode ser notado em artistas gospel como o Oficina G3 ou o DJ Alpiste, cujas canções reproduzem o estilo melódico e de arranjos dos artistas seculares do rock e do hip-hop. [Mas não vai aqui nenhum julgamento do mérito de religiosidade de ninguém].

Já a reorganização musical pode ser notada quando determinado gênero musical (falo aqui dos estilos populares da mídia) perde sua característica melódica mais característica mas conserva certa semelhança rítmica. Desse modo, o arranjo musical não reproduz integralmente a influência inevitável, mas lhe dá um caráter de apropriação, como se aquele estilo ou “swing” instrumental estivesse ali para lembrar que estamos na contemporaneidade. Desde Lutero, passando por Lowell Mason e Ira Sankey, chegando até nossos dias, isso consistiu numa espécie de louvável tradição.

O grupo Novo Tom pode ser inserido nesse último grupo. As canções “Nosso Lar Não é Aqui” e “O Amor é Jesus” têm aquilo que os músicos costumam chamar de “levada” ou “pegada” pop. Contudo, a interpretação está a anos-luz da mera imitação da música secular perceptível nas canções gospel que arremedam o pop/rock, o forró, a balada romântica.

A canção “Preto no Branco”, esta sim, possui a tal “levada” pop bem destacada, tanto pela voz solista de Marlon Miranda quanto pelo arranjo instrumental. No decorrer da canção, os vocalises são cada vez mais intensos e o som vai se tornando mais semelhante ao soul permeado de funk de Pedro Mariano e Cláudio Zoli, com ecos do Stevie Wonder dos anos 70. É a faixa que certamente encontra maior resistência por uma parte dos ouvintes.

A música “O amor é Jesus” (Lineu e Valdecir) recebe um brilhante arranjo vocal altamente estilizado que reproduz o som de jazz a capella do Take 6 e do Manhattan Transfer, com suas elaborações harmônicas e imitação de instrumentos pela voz humana, como a percussão vocal de Marlon Miranda e o trompete vocal de Denis Versiani, este, o autor do arranjo.

A pergunta é: esses tipos de arranjos e canções podem induzir o ouvinte a uma perspectiva mundana? Uma resposta pode ser: depende de quem está ouvindo. Muitos ouvidos pudicos de Calvino entendem tais canções como excessivamente secularizadas e liturgicamente inadequadas. No entanto, o repertório do Novo Tom utiliza a influência secular mas distancia-se do modelo musical de memetização da estética pop adotada por muitos grupos evangélicos contemporâneos. Mas é certo que os cantores e diretores de música precisam de sabedoria para perceber qual música do CD do Novo Tom será mais adequada para cada hora, lugar e público.

10 setembro, 2007

ELVIS E O GOSPEL: Elvis além da pélvis


No ano em que a morte de Elvis Presley completa 30 anos, fãs e crítica relembram as principais marcas que Elvis teria deixado na música e na cultura do século XX. Mas eu gostaria de lembrar aqui uma faceta do “rei do rock” bem menos conhecida que seus filmes em Acapulco, suas canções românticas ou a proibição de filmar os seus rebolantes quadris no programa de TV de Ed Sullivan no início da carreira. Aliás, os requebros da “pélvis de Elvis” foram um fator nada descartável para sua ascenção meteórica. A voz absolutamente marcante, os cabelos cuidadosamente desalinhados, o repertório quase recatado se comparado à fúria libidinal das canções de Jerry Lee Lewis e Little Richards, quase tudo seguia uma construção publicitária perfeita comandada pelo “Coronel” Tom Parker, como apelidavam o empresário de Elvis.

Os americanos sempre demonstraram afinidade com o gospel gravado por artistas não-religiosos. Por exemplo, nos anos 1950, Tennessee Ernie Ford gravou álbuns que estão entre os dez mais vendidos da década. Mas Elvis revelava também seu gosto pela música gospel. E talvez houvesse nisso mais do que ambição de vender para outro nicho de mercado. Para Don Cusic, autor do livro The Sound of Light: a history of gospel music, Elvis tinha ouvido muita música gospel - na igreja ou em casa com a mãe – e, ao cantar aquelas músicas, ele não cumpria só um dever espiritual, mas também revivia a infância. Talvez, diz Cusic, Elvis estivesse mostrando que era um bom garoto, temia a Deus (à sua maneira) e queria salvação.

Em 1952, quando ainda era um jovem motorista de caminhão, Elvis fez um teste vocal para entrar no quarteto Songfellows e foi reprovado. Mais tarde, Jim Hammil, um dos componentes “acusados” de dispensar Elvis Presley, deu sua versão dos fatos: “Eu não disse que ele não sabia cantar, mas sim que ele não conseguia ouvir a harmonia. Sozinho, ele se saía bem. Mas quando as outras vozes do quarteto entravam, ele se perdia e cantava as outras vozes que ouvia”. (Em geral, a formação vocal de um quarteto masculino é de º e 2º tenores, barítono e baixo).

Elvis ainda não era famoso quando encontrou o quarteto The Jordanaires no Grand Ole Opry, em 1955. O quarteto havia surgido em 1948 e só conservava um integrante da formação original, o 1º tenor Gordon Stoker. As primeiras gravações de Elvis nos estúdios da RCA têm um vocal de apoio formado, entre outros, por Stoker e Ben e Brock Speer, da Speer Family, famosa família de cantores. Mais tarde, a formação completa dos Jordanaires marcaria o som dos discos de Elvis, que passava a vender 10 milhões de discos e se tornava um ídolo teen e um ícone cultural.

Os primeiros álbuns gospel de Elvis chegariam a partir de 1957, no auge da carreira no rock, quando era inimigo dos pregadores. Primeiro, a gravação de Peace in the Valley, e depois o disco His Hand in Mine. Esse disco tinha os Jordanaires no vocal de apoio e entre as faixas estavam músicas como Swing low, sweet chariot e Mansion over the hilltop (em português, é a conhecida Mansão sobre o monte). A capa desse álbum trazia um Elvis Presley sentado ao piano num sóbrio smoking, de cabelo grande e roupas brilhantes. O figurino e o penteado, porém, não eram uma afronta ao estilo religioso. Pelo menos, não ao estilo de certos cantores e pastores evangélicos da época. James Brown, por exemplo, explicava que seu estilo inconfundível de se movimentar no palco, falar e cantar, era influência de pregadores, digamos, hiperativos.

A voz de Elvis também recebeu grande influência do gospel. Certa vez, o cantor escutava um disco de Jake Hess, um dos grandes nomes da música gospel, quando revelou a Johnny Rivers algo como “agora você sabe de onde vem o meu estilo de cantar”.

Em 1967, Elvis convidou os quartetos The Imperials e The Jordanaires e também algumas cantoras para o vocal do seu disco gospel de maior resposta positiva de público e crítica, How Great Thou Art. Além da clássica faixa-título (no Brasil é conhecida como Quão grande és Tu), já famosa na voz de George Beverly Shea, o disco trazia Where could I go but to the Lord, In the garden (No jardim) e Where no one stands alone (Minha mão em Tua mão). Nesse disco, Elvis faz um dueto com Jake Hess na música If the Lord wasn’t walking by my side, conhecida música do quarteto The Statesmen, do qual Jake Hess já tinha sido integrante.

He Touched Me é o álbum gospel de 1972 que traz a clássica Amazing grace (Graça excelsa) e a canção-título (Tocou-me), de autoria do casal Bill e Gloria Gaither.

A partir de 1969, o quarteto The Stamps passou a abrir os shows de Elvis. J. D. Sumner, membro do quarteto, conta que após os shows Elvis reunia os cantores para cantar gospel. Freqüentador da casa de Elvis, Sumner também diz que o cantor “só ouvia gospel. Ele não ouvia nem suas próprias gravações”.

No funeral de Elvis, em agosto de 77, Jake Hess e dois integrantes do quarteto The Statesmen cantaram Known only to Him, Kate Westmoreland cantou My heavenly Father watches over me, e James Blackwood e The Stamps cantaram How great Thou art. O final trágico do cantor e suas gravações ora religiosas ora seculars podem traduzir que, de algum modo, Elvis Presley não conseguiu conciliar sua vida de sucesso fabuloso com as crenças de sua juventude. Mesmo assim, para Don Cusic, a maior contribuição de Elvis ao gospel foi apresentar esse estilo ao mundo do rock.
* Os títulos em português e entre parênteses mencionados no texto foram extraídos do Hinário Adventista (Casa Publicadora Brasileira).

03 setembro, 2007

ADORAÇÃO: pragmatismo, esteticismo e missão


Na dinâmica do mundo moderno há uma pergunta sempre recorrente: como tornar o evangelho de Cristo pertinente para a “sociedade do espetáculo”, para uma juventude bombardeada por um fluxo incessante de imagens e signos atraentes e de claros estímulos não-bíblicos?

Para atender às expectativas modernas, muitos líderes e músicos cristãos inserem-se na corrente do pragmatismo. Ou seja, usam novas estratégias, empregam novos meios para alcançar os velhos fins – entenda-se “velhos fins” por tentativa honesta de divulgar a mensagem cristã, mas também por velhas finalidades de enriquecimento através da boa-fé alheia. Não obstante, segundo Wolgang Stefani, “ninguém pode duvidar da sinceridade daqueles que advogam essa abordagem [o pragmatismo], nem depreciar sua ‘utilidade’ e ‘resultados’ (aspas do autor), e deve-se considerar seus resultados significativos (Música Sacra, cultura e adoração, 2006, p. 13).

Calvin Johannson aponta falhas mais sérias na abordagem pragmática, como:
1) a desconsideração de normas e padrões resulta na transferência do controle da qualidade e da legitimidade para o gosto do público;
2) a auto-contradição do pragmatismo enquanto negadora dos padrões absolutos, mas promotora incontestável do relativismo;
3) a utilização da música como ferramenta manipuladora em substituição a ação do Espírito Santo.

Considerações quanto à indicação número 1 de Johannson:
a) Não se pode esquecer que Lutero, Lowell Mason e Ira Sankey promoveram mudanças significativas na música sacra concedendo espaço ao “gosto” da congregação;
b) Pode-se verificar um discurso marcado pelo preconceito social ao definir-se o “gosto do público” como responsável pela perda de qualidade musical. Afirma-se ainda que esse “gosto” público não pode ser legitimado. Mas quem é que pode legitimar a estética e o gosto musical? Os privilegiados pelo acesso à educação musical? As regiões geopoliticamente favorecidas? As classes modeladas pelo saber europeu?

Quanto à indicação número 3, pode-se ressaltar a quantidade de palestras e sermões que empregam a música como ferramenta para influenciar escolhas e decisões (qual pianista de igreja não ouviu o pedido para tocar uma suave música de fundo na hora final de um culto?). A afirmativa de Johannson traduz a propalada dicotomia entre razão e emoção, sugerindo-se dessa forma uma livre escolha racional (pela palavra) em contraste com uma submissão emocional (pela música).

Tal discurso permeia muitas palestras bem-intencionadas que acabam sendo descuidadas na sua abordagem dos efeitos psicofisiológicos da música, que tratam o ser humano (em especial, a juventude) como objeto de fácil hipnose musical e moral e apontam mais proibições do que orientam positivamente, além de deixarem para a ciência todas as respostas.

Por outro lado, há diversos grupos musicais conhecidos pelos seus momentos de extremada e planejada comunhão. Em tais momentos, nota-se claramente o estímulo a evasão racional ou fuga dos níveis imediatos da consciência através da sugestão de forte concentração (no fechar de olhos, como na oração), da alteração da fala (que pode ir da voz embargada à glossolalia – falar em línguas desconhecidas), da performance física (visível na expressão facial de contrição e no gestual do corpo), e também da repetição prolongada de frases cantadas (no refrão interminável) ou faladas (nas longas orações de intercessão com um fundo instrumental).

Sobre esse aspecto, confira o livro de Magali Cunha, Explosão gospel, sobre o cenário evangélico brasileiro, o trabalho de Sandra R. Nascimento (UFG), O ‘padrão psico-musical’ dos contextos religiosos: a mensagem subliminar de uma manifestação musical, ou Cristãos em busca de êxtase, de Vanderlei Dorneles.

Além da idéia de pragmatismo na música cristã, outra abordagem é o esteticismo, que considera que os valores estéticos garantem a qualidade e a arte necessária para uma aceitável adoração a Deus (Música Sacra,..., p. 11). Para Wolfgang Stefani, porém, a medida do que é esteticamente superior tende a ser determinada subjetivamente assim como é difícil precisar o que é de alta qualidade artística. Isto acontece devido a crescente afirmação das identidades locais e ao forte dinamismo dos padrões de estilo musical.

O esteticismo também pode ser nefasto quando um produtor musical insere um certo arranjo ou um cantor utiliza determinado recurso vocal como artifício exibicionista. Nelson Freire, um dos maiores pianistas da atualidade, disse que “o mais importante é a música e não o que eu faço com ela”. Às vezes, o esteticismo pode se tornar uma derivação nefasta do pragmatismo quando a mensagem desaparece diante do marketing vocal e instrumental em torno dela. Mesmo assim, fica a pergunta: como dar sentido ao evangelho de Cristo no mundo moderno sem recorrer aos recursos de atração secularizantes?

Contudo, enquanto diversos cantores se acomodam numa ou noutra abordagem, às vezes o primordial é esquecido: o sentido de missão. Deve-se estar atento às táticas apelativas do emocionalismo. É preciso estar vigilante quanto às estratégias modernosas de assimilação da música pop e evitar exageros quanto à adoção natural de estilos contemporâneos. Mas, sobretudo, é tão necessário para alguns despojar-se das muletas da auto-publicidade artístico-musical quanto é urgente para todos desvencilhar-se da carapaça do criticismo autoritário e vestir o manto da orientação bíblico-construtiva.

02 setembro, 2007

Deus na linha de fogo


A temporada de caça à religião está aberta. Na vanguarda ateísta estão Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Na linha de fogo está, principalmente, o monoteísmo religioso e sua figura mais célebre: Deus. Mas, o que querem os cientistas-filósofos-ateístas-evolucionistas mesmo?

Os disparos do front da tropa de elite da “Razão” têm três destinos:

1º- Deus: a filosofia pós-Kant e a ciência pós-Darwin partiram do benefício da dúvida – Deus realmente existe? - para a certeza irretratável – Deus não existe! Se as especulações filosófico-racionalistas procuram excluir o sentido de Deus da existência humana, as elocubrações do naturalismo-evolucionista atribuem a existência de Deus a um delírio do sentido humano. Daí, surgem variantes de uma espécie de “sociologia evolucionista” que tem todas as respostas, inclusive as psicológicas, para o comportamento das comunidades humanas, capaz de explicar desde a milenar preferência feminina pela cor rosa até, claro, a fé religiosa;

2º- Religião: segundo Hitchens e Dawkins, a “religião é a raiz de todos os males”. Para os apólogos do Humanismo e da Modernidade Tecnocientífica, a ausência de religião pode propiciar ao mundo uma nova era de igualdade, liberdade e fraternidade. Entretanto, como soa ingênua essa oposição simplista entre ciência e religião! O filósofo francês Jacques Derrida percebe nessa questão “uma certa vigilância crítica e anti-religiosa, anti-judaico-cristã-islâmica, uma certa filiação “Voltaire-Feuerbach-Marx-Nietzsche-Freud”;

3º- Fiéis em geral: sem religião, sem religiosos. Os ateístas pavoneiam-se em declarações e juramentos de que jamais queimariam livros, como fazem os muçulmanos, ou que não queimariam os discordantes, como fez a Inquisição. É mesmo? Qual o atestado de idoneidade que dão? A queima de livros religiosos na Revolução Francesa e o banimento de cristãos e judeus na Revolução Russa?

Mas há explicações para as hostilidades em relação a Deus e a Religião?

1) Os cristãos têm culpa nessa ojeriza racionalista ao Cristianismo. É tamanha a vastidão de monstruosidade e barbárie perpetrada em nome de Deus que chega a ser admirável a persistência do cristianismo no mundo. Voltaire, no verbete ‘toleránce’ do Dictionnaire Philosophique, acusa a religião cristã e a Igreja. Mas, vejam só, ele invoca a lição do cristianismo originário, “os tempos dos primeiros cristãos”, Jesus e os apóstolos, abandonados pela “religião católica, apostólica e romana”;

2) Os protestantes e suas variantes dogmáticas também foram responsáveis por períodos de repressão e perseguição e hoje muitos dos seus adeptos servem de opróbrio ao evangelho de Cristo. Antigamente, o moralismo puritano e a intolerância denominacional reproduziam o farisaísmo insepulto, ou seja, casavam hipocrisia moral com soberba doutrinária. Hoje, se presencia uma religião de muito marketing, “tantas emoções” e nenhuma doutrina;

3) A fúria anti-religião reveste-se de tradição religiosa, passando-se por nova religião ao apenas substituir a verdade absoluta pelo relativismo absoluto, Deus pelo Homem-Deus, a fé pela ciência, o evangelismo cristão pelo proselitismo ateísta.

Anthony Flew, filósofo ateu e autor de The Presumption of Atheism, admite que “se a Ressurreição [de Cristo] fosse verdadeira provaria que todas as outras religiões e sistemas filosóficos estão ‘redondamente errados’”. Mais um motivo para reconsiderar a religião bíblica como parte do processo de religação do homem com o divino e também como narradora da história que confere sentido às existências de Deus e do homem.