19 fevereiro, 2013

paula fernandes e os espíritos compositores

A cantora Paula Fernandes disse em um recente programa de TV que seu processo de composição é, segundo suas palavras, “altamente intuitivo, pra não dizer mediúnico”. Foi a senha para o desapontamento de alguns admiradores da cantora. 

Embora suas músicas falem de um amor casto e monogâmico, muitos fãs evangélicos já estão providenciando o tradicional "vou jogar fora no lixo" dos CDs de Paula Fernandes. Parece que a apologia do amor fiel só é bem-vinda quando dita por um conselheiro cristão.

Paula foi ao programa Show Business, de João Dória Jr., e se declarou espírita.  Falou ainda que não tem preconceito religioso, “mesmo porque Deus é um só”. Em seguida, ela disse que não compõe sozinha, que às vezes, nas letras de suas canções, ela lê “palavras que não sabe o significado”.

O que a cantora quis dizer com "palavras que não sei o significado"? Fiz uma breve varredura nas suas letras e, verificando que o nível léxico dos versos não é de nenhum poeta parnasiano, concluí que das duas, uma: ou Paula Fernandes quis dizer outra coisa na entrevista, ou a cantora não passou da sexta série do fundamental.

Se ela não pôde concluir os estudos, ok, nenhum problema. Muita dupla sertaneja das antigas também não terminou o chamado “ginasial” sem que isso diminuísse a qualidade da sua música. Agora, se ela quis dizer outra coisa, então é preciso ver se a cantora estava falando de expressões ou conceitos do espiritualismo que escreveu sem se aperceber.

Vamos olhar algumas das letras que estariam enunciando implícita ou explicitamente alguns conceitos espiritualistas.

“Apaixonados pela lua”:
Ontem tive um sonho / Caminhamos entre as nuvens do céu
Desenhamos lembranças de nós dois / Envolvidos no azul do véu
[...]
Hieróglifos [seria esta a palavra desconhecida para ela?] de um livro para decifrar
Na viagem desse sonho / Nossas almas eu vi flutuar
Nas delicadas linhas do infinito
Fomos filhos de um romance de um amor lunar
Apaixonados pela lua / Cheia de mistérios
Nos finos grãos de areia, mente branca
Segredo e solidão em seus hemisférios

Outra canção, “Amor além da vida” (ou “Além da vida”), diz:
Um sentimento vai / Além da vida pra dizer
Que nunca é tarde pra tentar / Um grande amor então viver
Já fui ferido / Também chorei, posso entender
Mas esse amor além da vida / Vamos viver
Eu já fui teu sol, fui teu luar / Dei tudo de mim pra te convencer
De que eu sou o amor e parte de mim / Pertence a você
Mil vidas de amor pra continuar / Tentar ser feliz sem fazer sofrer
De volta ao que eu sou, eu renasci / Pra te merecer

A primeira canção fala de almas que flutuam e amores lunares, porém, assim como o título da segunda, pode ser apenas uma metáfora típica dos apaixonados. As duas últimas linhas parecem fazer referência ao processo de reencarnação (mil vidas pra continuar, ...renasci). No entanto, se a cantora não houvesse mencionado sua opção religiosa estaríamos aqui falando de menções espirituais ou de simplismos gramaticais da letra? De espíritos "compositores" ou de rimas com sete verbos seguidos terminados em "er"?

Nas letras da cantora, inspiradas ou não por espíritos, qualquer pessoa pode ver mensagens positivas de amor. Contudo, se foram entidades sobrenaturais que sopraram essas letras, então parece que os espíritos que “inspiravam” as enigmáticas letras dos roqueiros nos anos 70 agora andam um bocado sentimentais.

“Espaço sideral”:
Diretamente do espaço sideral
Viemos juntos numa nave espacial
E nos perdemos numa grande colisão
Com um cometa coisa sem explicação
Milhões de anos de saudade de você
Somente em sonhos sei que você vem me ver
Seja loucura, seja coisa do além
Só sei que, mesmo sem dormir, sonho também

Nessa canção, Paula Fernandes está falando de odisseias no espaço ou de sonhos românticos? Dá para levar tudo ao pé da letra ou trata-se de uma simples metáfora de apaixonados? Levando em conta o que ela disse na entrevista, nem a compositora sabe, mas desconfia.

Paula Fernandes disse na entrevista que possui uma “sensibilidade de perceber o mundo de forma diferente”, que vê “a vida de forma mais positiva”, e que isso interfere no seu modo de compor. Nas palavras dela, isso explica porque suas canções falam de “um amor mais simples, mais brejeiro, que não é fútil, não é superficial” como se tem ouvido por aí, pois ela canta “o amor de uma forma mais simples e pura”. Ela não cita que sua infância se passou no campo e ouvindo o pai tocar música caipira ao violão. O que certamente também tem a ver com essa sensibilidade brejeira.

Não se pode negar que o estilo musical de Paula Fernandes atrai justamente quem prefere um amor tranquilo e fiel. Sua compreensão do relacionamento amoroso não tem nada do hedonismo que rola solto no funk e no sertanejo atual.

Nesse sentido, algumas de suas canções expressam valores morais comuns às religiões cristã e espiritualista. A cantora também reforça algumas semelhanças em pontos como a onisciência e o amor de Deus.

Por exemplo, um velho texto (“O Dom”) da cantora postado por um fã-clube diz:
[...] Lembrando que seremos sempre seres imperfeitos. Mas dotados de tamanho amor
Capazes de sentir pra evoluir…
Hoje pode ser que a vida não tenha as cores que esperamos.
Entretanto, amanhã certamente Deus, na sua magnitude,
nos trará uma explicação para a dor ou o sofrimento. [...]

Ou sua regravação de “One of us”:
E se Deus fosse um de nós?
[...] você gostaria de vê-lo
Se vendo significasse que você teria que acreditar
Em coisas como o Céu, Jesus e os santos
E todos os profetas?
Sim, sim, sim, Deus é maravilhoso
Sim, sim, sim, Deus é bom

Letras como essa reforçam linhas gerais do cristianismo. Veja também a letra de “Criação divina”, que diz que “Deus criou o universo em harmonia”, fez o sol e a lua, a árvore, o fruto, fez o homem e a mulher. Diz ainda: “Deus fez você pra mim, criação divina que ganhei do criador”. Como se não bastassem as referências ao Gênesis bíblico, a canção diz também: “Deus criou pra cada um seu próprio dom, e junto com cada talento uma missão”.

Acreditar que todas as religiões são "verdadeiras" ao mesmo tempo é um equívoco relativista que não vê as diferenças e contradições que existem entre elas. A coexistência pacífica de fiéis de diferentes religiões deve ser defendida. Mas, estudando as religiões, vê-se detalhes e crenças incompatíveis. Por exemplo, há grupos cristãos que acreditam que os que morrem permanecem mortos em seus túmulos aguardando juízo e ressurreição no futuro. Assim, ou a doutrina cristã da ressurreição ou a doutrina da reencarnação seria a crença correta. 

Por outro lado, o evangélico que diz que seu processo de composição é divinamente inspirado às vezes é visto como um músico “ungido” pelo Espírito. Na batalha ideológica e espiritual observada entre os diferentes grupos religiosos, os espiritualistas ficaram com outro tipo de fama entre muitos evangélicos. Isto é, seus espíritos compositores não teriam a mesma benção celeste do Espírito que “unge” a outra música. Se os evangélicos não tem respaldo bíblico para crer em doutrinas espíritas, quem, então, estaria providenciando aparições e "composições" mediúnicas?

Na visão evangélica tradicional, os espíritos de má fama estariam por trás tanto da "sem-vergonhice" do funk quanto do sertanejo "bem-comportado", pois mesmo a mensagem de "simplicidade romântica" de Paula Fernandes, segundo essa visão, estaria relacionada a um ardil que atrairia pessoas para uma compreensão espiritual enganosa. 

Após as declarações de Paula Fernandes, muitos fiéis vão desconfiar e esconjurar suas letras e músicas. E quem vai continuar curtindo a música da cantora serão os fiéis do romance tranquilo.

13 fevereiro, 2013

brevíssima história da renúncia no século 21





P.S: O comandante, o fenômeno e o pontífice tinham a saúde realmente debilitada quando saíram de cena. Já o excelentíssimo passa bem, mas se quiser inventar um motivo médico e renunciar ao cargo ninguém vai reclamar, viu?

07 fevereiro, 2013

Os Miseráveis: musical de muito glacê e pouca vitamina


Duas horas e meia de um filme inteiramente cantado, infinitamente longo, politicamente ingênuo, exageradamente melodramático, musicalmente esquecível e miseravelmente chato.

Esse filme não é uma adaptação direta do livro Os Miseráveis (de 1862), e sim do musical Les Miserábles, sucesso da Broadway que fez miséria do clássico de Victor Hugo. Enquanto o livro retrata a opressão social de uma França pós-revolução, conferindo protagonismo popular aos mais pobres e dosando romance, consciência humanista e o tema da redenção, o musical põe tudo isso a perder em forma de duas ou três boas canções e muito glacê pra turista deslumbrado aplaudir.

Noves fora a brevíssima e marcante interpretação de Anne Hathaway cantando “I dreamed a dream” e um surpreendente Hugh Jackman Wolverine no papel de Jean Valjean, quase todo o restante é maçante e interminável. Pule o filme, leia o livro.