30 dezembro, 2013

os melhores livros em 2013

Meninos, eu li. E reli. Tentando acabar a tese enquanto ela não acaba comigo, esse ano ainda foi de muita leitura acadêmica. Deu pra respirar de vez em quando:

Delas é o reino do céu (Karina Bellotti; Editora Annablume) – um estudo minucioso sobre a produção evangélica para crianças (os produtos Smilingüido e a revista Nosso Amiguinho). A autora, professora do departamento de História da UFPR, demonstra como os valores religiosos e sociais são processados e organizados para o consumo infantil.

Uma noite no palácio da razão (James R. Gaines; Editora Record) – a história do encontro de Johann Sebastian Bach com o rei Frederico, o Grande. Com uma narrativa prazerosa, o livro conta minúcias da vida dos dois grandes personagens e vai avançando para o encontro do músico de fé com o monarca iluminista.

Sociologia da religião: enfoques teóricos (Faustino Teixeira, organizador; Editora Vozes) – reunião de diversos artigos sobre estudiosos da religião (Max Weber, Durkheim, Levi-Strauss, Geertz, Bourdieu, Peter Berger) que funciona como uma introdução às principais teorias sociológicas da religião. Em geral, as pessoas preferem leitura endógena, produzida por seus pares religiosos, e descartam qualquer outra abordagem. Mas vale a pena compreender que religião pode ser revelação, mas não deixa de ser um empreendimento das sociedades humanas.

Samba e identidade nacional (Magno Siqueira; Editora UNESP) – partindo da matriz religiosa e lúdica do samba, este livro mostra como o samba foi deixando de ser elemento marginal para figurar um símbolo da identidade brasileira. Se antes os ritmos de origem africana serviam à religião e ao entretenimento dos negros escravos, no século XX o samba foi apropriado pela nascente indústria do rádio e do disco e ainda foi “embranquecido” e cooptado para apoiar à ideologia do Estado.

Music and its social meanings (Christopher Ballantine) – não pude ler este livro inteiro, mas os capítulos 1 (sobre a esquecida relação entre música e sociedade), 2 (uma leitura sobre a relação entre a obra de Beethoven e o pensamento de Hegel e Marx) e 3 (uma visão filosófica e social das óperas de Mozart) são fascinantes.

Religiosidade no Brasil (João Baptista Borges, editor; EDUSP) – compilação de textos escritos por reconhecidos acadêmicos brasileiros. Do fenômeno neopentecostal ao Santo Daime, do luteranismo ao candomblé, do judaísmo ao presbiterianismo e à religião islâmica, análises bem fundamentadas sobre o estado atual da religiosidade no Brasil.

O duplo (Fiódor Dostoiévski; Editora 34) – um funcionário público russo se vê oprimido entre a imagem que tem de si mesmo e a realidade. Em seguida, passa a ser acossado por alguém que nada mais é que seu próprio duplo. Em poucas páginas, Dostoievski mostra a pequenez humana, a tolice da autoprojeção social e as malhas da loucura. Rápido, mas não indolor.

26 dezembro, 2013

os melhores filmes em 2013

Meninos, eu vi. E pra mim, os melhores filmes que vi neste ano foram estes:

INCÊNDIOS (2010) – qual o preço de escavar o passado para descobrir quem você é? Nesse filme, esse trajeto pode ser dolorido, mas assisti-lo é uma experiência enriquecedora.


AMOR – um dilacerante conto moderno sobre o envelhecimento, sobre a morte e os limites do amor. Aqui não existe nada de fantasia da melhor idade.

A HORA MAIS ESCURA – o filme sobre a caçada americana a Osama Bin Laden não é ufanista, não hasteia bandeira. Nem faz apologia da tortura para obter informações. A tortura é mostrada, mas o que está em questão são os métodos utilizados para revidar o ataque terrorista. É sobre uma obsessão e suas consequências na mentalidade americana.



AS AVENTURAS DE PI – um filme francamente espiritual com imagens maravilhosas e uma consciência de que Deus se importa e age de formas inesperadas na vida das pessoas.


ANNA KARENINA – nessa adaptação do clássico de Tolstoi, o diretor Joe Wright (de Orgulho e Preconceito) criou um mundo novo onde cabem religião, romance e olhar social e põe tudo dentro de um teatro. Enquanto os dramas burgueses no palco nos mostram que na vida estamos sempre representando um papel em público, por outro lado, a vida simples e a fidelidade são vividas nos espaços abertos do campo.

HANNAH ARENDT – às vezes morno, às vezes didático, mas não importa. O filme levanta questões muito importantes sobre a questão judaica e a ação dos nazistas e tem uma atuação fascinante de Barbara Sukowa como a filósofa que acirrou o debate sobre a atitude moral dos sujeitos levados na correnteza da história.

STAR TREK: ALÉM DA ESCURIDÃO – não é tão bom quanto o primeiro da nova série, mas tem um Spock mais humano que nunca. E quem foi fã da antiga série vai amolecer o coração com citações de situações e personagens de outros tempos.


GRAVIDADE – um blockbuster com cérebro. No espaço, onde não há peso como na terra, uma astronauta experimenta a solidão, a iminência da morte, o sentido da oração, o peso do passado enquanto luta para sobreviver. Um feito técnico extraordinário, considerando que não há batalhas espaciais, nem aliens, nem romance. Só um ser humano e suas contradições entre a vida e a morte.

that's all, folks!

19 dezembro, 2013

a ditadura do look


Ninguém protesta contra a ditadura do look, aquela em que você é punido não pela aparência do mal, mas pela má aparência.

Na ditadura do look, não basta ser legal, tem que ter style; você pode ser chato, desde que seja fashion.

11 dezembro, 2013

flasmob de canção pop em terreno cristão. pode isso?





Grupo vocal adventista faz flashmob da música "Somebody to Love", clássico da banda Queen, no refeitório do Centro Universitário Adventista (UNASP-EC).

Para muita gente, a música cantada profanou o território santo do instituto e é um sinal da grave interação do jovem cristão com a demoníaca cultura popular. Outros já predisseram a disseminação de flashmobs juvenis pelo adventismo afora. 

Para outros, tratou-se simplesmente de uma agradável performance de uma bonita música, com uma bonita letra, muito bem executada no espaço do refeitório dos alunos. 

Ah, mas a música é do Queen, uma banda de rock, e o rock está no índex dos estilos desqualificados para a escuta musical do cristão. Para piorar, Freddie Mercury era homossexual, e provavelmente, agora os alunos vão se interessar por bandas de rock e pela orientação sexual de Freddie Mercury. 

1) Não sou roqueiro, nem fã de rock. Gosto de música boa, sem vulgaridade, bem-feita, e que não contradiga meus valores. A partir daí, eu ouço a música. Se eu fosse deixar de ouvir música por causa do pecado do compositor ou do cantor, eu não poderia mais entoar nem os hinos e canções cristãs, a começar pelas minhas próprias composições (que podem ser desqualificadas pela sua mediocridade inerente e não só por causa dos erros cometidos por mim). 

2) Assista o vídeo e confira se algum princípio foi quebrado, se algum valor indigno foi transmitido. Observe que tudo foi feito com bastante parcimônia e moderação. 

3) A canção apresentada não é frívola, nem se refere a Deus de maneira banal. Ao contrário, é um pedido a Deus para que se encontre alguém para amar. A música não estaria usando o nome de Deus em vão, mais do que eu e você usamos quando falamos "meu Deus" em reação a qualquer coisa. Alguém poderia até se queixar se a letra e o estilo musical motivassem a blasfêmia ou a zombaria contra a santidade atribuída a Deus. Mas não é o caso nem da música original nem da performance no restaurante do colégio.

4) Stevie Wonder  fez uma canção ("Isn't she lovely") agradecendo a Deus pela perfeição de sua filha recém-nascida. Bono Vox ("Still haven't Found What I'm Looking For") canta que só encontrará o que tem procurado quando o Reino chegar. Freddie Mercury pede a ajuda de Deus para encontrar um amor de verdade. Eles não podem usar o nome de Deus? Talvez pelo uso cotidiano ou por entenderem que possuem maior afinidade (quando não exclusividade) com o conteúdo das coisas sagradas, alguns cristãos inadvertidamente pensam deter o monopólio na utilização do nome santo de Jeová. 

5) Tchaikovski era homossexual. Se a orquestra do Unasp tocasse "O Lago dos Cisnes" estaria havendo essa repercussão? 

6) Há alguns anos, Leonardo Gonçalves cantou "Isn't she lovely" e foi outro alvoroço porque ele participara de um show do Ed Motta e ficou brincando com melismas. Naquela época, o violinista Paulo Torres tocou no Domingão do Faustão com Andrea Boccelli algumas árias populares. Só elogios. Então, tá combinado: Se dois pianistas ou flautistas brincarem de virtuosismo instrumental, é talento puro. Se dois cantores brincam de virtusiosismo vocal, é exibicionismo gratuito.

7) A canção apresentada no flashmob no Unasp-EC é "Somebody to Love". Ela tem ritmo ternário, o que não favorece movimentos corporais típicos do rock. Sua melodia está mais próxima de árias de ópera do que do pop comum. Quem quiser associar o rock só com sexo irresponsável e drogas, que o faça. Mas não reclame de quem só associa padres a pedófilos ou evangélicos a pregadores de má-fé. 

8) Não sou melhor do que os críticos zelosos nem do que os roqueiros que levam publicamente um estilo de vida que depreciamos. Só acho meio farisaico essa tendência de apregoar anátemas contra a música popular porque não se quer sustentar os cantores de "má fama" e depois ir sustentar o lucro dos empresários dos shoppings e restaurantes. Aliás, todos eles muito queridos, sãos e sadios, não é mesmo? 

9) É tão inadequada a postura de total descarte e censura da cultura pop quanto o é uma postura de celebração acrítica dos seus produtos. 

10) "Há pessoas [...] para quem a religião é um tirano [...] Consideram toda recreação ou diversão um pecado, e pensam que a mente deve estar constantemente trabalhando no mesmo grau de severa tensão. Isso é extremismo" (Minha Consagração Hoje, p. 19).

05 dezembro, 2013

essa é a voz

Essa é a música, andai por ela.
Depois de ouvir Lillie McCloud, você achar que uma deusa se fez carne e cantou entre nós.


12 novembro, 2013

as promessas de um troféu gospel

É noite em Jerusalém e a plateia aguarda com expectativa do lado de fora do átrio: “E o Troféu Ebenezer de Melhor Salmista vai para... [que rufem os adufes] Jedutum!” Os filhos de Hamã aplaudem, e em coro saúdam com a típica manifestação mosaica: “Ele merece! Ele merece!” Mas, no fundo, esperavam sair com o prêmio nas mãos. Agora, até as raposas sem covil sabem que rolos e rolos de pergaminho com as letras de Jedutum vão ser vendidos com a inscrição de “melhor cantor do ano”.

3 ou 4 mil anos depois...

O Troféu Promessas se define como um “evento com apoio da Rede Globo e um instrumento para honrar a vida daqueles que se dedicam à música gospel”. É o que diz no site da premiação. Talvez fosse suficiente dizer que se trata de um evento dedicado a premiar os cantores gospel, mas é preciso celebrar tanto a inédita parceria com a mídia dominante como também justificar a competição com tonalidades nobres. Fico pensando que se quisessem honrar a vida do cristão não bastaria escolher um veterano da música cristã e lhe entregar um prêmio.

Os idealizadores da Troféu Promessas também criaram uma categoria onde se lista vários nomes que receberam votos via Facebook. O título singelo é: “Pra Curtir”. Imagino o cantor sério, que está no gospel pela missão e não pela moda, que visa anunciar o evangelho e confortar as pessoas com sua música, e aí vê seu trabalho resumido a um “pra curtir”!

O mundo gospel fez pouco esforço para escapar da lógica pop que move a indústria fonográfica. Embora os cantores se denominem ministros e não artistas, embora o público diga que as canções de tal ministro sejam cheias de “unção”, embora todos afirmem que a música é um modo de levar a “mensagem da salvação”, a promoção de um troféu para os melhores faz entrar em cena a roda-viva das contradições:

- as igrejas advertem contra a era de consumismo, mas suas gravadoras precisam vender seus produtos num contexto de alta concorrência comercial e religiosa;

- a igreja lança uma anátema contra o estrelismo, mas a indústria gospel reproduz mecanismos de transformação de “ministros” em celebridades e de fiéis em fãs;

- a igreja busca motivar o exercício da missão, e o mundo gospel cria uma competição para premiar os que melhor cantaram essa missão;

- a igreja abre a Bíblia para dizer que todos são igualmente falhos e carentes da graça divina, o Troféu Promessas pede para que você escolha “o melhor”.

O Troféu Promessas não é como uma competição escolar, em que o objetivo é premiar os méritos de um estudante dedicado aos estudos; nem é como uma gincana juvenil que serve para socializar e entreter. Trata-se de uma premiação de viés promocional similar às premiações da indústria da música pop. 

Comércio e promoção não são intrinsecamente maus. Mas o conluio de estratégias da indústria pop com o ministério musical cristão levou gospel a um beco difícil de sair.

A controvérsia se instala de vez quando uma instituição religiosa pede votos para os cantores que são adeptos da sua igreja. Para alguns, essa seria uma estratégia providencial de divulgação da igreja; para outros, isso soa como lobby corporativista. Alguém poderia perguntar: é para votar no melhor cantor ou na melhor doutrina?

Essa é uma época em que os modos de transmissão da mensagem religiosa aparentam maior ambiguidade, já que a votação corporativista tanto divulga a missão da igreja quanto pode aumentar as vendas dos bens musicais. Mas não se pode descartar o fato de que o lucro financeiro é pequeno (e quase sempre é mesmo) perto do saldo evangelístico.

Nesse sentido, embora a até a claque dos programas de TV saiba que a Rede Globo fechou com a indústria fonográfica gospel por causa da chance de aumentar a audiência e o faturamento, os cantores gospel entendem que a oportunidade de transmitir os conteúdos da fé está acima da probabilidade de entrar em polêmica comercial. 

Embora muitos cantores cristãos sejam discretos em relação ao troféu, os executivos das gravadoras vivem do retorno de seus investimentos e precisam incrementar a receita da empresa. Por isso, há gravadoras que aproveitam a premiação para relançar o CD vencedor, agora com a tarja de “Melhor CD no Troféu Promessas”. Alguns sites de venda de produtos gospel utilizam a mesma estratégia para alavancar as vendas, e aí estamos de volta à roda-viva das contradições.

Agora, algumas perguntas sem nenhum juízo de ouvintes, cantores ou denominações:

Que espécie de visibilidade midiática e evangélica gera uma premiação dos “melhores” da música cristã?

É mesmo incorreto usar a premiação para divulgar a missão da igreja se, afinal, o que interessa aos cantores não é o troféu, mas a oportunidade de comunicar seus princípios e crenças a uma grande plateia?

Os grupos de fãs que fazem campanhas pelo seu cantor preferido estão agindo certo?

E os músicos cristãos? Tem se posicionado contra a adesão às estratégias de publicidade e mercantilização do evangelho musical?

Se não há um troféu nacional para o melhor pastor ou evangelista, e se os cantores são considerados evangelistas, não haveria uma contradição na existência de um prêmio para os "levitas da música"?

Será que as gravadoras não têm gerenciado a música cristã como uma área de ação ministerial de evangelismo, mas como um campo da ação empresarial de artistas do pop?

*****
Atualização em 15/11/2013: a Globo cancelou o evento de premiação e o troféu será enviado aos vencedores pelos Correios. Mas os vencedores foram os convidados do programa "Encontro com Fátima Bernardes", na TV Globo. Pode ter sido mais benéfico, pois melhor do que uma cerimônia de premiação que poderia esquentar mais a polêmica, foi a chance única para os cantores premiados cantarem e falarem abertamente de sua fé no programa global.


04 novembro, 2013

a autoridade, a ciência e a religião

Duas ou três coisas que eu sei sobre o cancelamento de evento criacionista pela Unicamp em outubro/2013:

- A censura da Unicamp ao evento de debatedores criacionistas foi um atentado à livre discussão de ideias. Os cristãos podem se queixar mesmo. Mas vale perguntar quantas faculdades cristãs sediariam um evento de evolucionistas?

- As primeiras universidades europeias e americanas tinham, em seu quadro de professores, teólogos que traziam a ciência à luz. Agora os religiosos são empurrados para dentro do armário acadêmico.

- Em 1925, o professor John Scopes foi acusado de violar a lei ao ensinar a teoria da evolução em escolas do Tennessee e sua defesa foi impedida pelo "lobby religioso" de trazer cientistas ao julgamento.

- Em 2013, evento criacionista é cancelado por "lobby ateu" e é considerado doutrina anticientífica e seus palestrantes impedidos de apresentar suas ideias.


- O pêndulo da autoridade já foi da religião e agora mudou de lado. Só não mudou a tendência demasiadamente humana de apresentar credenciais autoritárias de senhor absoluto da verdade.

11 outubro, 2013

existe mesmo um louvor que agrada a Deus?

Já li textos sobre música sacra que me dão a impressão de que o autor tem a fórmula da música que agrada a Deus. Uns garantem que só os hinos antigos sem acompanhamento de guitarras ou percussão podem agradar a Deus. Outros, que qualquer sonoridade contemporânea é capaz de agradar a Deus.

O que nenhum desses lados refletiu é que a postura de agradar a Deus com esse ou aquele tipo de música não possui nenhuma base bíblica.

Segundo um texto de recorte bem tradicional, o cristão deve louvar a Deus mesmo com uma música da qual não gosta e considera ultrapassada, tediosa e formal. Então o louvor é um sacrifício, talvez com duplo sentido: uma tortura para quem canta, ou para quem ouve uma música da qual não gosta; e um sacrifício de louvor capaz de agradar a divindade. Esse último sentido (sacrifício para agradar a divindade) me parece muito próximo da magia, a qual, de acordo com alguns pensadores (Durkheim e Weber incluídos), difere na religião.

Na magia, o sacrifício é usado para constranger a divindade a realizar os desejos humanos. Na Bíblia, nos tempos em que havia sacrifício de cordeiros, esse ato não tinha o objetivo de aplacar a ira divina, mas de estabelecer um sinal de que um sacrifício futuro sepultaria todos os sacrifícios: a morte de Cristo, como um tipo de “Cordeiro que tira o pecado do mundo”.

O louvor, portanto, não seria um sacrifício (a não ser quando a congregação é torturada com hinos que considera tediosos ou com as tediosas repetições ad infinitum de um refrão gospel).  O louvor musical é uma resposta humana aos atos de Deus, e não um sacrifício para agradar ou constranger a Deus.

Ao analisar o conteúdo bíblico a respeito de louvor e adoração, não encontrei nenhuma referência ao gênero especial de música que agradaria a Deus. Contudo, há bastante menção à atitude de quem louva a Deus. Certas passagens bíblicas recomendam que o louvor seja feito com
- “júbilo e com arte” (Salmo 33:3),
- com “espírito e entendimento” (I Coríntios 14:15),
- sem hipocrisia (Amós 5:23 – “afastai o estrépito de vosso cântico, porque não ouvirei a melodia de tuas violas”, a não ser que “corra a justiça como as águas”).

Nenhuma menção sequer a estilo musical.

O que alguém pode inferir, então, é que toda forma de louvor é válida. De fato, nada parece contrariar esse pensamento, a não ser o bom senso de que a ausência de regulamentação bíblica para o estilo musical não significa ausência de critérios para o louvor.

E onde estariam então esses critérios? Alguns deles estão na carta do apóstolo Paulo aos coríntios. Ele escreveu que “todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas edificam” (I Coríntios 10:23). Me parece que não há desaprovação bíblica para nenhum estilo musical, mas há uma advertência em relação à adequação ou conveniência do estilo. A preocupação do cantor, então, deveria ser a mesma que a do pregador: edificar a igreja.

Num culto coletivo, nem sempre há um subgrupo social em destaque, mas sim a presença mista de várias gerações e faixas etárias. Há também nas congregações gostos e comportamentos musicais que têm menos a ver com conversão pessoal e mais com distinção de tipos de instrução e cultura.

A conclusão lógica é de que não é possível agradar a todos de uma vez. De fato, mas usar essa conclusão para assegurar o predomínio ou de músicas antigas ou de cânticos recentes não é bíblico. Como assim não é bíblico?

Volto a Paulo: “Ninguém busque seu próprio interesse, e sim o do outro” (I Coríntios 10:24). Descontando o fato de que ainda assim não vai haver unanimidade, a busca por agradar o gosto musical e cultural da congregação de forma geral, e não particularizada, é um bom princípio.

No entanto, Paulo amplia esse pensamento em carta aos crentes de Éfeso: “Enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5: 18-21).

Os cristãos não discordarão de que a sujeição de “uns aos outros no temor do Senhor” é um princípio incontestável. Nesse sentido, pode existir um louvor que agrada a Deus. Ora, se Deus estiver rodeado de anjos que O louvam continuamente, me parece que Ele tem a Sua disposição um louvor bem superior aos dos humanos. Talvez essa seja uma das razões pelas quais Ele olha a atitude de quem O louva e não para o estilo do louvor.

O louvor não é um sacrifício. O que se sacrifica é o “eu”, o gosto pessoal, no púlpito que serve para glorificar a Deus e edificar a congregação. É no altar da sujeição de uns aos outros que os mais velhos aceitam os novos sons e os mais novos não desprezam a tradição.

18 setembro, 2013

o que ninguém mais tem

No mundo,
tudo tem,
embora
nem todo mundo
tenha.
O que ninguém
tem mais
no mundo é silêncio.

12 setembro, 2013

toda nudez será consagrada

Nas sociedades antigas, não havia dicotomia entre “vida religiosa” e “vida secular”. A religião ou o trabalho não eram aspectos compartimentados da vida, mas constituíam uma só esfera integrada, holística. Essa é a compreensão na cultura islâmica e também nas religiões de raiz africana.

Na visão tradicional judaica, por exemplo, as atividades humanas são realizadas para a glória de Deus e “em tudo” se dá graças a Deus. A procriação, o casamento, a refeição, o sono, o trabalho e o lazer, a música e as leis, são dádivas celestes e oportunidades para se cooperar com a bondade e a justiça divinas. 

A ética calvinista sublinhava a motivação dos protestantes anglo-saxões do século 18 quanto a trabalhar honestamente, poupar rigorosamente e a divertir-se de maneira frugal. De um certo modo, era uma visão que admitia um forte senso da presença de Deus, que também era um juiz a observar as práticas dos indivíduos e a quem se devia oferecer o tempo e os melhores empreendimentos.

Em nossa época, as atitudes de vários grupos cristãos demonstram que a ética calvinista da poupança foi substituída por uma ética evangélica de consumo. Além disso, a diversão e o entretenimento fazem parte dos novos comportamentos evangélicos que passam a ter um envolvimento ativo com o variado universo do entretenimento pop. Esse envolvimento se dá em face de um maior abrandamento dos costumes e abandono de restrições. 

Como "testemunha" (e não ré, por favor) desses novos comportamentos, está a evangélica Aline Franzoi, modelo que atua como ring girl, a garota que levanta as placas nos ringues/octógonos do UFC. Ela afirmou não ver problemas em ser uma ring girl porque “religião e profissão são áreas diferentes”.

A fala de Aline Franzoi reproduz uma tendência dos cristãos na modernidade, a de que se possui uma vida dupla, isto é, uma para Deus e outra de ordem individual. Talvez um bem social legítimo e necessário como a laicidade, a separação entre Igreja e Estado, tenha contribuído para o desenvolvimento de uma "dupla" consciência individual, em que a religião está isolada da "vida secular". Nesse sentido, uma fração dos evangélicos se sente livre para se envolver em atividades profissionais que outros segmentos cristãos considerariam impróprias.

As lutas do UFC, nas quais há competidores que agradecem a Deus após "finalizarem" o adversário, também atraem espectadores evangélicos. E agora é possível que mais garotas evangélicas venham a participar como ring girls e a se tornar também musas do UFC.

Aline Franzoi já havia feito fotos sensuais para a revista VIP, garantindo que não posaria jamais como veio ao mundo. Mas esse limite foi superado, pois ela acabou de se tornar a “primeira evangélica capa da Playboy”. Sabendo que no meio evangélico toda nudez midiática será castigada, ela se justificou: “Deus vê o coração e a nossa intenção”.

O recurso a essa citação bíblica é um expediente que tem sido usado como atenuante para qualquer prática controversa entre os evangélicos. Em todo caso, a modelo parece ciente de que Deus vê o coração dos indivíduos enquanto os indivíduos só podem mesmo contemplar a criação divina. Soa como uma contradição irônica e até casuística: ela sabe que Deus olha o coração e que os homens, não.

Numa época em que belas mulheres que foram capa de “revistas masculinas” se convertem ao cristianismo, Aline estaria percorrendo exatamente o caminho contrário? É que esta também é a época em que se consolida uma cultura evangélica que adere à modernidade somente no que ela oferece de diversão, consumo e culto à celebridade. Em outros aspectos e debates, prevalece o obscurantismo teológico e o fundamentalismo ideológico.

Há uma mentalidade no cristianismo que reprime brutalmente o corpo. Muitos castigam o corpo como repositório de todo o mal. Uma outra mentalidade abdica de velhas restrições e assume maior liberdade de exibição do corpo. Desse modo, o corpo é o objeto utilizado para punir ou estimular o desejo e o prazer.

Esses dois pensamentos opostos resultam do mesmo equívoco filosófico e teológico: a teoria de que o corpo é uma coisa e a “alma” é outra, de que o corpo seria para atividades seculares/"mundanas" e a mente/alma para Deus. O dualismo dos gregos antigos, que separa o corpo da alma, ainda frequenta o pensamento cristão. Talvez por isso alguns entendam que é possível ganhar o “mundo”, perder o corpo e salvar a alma.

06 setembro, 2013

PREpara que a música ainda vai ficar pior

Melhor cantor do ano: Luan Santana
Melhor cantora do ano: Ivete Sangalo
Melhor videoclipe: “Show das Poderosas” (Anitta)
Música-chiclete: idem

Esse foi o resultado da votação popular do Prêmio Multishow 2013, que ainda premiou o Sorriso Maroto como Melhor Grupo. Veja que foi o voto popular que elegeu os melhores do ano. Como não é o caso de ficar falando mal do povo e do gosto popular, vamos pensar em algumas perguntas:

Quem é que está votando?
Não sei. Talvez seja o mesmo pessoal que votaria em “Crepúsculo” ou “Velozes e Furiosos trocentos” como melhor filme. Ou são os mesmos que acham que o humor da turma do Porta dos Fundos é a coisa mais inteligente e divertida que há.

Não havia concorrentes melhores?
Não. Luan Santana disputava o prêmio com Fiuk, Thiaguinho (que ganhou o prêmio de Melhor Música com “Buquê de Flores”) e o vocalista do NX Zero, enquanto o funk de Anitta concorria com representantes da fina flor da música brasileira, como “Camaro Amarelo” e “Gatinha Assanhada”.

Por que esses artistas foram considerados os melhores?
É provável que, em vez de analisar itens ultrapassados como refinamento de letra e inventividade melódica, os eleitores do Multishow valorizem mais certos fatores indispensáveis para uma canção, como: número de caras e bocas do cantor por frase cantada, profundidade do decote, capacidade de se aprender a coreografia, refrão com a onamatopeia mais maliciosa. Em resumo, está claro que qualidade musical tem outra definição nos dias de hoje.

Nossa música popular está em decadência?
A música brasileira não teve só Noel Rosa, Ary Barroso, Tom Jobim, Chico Buarque ou Gilberto Gil. Há 30 anos, Gretchen rebolava na TV ao som de “Conga la conga”, e se na época houvesse um prêmio de “música-chiclete” do ano, ela (ou Sidney Magal) venceria. Mas me parece que a música popular mais sofisticada perdeu o vigor e a música popular menos inteligente perdeu a vergonha.

A música pop estrangeira é melhor do que a brasileira?
Descontando o fato de que música ruim é sempre a dos outros, música ruim é música ruim em qualquer parte do mundo. Mas para um país que já exportou “Aquarela do Brasil”, “Tico-Tico no Fubá” e “Garota de Ipanema”, ver o mundo inteiro dançando “Ai se eu te pego” e o Bon Jovi cantando “Camaro Amarelo” é constrangedor. Ou pelo menos era pra ser constrangedor.

O que aconteceu com a música brasileira?
Talvez tenha ocorrido um processo de franco emburrecimento da pátria. Décadas atrás, músicos sem maior instrução escolar, como Adoniran Barbosa, Luiz Gonzaga e Tonico & Tinoco produziam bonitas canções. Hoje, são os cursos universitários que promovem festas à base de Naldo, Luan Santana, Sorriso Maroto e outros congêneres que rebaixaram tanto o nível que Reginaldo Rossi parece o Stevie Wonder perto deles.

Pior do que está não fica?

Ah, fica. Não é que esses artistas lancem produtos mal-acabados. E nem é correto avaliar uma canção popular com os critérios de avaliação de estruturas musicais diferentes, como a “música clássica”, por exemplo. Mas como tudo que está ruim sempre pode ficar pior, então, se PREpare!

27 agosto, 2013

Ensinar é coisa de inconformado

Ensinar é coisa de inconformado

Já disseram por aí que ensinar é formar
É formação
Formar a ação
Fomentar a ação e a reflexão
Formar o docente (de forma decente)
Jamais formatar o docente
Isso, sim, (e o salário) é indecente

Por mim, basta informar,
Diz o professor deformado
É sonhar demais querer transformar?
Pergunta o professor inconformado

E não vos conformeis com esse século...

Quero ver formar sem formalizar
Unidade, conte comigo
Uniforme, não
Se formar não é uniformizar
Então vamos multiformizar?

Nem multi nem maxiformizar
É desformizar, é antiformizar
É fazer tudo nos inconformes

Ensinar é trabalho pra inconformado
Ensinar é tirar da forma
Ou o ensino sai da forma
Ou nossa prática vai ficar no formol

E não vos conformeis com as práticas desse século...

by Joêzer Mendonça


* * * * *
Escrevi essas linhas minutos antes de participar como mediador na mesa-redonda "Formação docente e Ensino Musical na Contemporaneidade", evento na PUCPR (26.8.13). 

21 agosto, 2013

qual a sua desculpa para ter medo?


Dá pra desculpar quem tem medo de ladrão, inseto nojento ou medo de não passar no vestibular. E claro, ter medo da morte é natural e conserva os dentes. Outra coisa natural é ter medo da polícia de hoje. Aliás, reparou que só os inocentes têm medo da polícia?

Mas tem gente que leva uma vida baseada no medo.


É gente com fobia do sol, fobia de carne vermelha, fobia de salada, fobia de unha pintada, fobia de gay, fobia de muçulmano, fobia de americano, fobia de presidente negro, fobia de papa argentino, fobia de papa alemão, fobia de igreja evangélica, fobia de galinha preta, fobia de religião, fobia do fim do mundo, fobia da Globo, fobia do PT, fobia de conspiração, fobia de que tudo aquilo em que acredita não passe de uma grande ilusão, fobia de filosofia, fobia de alegria, fobia de ser feliz com o que se tem!

13 agosto, 2013

por que ouvimos sempre as mesmas músicas?

Estudo mostra que as pessoas ouvem sempre as mesmas músicas 

[Iara Biderman, Folha de S. Paulo, 12.8.13]

A opção de ouvir toda e qualquer música nova está a um toque na tela. E você vai sempre escolher aquelas mesmas velhas canções.

Quem crava qual será a sua seleção são os autores de um estudo feito na Universidade de Washington sobre o poder da familiaridade na escolha musical.

A pesquisa foi feita com mais de 900 universitários, autodeclarados apreciadores de novos sons. Pelo menos foi isso o que disseram em questionários prévios. Curiosamente, o lado B dos participantes apareceu quando foram confrontados com escolhas reais entre pares de músicas. A maioria optou por aquelas que tinha ouvido mais vezes.

Ouvir sempre a mesma música não é falta de opção ou imaginação. Segundo o coordenador do laboratório de neuromarketing da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, Carlos Augustos Costa, é coisa da sua cabeça.

"O cérebro não gosta de nada complicado. Se você ouve um som novo, tem de parar para entender, mas se a música tem padrões familiares, é sopa no mel: você decide imediatamente ouvi-la."

Familiar é um padrão musical que a pessoa sabe reconhecer ou um estilo associado a memórias positivas.

"A música que você já conhece tem um valor emocional enorme. Cada vez que você a ouve, a associa a uma sensação de prazer e, quanto mais ouve, mais reforça essa associação", diz a neurocientista e colunista da Folha Suzana Herculano-Houzel.

O compositor Arrigo Barnabé, que desde a década de 1980 faz experimentações em música, diz ter a esperança que as novas plataformas ajudem a mudar o disco. "Hoje, com a internet e o YouTube, vejo as pessoas mais interessados em ouvir novidades. Mas há a tendência de a pessoa buscar o conforto, o que já conhece bem."

A causa do fenômeno é mais material do que neuroemocional, na opinião do pesquisador e crítico musical José Ramos Tinhorão. "A produção de música popular obedece as regras do capitalismo, com uma grande quantidade de produtos iguais sendo jogada no mercado. Isso começa a cansar e as pessoas sentem saudades das músicas antigas", afirma.

As músicas megarrepetidas nas rádios teriam então, segundo ele, efeito contrário. 

Mas não funciona assim. "De tanto ouvirem, as pessoas acabam se familiarizando e não sabem mais se gostam ou não. Mas criam fidelidade", diz Rifka Smith, diretora da Radiodelicatassen, empresa de planejamento de produtos radiofônicos.

A repetição funciona até um limite. Grande parte do prazer da música é a oportunidade que ela dá ao cérebro de antecipar como será a próxima frase musical, segundo Herculano-Houzel.

Na música conhecida, a pessoa antecipa o prazer e é recompensada ouvindo o que já esperava. Vai querer repetir a experiência. "Mas, quando o cérebro já tem a certeza absoluta do que virá, perde a graça", diz a neurocientista. É a brecha para seu cérebro ouvir algo de novo.


Mas o poder das velhas músicas continua, afirma o professor de marketing Morgan Ward, autor do estudo americano. "Quando as pessoas estão prontas para uma mudança, não querem uma revolução. A maioria dos novos estilos musicais é só uma atualização do que veio antes", disse Ward à Folha.



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Como foi feita a pesquisa

Os pesquisadores da Washington University fizeram três rodadas de testes. A idade média dos participantes era de 23 anos
1) 386 pessoas classificaram o grau de familiaridade com 24 músicas; depois receberam uma lista com 12 pares das classificadas e tiveram 15 minutos para escolher a preferida em cada dupla
2) 244 pessoas escolheram para ouvir 16 músicas em uma lista de 32; depois, classificaram o grau de familiaridade com cada música
3) 276 pessoas receberam uma atividade cognitiva leve (memorizar quatro palavras) ou mais pesada (20 palavras) para realizar e tiveram que escolher qual estação de rádio queriam ouvir: se a de músicas novas ou a das 'dez mais'

31 julho, 2013

crianças e música clássica

O que é música clássica? Só as crianças tem a pureza da resposta para essa pergunta.
Não estou fazendo merchan. Mas se uma propaganda incentiva pode incentivar a criançada a curtir música clássica, eu compartilho.

22 julho, 2013

um grito no escuro, três preconceitos claros

Que impressão você tem das igrejas cristãs? Sua impressão procede de estudos de casos, envolvimento pessoal ou se baseia em ideias preconcebidas e/ou inflexíveis sobre determinadas igrejas?

Em 1980, Michael e Lindy Chamberlain acampavam com a família numa região turística na Austrália. Numa noite, a mãe viu seu bebê de nove semanas ser levado por um dingo para fora da barraca. Muitas pessoas saíram para procurar o bebê, mas ninguém o encontrou.

Após um primeiro período de compaixão da comunidade pelo sofrimento do casal Chamberlain, vários boatos maliciosos começaram a circular nas ruas e na mídia. A mãe, então, foi acusada de matar a própria filha – ou numa explosão de depressão pós-parto ou num suposto ritual religioso adventista. A cobertura jornalística sensacionalista e o preconceito religioso se misturaram a motivações políticas locais e, num julgamento sem provas conclusivas que tomou proporções inéditas no país, Lindy Chamberlain foi condenada à prisão perpétua.

Em 15 de setembro de 1988, após passar três anos e meio na prisão, o verdadeiro casaquinho que o bebê usava na noite do fatídico evento foi encontrado com evidências de que teria sido atacado por um dingo. Lindy Chamberlain foi libertada e declarada inocente de todas as acusações.

Preconceito religioso

O casal Chamberlain era adventista do sétimo dia e, seguramente, a ignorância em torno das práticas de culto e do estilo de vida dos adventistas na Austrália (ou pelo menos na pequena cidade onde moravam) incitou a população local a espalhar a falsa suposição de que o nome do bebê, Azaria, significava “sacrifício selvagem”, mesmo que sacrifício humano sempre tenha sido uma prática impensável no Adventismo do Sétimo Dia.

Quando não se conhece o fato, instala-se o boato. A grande mídia australiana não fez uma pergunta simples: qual a motivação de Lindy Chamberlain para matar o bebê? Lindy não era mentalmente desequilibrada, não era uma mãe violenta, nem mostrava sinais de depressão. Faltou à mídia, ainda, o senso jornalístico mais elementar de examinar as práticas e rituais dos adventistas.

Atualmente, as mídias brasileiras cobrem eventos evangélicos de massa, cujas marchas ruidosas e finanças assombrosas se consolidam no pensamento nacional como o único tipo de evangélico existente. A uniformização da amostragem midiática sobre os evangélicos contribui para corroborar as ideias preconcebidas sobre os cristãos.

Preconceito emocional

Durante todo o processo, Lindy não demonstrou ser a vítima materna que muitos esperavam. Ela não era dada a rompantes de choro em público e falava com calma e firmeza durante as entrevistas. Ela não era uma personagem de “novela”, digamos assim. Ela foi taxada de mulher fria e sem emoções, capaz de matar um bebê.

O filme Um Grito no Escuro (1988) faz um ótimo retrato do clima de insinuações maldosas surgido entre a população e fomentado pelo mau jornalismo (ou jornalismo do mal?). A postura firme e sem maniqueísmos emocionais de Lindy Chamberlain está presente na magistral atuação de Meryl Streep, que tem a difícil tarefa de fazer com tenhamos compaixão por uma mulher que não se esforça para fingir simpatia em público.

O diálogo travado entre ela e seus advogados dá indícios de que se ela se comportasse “corretamente” no tribunal e nas entrevistas à mídia, ela teria sido absolvida. No entanto, Lindy não se comportava como uma mãe vitimizada, mas como alguém irritada com o absurdo das falsas acusações e cujo rosto expressava profunda amargura.
O filme não é uma produção evangélica, mas credita a serenidade do casal a sua confiança em Deus e à crença adventista na esperança de rever sua filha na ressurreição (por ocasião da segunda vinda de Cristo)

Preconceito social


O filme também ajuda a iluminar alguns traços sobre a fé e a personalidade de Michael Chamberlain. Ele demonstra muita convicção ao falar de vida saudável (cenas o mostram falando contra o fumo e a bebida alcoólica e exercendo seu vegetarianismo), mas no tribunal ele se mostra confuso. 

Ao contrário da maioria dos filmes que representam evangélicos como espertalhões ou imbecis, este filme mostra a momentânea confusão do pastor que não entende as razões de estar passando tamanho sofrimento e linchamento psicológico. Ele se pergunta o que Deus quer dele. É um retrato de um ser humano arrasado pela dor da perda de uma filha e pelo sentimento de abandono divino.

Isso, é claro, não ajuda a melhorar a impressão do público e do júri sobre o casal. Assim, temos um casal de tranquilos adventistas ser tragado pelo turbilhão de boatos maldosos e inépcia policial.

Por não comerem o alimento que “todos” comem, por não beberem o que “todos” bebem e por serem religiosos numa sociedade que despreza a religião, eles são tratados como párias sociais.

Por não se portarem segundo as expectativas sentimentais da população, por não se expressarem com o emocionalismo que garante audiência, eles são tratados como párias emocionais.

Por serem uma minoria adventista que contrasta com o ecumenismo evangélico, eles são tratados como marginais religiosos, quando sua religião é marginalizada.

Seu estilo de vida é antissocial, suas personalidades são antimidiáticas e sua religião é considerada anticristã. Os párias fundamentalistas estão prontos para o linchamento público.

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Detalhes das investigações e conclusões sobre o caso do desaparecimento do bebê Azaria na Wikipédia (em inglês).


O filme Um Grito no Escuro (A Cry in the Dark) recebeu prêmios do cinema, entre eles, o de melhor atriz para Meryl Streep no Festival de Cannes e da Associação dos Críticos de Cinema de Nova York. Ver IMDB.

Fotos do casal Chamberlain copiadas do Google imagens.

10 julho, 2013

O garoto que chamava um jambeiro de USS Enterprise

Diário de bordo. Data estelar: 1983, um dia qualquer, 15:00. Eu já terminara os deveres da escola e as lições de piano – aquelas que o professor tinha mandado e aquelas que eu gostava. Logo começaria mais um episódio de Jornada nas Estrelas – naquele tempo, a gente não era obrigado a chamar seriado estrangeiro pelo título original. “Voyage to the Bottom of the Sea” era Viagem ao Fundo do Mar, “Get Smart” era Agente 86 e “Star Trek” era Jornada nas Estrelas.

O Capitão Kirk, o Sr. Spock e o Dr. McCoy estão às voltas com mais um ataque de inimigos dos terráqueos após uma expedição perigosa a um planeta desconhecido. Perigo e exploração no espaço: o que mais poderia pedir um garoto de 13 anos que lia Julio Verne como quem saboreava um jambo colhido no pé!

Desligada a TV preto e branco, chega a tripulação, quer dizer, minha turma. Cada um conta o que assistiu: “Você viu quando o capitão Kirk escapou dos tiros?” “E a cara do Spock, sem entender a emoção do dr. McCoy?” “E o teletransporte tirou eles de lá bem na hora!”.

Com esse mesmo espírito de louvor à aventura espacial, subimos na USS Enterprise NCC-1701, quer dizer, o jambeiro em frente de casa. Eu, o maiorzinho da turma e profundo conhecedor do espaço sideral entre as folhas, assumo meu galho de comando:
- Sr. Sulu, acionar a dobra espacial.
- Para onde vamos, capitão?, me pergunta o dr. McCoy, isto é, o Julison, meu irmão.

[Dependendo da necessidade de improvisar roteiro e tripulação, o Julison seria o Scott, o Raulison (o caçula) seria Sulu e o Wilker, McCoy. E até uma enorme escada abandonada no chão poderia servir de Enterprise!]

Logo depois, eu e o Spock, quer dizer, o Rogério, descemos para explorar um remoto planeta no intergaláctico quintal perto da árvore. Ameaçados pelos 2 ou 3 amigos que no episódio de hoje são nossos inimigos, disparamos nossos lasers feitos de sobras da marcenaria e pedimos ajuda da tripulação. E se não é o Scott nos teletransportar para o jambeiro a tempo...

Diário de bordo. Data estelar: 2013, julho. Assistir o novo Star Trek, ouvir o velho tema musical, ver a impulsividade de Kirk, a serenidade de Spock, as piadinhas do McCoy, a impaciência do Scott, a velocidade da dobra, os defletores, Sulu, Checov e Uhura, é como rever velhos amigos. Sou teletransportado de volta ao meu jambeiro num colégio adventista a 80 km de Manaus, corro descalço pela  grama, subo na minha nave, apanho outro jambo e saboreio minha infância outra vez.


28 junho, 2013

o cinema e o povo nas ruas: sete filmes

Temos acompanhado lances históricos aparentemente inéditos no Brasil. É a primeira vez que a população em massa sai às ruas para exigir mudanças estruturais na forma de governar o país. A Inconfidência foi uma ação da elite intelectual e econômica; a Independência foi uma ação da corte contra si mesma; a República, uma ação militar. A massa popular em ação simultânea no país inteiro, só agora.

Muitos cineastas se envolveram com questões sociais e disseram "luz, câmera, revolução". Aqui estão sete filmes que traduziram o espírito da revolução popular no meio da rua:

A Batalha de Argel, 1966, de Gillo Pontecorvo. Quem luta: os líderes da resistência da Argélia. Motivo: obter independência da França. Resultado: filmado com tamanha eficácia e realismo que o filme foi banido da França e proibido pela ditadura brasileira por vários anos e por razões óbvias.

O Encouraçado Potemkin, 1925, de Serguei Eisenstein. Quem luta: os marinheiros russos. Motivo: o tratamento desumano que recebem da hierarquia militar. Resultado: este é o pai de todos os filmes revolucionários. Sua técnica de montagem virou parâmetro para o cinema que veio depois dele.

Terra e liberdade, 1996, de Ken Loach. Quem luta: jovens espanhóis e estrangeiros. Motivo: a ditadura do general Franco nos anos 30. Resultado: uma ode ao ardor revolucionário e ao desejo de mudança.

Malcolm X, 1992, de Spike Lee. Quem luta: ativistas afro-americanos. Motivo: igualdade de direitos civis e luta contra o racismo. Resultado: se Martin Luther King, que pregava a revolução pacífica, foi assassinado, que fim poderia ter Malcolm X, que defendia o olho por olho?

Germinal, 1993, de Claude Berri. Quem luta: os trabalhadores franceses das minas de carvão no final do século 19. Motivo: melhores condições de trabalho e de salário. Resultado: seu protesto incendeia o ânimo das classes populares brutalizadas pela elite local.

Gandhi, 1982, de Richard Attenborough. Quem luta: o Mahatma e o povo indiano. Motivo: a saída dos ingleses da Índia. Resultado: o filme ficou um tanto longo, mas não é capaz de tirar a inspiração da liderança de Gandhi.

Spartacus, 1960, de Stanley Kubrick. Quem luta: os escravos de Roma Antiga. Motivo: adivinha? Resultado: um épico que romanceia um pouco a história, mas nada diminui a emoção de ouvir todos os escravos dizendo “Eu sou Spartacus”.

19 junho, 2013

o curioso caso do protestante que não protestava


Dois homens um dia tomaram a mais louca das lúcidas decisões: contrariar as autoridades em assuntos em que elas estão erradas.

Ambos sabiam dos riscos de enfrentar governantes, polícia, oposição e tentativas de assassinato. Mas eles pareciam dispostos a não recuar um centímetro do front onde tinham firmado sua consciência.

Acontece que esses dois homens eram religiosos e tinham sido ensinados a respeitar a autoridade civil ou religiosa. Mas não podiam calar-se diante quando as autoridades não eram fiéis a princípios civis ou religiosos.

Homens de palavra e da Palavra, eles saíram a falar nas ruas e nas igrejas, para jovens e velhos, para homens e mulheres. Denunciaram os pecados da instituição e da sociedade. Não viveram o suficiente para ver a consolidação de suas teses e a realização de seus sonhos. Um, branco, era chamado de Martinho Lutero. O outro, negro, era Martin Luther. O que é a mesma coisa e que na linguagem de hoje quer dizer “homens que protestam”.

O protesto de Lutero deu origem aos protestantes que reformaram o cristianismo. O protesto de Luther King faria os protestantes repensarem sua vida cristã. Um protestou contra as mazelas e deturpações que envergonhavam a Igreja. Outro protestou contra o racismo que manchava uma sociedade que se dizia cristã.

Se ambos tivessem se calado, não haveria protestantismo nem conquistas de direitos dos afro-americanos. Se vivos estivessem, achariam muito curioso o silêncio dos protestantes contemporâneos.

Se vissem as passeatas dos evangélicos, eles se perguntariam por que hoje eles só se manifestam publicamente quando o assunto tem a ver com sexualidade. Será que Freud explica?

O provérbio bíblico (29:2) já notava que “quando os maus dominam, o povo reclama” e que “quando o governo cobra impostos demais, a nação acaba na desgraça” (29:4).

Cada um vê os acontecimentos e toma sua decisão de se engajar em atos ou ideias conforme sua personalidade, opinião e previdência. Mas estou certo de que todo protesto social é, no fundo, um protesto de ordem moral, pois se protesta contra a desgraça social causada pela imoralidade de uma minoria dominante que vandaliza a vida e o futuro de uma maioria.

Ver uma multidão indignada em plena Copa das Confederações no próprio país do futebol é como ver um gigante pela própria natureza se levantando do berço esplêndido. Nem tudo mudará, mas pode estar havendo uma mudança mais importante, a mudança de mentalidade.

Protestos sociais não são como uma flecha que atinge o alvo e permite ver o resultado imediato. Protestos como os que estão ocorrendo são pedras atiradas na água, que submergem e se vão, mas cujos efeitos se verão no prazo e no círculo das ondas criadas.

O cristão trabalha e espera  por novos céus e nova terra. Mas ele ainda não está lá e por isso ele não se conforma com esse século. Nem com os modismos banais do seu tempo nem com a mercadorização do cristianismo nem com a injustiça social de qualquer tempo.

“Abre tua boca a favor daqueles que não podem se defender, pelo direito dos desamparados”, é o conselho de uma autoridade lúcida em Provérbios 31:8.


03 junho, 2013

neymar: uma história mal-cortada de amor e ódio


No princípio, o brasileiro tratava o Neymar como neto. Como os avós de antigamente (os avós de hoje só querem saber de caminhada e cruzeiro pelo litoral), tudo o que menino fazia era um mimo.

Neymar dava um chapéu abusado no Chicão, é coisa de guri! Neymar apanhava em campo, não mexam com meu garoto! O moleque humilhava zagueiros, caçoava do Rogério Ceni, enfim, era o capeta em forma de guri bom de bola.

Logo o brasileiro passou a exigir Neymar na seleção. Olha aí, Dunga, ele pula, ele roda, ele faz requebradinha! Já dava pra escutar um Galvão aos berros: “Neymar neles! Seguuuura que eu quero ver!” Mas o Dunga segurou.

Só que a adolescência do Neymar mal começava e foi quando todo mundo resolveu ser coordenador pedagógico do menino. “Estão criando um monstro”, advertiu o técnico Renê Simões. Desse jeito, quando ele driblar de novo, vão dizer que ele não tem modos.

Os tios e avós postiços de Neymar adoram passar um receituário de corretivos: “Deixem ele sem PlayStation por um mês”, “São as más influências do Face", “É esse penteado”, “É muita tintura na cabeça”.

Neymar é um projeto de craque, cheio de amor, caneta e chapéu pra dar. Mas é tanto marketing e Wellaton que ele precisa abrir o olho pra não virar só um “Neymala”. Por isso, ele fez bem em ir para o Barcelona jogar com um craque discreto como o Messi. Imagina se vai pra Madrid disputar o telão e o gel com o Cristiano Ronaldo!

No mais, não é o caso de só passar a mão no cabelo moicano toda vez que ele cometer uma bobagem. Mas não vamos fingir que, se ele fosse nosso filho, a gente faria melhor.

30 maio, 2013

o século 20 começou com uma música em 1913

É verdade que em 1913 já havia carros, aviões, elevador, estrelas da música popular, cinema, adolescente rebelde e cheque devolvido.  Mas nada disso tinha a dimensão que viria a ter depois de 1913, quando os pacíficos aviões serviriam a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e a música popular ganharia cada vez mais importância no cotidiano.

Em 31 de março de 1913, um concerto noturno com músicas de Arnold Schoenberg, Anton Webern e Alban Berg, o trio revolucionário de Viena, não chegou ao final. As estridências harmônicas das obras foram demais para o público que passou da discussão verbal à luta física, sendo necessária a intervenção policial. Mas houve quem admitisse que o som das brigas foi o mais harmonioso naquela noite.

No dia 15 de maio, estreava Jeux, partitura de Debussy coreografada por Nijínski. Talvez por causa da música sutil, fluente e encantória, não houve desacato durante o balé que apresentava um triângulo amoroso e sensual, o que já seria escândalo suficiente.

As coisas entornariam de vez no dia 29 de maio, quando estreou o balé A Sagração da Primavera (Le Sacre du Printemps), do russo Igor Stravinski, com coreografia de Nijínski.

A estreia ocorreu no recém-inaugurado Théatre dês Champs-Elysées, onde a elite de Paris, segundo conta Jean Cocteau, era “uma plateia elegante, de vestidos decotados, pérolas, penas na cabeça e plumas de avestruz, lado a lado com os paletós, farrapos espalhafatosos daquele gênero de estetas que aplaudem tudo o que seja novo [...] mil nuances de esnobismo,  superesnobismo e contraesnobismo”.

Naquele mês, circulavam boatos sobre uma nova música de Stravinski e sobre uma nova e escandalosa coreografia de Nijínski. Para completar, Seguei Diáguilev, diretor do Ballets Russes, prometia à imprensa “um novo frisson que sem dúvida vai inspirar debates acalorados”.

De fato, naquela noite o público se dividiu entre fãs animados e opositores entusiasmados. A música, que começa com um fagote suave e agudo, foi gradualmente imprimindo um clima febril, com pulsações rítmicas brutais, dissonâncias estrondosas, cortes súbitos e retomadas violentas, com os acentos rítmicos deslocados perturbando espectadores que gostariam de ouvir somente mais uma música inofensiva e depois sair para desfilar o figurino nos restaurantes caros.

Nos ensaios, até Diáguilev ficou chocado com a ousadia rítmica de Stravinski. “Vai continuar assim por muito tempo?”, perguntou. Stravinski respondeu: “Até o fim, meu caro”. E o acorde extremamente dissonante combinado com a acentuação rítmica fragmentada se repete 200 vezes!

Como era costume, o público não ficava indiferente às novidades. Junto com a música, ouviu-se no teatro aplausos e vaias, gritos e assobios, gargalhadas de desdém e um burburinho crescente que por pouco não causaram a interrupção do evento.

Além da chocante novidade musical apresentada, a coreografia de Nijínski ajudou a aumentar o clima anárquico que dividiu espectadores e críticos de arte. Em vez do gestual clássico, os bailarinos “tremiam, sacudiam-se sapateavam, davam saltos rudes e violentos e giravam numa selvagem dança de roda eslava”.
Atrás deles, um cenário que lembrava paisagens pagãs e formas que pareciam extraídas dos sonhos.

Pierre Monteux, o maestro daquele tumultuada concerto, relatou que “o auditório ficou em silêncio durante dois minutos, depois, de repente, vaias e assobios desceram das galerias, acompanhadas logo em seguida pela plateia. Houve espectadores que começaram a discutir e a atirar-se, uns nos outros, tudo o que tinham à mão. Em breve esta cólera se dirigiu contra os dançarinos e depois, ainda com mais violência, contra a orquestra, que era a verdadeira responsável por esta crise musical. As coisas mais variadas foram-nos arremessadas; apesar de tudo, continuamos a tocar”.

Depois de 1913, a música e nem o mundo seriam mais os mesmos. Para entender como a sociedade ocidental passou a privilegiar cada vez mais a marcação rítmica na música, volte-se a Stravinski e sua “Sagração”. As profundas mudanças na estrutura musical e Schoenberg e cia. levaram os músicos eruditos a novos experimentos e a uma distância cada vez maior de parâmetros como melodia e harmonia, o que contribuiu para distanciar o público também.

Voltando à estreia da Sagração, apesar de tudo, ao final, houve aplausos, que se repetiram nas apresentações subsequentes. Não quer dizer que a música foi domesticada, mas que os ouvidos assimilaram o novo, como é hábito do ser humano desde que se inventou a primeira flauta. Ainda bem que nossos ouvidos contemporâneos, submetidos a toda espécie de balbúrdia sonora e musical, ainda se deixam fascinar pelo novo e exuberante mundo musical apresentado por Stravinski há cem anos. 

Não se fazem mais novidades musicais como antigamente?

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Versão de "A Sagração da Primavera" com a coreografia original de Nijínski, redescoberta por Millicent Hodson. Segundo ela, conseguiu-se recuperar os cenários e figurinos originais e pelo menos 85% da coreografia de 1913.



Escrevi este texto com informações copiadas descaradamente de Alex Ross, "O resto é ruído" (p. 69-70, 88-90), e de Osvaldo Colarusso.