30 dezembro, 2014

melhores livros, músicas e filmes de 2014

Em 2014, encerrei meu doutorado, publiquei um livro e lancei a "pedra fundamental" do meu projeto musical. Entre pesquisar pra escrever e pesquisar pra dar aulas, entre não ouvir para compor e ouvir para aprender, tive tempo pra ver filmes. Alguns deles, me fizeram considerar melhor a arte, a profissão e a profissão de fé.

Obs: nem tudo o que li, ouvi e assisti foi lançado em 2014, mas só deu pra ter acesso neste ano que se vai.

Livros

Os jesuítas e a música no Brasil colonial (Marcos Holler / Ed. Unicamp) – A atuação pedagógico-musical dos padres da Companhia de Jesus entre indígenas e os recém-chegados europeus é fartamente documentada com cartas e outros textos redigidos ainda no século 16. Tecendo a trama entre religião, arte e cultura, o autor busca explicações para entender porque os nativos aceitaram a cultura musical de seus colonizadores.

Os Irmãos Karamázov (Fiódor Dostoiévski / Editora 34) – Depois de mais de 20 anos, voltei a ler essa obra-prima, agora na premiada tradução de Paulo Bezerra, a primeira feita diretamente do idioma russo original. Quase mil páginas e dois volumes depois, não posso negar que esse livro é gigantesco em todos os sentidos. Partindo dos conflitos familiares que envolvem a família Karamázov – o hesitante Dmitri, o ateu Ivan, o religioso Alieksêi e o dissoluto pai destes três – Dostoiévski aborda a fé, a justiça, a política, os laços familiares, pintando não só um pinel da vida russa no século 19, mas um retrato do ser humano em vários aspectos de sua existência. Não é para ler em uma semana, mas para saborear com vagar e refletir com vigor.
Ah, sim: você não vai encontrar a tão citada frase “se Deus não existe, tudo é permitido”. Dostoiévski nunca disse isso. Alguns personagens do livro é que pensam ter ouvido isso da boca do personagem Ivan em uma das impactantes discussões religiosas da família Karamázov.

Ponto Final: crônicas sobre os anos 1960 e suas desilusões (Mikal Gilmore / Cia. das Letras) – cada capítulo deste livro cobre um músico ou banda significativa das revoluções musicais e culturais dos anos 1960 e 1970: Beatles, John Lennon, Bob Dylan, Bob Marley, Jim Morrison, Led Zeppelin, Pink Floyd, Johnny Cash, a lista segue. O autor, jornalista da revista Rolling Stone, analisa os feitos musicais e as conquistas sociais e políticas que estão relacionadas aos artistas, mas não deixa de fora o lado sombrio da inquietação espiritual, da desilusão política e do mergulho (para alguns daqueles músicos, sem volta) infernal nas drogas.


A religião entre o espetáculo e a intimidade (vários autores) – o espetáculo incide sobre a forma e o conteúdo das crenças? A intimidade tem se constituído em espaço de consumo nos ambientes religiosos? Fui ao Congresso de Ciências da Religião para lançar meu livro “Música e religião na era do pop” e trouxe este, uma reunião de artigos de especialistas participantes do congresso realizado em Goiânia.

O canto cristão na tradição primitiva (Xavier Basurko  / Paulus) – o que se cantava, como se cantava e o que escreviam os chamados Pais da Igreja. Basurko dispõe textos documentais sobre a música sagrada, fazendo desse pequeno livro uma preciosidade sobre a música das primeiras comunidades cristãs.



Músicas

Mistura Brasileira (Turíbio Santos) – um dos grandes violonistas nacionais, Turíbio Santos visita obras de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Tom Jobim, além de composições autorais, e oferece um trabalho primoroso de erudição e sabor popular.


Here’s to the Ones (Rhett Walker Band) – a combinação precisa de country e rock, gêneros primos, celebra a fé e convida à alegria e à reflexão com arranjos pulsantes e vocais vigorosos. Muito mais do que um Gaither Vocal Band turbinado.


Renascido (Daniel Salles) – a black music americana e a canção negra brasileira se encontram para falar de amor romântico e divino, de renascimento físico e espiritual, tudo com letras primorosas e arranjos que se destacam pela leveza.

Condição Humana (Guilherme Arantes) – ele ainda detém o posto de letrista inteligente, que tem soluções musicais bonitas de ouvir, que não vulgariza o pop e sabe cantar as coisas da vida como as duplas sertanejas de agora não sabem (ou não querem).

Herói da Fé (vários) – as letras maravilhosas de Mário Jorge Lima sempre tiveram um ótimo melodista em Lineu Soares. Poeta e músico se unem para contar a história do apóstolo Paulo em forma de oratório moderno. Os cantores convidados são Leonardo Gonçalves, Laura Morena, Joyce Carnassale, Riane Junqueira, Regina Mota e Marcel Freire. Há ecos de cantatas e arranjos da música clássica do século XX (Stravinski e Carl Orff estão entre os facilmente reconhecíveis), mas há também uma sinuosidade melódica nacional que está entre os momentos mais brilhantes dessa obra.


DVD Princípio (Leonardo Gonçalves) – registro ao vivo da musicalidade de um dos cantores mais relevantes da sua geração. Seja em arranjos de banda pop ou arranjos orquestrais, tudo é feito com muita erudição e refinamento. Letras que não falam o “evangeliquês”, e sim saltam os clichês para comunicar pensamentos sobre verdade, bondade, princípio e fim.


Filmes


Boyhood: da infância à juventude - Filmando ao longo de 12 anos, Linklater captou o adolescer em seus fragmentos e estabeleceu um novo paradigma para arte do cinema. As dores, as alegrias, os percalços, os sentimentos confusos, as experiências: está tudo ali, radiografado com precisão e espontaneidade impressionantes, acompanhando o desenvolvimento silencioso de um garoto comum.

Grande Hotel Budapeste - A artificialidade dos planos e cenários do cinema de Wes Anderson é o palco para a profundidade dos dilemas dos personagens. Divertido e terno. 



Os Esquecidos - Uma pequena obra-prima de Luís Buñuel que não desresponsabiliza os pobres pela miséria e pela violência (ao mostrar os pobres explorando os de sua condição também) e mostra uma sociedade patética em suas tentativas de corrigir e reprimir a delinquência juvenil. Não há um justo sequer, não, nenhum.

A Caça - A discussão sobre pedofilia ganha ares de tragédia social quando uma mentira devasta a vida de um professor. O suspense aqui é o horror da dúvida do espectador sobre o que aconteceu.


A Palavra - Um milagre da meditação, da contenção, da sobriedade, da fé, do cinema.

Viver - O mestre Akira Kurosawa dando uma lição de vida e uma aula de cinema. Depois de assisti-lo, você vai se perguntar porque tanta gente só decide viver quando descobre que tem pouco tempo de vida.



César Deve Morrer - A encenação de uma peça de Shakespeare atrás das grades. Homens de força e talento bruto. 

até o ano que vem!

08 dezembro, 2014

a música popular perdeu o tom

Nos últimos dias de sua vida, Tom Jobim pedia a sua irmã Helena para que lesse o Salmo 23, aquele do “O Senhor é meu pastor e nada me faltará...”. Olhando a obra musical de Tom, o que não falta é música que parece ter a centelha da arte mais divina.

Sua combinação de melodia enganosamente simples com harmonização rigorosamente complexa trouxe à música popular brasileira um sabor diferente, um jeito diferente, uma nova bossa.

Até o advento de “Ai seu eu te pego”, hit do Michel Teló, a canção brasileira mais conhecida no exterior era “Garota de Ipanema”. Assobie essa canção e perceba como a melodia sobe e desce sem esforço, como o desenho de ondas. Pode ter sido um achado genial involuntário, mas vindo de Tom, quem pode duvidar de que o balanço do mar e da garota que passa foram inscritos delicadamente na melodia sinuosa?

E a melodia de “Desafinado”, difícil e bela como a harmonia? E "Corcovado", em que a melancolia inicial de “Um cantinho, um violão” que deságua na alegria contida de “Ao encontrar você eu conheci o que é felicidade, meu amor”? E o encanto da repetição de letra, melodia e harmonia de “Águas de Março”?

No princípio, era “Chega de Saudade”. E a saudade se fez letra e música. As duas estrofes iniciais, uma queixa do amor distante, estão na tonalidade de Ré menor. No refrão, que promete o aconchego, a conjunção dos amores, a tonalidade passa para Ré Maior.

O clichê musical que associa tonalidade menor à tristeza e a maior à alegria ganhava, lá em 1958, uma obra-prima. Tudo feito com discrição e sofisticação. Afinal, isso é bossa nova, isso é muito natural.

Em Tom, o simples nunca é óbvio. Por causa da harmonização requintada, o simples ficava elegante. O “Samba de uma nota só” é o retrato em branco e preto do gênio jobiniano.

“Eis aqui esse sambinha feito numa nota só”, começa a canção, essa parte sendo cantada, de fato, repetindo-se a mesma nota. A letra avisa: “Outras notas vão entrar, mas a base é uma só”, e isso vai se confirmando musicalmente.


Lá na frente, a letra diz: “Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada”.  Isso é cantado num passeio por diversas notas, subindo e descendo, até que se canta:


“E voltei pra minha nota, como eu volto pra você”, voltando-se à nota repetida do início.

Quando analiso com os estudantes essa canção nas aulas de História da Música Brasileira, nossa percepção é a mesma: a carpintaria genial de Tom se camufla de simplicidade.

Mas há também um outro Tom Jobim, o compositor do formidável “Urubu”, disco-síntese de sua obra musical com canções sobre seus temas principais (a natureza, o afeto, a mulher) e belas peças orquestrais. Nesse álbum, o popular parece erudito e o erudito tem acesso popular.


Tom foi daqueles compositores que souberam fundir os elementos da matriz musical brasileira com os caracteres da musicalidade que chegava do exterior. Em Tom, o deslocamento da acentuação rítmica no compasso (a síncope) achava uma melodia tão cheia de curvas como a arquitetura feminina de Niemeyer.

A sedução melódica de Tom encontrou nos versos afetuosos de Vinicius de Moraes o casamento ideal. Eles estavam mais interessados na felicidade do amor presente do que em cantar o amor que se foi. Não por acaso, eles geraram “Chega de Saudade”.

Em Tom, o Brasil ficava ainda mais bonito. Mas já passaram 20 anos de sua morte e a música brasileira atualmente mais conhecida no mundo mostra que a moda é o funknejo de uma onamatopeia só [ou, pra quem entender, de uma progressão harmônica só: VIm – IV – I – V) .


Harmonia simplificada, letra despoetizada, a natureza desencantada, o amor vulgarizado. Saímos do tom.

02 dezembro, 2014

Princípio (ao vivo): a imagem, o som e a Palavra

Se uma imagem vale mil palavras, quanto vale uma imagem (e uma sonoridade) que comunica a Palavra?

Nessa perspectiva, um álbum cristão que, por algum tempo, ultrapasse em vendas as coletâneas de Michael Jackson, Elton John e Madonna e o mais recente trabalho de Taylor Swift tem um inegável simbolismo. Não, isso não representa a o triunfo do gospel sobre o mundo pop como gostariam de dizer os levitas mais afoitos. Até porque o pop e o gospel estão em amigável interação.

Esse 1º lugar, ainda que temporário, mostra para a indústria fonográfica a força do mercado cristão. Há evangélicos que abominam a expressão “mercado cristão” - e o fazem de forma tão depreciativa e ingênua quanto alguns detratores esquerdistas repudiam o “mercado capitalista”.

No entanto, verdade seja dita, nota-se um estímulo desenfreado ao consumo de artigos que ganham a alcunha de cristão somente porque são comercializados por empresários cristãos. Daí a existência de pulseira cristã, capa de celular evangélica, sandálias sagradas, toalhas espirituais e assim por diante. Esse merchandising realmente nada tem de evangélico e confirma à sociedade em geral que a força da grana ergue e destrói tradições belas.

Por outro lado, o objeto livro assume valor bem maior que o objeto CD ou DVD de músicas. Chego a pensar que, se fosse um livro denominacional que tivesse sido divulgado nos portais Terra e G1 e por dois dias liderasse a venda de livros de não ficção na Livraria Saraiva, muita gente honrada estaria proclamando que as portas do mundo se abriram à mensagem de Cristo.

Mercado, visibilidade evangélica: não é esse simbolismo mais óbvio que quero comentar a respeito do CD/DVD Princípio.

Em Human Accomplishment (2004), Charles Murray escreveu que “a religião é indispensável para impulsionar a realização da grande arte”. Não concordo integralmente com essa frase, mas quero usá-la para dizer que uma sólida compreensão da religião é indispensável para impulsionar a excelência na realização da arte cristã.

O álbum Princípio expressa noções teológicas que só advêm de estudos minuciosos da Bíblia e da literatura cristã. Somado a isso está a formação artística. Leonardo Gonçalves participa da elaboração de letras e da composição de melodias e arranjos. O resultado é que a solidez hermenêutica encontrou um valioso meio de expressão na carpintaria do discurso musical (Palavrantiga, João Alexandre, Stenius Marcius, Jader Santos, Lineu Soares & Valdecir Lima estão aí há anos provando a veracidade dessa equação).

Nesse sentido, pode-se debater a necessidade ou não de melismas vocais do cantor, mas não a sua precisão. Assim como alguém pode discordar da interpretação teológica das letras, mas não vai depreciar a sua enunciação.

Em suma, muitos discutirão a forma retórica, mas quem condenará a verdade enunciada?

Não é todo dia que uma produção cristã com músicas que agregam o contemporâneo e o tradicional, letras com densidade teológica e arranjos musicais sofisticados chega ao primeiro lugar do iTunes.

Quando isso acontece, vale considerar três questões:

1) É possível ser contemporâneo sem ceder aos modismos gospel.

2) É possível fazer letras modernas sem ser teologicamente superficial.

3) Se “Princípio (ao vivo)” lhe parece pop demais, eu lhe pergunto que mundo musical diferente teríamos se os recentes sucessos do pop nacional buscassem a excelência poético-musical e as alturas espirituais desse álbum...