29 novembro, 2010

cem palavras: a infantilização da vida



"Eu não quero crescer. Quero ser para sempre um menino e me divertir".
Peter Pan, fugindo para a Terra do Nunca

"A adolescência começa antes da puberdade e, para alguns, dura para sempre [...] a negação da idade está em toda parte".
Robert J. Samuelson (Adventures in Agelessness, Newsweek)

"Na indústria da moda, os vendedores visam a mãe que tenta parecer que tem 15 anos, ao mesmo tempo que a criança é enfeitada para parecer que tem 40 anos".
Ginia Bellafante (Dressing up, New York Times)

"Leitores adultos debandando para Harry Potter (quando não estão abandonando completamente o hábito da leitura); filmes inspirados em quadrinhos e videogames dominando o mercado do entretenimento" [...]
"As marcas da infância perpétua são impressas em adultos que são atraídos por: roupas sem formalidade, sexo sem reprodução, trabalho sem disciplina, aquisição sem propósito, certeza sem dúvida e narcisismo até a idade avançada [...] Na época em que vivemos, a civilização não é um ideal nem uma inspiração, é um videogame".
Benjamin Barber (Consumido, p. 16,17)

26 novembro, 2010

como Davi ou como Michael Jackson?

Michael Jackson foi um artista extraordinário. Voz inimitável, coreografias surpreendentes, canções marcantes, produções tecnicamente impecáveis. Além disso, apesar das polêmicas e controvérsias de sua vida fora dos palcos, não me lembro de que ele tenha misturado religião e passos do "moonwalk" (o famoso andar deslizando para trás).

O Raiz Coral, ligado à música gospel, venceu a semifinal do concurso "Qual é o Seu Talento?" (QST), do SBT. Nessa etapa do programa, o coral cantou e dançou uma música em que alguns trechos da letra dizem "Se o espírito de Deus habita em mim, eu danço como Davi/eu salto como Davi". A canção original diz "Eu canto como o rei Davi". Mas a dança apresentou os passos do "moonwalk". 

O que o Raiz Coral queria dizer é: Se o espírito de Deus se move em mim, eu canto como Davi e danço como Michael Jackson?

A comparação é muito forte? Então, olha o que disse um dos jurados do programa, Carlos Eduardo Miranda com sua maneira particular de ser franco: "Se falar em termos cristãos, vocês beiraram a presepada. Coisa pra enganar os outros. Vocês vieram [na etapa anterior] com jeito mais sutil e agora "louquearam" [enlouqueceram] tudo. Ficaram gritando como vendedor de geladeira, de liquidificador... Não precisa disso. Deus chega mais maciozinho".

Outro jurado, Thomas Roth, discordou de Miranda e disse: "Faz isso quem pode. Não é pra qualquer um".

Já que a habilidade e a competência do Raiz Coral são inegáveis, a crítica do Miranda foi para a mistura musical e coreográfica de Davi com Michael Jackson. Talvez se o coral tivesse cantado e coreografado uma música secular, como fez o concorrente com a clássica "Yesterday", o jurado teria outra opinião.

Sem querer, os dois jurados representaram duas vozes dissonantes quando o assunto é música cristã. Miranda preocupou-se com as referências que podem vir junto com a música. Ele viu a música como um todo (música, letra, voz, gestos) e não como um mero acessório da performance.
Roth deu atenção às habilidades e competências para apresentar uma música.

Miranda achou que uma performance tem poder para diluir ou desarticular uma mensagem religiosa.
Roth entendeu que a mensagem deve ser observada à parte do talento para apresentá-la.

Alguns podem dizer, Ah, mas Davi dançou quando trouxe a arca de volta para Jerusalém! Sim, dançou. E tem gente que vai rebater, É, ele dançou mas sua mulher [Mical] o repreendeu! Viu como é fácil polarizar o debate? Começo respondendo que Davi dançou, mas sua esposa não o repreendeu porque ele estava imitando passos de um popstar sensacional. Até porque o conceito de popularidade não era esse nos tempos do antigo Israel.

Alguns comentaristas bíblicos dizem que Davi tirou suas roupas de líder real/militar/sacerdotal e se uniu ao povo como um simples adorador. De acordo com esse argumento, naquele momento ele estava dançando, mas não era um dançarino. Ele estava tendo uma atitude de adorador e não fazendo pose. 

Não é possível atender completamente às expectativas e entendimentos da noção distinta que as pessoas têm do que é sagrado ou adequadamente cristão. Além disso, muita gente acha que certas críticas ao mundo gospel não trazem benefício algum ao evangelho. Mas o produtor musical Carlos Eduardo Miranda fez uma crítica direta, sem meias palavras. Faríamos bem em dar ouvidos ao clamor das pedras de vez em quando.


Nesse vídeo, a participação do coral e os comentários dos jurados.
 

23 novembro, 2010

as quatro leis do som alto

Em São Paulo, há um projeto de lei que prevê multa de R$ 1 mil quem usar aparelho portátil com som acima de 45 decibéis em áreas residenciais. Isso também se aplicará a quem ouve funk no celular sem fone de ouvido. Na verdade não precisa ser funk. O caso nem é a música. É a intensidade do som. Esse tipo de ouvinte não se contenta em ouvir só para ele e sai batendo de ouvido em ouvido o seu sertanejo de universitário baladeiro, sua lady gaguejante, seu pop-emo lacrimejante, seu pancadão sacolejante.

Mas não se entusiasme. Ouvir Justin Bieber ou Restart não vai virar crime inafiançável. Até porque quem escuta é menor de idade (Se não é de menor, então deve haver algum problema na contagem de parafusos).

45 decibéis equivalem ao barulho de um aparelho de ar-condicionado ligado. Agora você entende porque decibel é uma unidade de medida do som. Se um Bel (o cantor do Chiclete com Banana, por exemplo) incomoda muita gente, 50 deciBéis incomodam muito mais.

 “A tolerância para suportar o barulho é inversamente proporcional ao refinamento do gosto musical”. Se achou essa frase um desplante elitista, não me culpe. Quem disse isso foi Schopenhauer no insuportavelmente barulhento século 19.

Aplicando o teorema de Schopenhauer aos nossos vizinhos e motoristas de hoje, identifiquei as quatro leis do som alto:

 1) Quanto pior a música, mais alto será o volume do som.
  2) Amarás mais o som do que o ouvido do próximo.
 3) Quanto mais alto o som, mais espelhados serão os óculos escuros do motorista e mais ele dirigirá apoiando o braço esquerdo na janela do carro. 
  4) Odiarás o silêncio com toda a força de teus megawatts.


21 novembro, 2010

você não vai à igreja por causa disso?

Algumas razões pelas quais as pessoas não querem ir à igreja (e algumas respostas com graça):

17 novembro, 2010

a ética e a estética de Avinu Malkenu


Quando ouvi o CD Avinu Malkenu pela primeira vez, estranhei do jeito que se estranha uma novidade. Apesar da beleza do propósito, tudo me pareceu fora de lugar. Dias depois, ouvi o cd outra vez, e me vieram à mente apenas duas palavras: diálogo e origem.

A intenção dos produtores do CD (Leonardo Gonçalves e Edson Nunes Jr) é a busca de diálogo com outras culturas, com outras pessoas, ligadas ou não a uma religião. Mas esse diálogo é estabelecido com um profundo arraigamento à própria identidade religiosa. A busca de diálogo é feita a partir da raiz. Não por acaso, a capa do CD é uma raiz. E uma raiz cresce, vira planta, vira árvore, aparece junto com outras árvores, forma floresta, mas seu tronco, suas folhas e seus frutos são só as partes visíveis da raiz que deu origem a tudo o mais.

Algumas das músicas de Avinu Malkenu estão enraizadas na tradição litúrgica do judaísmo. Ao mesmo tempo, algumas de suas letras enfatizam aspectos do cristianismo, particularmente do adventismo. Alguns arranjos reverberam a música tradicional ibérica e a música clássica européia. A menção à Páscoa, uma festa judaica milenar, está ao lado da ênfase moderna ao “Temei a Deus e dai-Lhe glória / pois é chegada a hora do Seu juízo”. O Êxodo vai desaguar no Apocalipse.

Letras de grande sugestão poética (“o ar das montanhas, límpido como vinho e o perfume dos pinheiros / é carregado pela brisa do crepúsculo em meio aos sons de sinos / e na sonolência de árvore e pedra se acha cativa em sonho / a cidade que se assenta solitária”) são seguidas de uma canção de uma frase apenas (“ano que vem em Jerusalém”).

Diálogo e raiz permeiam cada música desse CD. Isso está na regravação de canções de músicos nascidos em Israel e na composição de canções inéditas ao estilo judaico por músicos cristãos brasileiros. Está no arranjo de piano e cordas para “Nachamu Nachamu” com alusão ao Prelúdio em Dó Sustenido menor, opus 3, nº 2, de Rachmaninoff, e no arranjo de populares toques mouros/ibéricos para “L’shana habaa”. Está na voz falada quase monocórdica na abertura de “Osse Shalom” em contraste com as vozes harmoniosas do canto a capella em “L’cha Dodi”.

Costuma-se dizer que o Brasil foi formado por três raças tristes: o português exilado da metrópole, o índio retirado da aldeia e o negro desterrado da África. O judeu é a quarta “raça triste”. O povo judeu é um povo que se espalhou e foi espalhado. Longe de casa, suas canções ficaram carregadas de saudade. Mas seu larguíssimo histórico de diáspora, de preconceitos, de expulsões e boas-vindas, de tragédias coletivas, não se traduz em melancolia. Na música tradicional judaica, a tristeza não é sem fim. À frente, há felicidade, sim.

Isso faz com que as canções, que começam plenas de contrição, como se o cantor estivesse coberto por um saco de cinzas, mudem pouco a pouco para um andamento mais rápido, mais alegre, como se o cantor visse o céu aberto diante de si. Uma coisa é reconhecer o pecado e ter o senso da radical diferença entre a impureza do homem e a santidade de Deus. Outra coisa é saber-se perdoado e ter a certeza do cumprimento das promessas de Deus.

A canção judaica sai da tristeza para a alegria, da contrição para a salvação, do pecado para o perdão, da terra finita para a vida eterna.

Para o judeu, Jerusalém não é uma cidade, é um estado de espírito. Na canção “Yerushalayim shel zahav” o cantor diz: “Jerusalém de ouro, e de bronze, e de luz / para todas as tuas canções eu serei um violino”. A distância aumenta a saudade, mas não diminui a esperança: “Ainda se ouvirá nas ruas de Jerusalém a voz de júbilo e a voz de alegria da noiva e do noivo” (na canção “Od yishama”). Mesmo presente na cidade, mal encerrada uma festa (a Páscoa), já se canta “ano que vem em Jerusalém”.

A primeira música chama-se “Avinu Malkenu” (em português: “nosso Pai e nosso Rei”). Alguns cristãos falam apenas da soberania do Rei e não enxergam a Deus como Pai amoroso. Outros fazem exatamente o inverso e só vêem a graça do Pai. A primeira música do CD já introduz o conceito bíblico de Deus, um Ser que é Rei da justiça e Pai da bondade.

A segunda música, “Adon olam”, parece extensão da primeira. O tema da soberania transcendente de Deus é reiterado (“Mestre do universo”, “Ele é Um e não há outro”) em conjunto com a imanente misericórdia divina (“Rocha das minhas dores no momento da angústia”).

Leonardo Gonçalves capturou não apenas o virtuosismo da voz judaica cantada: seus melismas  se integram à paisagem natural da música. Ele também compôs duas músicas que poderiam ter sido feitas por alguém nascido e criado na tradição musical judaica: “Avinu shebashamayim”, a oração do Pai-Nosso, e a comovente “Nachamu Nachamu” (Consolai, consolai), palavras de conforto aos filhos de Deus extraídas de Isaías 40:1-3.

Enquanto o Pai-Nosso é a invocação de Deus feita pelo homem, “Nachamu” é a voz de Deus aos homens. Uma apresenta as dívidas impagáveis, a outra outorga o crédito imerecido. Uma pede, a outra consola. 

“Nachamu nachamu” tem um formidável arranjo de cordas de Ronnye Dias e um piano (de Wendel Mattos) de cortar o coração. Ouvir a música sabendo a tradução da letra – “voz que clama no deserto, preparai o caminho do Senhor, endireitai no ermo vereda a nosso Deus” - transmite a sensação de estar no meio do povo ouvindo um antigo profeta advertir Israel com lágrimas nos olhos.

*****
Continua lendo: A ética e a estética de Avinu Malkenu - parte 2

a ética e a estética de Avinu Malkenu - parte 2

Nenhuma cultura está pronta e acabada para sempre. As expressões culturais são dinâmicas, se renovam ao agregar influências de outras culturas. A música judaica influenciou a música ibérica de 10 séculos atrás, fazendo surgir a tradição musical moura. Por outro lado, músicos judeus longe de Israel absorveram a cultura local para renovar a tradição. Assim, ouvindo a festiva canção “L’shana habaa” percebe-se a raiz da música moura/ibérica e como sua percussão está a um passo da música caribenha.

Nesse contexto de interação cultural, ouvimos o shofar e o alaúde e também o piano elétrico. Ouvimos a tradição no estilo de Uzi Hitman, compositor de “Adon olam”, e também a modernidade de Nurit Hirsh, regente e também compositora de mais de mil canções, autora de “Osse shalom”, originalmente composta para um festival de Música Chadíssica, de 1969, que se tornou parte da liturgia em sinagogas e comunidades judaicas no mundo inteiro.

A simplicidade melódica das canções esconde a sofisticação dos arranjos. André Gonçalves (irmão de Leonardo), Ronnye Dias, Wendel Mattos, David Maia, Samuel Krahenbühl e César Marques trabalham como artífices a serviço da carpintaria musical. 

Na quarta canção do CD, há um belo arranjo orquestral em que as cordas vão se sobrepondo e dialogando com a voz principal da música. Já a música “L’cha dodi” abre o diálogo com o modo clássico-erudito de compor para vozes. Ao final, a canção é cantada a capella e a melodia recebe uma harmonização vocal requintada.

“L’cha dodi” é uma música tradicional que, num CD gravado por um adventista do sétimo dia, revitaliza as raízes e constrói pontes. É uma canção que antecede o shabat, fazendo parte do serviço religioso chamado “Cabalat Shabat” (Recebimento do sábado). No início, a canção diz: “A ordem ‘lembra-te e observa’ foi pronunciada de uma só vez / o D-s único no-la fez ouvir”. E mais adiante: “Vamos ao encontro do shabat, pois ele é a fonte da benção / estabelecido desde o princípio / foi a conclusão da criação / mas, no planejamento, o início”.

Quantas músicas são tão assertivas assim em relação ao sábado? Como esta canção é cantada em hebraico e faz parte da tradição judaica, ela parece comum. Mas no contexto da apologia sabática, me arrisco a dizer que ela é singular.

O diálogo com o adventismo corresponde a uma volta às origens bíblicas também na questão fundamental da lei de Deus. A oitava música do CD transcreve os versos de Apocalipse 14:7 e 12. E aí está a mais perfeita tradução da ética desse CD: o diálogo interreligioso que não perde a identidade original. O adventismo de Leonardo Gonçalves não foi diluído na música judaica. Ao contrário, a cultura musical está a serviço da identidade religiosa de missão.

Juízo, reconhecimento de um Criador literal (“adorai aquele que fez”, isto é, o Criador), e a citação “aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Yeshua”: a coragem de afirmar tais distinções doutrinárias só pode vir de uma honesta convicção pessoal.

E por que obedecer aos mandamentos? A canção “V’haer enemu” responde: “apega nosso coração aos Teus mandamentos / a fim de não nos envergonharmos e sermos humilhados / e não virmos a fracassar para todo o sempre”.

Na penúltima música do CD, composta por André R. S. Gonçalves, os trechos selecionados de cada estrofe ressaltam quatro pontos importantes:
- a graça divina: “a Tua ira se retirou e Tu me consolas”;
- a salvação: “eis que D-s se tornou a minha salvação”
- a missão de levar a mensagem ao mundo: “fazei notório Seus feitos entre os povos / contai quão excelso é Seu nome”
- a adoração como resposta aos atos de Deus: “cantai ao Senhor porque fez coisas grandiosas”.

Um dos versos da canção diz: “porque o Senhor é a minha força e o meu cântico”. Isso é como dizer: o Senhor é meu mandamento e minha música, a minha ética e a minha estética.
   
A estética é finita, limitada. A ética bíblica é eterna. A melodia (a estética do homem) muda enquanto a Palavra (a ética de Deus) não muda. Os músicos cristãos costumam unir a estética das culturas humanas à ética bíblica. A diferença em “Avinu Malkenu” é que sua ética está na busca de diálogo sem perder as raízes ao passo que sua estética reforça uma volta às origens sem temer o diálogo. Que cresça e dê frutos.

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P.S. para um músico: Wendel Mattos faleceu há poucos dias. Um trecho de “Adon olam” diz: “Nas Suas mãos eu depositarei o meu espírito no momento do sono, e então despertarei”. Não o conheci pessoalmente, mas posso dizer que para nós, que o perdemos, parece que uma longa e desafinada estrada ainda nos separa do reencontro. Mas para Wendel, seu descanso em Deus é apenas uma brevíssima e silenciosa pausa antes dos acordes sinfônicos da ressurreição que virá um dia para os que dormem no Senhor.

11 novembro, 2010

Os Estados Unidos e a saída pela direita


Você já ouviu falar do Tea Party mas não sabe muito bem o que é? Te explico sem meias palavras: é um movimento de extrema-direita que conjuga fundamentalismo evangélico com racismo e ao mesmo tempo prega um neoliberalismo radical em que o Estado deixaria de atuar em setores como educação, saúde e regulamentação dos bancos e se preocupasse só com a segurança pública.

Misturando xenofobia com ufanismo raivoso, muitos deles criticam as leis que proíbem empresas privadas de discriminar clientes por raça ou religião e se declaram contrários à concessão de cidadania para filhos de emigrantes nascidos nos EUA.

Era esse pensamento fascitóide que pretendia cassar a cidadania de Barack Obama durante a campanha eleitoral de 2008. E até hoje, os militantes do Tea Party vão às ruas com faixas chamando Obama de radical islâmico, anticristo, marxista e nazista. Tudo no mesmo ato.

Nascido e criado nos grotões mais conservadores dos EUA, o Tea Party põe no mesmo caldo grosseiro e maldoso religião e política temperados com teorias conspiratórias. Muitos dos seus militantes veem a ONU como a agência do Anticristo onde são mancomunados os planos malévolos de uma conspiração fascista, islâmica e comunista em parceria com os “liberais” e Wall Street, que visa estabelecer um regime totalitário mundial. Esses agentes da Nova Ordem Mundial já teriam cunhado até uma nova moeda para substituir o dólar: o “amero”.

Nas eleições deste ano aqui no Brasil, valores religiosos evangélicos foram atrelados ao discurso político de ambos os candidatos. Não que esses valores não merecessem a atenção dos candidatos, mas a campanha de José Serra nitidamente se inspirou na campanha republicana ao utilizar a forte presença de líderes pentecostais.

Quando Barack Obama foi eleito presidente, dizia-se em alguns setores evangélicos que aquele era o homem que iria unir o mundo sob seu carisma. Contudo, a menos que haja uma virada na atual situação, a atual situação econômica do país e sua baixa popularidade não lhe reelegeriam. 

Como já era visível em sua retórica na campanha (e que a cegueira conspiratória de alguns não via), seu discurso é demasiado conciliador e multiculturalista. Já a extrema-direita norte-americana se pauta pela hegemonia política e pelo exclusivismo religioso. Enquanto Obama é visto como alguém que respeita as lideranças de outros países (até onde é possível) e as variações religiosas, o Tea Party prefere posar como xerife do planeta e é exclusivamente evangélico. 

Fique atento, pois tão ruim quanto um governo que rejeita todas as religiões é um governo que advoga uma religião exatamente contrária a sua.

Mais sobre o Tea Party e algumas implicações religiosas, aqui.
Sobre o projeto político do Tea Party, aqui.

08 novembro, 2010

Seis cegos e um elefante, ou, nossa mania de juiz


Era uma vez seis cegos à beira de uma estrada. Um dia, lá do fundo de sua escuridão, eles ouviram um alvoroço e perguntaram o que era. Era um elefante passando e a multidão tumultuada atrás dele. Os cegos não sabiam o que era um elefante e quiseram conhecê-lo.
Então o guia parou o animal e os cegos começaram a examiná-lo:
Apalparam, apalparam...Terminado o exame, os cegos começaram a conversar:
— Puxa! Que animal esquisito! Parece uma coluna coberta de pêlos!                                                         — Você está doido? Coluna que nada! Elefante é um enorme abano, isto sim!                                            — Qual abano, colega! Você parece cego! Elefante é uma espada que quase me feriu!                               — Nada de espada e nem de abano, nem de coluna. Elefante é uma corda, eu até puxei.                            — De jeito nenhum! Elefante é uma enorme serpente que se enrola.                                                            — Mas quanta invencionice! Então eu não vi bem? Elefante é uma grande montanha que se mexe.

E lá ficaram os seis cegos, à beira da estrada, discutindo partes do elefante. O tom da discussão foi crescendo, até que começaram a brigar, com tanta eficiência quanto quem não enxerga pode brigar, cada um querendo convencer os outros que sua percepção era a correta. Bem, um não participou da briga, porque estava imaginando se podia registrar os direitos da descoberta e calculando quanto podia ganhar com aquilo.

A certa altura, um dos cegos levou uma pancada na cabeça, a lente dos seus óculos escuros se quebrou ferindo seu olho esquerdo e, por algum desses mistérios da vida, ele recuperou a visão daquele olho. E vendo, olhou, e olhando, viu o elefante, compreendendo imediatamente  tudo.

Dirigiu-se então aos outros para explicar que estavam errados, ele estava vendo e sabia como era o elefante. Buscou as melhores palavras que pudessem descrever o que vira, mas eles não acreditaram, e  acabaram unidos para debochar e rir dele.

Morais da história:
Em terra de cego, quem tem um olho anda vendo coisas.                                                                    Quando algo é tido como verdade, o que é diferente parece mentira.                                               Problemas comuns unem.                                                                                                                           Se você for falar sobre um bicho para uma pessoa que nunca viu um, melhor fazer com que ela o veja primeiro.

Virgílio Vasconcelos Vilela (Possibilidades)

*****
Nota na pauta: seis cristãos (eu sou o primeiro) julgam um elefante-cantor. Cada um tem uma interpretação. Eu gostaria de ser o cego que voltou a ver e tenta explicar como é o elefante, mas terei que concorrer com aqueles juízes que já tem a vista perfeita e verdadeira, então volto ao ensaio de minha cegueira. Nossa mania de juiz é tão irresistível quanto caolha. O que levará alguns web-transeuntes a dizer que quem está errado mesmo é o autor dessa história.

05 novembro, 2010

a música do bom samaritano

Assistir uma senhora chamada Rute falando sobre seu serviço de visitação nos presídios impressiona a gente. Ela e uma anciã cujo cristianismo não fica na prédica, mas avança para a prática. Sua história me lembrou de versos bíblicos que ouvi na infância: “estive preso e Me visitaste...”

Conhecida pelos presidiários como "Irmã Rute", ela se dedica há muitos anos a esse serviço absolutamente voluntário. Foi assim que conheceu o casal Milton e Nair. Ele, fichado como um dos 10 criminosos mais perigosos do Paraná. Ela, sua companheira. Por razões que só consigo caracterizar como um milagre de transformação pessoal, o casal se tornou cristão.

Quem de nós apostaria na conversão do casal? Rápidos em rotular, diríamos que aquele homem era a escória da sociedade, um dejeto social merecedor de coisas piores que a prisão. Mas Milton da Silva cumpriu sua pena e saiu para uma vida completamente diferente.

Eu estava ali assistindo aquela senhora falar por uma coincidência. Eu estava ali para tocar para o Curitiba Coral. De repente, ela chama Nair à frente. E eu surpreso fico sabendo que Nair agora é diretora da ADRA e do ministério da mulher de sua igreja local. Fico boquiaberto quando Rute chama Milton da Silva. Seu rosto na página policial de um jornal (mostrado antes numa tela) contrasta com sua expressão de contentamento e serenidade. Milton, de camisa e fala humildes, hoje constrói igrejas.

A canção do vídeo abaixo talvez não seja seu tipo preferido de música (não é o meu). Mas sua letra retrata sem rodeios a vida de alguém que estava afundando no pântano social e, através da visita de alguém como Rute na prisão, encontrou uma nova maneira de enxergar os outros, como se uma nova luz abrisse seus olhos para as maravilhas do amor e do perdão.

Há tragédias sociais e espirituais diárias, mas que muito cristão finge não ver porque lacrou-se numa igreja lustrada e perfumada. 

Não estou prognosticando um estilo de música para as igrejas. Estou mostrando que aqueles que estão na periferia do "bom-gosto" usam o idioma musical que compreendem para expressar seu novo modo de vida e como nosso elitismo religioso e cultural não passa de uma máscara sacerdotal que se afasta dos caídos e feridos enquanto os samaritanos em sua simplicidade vestem o nu, alimentam o faminto e confortam os presos.




04 novembro, 2010

o twitter é o gatilho mais rápido da internet


Meses atrás, o cantor gospel André Valadão escreveu "evangelizar" com "s" no twitter. Não demorou para que o erro de gramática provocasse o súbito aparecimento de um exército de tuiteiros armados de "z" até os dentes. E não há bicho mais belicoso que um internauta ferido em sua honra gramatical. No twitter, não existe margem nem para as margens de erro. O espaço é para 140 caracteres, mas a tolerância é zero.

Quando digitou "cinismo" com "s", a apresentadora Glenda Koslowski também amargou a fúria dos templários que vigiam o jardim da última flor do Lácio. Não apareceu um cavalheiro para defendê-la com um clichê do tipo "quem nunca errou no twiter que atire o primeiro teclado". Muita gente acredita que seu programa Hipertensão, trash no último, foi um castigo que a Globo lhe impôs pelo crime de lesa-idioma.

Se a violência do tuiteiro ficasse só na esfera da palmatória virtual com fins educacionais, isso já seria classificado como bullying. Mas a coisa não para por aí. Ao contrário do provérbio do sábio contemporâneo Sua Excelência Tiririca, tudo sempre pode ficar pior. Aí estão alguns eleitores paulistanos de José Serra achincalhando os eleitores nordestinos de Dilma Rousseff, embora os números das eleições provem que Dilma seria eleita, com menor folga, mesmo sem os votos da região Nordeste. 

Mayara Petruso, uma moçoila mais avexada, apregoava no twitter: "Faça um favor a SP. Mate um nordestino afogado". Mal se declarava o resultado das eleições e rapidamente se começava a pedir a cabeça alheia. O twitter é o gatilho mais rápido da internet.  Infelizmente, não há banda larga suficiente para a vasta ignorância dessa gente.

Mesmo a reação dos nordestinos com a tag #orgulhodesernordestino foi criticada como autovitimização e preconceito ao avesso. Veja só: esse grupo, uma minoria paulista, promove a discórdia e a xenofobia e ainda se defende dizendo que o pobre é o culpado da própria pobreza e que a vítima é a culpada do preconceito que sofre. Por certo, o nordestino não tem orgulho da pobreza, culpa da histórica má distribuição de renda e dos "coronés" favorecidos, mas tem orgulho da sua vastíssima contribuição à arte e à cultura nacionais, tem orgulho da força com que supera as tragédias naturais.

Esses internautas cheios de ressentimento e soberba só certificam duas coisas: 1) A arrogância paulistana é tão míope que deixa de enxergar que seus cidadãos passaram a vida elegendo o Maluf, o Enéas e agora passam o cetro ao Tiririca; 2) O twitter é o divã dos ressentidos.

02 novembro, 2010

quando a morte é uma vírgula na vida

Quando estamos mais crescidinhos e já saímos das fraldas dos porquês, as perguntas continuam simples, mas as respostas já são mais complicadas. Existia vida antes da vida na Terra? Existe vida após o fim da vida? As respostas variam conforme o sentido e a compreensão que temos da vida e da morte.

Um violoncelista demitido como Daigo Kobayashi só dá sentido à vida quando mais perto está dos mortos. De músico ele passou a “nokanshi”, alguém cuja especialidade é lavar e vestir os mortos para que a família se despeça com a dignidade que a tradição japonesa confere aos funerais.

Essa profissão não é bem vista na sociedade japonesa moderna. Até o próprio Daigo tem vergonha de seu novo emprego. Mas é nessa função que ele começará a refletir sobre a vida e a morte. Ele, que se sentia um morto entre os vivos, ao tratar dos mortos passa a enxergar a beleza dos vivos.

Daigo reconcilia-se com a música que foi obrigado a abandonar. Mas precisa ainda reconciliar-se com seu pai.

Essa é a história do filme A Partida. E você pode enxergá-lo com as lentes que quiser, assim como os personagens do filme, em que alguns vêem os preparativos dos funerais como pontos de reticência (ninguém sabe o que acontece depois da morte), outros veem a morte como um ponto final (não existe nada depois da morte) e outros creem que a morte é só uma vírgula (existe vida após a morte).

A Partida é tocante. Apesar dos (poucos) momentos melodramáticos e cenas exageradas do músico tocando em cenários naturais, a reverência e a gravidade dos funerais são tratados com respeitosa delicadeza. As cenas de reconciliação familiar me moveram às lágrimas pois me lembrou de separações e reconciliações em relação ao meu próprio pai.

Mas minha compreensão da vida e da morte é bíblica. Na Bíblia, a morte não é uma embaixada num limbo separando os passaportes de quem vai para onde. O livro de Eclesiastes diz que todos voltam ao pó, que os mortos não sabem de coisa alguma, que na sepultura não há obra nem projeto nem conhecimento.

No entanto, a morte não é um ponto final justamente porque não houve ponto final para Cristo na tumba. “Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele” (1 Tessalonicenses 4: 14). Mas isso acontecerá somente quando o próprio Cristo retornar à Terra segundo Sua própria promessa.

Na Bíblia, a morte é apenas uma vírgula na vida, Jesus diz “Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá” (João 11:25).

De tanto corrermos e de tanto procurarmos algo que nos dê prazer, só temos outra perspectiva da vida quando nos vemos diante da morte, como o personagem Daigo Kobayashi. Mas o sábio já advertia que é “melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração” (Eclesiastes 7:2).