25 fevereiro, 2009

um novo tom para a velha e feliz história

“O Senhor é minha força e minha melodia; ... Ele é o meu Deus, portanto, eu O louvarei; Ele é o Deus de meu pai, portanto, eu O exaltarei”. São os versos de Êxodo 15:2 que abrem o DVD Novo Tom Ao Vivo e servem de epígrafe para esta produção artística de excelência musical e religiosa. As músicas cantam a esperança de salvação que está no “meu Deus”, o Deus do presente, e no “Deus de meu pai”, o Deus da tradição. Esta velha e feliz tradição é recontada em linhas modernas e em arranjos contemporâneos.

A primeira música, Tudo em Louvor, já anuncia o que será a tônica dessa produção: a triagem de gêneros musicais para alcançar novos formatos de comunicação do evangelho. Essa canção extrai do baião a alegria e a leve descontração, sem descambar para o folclorismo e a cópia ipsis litteris do estilo nordestino. Isso acontece porque o figurino dos cantores não é folclórico e nem a interpretação vocal repete trejeitos estereotipados do forrozeiro comum. Além disso, as notas da melodia dessa canção desviam-se da linha melódica típica do baião tradicional enquanto as dissonâncias da harmonia e o arranjo instrumental alteram a referência original de dança e distração popular.

Embora a letra da canção diga que “tudo o que nós temos dedicamos ao Senhor / tudo que nós somos transformamos em louvor”, isso que chama de “tudo” é reorganizado seletivamente e apresentado em contexto diverso do original. Os produtores musicais do DVD entendem que se o contexto é outro, a música não pode ser a mesma. Daí a necessidade de reformular o gênero musical (o baião) e lhe conferir novos valores, os quais não advêm apenas de uma nova letra (uma letra religiosa), mas de um novo percurso melódico e de uma nova configuração harmônica.

O DVD apresenta uma releitura de músicas de CDs anteriores do Novo Tom (inclusive dos tempos em que o grupo se chamava Tom de Vida). Esse remake musical nem sempre mantêm a força dos arranjos originais, como a faixa Não Tenho Palavras, cuja sonoridade inicial remete às introduções do rock nacional comum nos anos 80 (como a introdução de guitarras no contratempo e a virada inicial na caixa da bateria). Essa citação de estilo torna-se um tanto cansativa durante a música.

Já a releitura de Quero Ter Jesus conta com a iluminação e a disposição dos cantores no palco para criar uma atmosfera de intimismo de luau ou sarau gospel. Assim, Não Tenho Palavras e Quero Ter Jesus parecem destoar um pouco do restante do trabalho – uma parece deslocada no tempo e a outra parece deslocada no espaço. Embora tecnicamente impecáveis, ambas deixam entrever certa submissão a um virtuosismo maneirista (melismas em profusão, emulação de black music, estalos de dedos, coreografias e finais em suspenso). Porém, ambas também estão coerentemente ligadas a uma característica dessa produção: louvor em idiomas musicais distintos.

A canção O Amor é Jesus também ganha nova roupagem, sendo apresentada com outros elementos – percussão vocal (estupenda), coro a capella e melodia “cantada” pelo espantoso som de trompete vocal de Denis Versiani (que também assina o arranjo). Nossas expectativas também são surpreendidas pela desaceleração de A Esperança da Vida (rápida no original e lenta no DVD) e pelo toque de chorinho dado a O Meu Louvor é Ser Feliz.

Nessa última, os violões dão uma textura brasileira alegre e ao mesmo tempo reverente, e a orquestração da música é belíssima. Dessa vez, é a melodia originalmente do meio sacro que é relacionada a um gênero tradicionalmente secular como o choro (note que não se trata do chorinho veloz de “Brasileirinho”, mas do estilo terno de “Carinhoso”, para ficar em dois exemplares de choro apreciados em alguns círculos cristãos). A melodia e a respeitosa instrumentação, embora ainda possam causar associações culturais indevidas para alguns ouvintes excessivamente tradicionalistas, reforçam os temas do louvor cristão; jamais os anulam.

É certo que essa é uma produção que aceita correr certos riscos. A canção Celebração ancora-se no pop apenas para transmitir a urgente necessidade de testemunho pessoal. Não preciso falar outra vez da genial recriação de melodia, harmonia e arranjo que caracterizou este trabalho do arranjador e maestro Lineu Soares. Nessa canção, há a descrição de atividade cotidianas (“leio o jornal, assisto a televisão, converso com o vizinho”), mas a letra não cai no coloquialismo banal. Antes, ela é a porta de entrada para falar de conteúdos mais densos. É um risco superado pela precisão do arranjo musical contemporâneo.

A canção Só Jesus extrai seu arranjo da fina estirpe dos compositores da bossa nova. Alguns poderão queixar-se de estar ouvindo um produto da MPB, mas não poderão dizer que não se trata de uma música que celebra com elegância e refinamento o encontro da canção protestante com uma das mais sofisticadas formas cancionais brasileiras. Nessa música, um estilo submerge no outro e o resultado estético e religioso está em delicado equilíbrio.

Porém, o maior risco que se corre está, paradoxalmente, no emprego que os admiradores do Novo Tom darão a essas músicas. Se os grupos vocais das igrejas não entenderem que determinadas canções desse DVD, embora boas e agradáveis, não foram feitas para uso litúrgico, todo o trabalho de triagem de gêneros e de reformulação de estilos só criará mais adversários (e não sem razão).

Esse dilema pode ter motivado a inserção da canção Usa-me, cantada no DVD pelo próprio compositor Lineu Soares. Como se fosse uma oração pessoal, ele canta do seu “labor dedicado a servir e a dar amor”, e que, para “falar claro da Tua graça”, diz que é preciso “conhecer sem sofisma a salvação”. Por isso, o compositor pede para Deus: “Dá-me a tempo e a hora o que deverei dizer”.

Durante uma homenagem bem-humorada a dois representantes da canção adventista, Luiz Cláudio e Sonete, Lineu fala que um compositor é fruto das próprias referências e deve ter consciência das “nossas raízes”. Essa expressão tem um duplo significado, pois o contexto musical do DVD requer uma tomada de consciência que reúna a tradição e a modernidade no sentido de reorganização ou reconfiguração da tradição musical nacional sob as lentes da ótica cristã.

O contexto geral é de celebração nobre e reflexão inteligente, o que é expressado pelos instrumentistas assentados, pelo trânsito sem sobressaltos dos cantores no palco, pela versatilidade impressionante dos cantores, pela enquadramentos de câmera elegantes, pelo roteiro que parte do louvor como resposta do homem até chegar na esperança de libertação divina. Seja pela brasilidade discreta de Tudo em Louvor ou pela obra-prima supracultural que é a canção O Pior do Homem, O Melhor de Deus, o ouvinte é musicalmente desafiado a ir além do seu território particular de música sacra e compreender como (ou se) as novas canções são capazes de atender as antigas demandas espirituais da cristandade moderna.

18 fevereiro, 2009

a arte de ver

Por ocasião da morte do cineasta Ingmar Bergman (1918-2007), Paulo Coelho declarou, com o devido respeito, que “os filmes de Bergman eram chatíssimos”. Não se pode negar que quem estiver atrás de emoções em cascata, romances a granel e sensações em montanha-russa não as encontrará no cinema de contemplação de Bergman. Mas seguramente também não as achará nos livros de Paulo Coelho, nos quais não habita a literatura e nem a arte ali fez morada.

É claro que o cinema sempre foi um grande negócio, mas houve quem transcendesse o simples comércio e entregasse ao espectador um produto de alta qualidade estética e vigor intelectual inconteste. Ou seja, mais que vender rostos bonitos e batidas de carros, ainda há diretores e roteiristas que sabem tirar leite de pedra, quer dizer, extrair arte do comércio.

A idéia de cinema como entretenimento está presente desde o seu duplo berço na França, com os irmãos Lumière, e nos EUA, com Thomas Edison e sua turma (já andaram dizendo que o suor e até a inspiração eram mais da turma do que de Edison).

Daí os filmes de aventura e ação obterem tanto sucesso. Daí as aflições românticas, em forma cômica ou dramática, exercerem tanto fascínio. Daí que, se você junta ação e romance, tragédia e efeitos especiais, uma pitada histórica baseada-em-fatos-reais, um coadjuvante cômico e um casal loirinho falando inglês, você tem um sucesso de bilheteria como Titanic. É evidente que essa fórmula pode também revelar-se um tremendo fiasco, mas vá dizer isso aos produtores de Roliúdi.

Aqui também é preciso levar em consideração outros fatores como: a pujança econômica e americana que inunda as telas do mundo com a propaganda do seu estilo de vida e de suas celebridades; a atração humana por narrativas lineares, isto é, com começo-meio-fim, necessariamente nessa ordem; o desgaste físico cotidiano que leva a mente a pedir descanso e entretenimento leve; a massificação de uma única opção cultural: a arte como diversão; a ausência de uma educação estética nas escolas, que seria responsável por apresentar uma leitura da nossa Era da Imagem em Movimento e que capacitasse os estudantes a compreender que cinema, assim como a música ou a literatura, não existe apenas como passatempo de hiperestimulação hormonal.

O problema aparece quando, de tanto incentivo ao fluxo da adrenalina, a pessoa não consegue assistir a filmes que não sejam de suspense, terror, comédia besteirol ou paixões com finais felizes. Algo está sendo perdido quando apenas se assiste a um cinema que só quer contar uma historinha antes de você dormir.

Vão se perdendo chances de deparar-se com a arte capaz de reorientar nosso pensamento e desvelar novos modos de enxergar o mundo. Filmes que saúdam a inteligência do espectador e lhe despertam para um diálogo consigo mesmo.

Mas pergunte-se a você: que circunstâncias formaram meu gosto, meu juízo estético, minha compreensão da arte? Ou ainda: estou levando esse entendimento de arte somente como lazer e diversão para outros campos da vida, como o estudo, o trabalho, a religião?

13 fevereiro, 2009

atrás do trio elétrico gospel

O primeiro mandamento do gospel nacional é: não há mandamentos. Não há regras. A música gospel já está parecendo uma final eterna do Ultimate Fight, um vale tudo cada vez mais liberado. Funciona mais ou menos assim: alguma mente bem-intencionada descobre que, para chegar junto da moçada de sensibilidade amortecida, é preciso usar as mesmas músicas que levam a galera à loucura, uhu, tira o pé do chão! Daí, meu bom, a parada é evangelizar com a unção do axé e do funk, bota pra ferver, brother!

Até outro dia o povo andava esperando por milagre. A turma até pode estar esperando, mas não em pé, que em pé cansa. Nem sentado também. Enquanto a benção não vem, a turma sacode o esqueleto que crente não é de ferro, e uma micareta santificada não faz mal a ninguém, faz a dança do quaquito aê pra gente se animar, Aline Barros! (Please, Aline, você não, por favor).

A controvérsia da vez é a cantora Jake e a canção Pó pará com pó. E como toda controvérsia em forma de música, já virou sucesso. A moça de cabelos, voz, energia e passinhos no melhor/pior estilo Daniela Mercury se tornou uma celebridade via youtube. A música, do gênero axé-pop-gospel (se isso não existia, acaba de vir à existência), apresenta a cantora animadíssima no programa Vozes da Igreja da TV Aparecida.

A letra seria um instrumento de combate às drogas (“pó pará cum pó aí”, traduzindo, pode ir parando de cheirar pó... aí). A cantora alerta que, em vez de cocaína, o melhor é tomar “uma overdose de Jesus” e, na metáfora do ano, “injetar na veia o sangue que correu na cruz”. Onde estava essa música na hora que Jimi Hendrix mais precisava dela?

Ainda tem os versos enlouquecidos de “overdose de alegria” e “Shekinah doidão, doidão”. No vídeo, Jake diz que “católico também tem muito axé”. É ou não é o samba ou o axé do crente doido?

Não faz muito tempo e o grupo secular Asa de Águia cantava que “na casa do Senhor não existe Satanás, xô Satanás,...”, e o público se esbaldava de tanta folia. A canção era uma sátira às célebres sessões de descarrego e exorcismo de algumas igrejas neopentecostais. A canção da católica Jake parece produzir um efeito semelhante ao das canções carnavalescas. Letra divertida, muita dança e finalidade de entreter. Se ela acha que as pessoas serão conscientizadas em meio a tanto barulho, badalação e folia...

Não quero dar ideia, mas reúna a axé-saltitante Jake e a pop-crente Cláudia Leitte para cantar esse hit no palco do carnaval. Não há ecumenismo que resista a esse som. E mais, nem como alerta antidrogas a música vai funcionar. Será tragicômico saber de muita gente “doidona” viajando e pulando ao som de Pó pará com pó. Será que atrás do trio elétrico gospel só não vai quem já morreu?


11 fevereiro, 2009

de coices e dribles

Qual a diferença entre cavalos bufando antes da largada e vinte e dois homens perfilados antes de uma partida de futebol? É que os cavalos não sabem cantar o Hino Nacional. A piada, para alguns, ofende a criatura humana. Se bem que, dependendo do jogo, a piada ofende os cavalos.

Brasil e Itália entram em campo, perfilam-se respeitosamente, toca-se o hino pátrio, mão no peito, voz tímida, olhar tenso. Comecemos com o hino. No ano passado, ouvimos direto de Goiânia a interpretação de Zezé de Camargo do famoso “Ouviram do Ipiranga”, verso cuja única razão de existir parece ser a de servir de pegadinha em provas de português (quem é o sujeito? Ipiranga? As margens plácidas? Povo heróico?).

Esquecendo que o cantor romântico, quando cantava as sílabas maiúsculas de “ó pátria aMAda, idolaTRAda”, desviava-se das notas certas, até que ele não se saiu mal. Nem sentiu falta do irmão Luciano.

No jogo dessa terça-feira (10/02), uma fanfarra acelerou tanto o andamento do nosso hino que desafiava até a dicção de locutor de jóquei. Vai ver o maestro tinha percebido nos ensaios que o hino nacional brasileiro divide-se em: 1ª estrofe – duração de três minutos; com a 2ª estrofe – dura três dias. O hino é tão belo quanto interminável, principalmente com aquela introdução triunfal (repetida entre as estrofes).

Mas, e o jogo? A história explica. Alguns historiadores dizem que os renascentistas italianos já praticavam o futebol, mas não como aquele que os ingleses viriam a “inventar”. Dizem que Leonardo era um gênio do esporte, fazendo carreira como técnico de estratégias indecifráveis, daí a existência de um código Da Vinci que só ele sabia ensinar aos jogadores.

Voltando a história real, o esporte chamava-se Calcio (e assim é chamado até hoje na Itália). Esporte nada. Aquilo era uma disputa para ver quem se saía melhor no domínio de uma bexiga de boi e o evento era uma verdadeira batalha. Táticas, espírito guerreiro, rivalidade. Calcio designava “pontapé”, “coice”. O resto é por conta da sua imaginação.

No Brasil pós-Charles Muller, o futebol virou sinônimo de diversão, arte, de algo lúdico. Por isso chamamos de jogo (giuoco), uma brincadeira. Na Itália, chamam de “gara” – disputa, competição. No primeiro tempo da partida entre as seleções, ambas tentaram o jogo, mas foram os meninos brasileiros que se divertiram mais. Na segunda etapa, a Itália partiu para o ataque, em ambos os sentidos. Atacou o Brasil, sem eficiência européia e atacou as pernas dos jogadores brasileiros, revivendo o sentido original do Calcio. O resultado é que o giuoco venceu a gara por 2x0.

Não é sempre assim. Na Copa de 1982, o Brasil jogava um futebol-fantasia, um futebol encantado. Mas a seleção italiana estava num dia competitivo e Paolo Rossi não quis saber de brincadeira ou diversão. Minha meninice não suportaria a arte sair de campo derrotada daquela forma e não tive mais grandes prazeres com os jogos da nossa seleção. Nem mesmo com as futuras conquistas de Copa do Mundo (94 e 2002). Aquela seleção de Junior, Falcão, Sócrates e Zico é meu pé de laranja lima.

09 fevereiro, 2009

o caçador de pipas e lágrimas

Chorar assistindo a um filme não é demérito pra espectador algum. Quando um casal faz as pazes ou o filho retorna a casa ou uma comunidade saúda o herói e as lições edificantes ressoam tão alto quanto o volume da trilha sonora melosa, eis os sinais para lavar a alma e os olhos. Às vezes depende mais do estado de espírito do prezado espectador do que propriamente do melodrama da cena assistida. Há pessoas que, a certa altura da vida, estão com a sensibilidade tão à flor da retina que são capazes de chorar até durante um comercial de banco.

Steven Spielberg é um desses profissionais da limpeza emocionada do globo ocular alheio. São raros os espectadores que mantêm a pose nas cenas mais dramáticas de A Cor Púrpura, no aperto de mão no final de A Lista de Schindler (que violino belíssimo, hein, John Williams?) ou na despedida do garoto Elliott e o E.T. (precisava aqueles metais e tímpanos tão altos, John Williams?).

Românticas incuráveis de todas as épocas inundam os lencinhos na saga de Scarlett O’Hara em ...E o Vento Levou, de 1939, e com o casal de náufragos do Titanic, quase sessenta anos depois. As sessões da tarde dos anos 80 fizeram muito marmanjo esconder os olhos lacrimosos com o filho do boxeador do melodramalhão O Campeão. E duvido que você segure as lágrimas no clássico A Felicidade Não se Compra. Este é de 1946, mas o diretor Frank Capra dominava a arte da lágrima derramada (e por esse filme vale o choro incontido).

Até o malvisto cine tupiniquim consegue fazer chorar. Muitas vezes, de raiva, eu entendo. Mas cante a primeira moda caipira quem não chorou junto com os Dois Filhos de Francisco. No meu caso, esse eu assisti durante uma viagem de ônibus. Meu irmão experimentou o mesmo “constrangimento” no ônibus, mas assistindo ao Menina de Ouro. Ele chegou a enviar uma e-queixa para a viação responsável, porque, convenhamos, isso é expor demais um sujeito.

Fazer o espectador chorar também não é demérito algum para um filme. Pode ser um choro epifânico, de estar diante de uma obra de arte como O Labirinto do Fauno ou A Fraternidade é Vermelha; pode ser um choro de indignação, de ver a tragédia social representada na tela, como em As Vinhas da Ira ou Roma Cidade Aberta; pode ser apenas uma furtiva lágrima agradecida pelo destino dos personagens, como em Um Sonho de Liberdade ou A Vida dos Outros.

Às vezes, vale até forçar a barra e sair à cata de lágrimas e níqueis. Afinal, é disso que Roliúdi vive. O Caçador de Pipas é um dos recentes exemplos de cinema-com-mensagem com um olho (emocionado) na história e outro (cego) na bilheteria. Nada contra, se pelo menos o diretor fosse honesto na hora de filmar a vida de um homem em débito consigo mesmo. Quando criança, morando em Cabul, esse homem traiu um leal amigo. E toda a parte da infância é muito bem filmada, incluindo as cenas das pipas cortando o céu do Afeganistão.

Após a invasão russa, o menino e seu pai fogem para os Estados Unidos. E aí começam os problemas. Do filme, diga-se. A narrativa é atropelada, os eventos se sucedem rapidamente, não dá tempo da gente se envolver com os novos personagens. A coisa degringola de vez quando o homem, já crescido, volta ao Afeganistão para expiar a culpa. Para mim, em nenhum momento as cenas expressam alguma carga de remorso. No máximo, inspiram uma certa compaixão e os bons sentimentos, o que não é desprezível. Mas o desenrolar da história se torna muito artificial; tudo é tão inverossímil quanto a barba falsa do personagem. Nem sobra tempo para ficar um pouco sentimental.

Guardei minhas lágrimas. Não consegui chorar pelo filme derramado.

05 fevereiro, 2009

fábulas menores de moral mínima (opus 5)

Com a desculpa esfarrapada e descalça de que estou atribulado com o último capítulo da minha honorável dissertação, saquei do fundo do arquivo "meus documentos" essa pouco honorável fábula. Estudantes da graduação ou da pós, e não só eles, espero, vão entender as agruras.


O menino, o velhaco e o burro – uma fábula revista e atualizada

O menino universitário, após uma longa temporada à sombra das raparigas em flor nada proustianas mas em tudo calypseiras, decide que já é hora de crescer e deixar essa vida cruel de passar a semana afogado em números e letras e o fim-de-semana afogado em anônimos beijos atrás do trio elétrico. Mas, esse guerreiro-menino não sairá do templo do saber assim impunemente. Primeiro, é preciso mostrar que aprendeu alguma coisa de útil na vida. É preciso entregar, troçus terribilis, sua monografia. Seu destino acadêmico é: pague para entrar, entregue uma monografia para sair. Não, não, reza braba não dá jeito, o cabra pode ser valente, mas só na lembrança do texto vai chorar.

Nessa ingrata hora de seus infortúnios, surge o único que irá lhe defender: o Google, o labirinto dos insensatos e padrasto de nós todos, onde se vai encontrar o que se quer: muito joio e lá, bem no fundo, escondido e raro, um punhado de trigo. Mas esse trabalho de joeiramento das fontes pesquisadas não é compatível com tanta balada e tão poucos engenhos e, a fim de evitar a fadiga, ele repassa o trabalho para qualquer outro. Não é exatamente qualquer outro, basta qualquer um que saiba tirar essa pedra do meio de seu caminho. É aqui que entra o velho.

O velho não precisa ser um ancião, mas alguém com alguns calejados anos de prática de revisão e correção de rudes esforços estudantis que aceita alguns níqueis para fazer um trabalho que o menino não quer ou não tem tempo para ou não aprendeu a fazer mesmo.

E o burro? Em tempos zoologicamente corretos, não existe ninguém burro, no máximo um indivíduo intelectualmente diferenciado, o que ainda pode constituir grave ofensa aos nossos semelhantes, os muares.

Enfim,  o velho vai precisar de energia juvenil para atravessar as noites de claro em claro e o menino se torna um velhaco ao defender o que não sabe diante daqueles que sabem que o menino só pensa que sabe.

Após uma triunfal compilação das idéias alheias, ele sairá do purgatório das defesas de teses por uma das duas saídas: o inferno dos plagiadores ou o paraíso dos compiladores.

Moral mínima, já por muitos conhecida: copiar uma citação é plágio; copiar várias, é monografia.

E se não for monografia é o texto de um blog, como essa minha fábula recheada de citações não-creditadas.

02 fevereiro, 2009

os brutos também pensam

Jornalistas e teóricos do evolucionismo, uma gente dotada de brilhantismo e bons postos de observação nos periódicos, têm obstinadamente alertado os cidadãos dos males da religião. Concentram-se nas caricaturas de um cristianismo barulhento e pernóstico e na beligerância totalitária de povos muçulmanos. Demonstram como dois e dois é igual a um ancestral comum a nadar no caldo amniótico de uma terra primitiva e sair para o vestibular da seleção natural. Isso é ciência, escrevem.

E para que discordar, quando apregoam as boas novas de um mundo melhor sem religião, sem Deus? E como discordar, se aos intelectuais neo-pós-darwinianos franqueia-se a palavra e aos cristãos acadêmicos concede-se o silêncio (ou a seção de cartas do leitor, que é a mesma coisa)? Às vezes, submergem suas páginas no fotolito do rancor e do preconceito que costumam atribuir aos crentes. Não é difícil notar que esse furor tem uma face anticristã, já que a mesma verve crítica raramente é destilada contra o espiritualismo light de horóscopos e cristais.

A coluna de André Petry na revista Veja (04/02) é mais um petardo da frente antirreligião camuflada de ataques ao criacionismo. "É assustador que, às vésperas do bicentenário do nascimento de Charles Darwin, ... escolas brasileiras estejam ensinando criacionismo nas aulas de ciências". Ele dá nomes: "Já se sabia que as escolas adventistas fazem isso". Exagero se digo que ele parece nauseado ao chamar o ensino do criacionismo de "isso"?

Em seu ataque, ele diz que essa rede de escolas - ele também aponta os colégios Mackenzie como os mercadores da má-fé educacional, "contrabandeia o criacionismo para as aulas de biologia". E arremata: "É inaceitável que o criacionismo seja ensinado em biologia para explicar a origem das espécies. Em biologia, vale o evolucionismo de Darwin... a melhor (e por acaso a mais bela) explicação que a ciência encontrou sobre a aventura humana na Terra".

O evolucionismo é algo definitivo e inquestionável, por acaso (com trocadilho, por favor)? Não se pode mostrar na aula de ciências os constructos sociais e científicos erguidos pelo pensamento humano? Não se pode contrapor os modelos criacionista e evolucionista, apontando virtudes e falhas de ambos?

André Petry, com sua escrita articulada e provocadora, permeia seu evolucionismo ortodoxo com os termos do encantamento e da religião: o evolucionismo "é a melhor (e não por acaso a mais bela) explicação"; no título, escreve "lembra-te de Darwin" (nos dias da tua mocidade?). Em seu texto, os cristãos criacionistas são seres embrutecidos porque não encontraram a luz da verdade evolucionista e, nas escolas, misturariam crença com ciência, superstição com razão, alhos com bugalhos.

Petry teceu algumas simplificações. Dizer que as instituições do Mackenzie e da rede adventista embrutecem o aluno por fazerem o evolucionismo dividir a lousa com o criacionismo é generalizante (para não dizer ofensivo à razão). E creio que os hospitais e colégios ligados a instituições confessionais não compuseram seus quadros com gente mentalmente embrutecida. Os empregadores que acreditarem no seu artigo talvez se perguntem quanto de gente embrutecida contrataram, já que esses "ignorantes criacionistas" atrasam o correr desse país que vai pra frente!

Para André Petry, o criacionismo é uma fábula, e lugar de fábula é na aula de religião (ele quase escreveu aula de contos de fada). Como o cristianismo bíblico aceita a criação divina, logo esse cristianismo é um conto da carochinha que será satirizado pelo cinismo genial dos desenhos animados no estilo Shrek.

Caro Petry, você lerá cartas que comentarão melhor o seu texto. Algumas, respeitosas. Muitas, furiosas e desatinadas. Outras, elogiosas e concordantes. Após a leitura delas, considere também: Grandes pensadores e leigos fiéis teriam erigido sua fé e seus valores éticos sobre uma fábula de areia? A filosofia educacional cristã tem mesmo brutalizado as mentes de seus alunos?

Meus filhos são da segunda geração familiar a cursar o ensino básico em uma escola da rede adventista. Eu lhe convido a visitar um desses colégios, converse com os professores de biologia e religião. Aproxime-se sem medo; nosso suposto "embrutecimento" não é contagioso. E pode ser que, além de já saber que os brutos também amam, você conclua que os brutos também pensam.

Leia também os artigos Visão 'petryficada' da Veja e A esquizotimia de André Petry e o Mackenzie.