30 maio, 2013

o século 20 começou com uma música em 1913

É verdade que em 1913 já havia carros, aviões, elevador, estrelas da música popular, cinema, adolescente rebelde e cheque devolvido.  Mas nada disso tinha a dimensão que viria a ter depois de 1913, quando os pacíficos aviões serviriam a 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e a música popular ganharia cada vez mais importância no cotidiano.

Em 31 de março de 1913, um concerto noturno com músicas de Arnold Schoenberg, Anton Webern e Alban Berg, o trio revolucionário de Viena, não chegou ao final. As estridências harmônicas das obras foram demais para o público que passou da discussão verbal à luta física, sendo necessária a intervenção policial. Mas houve quem admitisse que o som das brigas foi o mais harmonioso naquela noite.

No dia 15 de maio, estreava Jeux, partitura de Debussy coreografada por Nijínski. Talvez por causa da música sutil, fluente e encantória, não houve desacato durante o balé que apresentava um triângulo amoroso e sensual, o que já seria escândalo suficiente.

As coisas entornariam de vez no dia 29 de maio, quando estreou o balé A Sagração da Primavera (Le Sacre du Printemps), do russo Igor Stravinski, com coreografia de Nijínski.

A estreia ocorreu no recém-inaugurado Théatre dês Champs-Elysées, onde a elite de Paris, segundo conta Jean Cocteau, era “uma plateia elegante, de vestidos decotados, pérolas, penas na cabeça e plumas de avestruz, lado a lado com os paletós, farrapos espalhafatosos daquele gênero de estetas que aplaudem tudo o que seja novo [...] mil nuances de esnobismo,  superesnobismo e contraesnobismo”.

Naquele mês, circulavam boatos sobre uma nova música de Stravinski e sobre uma nova e escandalosa coreografia de Nijínski. Para completar, Seguei Diáguilev, diretor do Ballets Russes, prometia à imprensa “um novo frisson que sem dúvida vai inspirar debates acalorados”.

De fato, naquela noite o público se dividiu entre fãs animados e opositores entusiasmados. A música, que começa com um fagote suave e agudo, foi gradualmente imprimindo um clima febril, com pulsações rítmicas brutais, dissonâncias estrondosas, cortes súbitos e retomadas violentas, com os acentos rítmicos deslocados perturbando espectadores que gostariam de ouvir somente mais uma música inofensiva e depois sair para desfilar o figurino nos restaurantes caros.

Nos ensaios, até Diáguilev ficou chocado com a ousadia rítmica de Stravinski. “Vai continuar assim por muito tempo?”, perguntou. Stravinski respondeu: “Até o fim, meu caro”. E o acorde extremamente dissonante combinado com a acentuação rítmica fragmentada se repete 200 vezes!

Como era costume, o público não ficava indiferente às novidades. Junto com a música, ouviu-se no teatro aplausos e vaias, gritos e assobios, gargalhadas de desdém e um burburinho crescente que por pouco não causaram a interrupção do evento.

Além da chocante novidade musical apresentada, a coreografia de Nijínski ajudou a aumentar o clima anárquico que dividiu espectadores e críticos de arte. Em vez do gestual clássico, os bailarinos “tremiam, sacudiam-se sapateavam, davam saltos rudes e violentos e giravam numa selvagem dança de roda eslava”.
Atrás deles, um cenário que lembrava paisagens pagãs e formas que pareciam extraídas dos sonhos.

Pierre Monteux, o maestro daquele tumultuada concerto, relatou que “o auditório ficou em silêncio durante dois minutos, depois, de repente, vaias e assobios desceram das galerias, acompanhadas logo em seguida pela plateia. Houve espectadores que começaram a discutir e a atirar-se, uns nos outros, tudo o que tinham à mão. Em breve esta cólera se dirigiu contra os dançarinos e depois, ainda com mais violência, contra a orquestra, que era a verdadeira responsável por esta crise musical. As coisas mais variadas foram-nos arremessadas; apesar de tudo, continuamos a tocar”.

Depois de 1913, a música e nem o mundo seriam mais os mesmos. Para entender como a sociedade ocidental passou a privilegiar cada vez mais a marcação rítmica na música, volte-se a Stravinski e sua “Sagração”. As profundas mudanças na estrutura musical e Schoenberg e cia. levaram os músicos eruditos a novos experimentos e a uma distância cada vez maior de parâmetros como melodia e harmonia, o que contribuiu para distanciar o público também.

Voltando à estreia da Sagração, apesar de tudo, ao final, houve aplausos, que se repetiram nas apresentações subsequentes. Não quer dizer que a música foi domesticada, mas que os ouvidos assimilaram o novo, como é hábito do ser humano desde que se inventou a primeira flauta. Ainda bem que nossos ouvidos contemporâneos, submetidos a toda espécie de balbúrdia sonora e musical, ainda se deixam fascinar pelo novo e exuberante mundo musical apresentado por Stravinski há cem anos. 

Não se fazem mais novidades musicais como antigamente?

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Versão de "A Sagração da Primavera" com a coreografia original de Nijínski, redescoberta por Millicent Hodson. Segundo ela, conseguiu-se recuperar os cenários e figurinos originais e pelo menos 85% da coreografia de 1913.



Escrevi este texto com informações copiadas descaradamente de Alex Ross, "O resto é ruído" (p. 69-70, 88-90), e de Osvaldo Colarusso.


23 maio, 2013

a ateia sem recalques e o filósofo atento

Perguntada se um milagre divino teria lhe dado a reação rápida para salvar sua filha de 19 meses da destruição causada pelo tornado em Oklahoma, Rebecca Vitsmun diz ao constrangido repórter que é ateia, e completa simpaticamente: “Não culpo ninguém por agradecer ao Senhor”.



Está aí uma ateia sem recalques e que respeita aqueles que creem na intervenção de Deus.

Mas o filósofo Michel de Montaine, em 1592, percebia que havia alguns ateus nada simpáticos que manifestavam o costume tão humano de manejar o que lê em favor de suas ideias preconcebidas.

“Estamos sempre dispostos a atribuir aos escritos dos outros sentidos que favoreçam as nossas opiniões sedimentadas: um ateu se orgulha de fazer com que todos os autores reforcem a causa do ateísmo. Ele envenena com sua própria peçonha o mais inocente pensamento” (The complete essays, Londres, edição de 1991, p. 500).

06 maio, 2013

Not Today: filme da conscientização espiritual e social

Quando os créditos finais de um filme listam o “coordenador de oração” antes das equipes de figurino e maquiagem, você sabe que se trata de uma produção religiosa. Not Today [Hoje não] estreou nos Estados Unidos em 12 de abril e custou 1, 6 milhão de dólares bancados pela Friends Church, igreja de Yorba Linda, Califórnia.

A ideia para o filme veio durante uma viagem à Índia, onde, em 2002, a igreja construía escolas para os “Dalit”, classe de indianos considerada a mais baixa no sistema de castas, que não tem direito à educação nem tem acesso aos tribunais.

O pastor do Ministério de Artes da igreja, Brent Martz, conta que a situação de pobreza extrema do povo Dalit tem levado famílias a venderem suas filhas para a prostituição. Isso motivou a igreja a fazer um filme que servisse de alerta contra a rede internacional de tráfico de menores e contra um sistema de separação social semelhante ao antigo apartheid na África do Sul.

“A mídia é a linguagem da nossa cultura, por isso um filme é a melhor maneira de comunicar a história de uma grande tragédia global como o tráfico de seres humanos. Que melhor maneira de motivar os religiosos, às vezes protegidos e distantes dessas situações, que não uma boa história que os encoraje a se envolver?”.

O elenco inclui atores conhecidos da TV americana como John Schneider, Cody Longo e Cassie Scerbo. Mas o destaque é Persis Karen [foto acima], intérprete de Annika, uma menina de 7 anos de idade vendida como escrava em Hyderabad, na Índia. Como a personagem, Persis Karen pertence à casta Dalit, mas é aluna de uma das escolas mantidas pela Friends Church na Índia.

O filme conta como Annika e seu pai, que vivem em Hyderabad, acabam conhecendo o jovem Cade Welles, americano que viaja à Índia com os amigos. Annika é vendida para o tráfico de menores pelo pai que não tem como sustentá-la nas ruas. Welles, que foi à Índia somente para frequentar as festas, reconcilia-se com Deus na tentativa de resgatar a menina. Sua viagem espiritual é também uma tomada de consciência social ao procurar por Annika no mundo sombrio da prostituição infantil.

Sem dinheiro para a construção de sets em estúdio, a produção foi filmada nas ruas e favelas da Índia durante 21 dias, o que garantiu mais autenticidade. Isso permitiu ao ator Cody Longo, que interpreta o jovem Cade Welles, experimentar o mesmo que seu personagem: viajar para a Índia e tomar um choque de realidade.

"Isso mudou minha vida", disse ele. "Me tirou da bolha em que vivia. Nós nos acostumamos a viver nessa bolha e ninguém percebe até chegar o dia de ver o que está acontecendo no resto do mundo. Naquele momento da minha vida [o filme foi rodado em 2010], eu estava lutando com a minha fé e com o rumo a seguir", disse Longo. "Eu sinto que Deus colocou isso na minha vida no momento perfeito".



Aqui, o site oficial do filme.

O filme “Not Today” ainda não tem data prevista para estreia no Brasil. Talvez seja lançado diretamente em DVD.

A reportagem original da CNN você lê aqui.