30 janeiro, 2015

a fé e o amor se encontraram no cinema


Por que os filmes só mostram cristãos fanáticos?, me perguntou um amigo. Acho que pela mesma razão pela qual os filmes evangélicos só mostram ateus arrogantes: a necessidade de estereótipos, foi minha resposta.

Do mesmo modo que o cinema evangélico parece desconhecer a existência de vida feliz e digna entre ateus, o cinema hollywoodiano faz pouco caso da existência de vida inteligente e sensata entre cristãos.

Por isso, a raridade de um filme como A Força do Carinho (Tender Mercies), dirigido por Bruce Beresford e com roteiro premiado de Horton Foote. No filme, o grande Robert Duvall, em papel ganhador de um Oscar de melhor ator, vive um cantor country que não quer mais saber dos tempos de fama. Suas lembranças dessa época lhe trazem a amargura do alcoolismo, do divórcio e da perda de contato com a filha.

Ele vai parar num posto de gasolina de beira de estrada onde pede trabalho e teto para a proprietária, uma viúva que mora com o filho pequeno. Ali, anônimo e sem ilusões, Mac vai buscar a regeneração. Apesar de a história prever todos os clichês de superação e felicidade total, o filme não envereda por essas falsas expectativas. A história transcorre com calma, com poucos momentos de turbulência, como que acompanhando a conscientização do ex-cantor de sua nova vida.

E que papel o cristianismo desempenha na história?

Primeiro, há somente lampejos de cultos e devoção pessoal, mas o filme mostra uma igreja pacata, amistosa e bastante musical. Aliás, Rosa Lee canta no coral da igreja. Ela perdeu o marido na guerra do Vietnã, ele perdeu a esposa para si mesmo em sua guerra particular. A combinação da serenidade religiosa de Rosa Lee com a apresentação musical dela parece tocar Mac Sledge, que vai pedir Rosa Lee em casamento.

Em segundo lugar, Mac percebe que, para mudar completamente de vida e permanecer ao lado da viúva Rosa Lee, ele terá de entender e participar da vida religiosa daquela família.

Quando os personagens oram, eles agradecem pela vida que têm e pedem orientação espiritual para solucionar os problemas da vida. E eis aqui um diferencial desse filme em sua relação com a fé cristã: os personagens não são ridicularizados e nem tudo se resolve do jeito que eles esperam.

Até mesmo uma surpreendente cena de batismo é mostrada com respeito. Na volta pra casa após ser batizado, Sonny, o filho de Rosa Lee, diz que não está sentindo nenhuma mudança interior. Ele pergunta se vai experimentar esse sentimento. Mac sorri e diz: “Provavelmente, sim”.

Aliás, Sonny não é retratado com uma daquelas crianças de cinema que fala como adulto. Suas falas tem a astúcia e a surpresa das perguntas infantis.


Em terceiro lugar, o cristianismo comparece no título original Tender Mercies, uma expressão traduzida no Salmo 145:9 como "ternas misericórdias": O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras.

O filme evita o tom de pregação de regeneração pessoal do mesmo modo que evita cair no sentimentalismo romântico. Rosa Lee não se intromete no passado que teima em reaparecer na vida do marido. Ela se interessa genuinamente por ele, mas não o força a nada. Sua noção de que “o amor é paciente” se expressa em tons suaves de paixão e compaixão. São essas atitudes de terna misericórdia que fazem Mac agradecer por ter conhecido Rosa Lee. É o que vai lhe inspirar a procurar pela filha. É o que o motiva a dar tempo e atenção ao enteado Sonny.

Rosa Lee surge na vida de Mac como um tipo de anjo acolhedor, mas também não deixa de ser uma representação humana de Deus, dando abrigo ao perturbado cantor com suas atitudes firmes, gentis e serenas. É a encenação de um amor que não se encontra nos estereótipos humanos de amor. Como diz uma canção de Jader Santos: "O amor pode ser bonito, sincero e genuíno /  mas o amor tem que ser divino pra ser amor".


08 janeiro, 2015

o que a Europa vai fazer com essa tal liberdade?

Os chargistas da Charlie Hebdo publicaram caricaturas da religião islâmica. Sim, assim como publicaram sátiras do cristianismo, de políticos, economistas e celebridades. Sim, a violência da retaliação, além de injustificável, foi absurdamente desproporcional à publicação das charges. 

Tragicamente, na conta do fervor secularista e da intolerância religiosa, o saldo abominável acaba sendo de escárnio antirreligioso e retaliações brutais.

De fato, a liberdade de expressão é um direito fundamental e uma conquista do nosso tempo. Além disso, não há país livre sem uma imprensa livre e sem liberdade de opinar. 

Mas às vezes eu acho que vivemos no reino encantado da liberdade individual (ou ao menos na ilusão dessa liberdade), e ninguém parece interessado em responder à pergunta do filósofo Alexandre Pires: “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”

Parece que os deuses tradicionais foram substituídos pelo reino dos homens e estes entronizaram em seu lugar a liberdade de expressão. Mas calma lá com as propostas de regulação da mídia, faz favor. 

Diante do horror desse atentado, para se entender o injustificável, é preciso enxergar que estão em jogo questões culturais e civilizatórias que ainda dividem Europa e Oriente Médio.

Quando essas distintas sociedades colidem, o resultado é dolorosamente simples: assim como os secularistas mais radicais se valem do direito à liberdade de expressão constituído em seus países para satirizar a religião muçulmana, os muçulmanos mais intransigentes se valem do direito à retaliação constituído em seus países para vingar cruelmente a ofensa à sua religião.

Uma coisa é zombar de cristãos já plenamente experimentados na sociedade da liberdade de expressão (e que inclui sua liberdade de culto). Exemplo: quando o cristianismo é satirizado em charges e filmes, uma pequena turba de ofendidos costuma fazer barulho em entrada de cinemas e jornais, inclusive dando mais publicidade ao "ofensor". Mas, em geral, é só o que fazem.

Outra coisa, porém, é satirizar a fé de religiosos que ainda não vivenciaram o exercício da liberdade de expressão e de imprensa, como nas teocracias árabes.


Felizmente, sentado aqui desse lado “mais livre” do Atlântico, por enquanto posso supor que se um jornal islâmico zombar do Parlamento, do Papa ou da rainha da Suécia, é improvável que um grupo de europeus promova um atentado contra os chargistas muçulmanos – no máximo, espera-se que retruquem com lápis e papel.



As duas ilustrações são homenagens de cartunistas após o atentado.