31 outubro, 2016

Lutero e a Reforma da música - parte 1


Andreas Karlstadt acaba de publicar em Wittenberg um panfleto com 53 tópicos condenando a liturgia católica, rejeitando seu formato, seu idioma e sua música inacessível ao canto congregacional. Isso foi manchete em março de 1522.
Naquele ano, Martinho Lutero, após seu exílio no castelo de Wartburg, voltava para Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 ele publicara suas 95 Teses. Isso continua sendo manchete há 499 anos.
Esperava-se que o Dr. Lutero, o reformador protestante, apoiasse Karlstadt. Mas ao chegar na cidade, Lutero profere uma série de oito sermões com o intuito de corrigir a reforma litúrgica radical de Karlstadt. A reforma luterana deveria ser mais cautelosa e mais conservadora devido 1) à necessidade de reformar o ensino bíblico antes de modificar o ritual e 2) ao apreço de Lutero pelo canto tradicional polifônico.
As proposições reformadoras de Lutero cuidaram de preservar o aparato cerimonial da missa católica, cuja música, linguagem e ornamentações possuíam alto valor simbólico na mente religiosa popular. Assim, a menos que os textos entrassem em contradição com os dogmas luteranos, os cantos tradicionais e os motetos polifônicos católicos eram mantidos no rito luterano.
Lutero explicava que, assim como não se pretendia “abolir o ofício de pregar, mas objetivamos restaurá-lo novamente ao seu lugar justo e apropriado, também não é nossa intenção eliminar o serviço [litúrgico], mas restaurá-lo novamente para o seu uso correto" [“Concerning the Orders of Public Worship”, Luther’s Works 53, p.11]
Seguiu-se, então, uma variedade de práticas. Em algumas cidades, cantava-se partes da missa (como Introito, Kyrie, Agnus Dei, Gloria, Credo) em latim ou em alemão, usava-se canto polifônico ou melodias mais simples, canto melismático (várias notas em uma sílaba) ou canto silábico (uma nota para cada sílaba). Essa variação linguística e musical estava de acordo com o pensamento de Lutero sobre a diversidade de usos da música na igreja:
"Que cada igreja tenha a música segundo seu próprio livro e costume. Pois, eu mesmo não gosto de ouvir as notas, em um responsorial ou noutro cântico, modificadas daquilo a que fui acostumado na juventude. Nós estamos interessados em mudar o texto, não a música" [“Preface to Burial Hymns”, in Luther’s Works 53, p. 328].

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Esta é uma brevíssima amostra do pensamento de Lutero sobre música. Por enquanto, ficam algumas considerações extraídas das ideias ilustradas no texto:
- As ações de renovação não precisam descartar a tradição musical da congregação, os cânticos a que muita gente foi acostumada na juventude
- A unidade do discurso teológico não está em contradição com a diversidade da retórica musical

[a pintura acima: Martinho Lutero em família, de G. A. Spangenberg (1886)]

14 outubro, 2016

marchando para a guerra ao som de hinos

Quando fez sessenta anos de idade, o velho rei ainda se lembrava da manhã em que viu um grupo de cantores marchando à frente de pelotões de soldados que permaneciam surpreendentemente na retaguarda.
Ele lembrou do silêncio interrompido pela voz alta dos cantores e sorriu sozinho ao lembrar que, enquanto eles entoavam cânticos de louvor, os três exércitos inimigos do outro lado da montanha começaram a lutar uns contra os outros numa estranha e encarniçada batalha que os destruiu por completo.

O velho rei prendeu o sorriso por um instante, olhou para os lados para assegurar-se de que ninguém o visse rindo feito um idoso senil, e então cantou os primeiros versos da música que ouvira naquela guerra em que nenhum dos seus soldados precisou entrar em combate: “Rendei graças ao Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”.

O dia em que a música foi uma arma de combate foi relatado em 2 Crônicas 20, capítulo da Bíblia que registra uma ordem divina para que o rei Josafá posicionasse seu exército atrás dos levitas cantores na batalha do deserto de Tecoa contra os exércitos moabitas, amonitas e meunitas.

Em se tratando de utilização de artefato musical na guerra, o povo de Israel era reincidente. A primeira vez havia sido séculos atrás, quando os levitas marcharam por sete dias consecutivos ao redor das muralhas de Jericó. Naquela ocasião, os levitas foram na retaguarda e iam tocando buzina de carneiro. É claro que os muros daquela cidade não eram tão mal feitos a ponto de caírem ao som de shofar e vozes. Na verdade, nem contrabaixos, guitarras e microfones explodindo um hard rock no volume máximo teriam essa capacidade.

Essa não foi a primeira nem a última vez na história em que se cantou hinos antes de uma batalha, visto que os generais entendiam que a invocação musical eleva o moral dos combatentes. Antes de começar a perseguição campal aos fugitivos escoceses em 3 de setembro de 1650, Oliver Cromwell liderou o exército inglês no canto do Salmo 117: “Aleluia! Povos todos, louvai o Senhor, nações todas, dai-lhe glórias…”

Louvar a Deus após a vitória também foi um comportamento típico dos antigos batalhões europeus. Essa conduta religiosa e musical é retratada numa peça de William Shakespeare em que os britânicos entoam um cântico de gratidão a Deus: “Que ninguém se vanglorie ou tome o louvor que é de Deus somente”, diz o rei Henrique V. “Deus lutou por nós… que todos cantem Non Nobis e Te Deum”. Non nobis, não a nós, Senhor.

Na manhã do dia 5 de setembro de 1757, 33 mil soldados prussianos foram para o campo de batalha cantando hinos luteranos. Após o combate em que venceram um exército austríaco com o dobro do tamanho, eles entoaram o cântico Num danket alle Gott em agradecimento a Deus, conforme descrição de Thomas Carlyle:

“Escuridão total; silêncio, rompido por um granadeiro prussiano que, com voz solene de tenor, entoa uma música sacra: um hino conhecido, do tipo familiar do Te Deum, a que 25 mil outras vozes, e todas as bandas regimentais, logo aderiram:
Agradeçam todos vós a Deus
Com coração, mãos e vozes
Que coisas maravilhosas fez
Em quem o mundo exulta”
No livro Canhões de Agosto, a historiadora Barbara Tuchman relata que esse mesmo hino foi cantado entusiasticamente por uma multidão de alemães em 1o de agosto de 1914, quando a Alemanha entrou na guerra.

Em outras batalhas, o apoio divino era invocado pelos dois lados do conflito. Na Guerra Civil Americana, soldados do Norte (União) e do Sul (os confederados) cantavam as estrofes do hino “Lutai por Cristo” [Stand up, stand up for Jesus]:

Lutai, lutai por Cristo
Soldados sois da cruz
Alçai seu estandarte
Bem alto deixai brilhar sua luz
Hinos não ganham batalhas, mas a empolgação com que se cantava devia fazer os soldados acreditarem que Deus iria lutar com eles contra o exército inimigo. Talvez ocorresse a eles que o exército do outro lado também havia cantado com todo o entusiasmo ao mesmo Deus. No entanto, ao final do dia, só um dos batalhões estaria cantando hinos de gratidão.

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- A imagem no topo do texto é a gravura O Coral de Leuthen, de Arthur Kampf (1887). Frederico, o Grande, foi retratado cantando em pé com os soldados. Algo pouco provável, considerando-se o ateísmo do monarca.
- Assista trecho do filme Henrique V (1989), em que os ingleses cantam Non Nobis Domine após a batalha de Agincourt: