30 abril, 2010

sobre música sacra...

Os cuidados da vida estão me tomando o precioso tempo para escrever sobre um dos temas preferidos deste blog: a música sacra, ou mais precisamente, a música cristã. Por isso, indico alguns bons textos sobre o assunto espalhados por esse mundo virtual sem porteira:

Por que amamos o hinário? - Vanessa Meira oferece algumas ótimas respostas para quem gosta dos clássicos.

O "demônio" da bateria - A discussão parece tema dos anos 80/90, mas Douglas Reis melhora o debate, sem mitos e sensacionalismos, sobre o uso da bateria e da percussão nas igrejas .

Clique nos links e boa leitura.

29 abril, 2010

de pensar morreu um google


No decorrer de um (im)produtivo dia de trabalho, há pessoas que sempre têm cinco minutos para passar três horas no MSN. Mas há um outro grupo: aqueles que abrem quantas páginas da internet puderem e dedicam-se à leitura rápida e indolor de sites à granel, de blogs à roldão. A linguagem da internet é rápida e já agregou os maus modos de se escrever em outra gramática: não existe pecado ao sul do Equador nem erros de português na cyberdemocracia.

Mas não pense que vou declarar guerra às máquinas. Que nada; amo muito tudo isso. Não faço o tipo que preferiria viver no milênio passado, sem fax, sem elevador, sem chuveiro, sem liquidificador, sem vasos e descargas, sem freezer, sem lâmpadas, enfim, nas trevas de uma Sibéria total.

Contudo, a cada site visitado estamos mais semelhantes às criaturas que inventamos. Estamos cada vez mais optando por livros menores e telas maiores, frases ligeiras e resumos velozes, e assim vamos celebrando a era de muita informação, pouco conhecimento e nenhuma sabedoria. A geração fast-food também prefere fast-leitura.

Leia o "testemunho" abaixo, examine cada um a sua consciência e depois vejamos se não estamos perdendo os benefícios da reflexão e do pensamento profundo para a ditadura da velocidade e da leitura falsamente dinâmica.

"A avalanche de informações da internet impede leitura e pensamento em profundidade. Nos últimos anos tenho tido um sentimento desagradável de que alguém, ou algo, tem brincado com meu cérebro, remapeando meu circuito neural, reprogramando minha memória. Não estou perdendo a cabeça, mas ela está mudando. Mergulhar em um livro ou longo artigo costumava ser fácil. Agora minha concentração começa a se dissipar depois de duas ou três páginas.

Acho que sei o que está acontecendo. Tenho passado longas horas online. Como escritor, a internet é um presente dos deuses. [...] Mas essa bênção tem um preço. Os meios de comunicação não são apenas canais passivos de informação, disse Marshall McLuhan na década de 1960. Eles fornecem o material para o pensamento, mas também modelam o processo de pensamento. E ao que parece a internet está estilhaçando minha capacidade de concentração e contemplação.

Para Maryanne Wolf, psicóloga do desenvolvimento da Universidade Tufts, "não somos somente o que lemos. Somos como lemos." A leitura profunda não se distingue do pensar em profundidade. O estilo promovido pela internet, de eficácia e imediatismo acima de tudo, pode estar enfraquecendo nossa capacidade de leitura profunda.

No mundo Google há pouco espaço para contemplação. [...] Quanto mais rápido surfarmos – quanto mais links e páginas acessarmos –, mais oportunidades o Google e as outras empresas têm para coletar informação e nos alimentar com publicidade. A última coisa que elas querem é encorajar a leitura prazerosa ou o pensamento lento e concentrado. Está em seu interesse econômico nos levar à distração.

O surgimento de novas tecnologias sempre tende a levantar suspeitas. Platão criticou a palavra escrita. Havia quem acreditasse que a disponibilidade de livros, depois de Gutenberg, levasse à preguiça intelectual. Portanto, deve-se ser cético quanto a meu ceticismo em relação à internet. Talvez brote das mentes abarrotadas de dados uma era de ouro de descobertas e sabedoria universal. Mas sou assombrado pela negra profecia de Stanley Kubrick no filme 2001- Uma Odisséia no Espaço: quando passamos a depender dos computadores para mediar nossa compreensão do mundo, é nossa própria inteligência que se achata ao nível da inteligência artificial".

Aqui, o artigo original em inglês (ilustrado acima) de Nicholas Carr publicado na revista Atlantic (tradução: Revista da Semana).

Nota: Estou republicando esse texto de 2 anos atrás porque não há nada de novo debaixo do sol (e nem uma ideia para um novo post na minha mente).

27 abril, 2010

a última missão de Obama, Fidel e Lula

Os trágicos e altos números de mortos e desabrigados causados pelas fortes chuvas no Rio de Janeiro infelizmente logo vão se juntar a outros números sobre inundações na capital carioca e se tornarão uma estatística para ser citada no próximo desastre pluvial. Os governantes já começaram a empurrar a responsabilidade para os governantes do passado, Como ninguém começou a tratar dessa situação antes?, ou para o mundo do abstrato, Foi uma calamidade imprevisível.

O presidente Lula, entre uma multa e outra por fazer campanha ilícita para sua candidata nas eleições de outubro, esteve no Rio e recitou o bordão: “Quando o homem lá de cima fica nervoso o jeito é pedir pra Ele parar a chuva”.

Ahã! Deus estava nervoso, então? Isso equivale a dizer que Jeová teve um dia difícil no escritório com empregados indolentes, esqueceu de levar casaco de frio, não conseguiu comprar um casaco na Renner pois estava com parcelas em atraso no cartão, almoçou pela eternésima vez no mesmo restaurante self-service, enfrentou fila pra pagar o carnê do fogão Dako 4 bocas, entrou num ônibus lotado com gente ouvindo funk no celular sem fone de ouvido, chegou em casa e a internet caiu, e isso tudo levou o Todo-Paciente a virar uma divindade à beira de um ataque de nervos?

Já que entramos no mundo fantástico dos que acham que Deus seria um ser bipolar, noves fora os que acham que quem crê em Deus também vive no mundo da fantasia, só me resta tentar explicar a relação dos presidentes com Deus por meio de uma parábola. Avante:

A última missão dos presidentes

Como seria se Deus, que não faz coisa alguma sem o revelar primeiro aos Seus profetas, em vez de pedir a Noé que anunciasse que o mundo seria destruído por meio do dilúvio, convocasse uma reunião presidencial com Barack Obama, Fidel Castro e Lula e lhes pedisse que dessem essa notícia a suas nações? Eles se dirigiriam a suas nações mais ou menos assim:

Obama: Ladies and gentlemen, e simpatizantes de todas as cores e credos. Deus Himself, me chamou para uma reunião a portas fechadas e hoje trago duas notícias importantes. A primeira é que Deus de fato existe, God really lives, o que até o nosso darling dollar já sabia. "Trust in God", remember? Em segundo lugar, Ele me fez Seu mensageiro para anunciar que, por causa da impenitência dos palestinos e por causa dos republicanos que procrastinaram a votação da reforma de saúde, amanhã o mundo e nosso amado american way of life será destruído por um dilúvio.

Fidel: Camaradas revolucionários, uni-vos para este que será mi menor discurso. Yo fue llamado para uma reunión importantíssima e trago duas noticias para vosotros. La primera é que, ao contrário do que pensávamos, Dios existe mismo, yo vi com mis proprios ojos revolucionários. La segunda é que Dios me pedió para anunciar a vosotros que, por causa de la impenitencia de los países imperialistas y devido a falta de fé em la revolución de nuestros compatriotas que se fueran para Miami, amanhã el mundo será destruído por um dilúvio e non sobrará una alma, digo, un compañero.

Lula: Companheiros e companheiras, tive um conversa ontem à noite com Deus e eu lhe informei do PAC, aí falei de como a vida do povo ia ficar melhor, eu disse que nunca antes da história do nosso país a população tinha comprado tanto celular e geladeira branca, que a gente ia fazer Olimpíada e Copa do Mundo, que o Sarney, o Collor e o Chávez no fundo eram boa gente, aí Ele me disse: “Lula, meu bom brasileiro, você não desiste nunca, hein?”. Só que tem mais uma: Ele me pediu pra avisar pra vocês que amanhã vai cair uma chuvinha meio forte, mas é só o sinal de que nossos problemas vão acabar e no Brasil nunca mais vai ter desemprego, nunca mais vai ter fome, não vai mais ter roubalheira,...

Moral mínima da história: Deus chamou profetas com diferentes personalidades e profissões para revelar Seus desígnios ao mundo. Mas, em Sua infinita sabedoria, nos poupou de profetas-políticos.

23 abril, 2010

música cristã: os fins, os meios e a missão

Na dinâmica do mundo moderno há uma pergunta sempre recorrente: como tornar o evangelho de Cristo pertinente para a “sociedade do espetáculo”, para uma juventude bombardeada por um fluxo incessante de imagens e signos atraentes e, muitas vezes, com claros incentivos anticristãos?
Para atender às expectativas modernas, muitos líderes e músicos cristãos inserem-se na corrente do Pragmatismo. Isto é, usam novas estratégias, empregam novos meios para alcançar os velhos fins. Entenda-se “velhos fins” por tentativa honesta de divulgar a mensagem cristã, mas também, em outros casos, por velhas finalidades de enriquecimento através da boa-fé alheia. Apesar disso, segundo Wolgang Stefani,“ninguém pode duvidar da sinceridade daqueles que advogam essa abordagem [o pragmatismo], nem depreciar sua ‘utilidade’ e ‘resultados’ , e deve-se considerar seus resultados significativos (Música Sacra, Cultura e Adoração, p. 13).
Na opinião de Calvin Johannson, há falhas mais sérias na abordagem pragmática, como:
1) a desconsideração de normas e padrões resulta na transferência do controle da qualidade e da legitimidade para o gosto do público;
2) a utilização da música como ferramenta manipuladora em substituição a ação do Espírito Santo.
Considerações quanto à opinião de número 1:
a) Não se pode esquecer que Lutero (no século XVI), Lowell Mason e Ira Sankey (ambos no século XIX) promoveram mudanças significativas na música sacra concedendo espaço justamente ao “gosto” da congregação. Lutero, por exemplo, aproximou a música sacra do canto do homem comum de sua época, o qual não sabia latim e nem saberia fazer os tantos melismas do canto da missa católica.

b) É fácil perceber um discurso marcado pelo preconceito social ao se definir o “gosto do público” como o responsável pela perda de qualidade musical. Johannson afirma que tal “gosto” não pode ser legitimado. Mas quem é o responsável por legitimar a estética e o gosto musical? Os privilegiados pelo acesso à educação musical? As classes modeladas pelo cultivo do saber europeu?

Quanto à opinião de número 2, ressalto a quantidade de palestras e sermões que empregam a música como ferramenta para influenciar escolhas e decisões (qual pianista de igreja não ouviu o pedido para tocar uma suave música de fundo na hora final de um culto?). A afirmativa de Johannson traduz a famosa (e discutível) dicotomia entre razão e emoção, sugerindo uma livre escolha racional vinda exclusivamente pela palavra, em contraste com uma submissão emocional causada pela música.
Esse discurso está presente em muitas palestras bem-intencionadas que acabam sendo descuidadas na sua abordagem dos efeitos psicofisiológicos da música, que tratam o ser humano (em especial, a juventude) como objeto de fácil hipnose musical e moral e apontam mais proibições do que orientam positivamente, além de deixarem todas as respostas para a ciência.
Por outro lado, há diversos grupos musicais conhecidos pelos seus momentos de extremada e planejada comunhão. Em alguns momentos, nota-se claramente o estímulo ao êxtase místico ou fuga dos níveis imediatos da consciência, o que é realizado por meio:
- do estímulo à forte concentração (o fechar de olhos durante a canção),
- da alteração da fala (indo da voz embargada ao falar em línguas desconhecidas),
- da performance física (a expressão facial de contrição e o gestual dramático do corpo),
- da repetição prolongada do refrão das canções e das orações de intercessão com um fundo instrumental).
O Esteticismo é um ponto de vista que considera que os valores estéticos garantem a qualidade e a arte necessária para uma aceitável adoração a Deus (Música Sacra..., p. 11). Para Wolfgang Stefani, porém, a medida do que é esteticamente superior tende a ser determinada subjetivamente. Ademais, é difícil precisar o que é de alta qualidade artística. Essa dificuldade se deve a maior valorização das identidades culturais locais e ao caráter de mudança dos padrões aceitáveis na música cristã.
O Esteticismo pode ser nefasto quando um produtor musical insere um certo arranjo ou um cantor utiliza determinado recurso vocal como artifício exibicionista. Nelson Freire, um dos maiores pianistas da atualidade, disse que “o mais importante é a música e não o que eu faço com ela”. Assim, o cuidado exagerado com a estética da música pode se tornar prejudicial quando a mensagem desaparece diante do marketing vocal e instrumental em torno da música. De outro lado, há aqueles que acreditam que o único estilo aceitável é a música erudita europeia até o século XIX. Essa seria, para eles, a música do céu, ou no mínimo a mais aproximada.
Volto à pergunta inicial: Como dar sentido ao evangelho de Cristo no mundo moderno sem recorrer aos recursos de atração secularizantes?
Alguns cantores se acomodam no Pragmatismo hipervalorizado, em que os fins permitem o vale-tudo musical e litúrgico. Outros se apoiam no Esteticismo deturpado, em que o fim é o próprio meio, ou seja, a música e o músico. Infelizmente, às vezes o primordial é esquecido: o sentido de missão.
É preciso estar atento às táticas apelativas do emocionalismo. É preciso estar vigilante quanto às estratégias modernosas de assimilação da música pop e, assim, evitar exageros quanto à adoção natural de estilos contemporâneos. Mas, sobretudo, é tãonecessário para alguns despojar-se das muletas da autopublicidade artístico-musical quanto é urgente para todos desvencilhar-se da carapaça do criticismo autoritário e vestir o manto da orientação bíblica construtiva.

22 abril, 2010

a graça do descobrimento

22 de abril não é para ser feriado mesmo. Afinal, são tantas as versões do achamento da terra em que se plantando tudo dá, e tanta gente querendo assumir o lugar do Seu Cabral como navegador-descobridor, que não vale a pena deixar o mercado vazio e parar o tráfego nas ruas. Além do mais, um feriado desse tipo nos lembraria que fomos colonizados pelas vítimas preferenciais de nossas ridículas piadas. Pior: que andávamos sem lenço e sem documento até que bravos marujos nos acharam em nosso idílio selvagem e nos deram espelhos e vimos um mundo doente. O resto é canção...

Tira do Laerte.

19 abril, 2010

Brasília, olha pra cima

Brasília faz aniversário. A capital planejada para ser o centro decisório das ações políticas nacionais, a cidade traçada para representar o arrojo arquitetônico faz 50 anos. No plano urbanístico foi construída sob o ousado lema “50 anos em 5”, o mote de Juscelino Kubitschek para erguer uma nova nação. Já no plano político, há cinquenta anos não sai dos cinco, avança pouco, parece que ainda dá os primeiros passos no republicanismo.

Não preciso lembrar as personalidades de mente colonial que usam Brasília como uma capitania hereditária. Às vezes, bate um niilismo no coração do eleitor que julga que todos os políticos são iguais (e nem mudam de endereço). Os muitos discursos revelam que de boas intenções Brasília também está cheia.

O projeto urbano de Brasília foi uma aventura épica. Em contrapartida, não se pensou nos habitantes. Muito concreto para pouco espírito? Reclama-se que é uma cidade antipedestre: locomoção coletiva deficiente; e pró-carro particular: a cidade “sem esquinas”. Talhada para tombamento do patrimônio histórico ficou também famosa pelo saqueamento do patrimônio público.

A canção de Noel Rosa perguntava: Onde está a honestidade? Onde estão os homens e mulheres que verdadeiramente querem legislar com probidade? Esqueçam a lanterna de Diógenes, procurem com faróis de milha e acharão uma minoria.

É preciso recolocar na posição correta a capital de cabeça para baixo. Há quem acredite que são as estruturas sociais e políticas que facilitam o desmando e a corrupção do homem. Eu, porém, vos digo: com homens e mulheres sem força moral e boa vontade política, nenhuma estrutura sociopolítica pode dar certo. Fica a utopia: Mude o coração dos homens e as estruturas mudarão também. Então, Brasília, olha pra cima, sem deixar de olhar para os lados:

Como será o futuro do nosso país?
Surge a pergunta no olhar e na alma do povo
Cada vez mais cresce a fome nas ruas, nos morros
Cada vez menos dinheiro pra sobreviver

Onde andará a justiça outrora perdida?
Some a resposta na voz e na vez de quem manda
Homens com tanto poder e nenhum coração
Gente que compra e que vende a moral da nação

Brasil, olha pra cima
Existe uma chance de ser novamente feliz
Brasil, há uma esperança
Volta os teus olhos pra Deus, o justo juiz.

Música de João Alexandre. Escolha aqui a versão em vídeo da música cantada a capella pelos Arautos do Rei - arranjo de Jader Santos.


16 abril, 2010

a fábula da música com mensagem subliminar

Há três tipos de pessoas quando o assunto é mensagem subliminar.

1) O que não acredita nisso de jeito nenhum; 2) O que não acredita nem em subliminar nem em bruxas, mas que las hay, las hay, e 3) O que acredita que Paul McCartney morreu nos anos 60 e quem anda por aí é um sósia perfeito (e também baixista e canhoto).

Esse último espécime humano tem sido capaz de desmoralizar qualquer pesquisa séria em torno das tais mensagens subliminares. Ele distorce fatos, usa o YouTube como nota de rodapé de palestra, encontra agulha no palheiro e coa mosquito enquanto deixa passar camelos.

As mensagens subliminares estariam em quase todo canto, dizem. Mas hoje só vou falar dos casos que envolvem música. Então, adiante, que o assunto é longo, mas um blog não tem o direito de sê-lo.

Depois da lenda urbana que se comprovou ser a mensagem subliminar das músicas tocadas ao contrário, logo surgiu outro tipo de mensagem subliminar: a inversão da letra escrita da música.

Dois exemplos da surpreendente criatividade humana:

1- A canção “Seguindo num trem azul”, do grupo Roupa Nova, embalou coraçõezinhos apaixonados nos anos 80. Pois os exagerados da mensagem subliminar conseguiram piorar a letra da canção. No refrão que começa com “Só me dará prazer”, alguém inacreditavelmente desvendou que essa frase, se for invertida, diz “Rezar para demos” [demônios], mesmo que os autores da música tivessem pretendido dizer que o que lhes dava prazer, segundo o restante do refrão, era viajar com a pessoa amada, talvez num excêntrico trem azul.

2- O sucesso da apresentadora Xuxa já foi creditado a um pacto com o demônio (vai ver ela cantava ocultamente que “rezava para demos”). Para alguns, aquelas músicas grudentas da época do Xou da Xuxa eram sopradas por entidades sobrenaturais caídas e mal-intencionadas no ouvido dos compositores compactuados. A prova? Na canção em que Xuxa dizia “marquei um x, um x, um x no seu coração”, os fanáticos da mensagem subliminar descobriam que a letra “x” pronuncia-se “xis” em português e que a escrita invertida de “xis” em português é equivalente ao “six” em inglês, sendo que “six” é o número 6. Como o x (ou 6) é repetido três vezes na música (xis, xis, xis), lhes pareceu perfeitamente lógico que o hieróglifo xuxesco na verdade ocultava o diabólico six, six, six, ou 666, o número da besta apocalíptica. E quem ficou de besta nessa história toda foi o público que achava ingenuamente que o singelo “x” era de Xuxa.

Achou complicado? Pois é. A ignorância pode se disfarçar de difícil. Sigamos:

A descoberta abalou o meio infantil e foi um quebra-quebra generalizado de discos no meio evangélico mais apressado e temente a palestrantes sensacionalistas. Todavia, para aqueles que não contavam com a astúcia deste blogueiro aqui, fui investigar a canção da besta, digo, da Xuxa, e descobri que a canção de fato apresenta um teor religioso, mas nada apocalíptico. Como um perito em hieróglifos musicais tão competente quanto os roteiristas da série C.S.I., apresento-lhes o outro lado da realidade:

Quando a música diz “marquei um xis, um xis, um xis no teu coração”, a interpretação está correta – o xis é o six/6 -, mas a metodologia (uia!) está equivocada. Veja que no trecho está grafado “um xis/six”. Ou seja, 1 e 6. Como a repetição ocorre três vezes, então o resultado seria 161616. Utilizando a regra matemática notanapautiana de equações musicais, somamos 1+6 três vezes (1+6=7, 1+6=7, 1+6=7), obtendo o resultado inegável de 777. Sendo que se considera que 7 é o número de Deus, então, pasmem, Xuxa estaria engrandecendo o Senhor pelas vias tortas da música ruim!

Não é fácil fazer malabarismos com os fatos e torcê-los para que caibam direitinho nos nossos argumentos?

Moral máxima: cuide para que ninguém lhe engane com quaisquer numerologia e equações que são contorcionismos de interpretação e não significam nada ; cuide para que ninguém lhe convença de que toda interpretação de números é falsa e que os números não podem, por meio de uma interpretação coerente, representar algo profético ou transcendente.

Moral mínima: os exagerados da mensagem subliminar ou compensam a falta de pesquisa com a criatividade ou faturam sua necessidade de autopromoção em cima da boa-fé alheia.


13 abril, 2010

a vila e a religião


O filme A Vila (2004) conta a história de uma comunidade rural do século XIX cercada por uma floresta onde, segundo os moradores mais velhos, vivem criaturas sobrenaturais cujo território ninguém deve invadir sob pena de acarretar a morte para si e para os habitantes da vila.

A atmosfera de medo gerada pela suposta existência desses seres fantásticos e ameaçadores é utilizada pelos líderes da comunidade para incutir nos moradores a ideia de que sair da vila é extremamente perigoso para toda a comunidade. Mas do que mesmo está falando esse filme?

Para alguns, a história, seria uma analogia do “estado de emergência” criado pelo governo de George W. Bush após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Os Estados Unidos dificultaram a entrada de “suspeitos” estrangeiros e estabeleceram um invasivo sistema de vigilância interna a fim de evitar novos ataques.

A paranoia é cria do medo coletivo de que Aqueles que Não São Como Nós nos odeiam e querem nos destruir. O histórico norte-americano de “conspirações” só encontra paralelo no histórico comunista da fomentação de teorias conspiratórias.

No entanto, em vez de falar do estado policialesco que surge nos tempos de ameaça externa, sugiro duas outras leituras do filme A Vila. Uma, é a questão da existência de um sistema em que o elemento sobrenatural é usado como forma de coação e controle social.

Igrejas correm o risco de adotar esse sistema. Ali, um grupo pode infundir a noção de que o crente deve recolher-se ao seu mundo religioso fechado, sendo que o inimigo sobrenatural é superenfatizado. Segundo esse sistema exclusivista, não há arte, não há honestidade, não há fé, não há nada de bom e apreciável fora dos limites da igreja. Sua liderança sustenta que há uma ameaça externa em toda inovação, em toda tentativa de conhecimento fora dos muros daquela igreja. O novo é rejeitado antes de ser remodelado pela simples suposição de que a novidade traz em si os germes da destruição da comunidade.

Uma segunda forma de entender o filme está no pensamento de que, fora dos limites da religião, é tudo muito melhor. Muitos argumentam que a igreja proíbe, aterroriza, reprime as pessoas, cegando-as com histórias de que há uma ameaça externa improvável. Tudo é reduzido a uma questão de poder, de indivíduos tremendamente manipuladores de uma gente tremendamente passiva.

O problema de uma certa ala religiosa é achar que não há perigo e começar a viver despreocupadamente como se não houvesse amanhã. O novo é aceito sem reflexão, o conselho dos mais velhos é descartado com rapidez. Para alguns teólogos mais “ilustrados”, não haveria inimigo sobrenatural nem tampouco uma promessa de vida eterna.

Como edificar a vida da comunidade religiosa sem tornar o Mal um bicho mitológico da floresta? Como levar o evangelho da salvação sem fazer da própria comunidade religiosa uma vila exclusivista de gente autossuficiente?

Ensine a comunidade a entender o que lê. O "Examinai as Escrituras" não é apenas para descobrir a inesgotável riqueza da Bíblia, mas para usar o intelecto a fim de compreender o texto e o contexto: isso é estudo. Auxilie a igreja em suas reuniões. O "Não façais como alguns que deixaram de congregar-se" também nos alerta a apoiar o grupo de irmãos que se reúnem com o mesmo fim: isso é trabalho. Mantenha-se em contato com a Razão de existir da igreja. O "Buscai em primeiro lugar o reino de Deus" convida o ser humano a estar em constante ligação com Deus: isso é comunhão.

Sua vila congregacional não pode ser a igreja do medo, mas o lugar da esperança. Ela precisa de você. Então, busque fazer tudo com amor, pois "o amor lança fora o medo".

09 abril, 2010

explosão gospel

A fenomenal expansão do segmento pentecostal brasileiro se tornou um objeto de pesquisa acadêmica, sendo a indústria musical o ponto mais focalizado. Além das óbvias áreas da musicologia e da teologia, comparecem agora as ciências da comunicação, a psicologia e a economia. Durante o mestrado, encontrei bastante literatura sobre o tema, a maioria em forma de grossas dissertações encadernadas nas bibliotecas universitárias.

Um dos trabalhos mais acurados está o da professora Magali do Nascimento Cunha, doutora em Ciências de Comunicação e mestre em Memória Social e Documento, docente da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. Seu livro Explosão Gospel (Editora Mauad), analisa as novas atitudes socioculturais dos evangélicos, situando-os dentro da lógica de mercado e da compreensão bíblica neopentecostal.

A seguir, trechos da entrevista concedida por Magali Cunha à revista Cristianismo Hoje:

CRISTIANISMO HOJE – Como a senhora define a cultura gospel?

MAGALI DO NASCIMENTO CUNHA – Vivemos o surgimento de uma cultura religiosa nova, um jeito de ser diferente daquele construído pelos evangélicos brasileiros ao longo de sua história. Novos elementos foram adicionados como resposta ao tempo presente, que é fortemente marcado pelas culturas da mídia e do mercado, e pelo crescimento de novos movimentos evangélicos, principalmente o pentecostalismo. O movimento musical chamado gospel resultou deste processo sócio-religioso e abriu caminho para outras expressões. Isso quer dizer que testemunhamos uma ampliação, sem precedentes, do mercado religioso e de formas religiosas mercadológicas. Há também uma relativização da negação do mundo, tão cara aos evangélicos brasileiros – o corpo é valorizado, assim como a diversão. Com isso, temos uma nova cultura experimentada, um novo modo de ser evangélico: privilégio à expressão musical, envolvimento no mercado e espaço para o lazer e o entretenimento.

O termo “gospel” não é abrangente demais para abrigar tantos elementos e manifestações?

Na verdade, podemos dizer que as diferenças que existem entre os grupos evangélicos estão bastante “sufocadas” por essa forma cultural. Uso o termo “gospel” para definir esse modo de vida porque ele emerge do fenômeno que ganhou corpo nos anos 90 – o movimento musical que detonou um processo e configurou algo muito maior. Surgiu uma forma cultural, um modo de vida gospel. Ele não é uma expressão organizada, delimitada; mas resulta do cruzamento de discursos, atitudes e comportamentos entre si e com a realidade sociopolítica e histórica.

Mas existem traços comuns entre todas essas manifestações?

Há, principalmente, três elementos. Em primeiro lugar, a busca de modernidade e inserção dos evangélicos na lógica social da tecnologia, da mídia, do mercado e da política. Numa segunda perspectiva, tivemos as transformações na forma de cultuar e na ética de costumes de um significativo número de igrejas. Veja que atualmente não é mais possível identificar o que é um culto batista, ou um culto metodista, ou um culto presbiteriano. Identificamos, em nossas pesquisas, uma só forma de cultuar com as mesmas características. E, em terceiro lugar, um discurso comum que privilegia temas como “vitória” e “poder”, com ênfase no aqui e agora, bem diferente da tradição evangélica, cuja pregação privilegiava temas como o céu e a segunda vinda de Cristo como compensação pelos sofrimentos do presente. Essa produção de cultura alcançou uma amplitude que perpassa, senão todas, a grande maioria das igrejas e denominações evangélicas brasileiras.

O louvor tem importância cada vez maior nos cultos. Por que as igrejas têm dado tanto valor à música?

Quem é Deus e quem é Jesus na maioria das canções? A maior parte das composições traz imagens da teofania monárquica do Antigo Testamento. Assim, Deus e Jesus são intensamente relacionados a imagens de reinado, majestade, glória, domínio e poder. Nesta linha, ganha novo sentido a figura dos levitas, que passam a ser destacados e traduzidos na contemporaneidade como “os ministros de louvor”, terminologia assumida nas igrejas. Disso resulta também o estabelecimento de uma hierarquia de ministérios. Há maior destaque aos levitas, e isso pode ser observado no lugar que ocupam no culto. Quem toca e canta é considerado ministro; já quem realiza outras atividades de serviço raramente é apresentado e destacado dessa maneira.

Essa nova cultura gospel tem espaço para a ética cristã?

Vivemos hoje uma forte crise de ética cristã quando privilegiamos um modo de ser baseado no “eu” e na experiência. Isso é totalmente incompatível com o Evangelho. E a coisa se agrava quando aprendemos que ser cristão é consumir bens e serviços religiosos e divertir-se não como mera assimilação da cultura do mercado, mas como expressão religiosa. Quer dizer, a cultura gospel permitiu aos evangélicos brasileiros a inserção de elementos profanos na forma de viver sua fé e de relacionar-se com o sagrado.

Em seu livro Explosão gospel, a senhora diz que o fenômeno mercadológico mudou o jeito de ser evangélico no país. Afinal, o que mudou?

Mercado religioso não é novidade. A oferta de produtos relacionados à religião e à fé sempre existiu. O que ocorre hoje é que o mundo vive um momento em que o mercado é o centro da vida socioeconômica, determina políticas e relações. E esse momento tem reflexos no cristianismo quando, por exemplo, experimentamos um crescimento sem precedentes do mercado religioso e os cristãos se tornam segmento de mercado.

Qual o efeito disso sobre a teologia evangélica?

Observamos hoje o surgimento de teologias que resultam deste predomínio da lógica do mercado na cultura dos povos. A teologia da prosperidade, que apregoa o sucesso material, especialmente o financeiro, como resultado da bênção de Deus, é fruto disso. A confissão positiva, do “eu que tudo pode” – então, a bênção passa a ser resultado do esforço pessoal –, e a noção da guerra espiritual, que combate as forças espirituais malignas que prejudicam o homem, também. Mas não é só isso. Existe a idéia de que, ao comprar um produto de orientação cristã, o crente não está só adquirindo um bem, mas chegando mais perto de Deus. Ou seja, o caráter sagrado atribuído aos produtos cristãos os tornam uma espécie de mediadores entre Deus e o consumidor. Por isso, as pessoas compram adesivos para que seu carro seja protegido do mal ou adquirem camisetas que vão guardá-las de infortúnios. Isso sem falar em gente que compra um CD daquele cantor “abençoado”, acreditando que ouvir as músicas pode até proporcionar uma cura.

O individualismo é uma marca do cristianismo contemporâneo?

Ocorre hoje uma exacerbação desse individualismo porque a cultura do mercado que predomina entre os povos bebe dessa fonte, o que se reflete na religiosidade evangélica. Por isso, as canções nunca trouxerem tanto o predomínio do “eu”, do gozo espiritual intimista; ao mesmo tempo, muito pouco ou quase nada se fala do valor do outro, do serviço, da partilha e da mutualidade.

* * *

Nota: Selecionei somente a primeira parte da entrevista, em que a pesquisadora fala do cenário gospel. Não vejo o ecumenismo da mesma forma que ela aborda esse assunto no final da matéria. A íntegra você lê aqui.

06 abril, 2010

bom de bola, bom de fé e bom de farra

Na semana da Páscoa, a equipe de marketing do Santos Futebol Clube armou o evento perfeito. Seus meninos bons de bola iriam distribuir ovos de chocolate para portadores de paralisia cerebral e outras deficiências em uma instituição espírita, o Lar Mensageiros da Luz.

Tudo muito bonito e lustroso para a imagem. Só faltou combinar com a profissão de fé dos jogadores. O evangélico Roberto Brum, por exemplo, soube da visita agendada e pediu licença para não ir. Outros jogadores, como Paulo Henrique Ganso, Léo, Marquinhos, André, Fábio Costa e os idolatrados Neymar e Robinho, entraram no ônibus que foi até à instituição, mas ao chegar no local, não desceram do ônibus.

Muitos constrangimentos e arrependimentos depois, foram contar aos jornais que alguns jogadores não desceram temendo azar e outros declararam súbita iluminação espiritual que os orientou a não sair do veículo.

Segundo a Folha de S. Paulo, Robinho disse que a atitude “foi movida pela religiosidade de cada um”. Neymar, que é evangélico, falou que ficou sabendo dos rituais religiosos no local só quando chegou lá e que “tinha receio de não se sentir bem”.

Na disputa entre futebol e fé sempre quem perde é a segunda. Senão, vejamos as perguntas que muita gente gostaria de fazer aos jogadores de todas as crenças:

- Por que alguém aceita o evangelho cristão, mas fica só com a parte de amar os semelhantes que são semelhantes a ele mesmo?

- Como é alguém diz que não pisa em instituição espírita por motivo religioso mas frequenta boates e bares para espíritos inclassificáveis?

- Distribuir ovos de Páscoa é pagão e distribuir autógrafos é cristão?

- E como é que alguém que encara o pagode e o rebolation tem medo de “espíritos”?

De fato, as convicções religiosas de cada indivíduo devem ser respeitadas. O problema é que figuras públicas acabam sendo mais cobradas por suas atitudes e deles é exigida uma coerência de comportamento que não é praticada nem pelos seus críticos anônimos (incluindo este web-escriba).

A suma do que vistes, enfim, é: Tem jogador de futebol que é bom de fé e ruim de farra. Tem jogador com um pé na fé e outro na balada. E tem jogador bom de farra cuja fé está firmada na deusa-bola.

Li essa notícia aqui.

01 abril, 2010

a Paixão de Cristo em 4 músicas

O gospel nacional tem abdicado de um dos temas mais decisivos do cristianismo: a cruz. Os compositores reduziram o evangelho a quatro itens: louvor, louvor, louvor e unção. O tema do Calvário foi deixado para os cineastas.

Relembro aqui quatro músicas que, além de ressaltarem o momento de maior dor e coragem do Deus feito Homem de dores, nos mostram o valor da compreensão da cruz para a aceitação da fé cristã.

Como devo ter omitido alguma música de sua preferência, fique à vontade para registrá-la nos comentários.

Monte do Calvário (On a rugged hill, de Keith Whitford)

A versão em português dessa música traduziu a aflição e a esperança que são o paradoxo da cruz. Retrata a solidão do Cristo agonizante (“Só, em agonia pereceu”), e mostra o choque dos contrastes que sintetiza o Calvário:

Puro, carregou meu fardo Para libertar-me do pecar Esse foi o dia mais feliz Pois morreu pra me salvar

Via Dolorosa (Billy Sprague / Niles Borop)

Sandy Patty celebrizou esta canção que rememora a via crucis de Jesus, em que a caminhada pelas ruas da cidade até o Gólgota é motivo de humilhação pública. As cordas da orquestração intensificam a lembrança da tragédia que se converteria em redenção (Perdi a conta de quantas vezes fiz piano solo com essa música).

Cenas (Daniel Salles)

A Paixão de Cristo como um espetáculo de horrores assistido pelo universo inteiro ("Cada anjo vê Jesus levando a cruz / Assumindo os pecados que não eram Seus"). A música parte do capítulo 53 do livro de Isaías para descrever que as cenas de horror representavam o mais puro amor. Assim como na canção anterior, o peso de solo, coro e orquestra reforça tanto a amplitude da dor de Cristo quanto a magnitude simbólica do ato de Jesus.

Pensando na Cruz (Jader Santos)

Enquanto as últimas duas músicas externalizam o drama do Calvário de forma grandiloquente, a canção Pensando na cruz tem uma retórica mais intimista, esta interpretada como uma meditação em piano, violoncelo e voz (Regina Mota) e aquelas transbordando uma intensidade quase sinfônica. Esse aspecto possibilita um refinamento de letra e harmonia. É uma canção que pergunta pelo sentido da morte e ressurreição de Cristo em nossa vida hoje.

Estilos diferentes, diferentes interpretações, arranjos variados. Em comum, a tradução emocional e inspiradora do centro da mensagem do evangelho, a Cruz, onde, como diz outra bela música, foi revelado "o pior do homem e o melhor de Deus".

No topo, Cristo levando a cruz (c. 1500), óleo sobre tela, de Jheronimus Bosch.