31 julho, 2012

Música no ouvido dos outros

Alvíssaras. A utilização de aparelhos sonoros dentro de ônibus coletivos será proibida em Campinas. A lei entra em vigor daqui a 60 dias. A lei inclui entre os aparelhos sonoros proibidos: iPods, mp3 e mp4, discman e até o velho walkman. Os telefones celulares transformados em infratores aparelhos sonoros deverão ser coibidos.

Todo aparelho será permitido desde que seu usuário utilize os fones de ouvido. Os ônibus terão cartazes afixados em seu interior alertando as pessoas sobre as regras. Quem descumprir a lei, será advertido. Se persistir, o sem-noção indivíduo poderá ser retirado do veículo. As sanções estão previstas em um decreto de 3/10/1941, que regula "a perturbação do trabalho ou do sossego alheios" e as penas vão de multa a prisão de 15 dias a 3 anos.

O que era uma simples questão de educação agora é assunto policial. Mas logo outras cidades devem seguir o exemplo de Campinas.

Segundo o dicionário Nota na Pauta, escutar música no ônibus sem fone de ouvido é o ato de transformar o gosto individual em inferno coletivo e o coletivo num inferno.

23 julho, 2012

violência e celebridade: a culpa é do Batman?

Um mascarado entrou armado num cinema nos Estados Unidos e atirou matando 12 pessoas. O assassino James Holmes, 24 anos, ainda não explicou o que o levou a cometer essa atrocidade. Nem precisou. Já prenderam o “suspeito de sempre”: a mídia.

O massacre aconteceu em um cinema em Aurora, no Estado do Colorado, que exibia o filme Batman, o Cavaleiro das Trevas Ressurge. Uma reação imediata é dizer que filmes de ação e violência gratuita como esse induzem as pessoas a cometer atos de violência.

Mas podemos dizer que a trilogia Batman incita a violência? Se você também assistiu ao menos os dois primeiros filmes, nós vamos concordar em um ponto: Batman não é um filme pró-violência; na verdade, é um filme sobre a violência.

Batman é um herói traumatizado por ter presenciado o assassinato dos pais na infância. Talvez por isso, sua linha moral é bem clara: ele defende a retidão enquanto seus oponentes são ladrões e assassinos; os valores morais e sociais defendidos por Batman triunfam no final, ao passo que são derrotados os vilões que promovem a destruição e o terror.

O espectador atento percebe que os limites que separam a vingança e a justiça podem ser obscurecidos quando os códigos civis e policiais são quebrados. O herói notívago também se às vezes enredado na teia de retaliação violenta por causa de ódio e ressentimento. Mas Batman não é um assassino e nem defende a morte de inocentes. Não dá para comparar filmes de glamourização da violência como Velozes e Furiosos com a trilogia Batman.

Um filme ou um livro podem conter cenas de violência,  mas podem defender posições nitidamente contra a violência. O que acontece é que há pessoas que decidem fazer o que é condenado pelo filme ou pelo livro.

É preciso considerar ainda e, talvez, principalmente, dois fatores tipicamente americanos: a facilidade de compra de armas de fogo e a cultura da notoriedade macabra.

Nos Estados Unidos, o ato de adquirir armas de fogo é tratado como um assunto de defesa pessoal. O assassino tinha comprado pistolas legalmente em lojas no Estado do Colorado e adquirido seis mil balas pelas internet. É óbvio que ninguém precisa de tanto armamento para defesa pessoal na cidade de Aurora, Colorado. Enquanto no Brasil há um incentivo ao desarmamento, nos Estados Unidos até alguns grupos ditos cristãos são a favor da posse de armas de fogo.

A cultura da celebridade macabra é uma marca atroz da sociedade norte-americana. Há uma lista imensa de assassinos de astros da música e da TV, serial killers, autores de massacres em escolas e logradouros públicos cujos atos criminosos foram analisados seriamente como uma busca de reconhecimento social.

No estudo Seductions of Crime, Jack Katz descreve como os criminosos são motivados, entre outros fatores, pelo desejo de fama e pelo prazer e ousadia no ato do crime. Junto a essas razões está a busca pela celebridade. Mark Chapman, o assassino de John Lennon, chegou a dizer que "pensei que o matando adquiriria a sua fama - eu não era ninguém até matar o maior alguém do mundo". 

Outros criminosos notórios, como Timothy McVeigh e o "Unabomber", solicitaram entrevistas a grandes canais de TV após seus atos brutais. O sociólogo Chris Rojek afirmou que ambos "queriam o horário nobre para expor e desculpar seu comportamento 'heroico'" [Celebridade, p. 169].

Aqui entram jornais impressos, telejornais e, sim, filmes que amplificam os acontecimentos e veem sua audiência ser alavancada por uma sociedade que morbidamente gosta de assistir atos de violência.

Não há uma explicação única e totalizante para esse evento trágico. Como racionalizar um ato tão irracional? Mas claro está que o acesso às armas de fogo, a glamourização da violência e o desejo exibicionista de fama formam um caldeirão desumano e cruel que atrai e repele a sociedade ao mesmo tempo.

17 julho, 2012

a idade é só um número?


Todo quarentão que conheci dizia que, depois dos 40, é só ladeira. Eu não posso me conformar com isso. Tudo bem de  vez em quando fingir com as roupas a idade que está nas minhas células. Mas, “não vos conformeis com esse século de quarentões metidos a garotões!” 

O que já dá para vislumbrar é que o avançar da idade ensina no mínimo duas coisas:

1) A memória começa a nos trair de tal forma que passamos o restante da vida a contar as mesmas histórias para as mesmas pessoas. E pior, com o mesmo entusiasmo da primeira vez.

2) As pessoas confundem decadência física com sabedoria. Passar por sábio quando se envelhece é fácil. Difícil é dar bom conselho quando se tem idade para dar mau exemplo.

12 julho, 2012

as quatro perguntas de Prometheus



O ano é 2093. A nave Prometheus parte em missão exploratória confidencial para um planeta onde estariam os criadores da raça humana. Esse remoto local - uma incrível e revolucionária descoberta - não foi  tirado de um livro. Estava inscrito em paredes de cavernas. A tradição do Gênesis está longe. Mas a figura de um criador, não. O filme segue a visão conciliatória de criacionismo com evolucionismo; seríamos fruto de um Criador organizando o acaso. Ou seja, viemos de uma “evolução acompanhada”.

Mas dar atenção só a esse ponto é perder a contundência de algumas perguntas que o filme faz. E não quero perder a chance de explorá-lo teologicamente. 

A decisão de crer

Nem todos na astronave querem fazer perguntas aos criadores, chamados de Engenheiros. A antropóloga Elizabeth Shaw está entre aqueles que estão em busca de respostas. Ela perdeu a mãe quando ainda era criança. E é na infância que ela aprende que existe um céu maravilhoso aonde a vida é eterna. Inquieta, ela pergunta ao pai: “Como você sabe que o céu é lindo?” Ele diz: “Eu não sei. Mas escolhi acreditar que é assim”. É na infância que ela aprende a ter esperança e fé. E isso será crucial para as decisões que irá tomar mais tarde.

Não há relatos bíblicos de um Deus que força a adoração ou obriga a escolha individual. Como está escrito em Deuteronômio 30:19: “[...]te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência”. São as pessoas que decidem aceitar crer ou não.


A necessidade de criação

Entre os tripulantes, há um androide [imagem acima] – robô à imagem e semelhança do homem, com uma diferença. Não tem as mesmas emoções ou sensações. Contudo, ele parece se ocupar com questões além da matéria. Em conversa com um cientista, o androide lhe pergunta: “Se você fosse o criador, por que você criaria o homem?” A resposta: “Porque sou capaz de criar”. O androide diz: “Imagine a minha decepção se eu ouvisse isso da boca de quem me projetou”.

Criar apenas pelo poder de criar não passa de demonstração de competência. O poder sem amor gera autoritarismo e medo. A Bíblia não diz que “Deus é poder”, e sim que “Deus é amor” (I João 4:8), e “o perfeito amor lança fora o medo” (I João 4:18)  

A necessidade de salvação

Os exploradores descobrem o local onde estão os Engenheiros, os quais não demonstram interesse pela humanidade.

A crença de que Deus teria criado o mundo e o ser humano e deixá-los por sua conta e risco é o que chamamos de deísmo. É verdade que o aparente silêncio de Deus diante de tanto horror e violência pode dar a impressão de que não há mais ninguém no comando. No entanto, um Deus de amor é incompatível com Sua distância definitiva dos nossos problemas. Seria como uma mãe que, depois de dar à luz, fosse embora e deixasse seu filho com uma casa mobiliada. Deus não disse: “Se virem”. Aprendi que Ele diz: “Vinde a Mim”. Fico pensando se não somos nós que deixamos os outros por sua conta e risco.

Antes de encontrar os Engenheiros, o idoso megaempresário que financiou a expedição pergunta: “Se eles nos criaram, eles podem nos salvar?” Ao tomarmos a Bíblia como explicação que dá sentido à existência humana e à ação divina, podemos entender a criação e a necessidade de salvação. Se por um homem o pecado começou (Romanos 5:12), pelo Filho do Homem, Jesus, a salvação foi dada. Assim como a Criação, a Salvação também mostra o poder e o amor de Deus. Não basta poder para criar, é preciso amor para salvar. Também não basta amor para criar, é preciso poder para salvar.


O mistério da destruição

Ao encontrarem um dos Engenheiros, os exploradores percebem que serão destruídos por ele. Elizabeth Shaw pergunta, aterrorizada: “Por que você quer nos destruir?” Não há resposta; só aniquilação. Por que Deus irá destruir o mundo? (pela Bíblia, seria a segunda vez – a primeira foi o dilúvio). Tremendo mistério, aparentemente por ser incompatível com um Deus de amor. Mesmo os escritores bíblicos não sabiam revelar o mistério da destruição: o profeta Isaías descreveu esse ato como “a estranha obra de Deus” (Is. 28:21).


Enquanto o poder sem amor é autoritarismo, o amor sem justiça é complacente em excesso. Embora seja "tardio em irar-se", Deus é descrito como "grande em poder e ao culpado não tem por inocente" (Naum 1:3). Nesse verso bíblico, estão relacionados o amor paciente, o poder imenso e a justiça necessária. 

No filme, o Engenheiro pretende destruir a raça humana completamente; não sobrarão nem oito pessoas para recomeçar. Segundo a Bíblia, Deus destruirá o mundo, a maldade e os maus com o propósito de garantir a existência e felicidade eternas de Suas criaturas em um mundo recriado.  

Agora alguém pode perguntar: Quem é bom? Quem merece ser salvo e não ser destruído? Não sei quem merece, mas penso que o amor de Deus maravilhosamente incluirá, Sua justiça sabiamente excluirá e Sua graça misericordiosamente decidirá.

02 julho, 2012

como ler os números da religião do censo 2010

Os católicos estão diminuindo, os evangélicos aumentaram e os que se declaram sem religião crescem espantosamente. Essa é a primeira impressão que se tem ao olhar os novos dados do IBGE sobre a configuração religiosa no Brasil. Falando em números: o percentual de católicos diminui (de 89,9%, em 1980, para 64,6%, em 2010), o de evangélicos cresceu consideravelmente (de 6,6%, em 1980, para 22,2%, em 2010) e os “sem religião” aumentaram (de 1,9% para 8% no mesmo período).

É preciso avaliar esses números por meio da análise do contexto econômico, social e religioso. Para facilitar a leitura desses dados, vou dividi-los em três partes: católicos, evangélicos e o grupo sem religião (não quer dizer necessariamente ateu).

1)  A questão católica: no período 1991-2000, o censo do IBGE conferiu que o catolicismo havia diminuído percentualmente (de 83,8% para 73,8%), mas havia aumentado numericamente passando de 121,8 milhões de membros para 125 milhões. Nos dados do censo 2010, registrou-se um número pouco inferior a 124 milhões de católicos declarados. Há pessoas (ver artigo no Estadão de 29/6/12) que creditam a queda do percentual de católicos à inflexibilidade da igreja quanto a temas de ordem moral e sexual. Para eles, o conservadorismo católico tem feito com que os fiéis procurem outras igrejas. Esse argumento não está totalmente errado, mas está olhando apenas para um dos lados dessa tendência de declínio numérico da Igreja Católica.

Se os católicos mantiveram antigos princípios, por outro lado, houve uma forte inserção na modernidade por meio da Renovação Carismática, num processo que conjuga produção de mercadorias religiosas e apelo midiático, semelhante ao que se observa no meio neopentecostal. Além disso, a oferta de denominações religiosas é muito grande e as pessoas se sentem mais livres para fazer uma escolha religiosa pessoal, sem vínculos com a tradição religiosa familiar. Diminuiu, talvez, o número de católicos nominais e ganhou-se em número de católicos ativos. É possível também que o aumento dos que se declaram sem religião inclua ex-católicos.

2) A expansão evangélica: o Censo 2010 considerou duas categorias – os evangélicos de missão (também conhecidos como protestantes, incluindo as igrejas Luterana, Presbiteriana, Batista, Metodista, Congregacional e Adventista); os evangélicos de origem pentecostal (incluindo os pentecostais clássicos, como Assembleia de Deus, e neopentecostais (como a Igreja Universal). Confirmou-se a tendência de crescimento do segmento de evangélicos pentecostais (10,4% para 13,3%). Houve um ligeiro declínio no segmento evangélico de missão (de 4,1% para 4%). Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, houve redução no número de evangélicos de missão. Os pentecostais cresceram em todas as regiões, principalmente na região Norte (de 14% para 20%). No Sudeste, os evangélicos de missão diminuíram de 4,3% para 3,9%, e na região Sul, de 5,7 para 5%.

A mais numerosa igreja pentecostal é a Assembleia de Deus (12,3 milhões de membros). Entre as igrejas neopentecostais, a Igreja Universal do Reino de Deus possui o maior contingente (1,9 milhão).
  
Em 2010, os pentecostais eram mais jovens, com uma idade mediana de 27 anos e os de missão, 29 anos. Os evangélicos pentecostais (6,2%) são os grupos com maiores contingentes de pessoas de 15 anos ou mais de idade sem instrução, e formavam o grupo religioso com a maior proporção de pessoas pertencentes a classes de rendimento até 1 salário mínimo (63,7%). Entre os evangélicos de missão, 51,6% são de pessoas se declararam brancas. Sua origem vinculada à religião dos imigrantes europeus e norte-americanos explica em parte essa associação. Entre os evangélicos pentecostais, a maioria declarou-se de cor parda (48,9%).

3) O aumento do grupo sem religião: quanto à parcela da população que se declarou sem religião (incluindo ateus, agnósticos ou sem religião determinada), alguns números podem surpreender. Para muita gente, essa seria uma categoria com maior presença de pessoas brancas e com alta escolaridade. No entanto, no grupo sem religião, a declaração de cor mais presente foi parda (47,1%). Este também foi o grupo que apresentou as menores taxas de alfabetização de pessoas de 15 anos ou mais de idade- o grupo com maior grau de instrução é o de espíritas.

Outro dado relevante é que a faixa etária média do grupo sem religião é de 26 anos, o mais jovem dentre todos os grupos pesquisados. E, ainda, é o grupo que mais cresceu – 300%, considerando o período de 1980 a 2010. Com o risco de fazer uma análise apressada e simplista, podemos perceber que o segmento jovem, de cor parda e negra e de baixa instrução, tem optado por não se filiar a nenhuma denominação religiosa ou a declarar-se descrente.

A partir desses números, o que pensar:
a) A tendência de redução de católicos é irreversível? Até que percentual irá essa diminuição? O que tem levado ao aumento do grupo que se declara sem religião? E por que este segmento apresenta menor taxa de instrução?

b) O segmento religioso que mais cresce declarou frequentar igrejas de origem pentecostal. Esse grupo tem respondido ao evangelismo contemporâneo que se caracteriza por maior ênfase no louvor, exposição na mídia secular, alta comercialização de bens religiosos e proximidade com as estratégias do capitalismo por meio da teologia da prosperidade. Como as igrejas evangélicas de missão irão reagir ao avanço midiático, econômico e comportamental das igrejas pentecostais?

c) Muitas igrejas têm direcionado suas estratégias de evangelismo para a conquista de segmentos bem instruídos e com maiores rendimentos. Observa-se a elaboração de material evangelístico permeado por temas extraídos da filosofia e da cultura e também produção musical de sofisticação artística a fim de atrair a atenção desse segmento. Enquanto isso, o neopentecostalismo tem atuado em questões de ordem da sobrevivência imediata, conseguindo penetrar em locais com altos níveis de pobreza e violência. 

Evidentemente, esse painel que descrevi é generalizante. De fato, as igrejas protestantes e pentecostais se inserem nas mais diversas áreas socioeconômicas, mas os números do Censo 2010 constatam as diferenças sociais, econômicas e de faixa etária entre os segmentos pentecostais e protestantes. A explicação pode estar nos métodos preferenciais de evangelização utilizados por esses grupos, na sua proximidade com o mercado de consumo e na sua acomodação às novas exigências de comportamento e de fé.