13 dezembro, 2015

a força e a música de Star Wars: a primeira trilogia

Não é sempre que a cultura pop gera histórias com tanta ressonância moral dentro de seus produtos fabricados para o entretenimento rápido e indolor. A saga Star Wars é um desses produtos de alto valor de mercado, mas também com relevantes proposições éticas. O conflito entre o Bem e o Mal perpassa toda cinematografia americana, sendo a saga criada por George Lucas uma dessas obras que reúne o entretenimento familiar, o escapismo simples e um fundo moral absoluto. Por isso, vale explorar um pouco os temas do enredo e também os temas musicais da saga Star Wars. Nesta postagem, os episódios 4, 5 e 6.

Star Wars - Episódio IV: uma nova esperança 
O primeiro filme da saga ainda exala novidade, mesmo em confronto com a qualidade dos efeitos visuais do século 21. Mas o salto tecnológico dado com este filme, lançado em 1977, não é o que impulsiona a adesão de novos fãs. É a caracterização dos personagens, todos bastante carismáticos: o jovem e impulsivo Luke Skywalker, a valente princesa Léia, o sarcástico e arrogante Han Solo, o involuntariamente cômico C-3PO, o sábio e melancólico Obi-Wan Kenobi, o vilão Darth Vader carregado de traumas pessoais.

São estes ótimos personagens (e os atores que os incorporaram tão bem) que ajudam a desviar o foco dos diálogos canhestros.

Nenhuma teoria explica porque gostamos tanto destes personagens. Talvez a interação entre eles, talvez porque eles equilibrem uma inocência com alguma arrogância juvenil. Mas ainda fico com a ideia do crítico Roger Ebert: gostamos deles não pelas suas aventuras, mas porque no fundo somos nós olhando o mundo pelos olhos deles. São personagens demasiadamente humanos, com aspirações da criança que libertamos quando vemos filmes como esse.

A música: enquanto a saga espacial de George Lucas foi buscar inspiração nas ingênuas aventuras espaciais de Flash Gordon dos anos 1930 e 40, a fantástica música de John Williams possui duas fontes: a ideia de leitmotiv oriunda de Richard Wagner, compositor alemão do século 19, e os temas musicais épicos de Erich von Korngold, músico que escreveu vários temas para filmes nos anos 1930/40.

O leitmotiv (ou motivo condutor) é um tema melódico ou uma progressão harmônica  que representa um personagem, um objeto ou uma ideia/conceito. Quando um personagem/objeto/ideia surge em cena ou é mencionado, toca-se o motivo musical relacionado. Isso será repetido nas aparições subsequentes e os temas podem ser modificados e entrelaçados conforme os conflitos de personagens e conceitos em cena.

Neste episódio da saga, John Williams estabelece o tema de abertura do filme, que será sempre tocado nas batalhas, e o tema da Força, cuja sonoridade é modificada várias vezes pelo compositor ao longo da saga. Por exemplo, note o modo reflexivo sugerido pelo tema da Força enquanto Luke olha pensativo e esperançoso no por do sol de Tatooine - nessa parte, o tema é tocado pela trompa e depois pelo naipe de cordas, sem concluir a cadência da harmonia. Veja em seguida o modo triunfal do tema na homenagem feita pela princesa Léia a Luke, Han e Chewbacca - agora tocado pelo naipe de metais, mais rápido e harmonicamente conclusivo.
Compare no vídeo abaixo. O primeiro modo a partir de 0:20 segundos e o modo triunfal e conclusivo a partir de 0:50 segundos.




Star Wars – episódio V: o império contra-ataca 
Enquanto o filme anterior lançara a pedra fundamental da saga, com todo o saldo de humor, ação e tecnologia, este episódio aprofunda o tema da escolha, com todo o débito moral que pode resultar de uma má decisão. Luke Skywalker amadurece ao confrontar seus medos e sua impulsividade. Surge ainda outro personagem extremamente carismático, o mestre Yoda, e a famosa revelação paterna que assombrou meio mundo.

A música: entram dois novos temas, o da Marcha Imperial, relacionado a Darth Vader, e o tema romântico de Han e Léia. O excepcional trabalho musical de John Williams não está tanto na composição dos temas (já explico), mas na costura que ele faz entre personagens, a ação na tela e os temas musicais. Por exemplo, na cena em que Han Solo é executado, ouvimos o tema principal da saga, mas não em tons triunfantes, em seguida a Marcha Imperial, pois Darth Vader comanda a execução, e por fim o tema romântico.

E qual o problema na composição dos temas? O problema é a semelhança de alguns desses temas com peças da música clássica. O início do tema romântico é semelhante a trechos do Concerto para Violino, de Tchaikovsky; o tema de abertura é muito semelhante ao tema de abertura do filme “Em cada coração um pecado” (1942), com música do já citado von Korngold.

Do mesmo modo, no episódio IV já havia temas de John Williams com sequências similares às de outras peças clássicas. A música tocada durante a caminhada dos robôs pelo deserto de Tatooine é idêntica à introdução de “Sacrifício”, uma seção da obra A Sagração da Primavera, de Stravinski.




Star Wars – Episódio VI: o retorno do jedi
É consenso dizer que este é o episódio mais fraco da primeira trilogia. Embora bastante divertido – é quase uma comédia –, não há o frescor do primeiro filme nem a profundidade dramática do segundo. A trama se perde entre as batalhas na lua de Endor, as batalhas espaciais contra a Estrela do Morte (de novo) e a decisão mais difícil de Luke Skywalker. Dá pra dizer que são as cenas entre Luke e seu pai, com sua combinação de batalha existencial e física, que dão grandeza à saga. Ao final, Luke não é mais um garoto impulsivo, e o seu rosto transmite o preço da missão de ser um jedi e o pesar pela perda familiar.

No mais, o ponto fraco da Estrela da Morte é um alvo fácil demais, os soldados do Império são incompetentes demais e os bonecos são ridículos demais (como disse meu filho mais novo, parecem saídos do Castelo Rá-tim-bum). E sim, a sabedoria zen-panteísta da Força é pueril e simplista. Mas ela serve ao propósito moral na luta do Bem (os Jedi) contra o Mal (o Império). Além disso, a ética Jedi está na boca dos personagens que gostamos e é ao lado deles que meninos e meninas de várias gerações têm fincado sua bandeira.


A música: os temas musicais são os mesmos e foram costurados com a técnica do leitmotiv. Mas talvez o filme padeça de um dos males de John Williams que seus fãs mais ardorosos nunca admitirão: há excesso de música. 

A repetição dos temas começa a ficar óbvia e o tratamento orquestral já não é tão interessante quando nos dois primeiros filmes. Para piorar, a celebração da vitória tem como fundo musical um arremedo de samba, com um som artificial saído de tecla “demo” daqueles teclados Casio dos anos 80 (no vídeo abaixo, a partir do minuto 1:30). Não foi o melhor final dramático nem musical da trilogia, mas a essa altura a música e a saga Star Wars já nos ganharam por sua força.



03 dezembro, 2015

hino do impeachment


Eu devia estar orgulhoso e contente
com o processo de impeachment da presidente
"Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?"

Daí que veio pelo motivo errado
com cheiro de revanchismo
e quem passar pelo impítima
vai se fazer de vítima
pra tudo terminar em barganha
e a gente cheio de vergonha
"olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para nosso belo quadro social"


é, raulzito, o impeachment é nosso "ouro de tolo"

28 novembro, 2015

convite musical + música e religião na era do pop

Anúncio do lançamento do meu livro "Música e Religião na Era do Pop" na Casa Aberta Juvevê. E mais a volta do trio em que canto com meus dois filhos. Ficamos parados por quase 3 anos, já que nosso primeiro tenor era um juvenil que se tornou um adolescente de voz grave.rs Deu tempo até de publicar um livro.


16 novembro, 2015

a música cristã além do dogmatismo

A revista Veja publicou matéria sobre Leonardo Gonçalves e os irmãos André e Tiago Arrais, juntamente com vários outros cantores cristãos brasileiros. Cantores de diferentes igrejas cantando juntos. Pode isso, irmão Arnaldo? Eles deveriam ser mais dogmáticos e se posicionarem o tempo todo sobre crenças fundamentais particulares? 

Não se exige da ADRA, agência cristã de ação humanitária, que ela faça panfletarismo doutrinário durante suas ações ao redor do mundo. Aliás, a ADRA é respeitada e elogiada não pela apologia de credos, mas por fazer um trabalho importantíssimo no auxílio a vítimas de catástrofes e tragédias. Esse trabalho prioritário é resultado da sua mentalidade cristã.

Fala-se muito na dificuldade do cristianismo contemporâneo de alcançar as chamadas “mentes secularizadas” ou “mentes pós-modernas”. No entanto, quando os músicos elaboram formatos contemporâneos para atrair essas “mentes”, quando o trabalho deles parece estar indo de vento em popa, surge alguém para chamar isso de ecumenismo gospel.

E olha que nem são atrações como o "Vale-Tudo gospel", evento que atrai tanto praticantes de lutas quanto controvérsias. Aliás, o nome do evento é sintomático de uma mentalidade pragmática que tem tomado conta das ações de proselitismo evangélico.

Do mesmo modo que alguns forçam a interpretação sobre o que é “pós-moderno”, especula-se equivocadamente sobre o caráter ecumênico de músicos de diferentes denominações cristãs que se unem com a finalidade de organizar encontros em que se fale de música, de cultura, de técnica artística e acabam suscitando o interesse pelo conhecimento do evangelho.

------ Se você é cristão e é um reconhecido profissional de sua área, você recusaria um convite de uma igreja para falar de sua especialidade com profissionais de outras igrejas cristãs? Ou diria que não iria se sentar com transgressores da lei? Ou diria que não iria discutir com perdidos, ou com falsos profetas ou com metidos a intelectuais? ------------

No caso específico dos adventistas, a dieta vegetariana, o estilo de vida, as obras médica e educacional tem sido quesitos tradicionais de atração dos olhos de todos para sua igreja. Mas surgem coisas inesperadas, como a ascensão do médico Ben Carson entre os presidenciáveis norte-americanos, fato que tem motivado a curiosidade da mídia sobre quem são e no que creem os adventistas.

Outro fator inesperado, pelo menos para as expectativas dos pioneiros do adventismo no século 19, é a ascensão da música popular no cotidiano da juventude. A facilidade do acesso à música, o tempo de escuta, a forte presença dessa música na mídia e o interesse pela vida pessoal dos cantores admirados são evidências do triunfo da música pop.

Os cantores não ficaram tanto tempo debatendo a natureza dessa música, mas não perderam tempo em empregar essa música para atrair pessoas ao evangelho – no jargão evangélico, para “salvar pessoas”.



A reportagem da Veja é sobre o indie gospel, termo que segundo a revista descreve um tipo de música cristã que foge aos clichês de letra e arranjo musical do universo gospel nacional. O texto aborda os encontros do Loop Sessions + Friends, evento que reúne o batista Mauro Henrique (vocalista do Oficina G3), o adventista Leonardo Gonçalves e o católico Guilherme de Sá, da banda Rosa de Sarom: “o trio cultiva uma sonoridade muito diversa da que existe na música gospel tradicional, que é mais afeita a cantos de louvor para levar a multidão fiel ao êxtase”.

A matéria avalia que as letras dos cantores retratados no texto chegam a ser mais sofisticadas do que o repertório do pop nacional: “em vez de falarem explicitamente de Deus e religião, os letristas usam alusões e metáforas, muitas vezes mais elaboradas do que o eterno discurso de autoajuda de grande parte do rock brasileiro secular, de Nando Reis a Pitty”.


Há pessoas que criticarão exatamente o fato de não falar explicitamente sobre Deus e religião em todas as canções desses músicos. Mas, então, como é que se quer alcançar as “mentes pós-modernas” com o discurso religioso tradicional? Algumas igrejas fazem treinamento para ações evangelizadoras e não se diz a elas para sair falando de Deus e religião no primeiro contato com os outros. Por que os músicos agiriam diferente?

A música não é só a coluna mestra do mercado gospel. Essa pode ser a visão econômica marxista sobre isso, e não está errada. Mas não é só isso. A música tem sido a ponte de comunicação entre os cristãos e também a base de lançamento de estratégias que atraiam as pessoas não para a música, mas para o Eterno centro da mensagem da música. O "indie gospel" também faz parte desse movimento. É um equívoco desprezar suas múltiplas faces (Marcela Taís, Rodolfo Abrantes, Palavrantiga e Oficina G3 são alguns deles).

Precisamos conhecer o trabalho que está sendo feito a fim de não incorrer em generalizações e especulações que desqualificam a missão que cada indivíduo envolvido acredita que possui. O evangelho ainda é o mesmo, mas as pessoas e os métodos não são as mesmas. Numa sociedade extremamente diversificada e multicultural, seria prudente não medir a importância do trabalho cristão do outro pela régua que me deram quando a igreja ainda estava nascendo.

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Matéria completa da Veja, aqui

27 outubro, 2015

a redação do ENEM e o complexo de Nazareno


Há uma classe de pessoas que ainda padecem de um mal que em pleno século 21 deveria estar tão extinto quanto os dinossauros e as fitas cassete: são os espécimes que se espantam com mulher falando em público por seus direitos. Eles sofrem do complexo de Nazareno, aquele personagem da TV que, ao menor sinal de reclamação da mulher, dizia: “Calada!”

Queremos votar. Calada!
Quero respeito, cantava Aretha Franklin. Calada!
Salários iguais em cargos profissionais iguais. Calada!
A persistência da violência contra a mulher. Calada!

As reclamações de que o tema da redação do ENEM era obra do progressismo, feminazismo, doutrinação liberal e conspiração petista para tornar os machos reféns das empoderadas mulheres são de uma imbecilidade atroz. Acreditar que não se deve discutir em público a violência milenar contra as mulheres de um modo geral revela uma faceta de ignorância que também merece ser tema de redação nos próximos vestibulares: “A persistência da intolerância em questões de convivência entre seres humanos”.

Não vou entrar no mérito de que há excessos (e há mesmo) nos novos discursos sobre direitos, que algumas correntes mais radicais possuem um fervor exclusivista e proselitista arrogante e que tendem a atuar silenciando os oponentes. Existem pessoas com esse perfil em questões de esporte e religião e alguns tendem a ter mais respeito por religiosos ultraconservadores do que por feministas ultraliberais.

Além disso, o combate à violência em qualquer âmbito e dirigida a qualquer gênero não é propriedade nem do crente nem do ateu, nem da esquerda nem da direita nem de quem senta em cima do muro.

Passando adiante.

O que os marmanjos reclamões gostariam que fosse o tema da redação? “A imposição do progressismo nas escolas?” “Cada um no seu quadrado”? "Mulher já manda em casa, pra quê mandar em público"? Meu candidato à presidente é menos corrupto"? “Meu pastor é mais rico que o teu?”

Talvez quisessem um tema bem genérico, que não mexesse em vespeiro, bem sopa de hospital: “Eu quero ver onde essa zorra vai parar”. Esse foi o tema da redação do vestibular que fiz em 1989. Era título de uma canção da Simone e favorecia todos os debates e ao mesmo tempo nenhum. Comparada aos temas de hoje, acho que só os marmanjos reclamões não vão notar uma evolução nas discussões públicas.

Alguns indivíduos dão mostras de que estão na era do macho lascado, aquele que não admite ver seu discurso sendo relativizado, discutido, pesado na balança, desmontado. Outros veem as novas discussões atingirem diretamente o discurso ultrapassado, mas persistente, que prefere ver “tudo no seu lugar”: esse preto não se põe no lugar, essa mulher não se põe no lugar, esse velhote não se põe no lugar, esse índio não se põe no lugar, esse estrangeiro não volta pro seu lugar...

Às vezes, isso invade nossa conduta cotidiana e nem percebemos. Naturalizamos os preconceitos e a violência de tal forma que há espanto quando quem era tratado como coadjuvante social começa a agir como protagonista. Quando vamos praticar o ensinamento de nos colocarmos no lugar dos outros, e não de por os outros no seu “devido lugar”?

Também me deixa perplexo como alguns seguidores do Nazareno da Bíblia ainda sofrem do complexo do Nazareno da TV. Eles reclamam dos temas humanísticos do ENEM como provavelmente reclamariam de Jesus conversando com a samaritana: “Olha lá aquele progressista conversando com a estrangeira?” Ou: “Olha lá o doutrinador liberal que não joga pedra na Geni adúltera?”

Não pretendo dizer que Cristo foi um progressista nos moldes de nossa época atual. Quero dizer é que não era por acaso que o Nazareno da Bíblia era amado pela gente oprimida e marginalizada de sua época. Ele não dizia “Calada!”. Ele perguntava “O que queres que eu te faça?” (Marcos 10:51).

15 outubro, 2015

discurso do professor inconformado

O apóstolo Paulo, em uma de suas cartas às primeiras igrejas cristãs, disse: “Não vos conformeis com este século”. Caros músicos e educadores musicais, não vos conformeis com a música deste século, não vos conformeis com a educação deste século.
Conformar-se é resignar-se à impossibilidade de mudança, é contentar-se com o pão dormido da mesmice, é estacionar no vento frio que congela o movimento. Sem movimento não há educação bem-sucedida.
Mas um educador que não se conforma é como a viola que tange o retrocesso pra lá, é como o ritmo do tambor que move a canção irresistivelmente para diante, é como a música que, uma vez iniciados seus primeiros compassos, não olha mais para trás, a não ser para repetir a melhor parte.
Me deem professores inconformados e eu moverei o mundo.


“Eu ainda não encontrei o que estou procurando”, cantava a banda U2. Esse refrão é um símbolo do professor inconformado, do educador que está sempre procurando as melhores maneiras de facilitar e compartilhar a tarefa de ensinar, de aprender, de conhecer.
Então, meus colegas de trabalho, não vos conformeis com a música deste século. Não vos conformeis com a educação deste século. Porque professores inconformados ainda não encontraram o que estão procurando.

01 outubro, 2015

o papa e o planeta: ecologia virou ecorreligião?


O ambientalismo está seguramente entre os atuais projetos mobilizadores do mundo. Por meio do seu discurso de defesa da Terra, o ambientalismo é capaz de congregar religiosos e ateístas. Até porque este planeta é a nossa casa e, como convém aos tempos de partilhamento de tarefas domésticas, todos são responsáveis por levar o lixo pra fora. 

É assim que, ao contrário do comunismo, do capitalismo de livre mercado e do fundamentalismo islâmico, que desagregam o mundo social, geográfica e economicamente, o ambientalismo reúne indivíduos de todas as faixas de renda e escolaridade.

Muitas vezes, o ambientalista é alguém que não reciclava lixo ("era cego") e então passou a lutar contra qualquer torneira aberta ("agora vê"). Alguns deles são capazes de cruzar cercas elétricas para resgatar poodles em cativeiro nos laboratórios ou arriscar a vida nos mares defendendo baleias. Se o ambientalista pode ser um mártir, por outro lado, por ser tão decidido a converter outras pessoas a sua nobre causa, ele é visto às vezes como um ecochato, como se fosse um representante da Herbalife ou, então, um crente.

Não por acaso, o ambientalismo carrega caracteres de transcendência, pois é tomado como resolução última para a manutenção da vida, um bem sagrado, ocupando, assim, a cátedra que um dia já teria sido do cristianismo, visto que sua pregação enuncia componentes missiológicos (conversão e proselitismo) e soteriológicos (trata-se de um discurso salvacionista) e até escatológicos, com direito a profecia condicional (prenuncia o fim do mundo se não mudarmos nossas condutas).



Em alguns arraiais, viceja a noção de ECOmenismo, espécie de mutirão ambientalista global que desembocaria em assinatura de acordo pelo descanso semanal da Terra aos domingos, com consequente punição aos indivíduos que obstinadamente não aceitarem o tratado ecorreligioso planetário.

O que alguns analistas deixam escapar, porém, é o fato de que há vozes dissonantes no cenário. Embora o pontífice romano, por meio de seu discurso humanista, venha reforçando a defesa do sistema ecológico e tenha condenado publicamente as ações industriais antiecológicas das grandes potestades, os maiores empreendedores do  mundo se comportam como filisteus poluidores e desafiam a ONU e o Vaticano.

O papa e o secretário-geral da ONU acabam sendo mais reconhecidos pela boa vontade do que propriamente pelo poder político. É como se fossem um tipo de rainha da Inglaterra. No caso dos papas, às vezes sem a discrição política e midiática da rainha da Inglaterra. Os líderes mundiais respeitam o papa e a ONU, mas sua participação na arena das decisões globais reduz-se ao plano discursivo.

As encíclicas papais são recebidas no Ocidente com o mesmo peso que as propostas da ONU para a paz no Oriente Médio. Os EUA, a Rússia, o Reino Unido e a região do Euro, assim como China, Irã e Israel, deixam de cumprir várias propostas e acordos. Alguns países nem assinam acordos supervisionados pela ONU: Estados Unidos, assim como Rússia, Japão e Canadá, não participaram de acordos favoráveis à diminuição de emissão de poluentes.

E mais: a reação de industriais e políticos contra os projetos ecológicos, incluindo o mais forte concorrente a candidato republicano à presidência dos EUA, Jeb Bush, ele mesmo um católico fervoroso, mostra que um discurso de paz pode atrair os homens de boa vontade, mas o problema é que os homens de má vontade ainda estão no poder.

Num mundo de crises econômicas globais, onde a receita para sair da estagnação é o aumento de produção e consumo, parece não haver espaço para a criação de um dia de repouso da Terra, visto que o risco dessa operação ecorreligiosa poderia levar países emergentes e mais desenvolvidos à perda de outro bem sagrado: a estabilidade econômica.

Num país de tantos feriados como o Brasil, perder 52 domingos por ano seria desastroso para donos de butique no shopping e vendedores ambulantes. Nesse caso, para o mercado ficar vazio e o trabalho terminar aos domingos, será preciso uma outra potestade, uma que não seja deste mundo do capital?

25 setembro, 2015

happy birthday to you agora é free

Após 80 anos, encerrou-se um capítulo da batalha pela posse do copyright da canção “Parabéns pra Você”. No dia 22 de setembro, um juiz federal da corte de Los Angeles considerou inválido o copyright que desde 1988 estava sob controle da companhia Warner/Chappel, que lucrava uma média de 2 milhões de dólares anuais com os royalties da famosa “Happy Birthday to You”.

Até agora, os produtores de filmes e programas de TV que queriam economizar um trocado substituíam Happy Birthday por uma canção que ninguém canta em festinha de aniversário: “Fulano é bom companheiro... [For he’s a jolly good fellow...].

O juiz declarou que o copyright, original de 1935, só vale para o arranjo de piano que está nessa partitura, mas não vale para a melodia, visto que Happy Birthday to You emprestou a melodia da canção “Good Morning to All”, que está em domínio público. Essa canção foi composta em 1875 por duas irmãs professoras primárias do Estado do Arkansas para a entrada dos seus aluninhos na escola.

As irmãs Mildred e Patricia Hill só registraram a canção em 1893. Em 1924, a melodia foi publicada com a letra que se tornou o maior sucesso popular de todos os tempos: Happy Birthday to You. Mas Jessica Hill, irmã das professoras, brigou na justiça pela posse dos direitos autorais e venceu a disputa.

A indústria fonográfica não deixaria uma música tão popular circular por aí sem rentabilidade. Então, em 1935 a Summy Company registrou uma versão da música que atribuía a autoria de Happy Birthday ao compositor Preston Ware Orem e à senhora R. R. Forman.

A questão é que não se sabe de quem seria a verdadeira autoria da letra. Embora as irmãs Hill tenham publicado sua canção no livro Song Stories for Kindergarten, em 1893, e que a letra Happy Birthday to You tenha sido publicada com a melodia de Good Morning to All só em 1912, há quem defenda que a letra já existia anteriormente.

No Brasil, a letra de Parabéns a Você é de autoria de Bertha Homem de Mello, que venceu 5 mil concorrentes num concurso nacional organizado pela Rádio Tupi (RJ), em 1942, para escolher a melhor versão de Happy Birthday to You. Bertha faleceu em 1999, aos 97 anos, e sua filha é a herdeira dos direitos autorais.

Aliás, em diversos Estados brasileiros o Parabéns a Você tem uma segunda parte.
No Maranhão:

Hoje é dia de festa
Pra alegrar nossas almas
“a/o fulana/o” faz anos
Uma salva de palmas

Quando fui trabalhar por alguns anos em São Luís, eu achava estranha essa segunda parte. Depois que fui morar em outra cidade, achava estranho ninguém cantar a segunda parte.

Em outros lugares se canta ironicamente uma segunda parte:

A (nome) faz anos
O azar é só dela
Cada dia que passa
Ela fica mais velha

Só não vale dizer que o “para-rá-tim-bum” que se canta ao final é uma expressão de convocação de demônios. Trata-se apenas uma onomatopeia antiga que imita a percussão no final da apresentação de uma fanfarra.

Enfim, parabéns a quem não precisa mais pagar pela canção americana mais famosa no mundo, que ganhou até uma versão para orquestra do compositor russo Igor Stravinski, que escreveu a peça “Greeting Prelude” usando Happy Birthday to You como base para homenagear o maestro Pierre Monteux. Stravinski disse posteriormente que não sabia que a canção era protegida pela lei do copyright: “Achei que essa música estava na categoria das músicas folclóricas”.

Segundo o crítico de música Alex Ross, Stravinski não foi processado, talvez por ter usado somente a melodia, sem a letra.

01 setembro, 2015

causa de morte de músicos em cada estilo musical

Alguém se deu o trabalho de fazer um quadro comparativo das "causa mortis" de músicos por gênero musical. De fato , trata-se de pesquisa conduzida pela professora Dianna Kenny, da Universidade de Sidney, que investiga as causas de morte precoce de músicos. 

Nesse quadro, músicos do gospel têm taxas menores de morte por câncer ou ataque do coração do que as dos músicos de blues, jazz, pop e country, mas músicos desses estilos morrem menos por assassinato do que os músicos gospel.

30% dos músicos de jazz e blues morreram por problemas cardíacos ou câncer, o que certamente foi causado pelo estilo de vida e não pela música que tocavam. Nesses estilos, há menos mortes por suicídio do que no punk (11%) e no metal (19%). Mais do que o dobro de suicídios no rock e no rap. Já no rap, as taxas de morte por câncer e problemas cardíacos é muito menor do que as taxas observadas em todos os outros estilos.

Um analista descuidado lê isso e vai recomendar a audição de uma dose diária de rap para diminuir as taxas de colesterol. Já vejo a manchete: "Hip Hop ajuda no combate ao câncer". Mas, lembre que as taxas de morte por assassinato de artistas do rap são as maiores entre todos os gêneros (mais de 50%).

Antes que o mesmo analista descuidado aponte o rap como causa de homicídio ("Hip hop mata mais que câncer" seria sua manchete), vamos lembrar que, se rappers morrem menos de ataque cardíaco, provavelmente seja porque eles morrem jovens. E não é por causa do estilo musical, mas, entre outros motivos, por problemas surgidos pelo tom crítico de suas letras ou por conflitos que envolvem  sua condição social de origem em locais urbanos de forte risco social.


Um estilo musical não é capaz de retardar ou apressar a morte de um músico. Mas o estilo de vida e as condições sociais e psicológicas de um artista podem estar na sua própria causa mortis. Roger Daltrey (da banda The Who) cantava nos anos 60 que esperava morrer antes de envelhecer ("I hope I die before I get old" - letra de My Generation). Bem, ao contrário de outros roqueiros de sua geração, Roger Daltrey já passou dos 70 anos de idade, contrariando as expectativas de sua própria música.


13 julho, 2015

o adventismo no mundo: analisando as taxas de expansão e retração

Encerrados os trabalhos da Conferência Geral da Igreja Adventista, é hora de avaliar alguns números das declarações estatísticas anunciadas no evento. Os números por si não podem falar tudo. Seria necessário olharmos para os fatores que constituem o contexto social e histórico de cada campo onde o adventismo está presente, a fim de compreender os números de expansão ou de estagnação do adventismo em diferentes regiões. 

Pretendo abordar somente a taxa de crescimento mundial dos adventistas, dedicando algumas linhas também à análise dos dados estatísticos da igreja. Em outra postagem, quero postar breves análises mais específicas do contexto adventista no Brasil.

Os números da Conferência Geral dão conta de 18.550,589 membros registrados até 31 de março de 2015. Logicamente, é um crescimento fenomenal considerando-se que o adventismo foi formalmente organizado em 21 de maio de 1863 com a inclusão de 125 igrejas e 3.500 adeptos.

Se a taxa de crescimento é exponencial, outro dado mostra que os níveis de perda de adeptos também cresceram bastante. Um relatório de reunião realizada na igreja adventista de Battle Creek, em maio de 1863, mostrava que aquela igreja havia sido inicialmente organizada com 72 indivíduos:

 “This church was organized at Oct. 24, 1861, with seventy-two members. Admitted since, thirty-­six. Removed nine. Deceased two. Membership at present, ninety-seven.”

Esse curto relatório mostra que 36 novos membros foram integrados à igreja de Battle Creek, enquanto 9 foram excluídos (ou “removidos”, conforme o jargão religiosamente correto). Isto significa que ¼ dos membros deixara aquela comunidade adventista.

Os dados dos últimos cinco anos (2010-2014) revelam que 5.563,677 membros integraram-se à Igreja Adventista em todo o mundo por batismo ou profissão de fé, e que 3.068,141 foram removidos ou registrados como “não encontrados”. Ou seja, a cada 5,5 pessoas que entraram pela “porta da frente” da igreja, 3 pessoas saíram pela mesma porta (ou pela “porta dos fundos”, em se tratando dos não encontrados).

À primeira vista, esses números parecem demonstrar que o crescimento, apesar de contínuo, é menor do que a expansão das décadas passadas. No entanto, ao se comparar esses dados com os registros dos últimos 50 anos (1965-2014), nota-se que a taxa de “saída de membros” também é contínua. Nesse período, a Igreja Adventista recebeu 33.202,016 novos membros e 13.026,925 saíram: uma taxa de perda de 39,25% membros. 


Como explicou David Trim, diretor do escritório adventista de arquivos, estatísticas e pesquisas, a igreja adventista não estaria sofrendo uma crise de crescimento, mas sim, "sentindo os efeitos da correção estatística". 

Em nível mundial, então, a cada 10 novos membros que entram, 4 deixam a igreja. Se os níveis de perda de adeptos se mantiveram em 40% desde os anos 1960, talvez não haja motivo para desânimo no ímpeto proselitista da igreja. Mais preocupante para os adventistas deve ser o índice de perda de membros dos últimos cinco anos (2010-2014). 


Nesse período, o adventismo cresceu a uma taxa estável de pouco mais de 1 milhão de membros por ano, mas perdeu adeptos em ordem decrescente: de pouco menos de 500 mil indivíduos que deixaram a igreja em 2010 até o registro de quase 800 mil que saíram em 2014.

Se esta década iniciou com a perda de 4 adeptos para cada 10 novos membros, chega-se à metade da década com a perda de 6 adeptos para cada 10 novos membros. A questão é: essa taxa representa um decréscimo gradativo irrefreável ou se trata de mais um ciclo que alterna períodos de expansão e retração no crescimento da igreja?

Vejamos, então, somente os dados auditados entre 1990 e 2014. 



Há registro de crescimento variável:
- 7% de crescimento em 1990
- menos de 6% em 1992
- pouco mais de 6% no ano seguinte
- 4,5% em 1997
- pico de 7,5% em 1999 (taxa mais alta dos últimos 15 anos)
- queda contínua até 2005 (3,5%)
- 5% em 2006
- menos de 2% em 2008
- nova subida para 3,5% em 2010
- queda contínua até a taxa mais baixa (1,5%) em 2013
- 2014 não chegou a registrar 2% de crescimento

A partir dos índices coletados nos últimos 25 anos, em que picos de crescimento alternaram-se com graves baixas, é possível observar dois pontos:

1)  cada pico de crescimento é seguido imediatamente de quedas vertiginosas.

2) picos de crescimento têm sido atingidos com taxas cada vez mais baixas (7,5% – 5 – 3,5 – 2)

A explicação para o primeiro ponto pode estar na tomada de impulso evangelizador após a constatação institucional de baixo crescimento. Após essa fase de ímpeto, em que a instituição busca fomentar ações evangelizadoras com a cooperação das congregações, a desaceleração parece inevitável. 

Alguns motivos podem estar na condição de vida dos evangelistas leigos, setor da igreja formado pelos adeptos. Diferentemente do corpo de evangelistas especialistas (pastores ou evangelistas remunerados) que podem dedicar seu tempo de trabalho a ações evangelizadoras, os leigos, por sua vez, precisam cuidar de sua subsistência e nem sempre todos podem manter o ímpeto evangelístico inicial.

Essa perda de ímpeto pode também estar no outro lado, o lado dos novos membros. Após à integração na nova comunidade de fé, os novos adeptos podem perder gradativamente o interesse pela igreja e, embora aceitando a veracidade de parte das crenças, eles deixam de ver sentido na manutenção da frequência à igreja e, então, afastar-se. Não deixa de ser também um caso de arrefecimento do ímpeto inicial (ou como dizem alguns cristãos, uma perda do “primeiro amor”).

Outro motivo para a perda de fiéis pode estar na reação negativa ao código de conduta da igreja. De modo geral, o sujeito contemporâneo, e aqui falamos do habitante das áreas urbanas do Ocidente, valoriza sua autonomia e independência de atitude e tem passado a ver as interdições eclesiásticas como uma legislação de consciência no que diz respeito a restrições a ornamentos (especificamente, joias), entretenimento (filmes e músicas populares), vestuário, penteados, maquiagem, consumo de carne (bovina e de aves) e café.

A perda gradativa de adeptos nos últimos anos coincide com as prescrições de comportamento público e privado para os adventistas lançadas no documento “Estilo de Vida Adventista”. Alguns indivíduos podem ter entendido que o reforço das restrições caracterizava um aumento na regulação da vida cotidiana, e sua reação foi o abandono do adventismo.

E, quanto ao segundo ponto, o que pode ter ocasionado o gradativo decréscimo nos picos de crescimento?

As razões são muitas e provavelmente não há disposição do leitor para continuar acompanhando por muito tempo estas análises. Vou insistir na perseverança dos santos, então.

Alguns motivos observáveis são:

- interesse por religião, mas desinteresse pela denominação: enquanto as crenças religiosas mobilizam a espiritualidade, as congregações constituídas de gente como a gente às vezes parecem mais preocupadas com a vigilância de condutas pessoais do que com o acolhimento fraterno. Como dizem, “Deus é bom, o problema é o seu fã-clube”.

- novos competidores no campo religioso: a expansão do pentecostalismo desde o final do século XX tem causado maiores obstáculos ao avanço do protestantismo. O fenômeno (neo)pentecostal trouxe ao campo religioso uma disputa pelo monopólio da salvação que talvez só se observou no período de inserção protestante em países de larga tradição católica.

- o fator euro-americano: o baixo crescimento, a estagnação ou mesmo a retração de membros adventistas em vários países europeus e nos Estados Unidos tem colaborado para diminuir os picos mundiais de crescimento. As taxas de crescimento na Europa e nos Estados Unidos não se aproxima dos níveis de crescimento do adventismo na América Latina e na África. 
Enquanto as regiões desenvolvidas (com maior taxa de renda per capita e nível de escolaridade) enfrentam baixo crescimento, estagnação e mesmo retração no número de adeptos, os países em desenvolvimento e do chamado Terceiro Mundo têm mostrado maiores níveis de crescimento. Muito embora, essas mesmas regiões também tenham registrado níveis de perda de membros não muito diferentes daqueles do Primeiro Mundo.

- contexto social e econômico: por que se cresceu muito mais entre 1997-1999 do que nos 15 anos seguintes? Já considerando o fator pentecostal, que tomou impulso mundial muito maior justamente nos anos 2000, é preciso lembrar que boa parte do planeta experimentou uma grave crise econômica no fim da década de 90. E não se deve descartar o fato de que os indivíduos tendem a buscar apoio espiritual em situações econômicas frustrantes. Além disso, as ações evangelizadoras adventistas tomadas próximas ao final do século e às portas do novo milênio parecem ter encontrado ambiente favorável ao clima místico mundial de despertar ou renascimento religioso provocado por uma simples passagem do tempo.

Essas considerações iniciais não são, evidentemente, conclusivas, mas espero que ajudem a nortear os questionamentos que os dados estatísticos suscitam. É provável que parte dessas breves análises ajudem a explicar o cenário do protestantismo geral ao redor do mundo. Na próxima postagem,  pretendo abordar o dados auditados no Brasil e as razões sociológicas que explicam os números. 


Fonte dos registros, slides e citações: 2015 General Conference Session Report: membership audits and losses (David Trim). Office of archives, statistics and researches.

26 junho, 2015

adeus a James Horner, o compositor dos filmes épicos

O compositor James Horner morreu na segunda-feira, 22/6, quando pilotava sua aeronave na Califórnia. Tinha 61 anos e um respeitável currículo de trilhas sonoras para o cinema. Sua parceria mais famosa foi com o cineasta James Cameron: Aliens, o resgate (1986), Titanic (1997) e Avatar (2009) têm música de James Horner.

Música de sonoridade ruidosa para o terror espacial de Aliens, percussão e música épica para Avatar e todo o melodramatismo musical para Titanic. Por esta última trilha, Horner ganhou os Oscars de Melhor Trilha Sonora (sim, é dele aquela flauta insistente que toca direto para Jack e Rose) e de Melhor Canção (sim, ele tem parte com “My Heart Will Go On”).

James Horner também é o autor da trilha sonora dos filmes Campo dos Sonhos, Coração Valente e Apollo 13 (as três indicadas ao Oscar de melhor trilha).

Sua música para Jornada nas Estrelas II: a Ira de Khan (1982) traz uma orquestração de metais fantástica, com um tema principal épico e nostálgico.



Minha trilha preferida de James Horner é a do filme Tempo de Glória (1989), um filmaço com Denzel Washington e Morgan Freeman sobre o primeiro regimento militar formado exclusivamente por soldados negros durante a Guerra Civil Americana.

James Horner utiliza um coro, cordas, metais e percussão marcial nos temas principais. Não se trata de um filme de glorificação da guerra, mas sim um filme sobre a revolta e a coragem de um batalhão destinado a uma vitória heroica, porém, com perdas humanas devastadoras. A música de Horner capta esse sentimento misto que advém de triunfos sem humanidade.



Valeu, James!

24 junho, 2015

CD Renascido: a solidez da doutrina na voz da fluidez musical - parte 1

Quando um compositor cristão faz uma música, ele atravessa o mesmo processo que um compositor de qualquer outra crença ou descrença: escolher a letra, a rima, a palavra certa; selecionar o som, a altura, o acorde.

O que distingue a composição de um músico para outro não é o processo, mas o paradigma. Explico. Se o processo é semelhante, o paradigma de composição é diferente porque os compositores têm pelo menos dois modos de perceber o ato de compor: ou o músico se alinha às premissas musicais e poéticas mais convencionais ou ele busca os ingredientes musicais e poéticos mais inovadores. É com essa segunda percepção que o compositor, cantor e maestro Daniel Salles vê a prática musical.

No CD Renascido, ele apresenta uma paleta variada de estilos e formas musicais que contêm o germe da invenção. Paradoxalmente, o que Renascido tem de inovação poética e musical, tem também de preservação da doutrina tradicional.

Enquanto a doutrina é inflexível, pois se trata de declarar princípios teológicos que raramente são alterados, a forma de cantar a doutrina não é imutável, pois se trata de usar códigos musicais que constantemente são modificados. O material de que é feito a doutrina tem um núcleo mais rígido, sólido. O material de que consiste a música é mais fluido, dinâmico. Renascido é um trabalho de solidez doutrinária na voz da fluidez musical.

Os exemplos musicais povoam o cd inteiro. Na canção “Quando o vento do espírito soprar” (ouça aqui), a transição de acordes alterados (cheios de sextas, sétimas e nonas), associados à tradição da MPB mais sofisticada, vai embelezando a canção que faz uma inquietante pergunta aos cristãos que não veem sua igreja crescer solidamente na obediência e na missão: “Por que será, por que razão, temos tudo nas mãos, mas não há fogo no altar?”

O compositor não se refere a milagres, curandeirismos ou manifestações extáticas como suposta prova do fogo da presença do Espírito Santo. Ele constata a falta de comunhão, de devoção e de amor mútuo entre os próprios cristãos, o que afastaria um maior poder de atuação celeste na vida da igreja. Mas a música não estaciona na constatação de paralisia e mornidão da igreja e recorre a citações de trechos bíblicos (Joel 2:13; Atos 2:17: nos últimos dias, vossos filhos profetizarão...):

“Quando a comunhão for a arma principal
E a rotina dos nossos dias sair do seu normal
Descerá sobre nós o fogo do Espírito
Viveremos o evangelho
E Jesus Cristo vai voltar”

No trecho acima, o arranjo musical apresenta acordes mais simples e timbres mais pesados (guitarras), enquanto a voz do cantor está mais firme e forte, o que revela a intenção de introduzir os (auto)questionamentos de maneira musicalmente reflexiva e chegar ao posicionamento final de esperança de maneira mais afirmativa.

Outras duas canções reforçam a combinação de manutenção da doutrina tradicional com exploração musical criativa: “Imutável” e “Sábado”. Na primeira, uma melodia cheia de curvas:

“Deus não muda, e a Palavra não se anula
Não é inflexível, [...] sempre permite mudar e mudar em função de uma escolha
[...] Por ser imutável, Deus continua me mudando”

Já a canção “Sábado” dá a esse ponto doutrinário um tratamento mais ameno. Em geral, somente as canções infantis adventistas têm tonalidades de leveza quando abordam o sábado. O que Daniel Salles faz é colorir o sábado de um modo menos rígido ou severo como às vezes esse dia é interpretado mesmo por pessoas que observam o sábado como o dia de descanso semanal.

“O sábado é o dia do sim, e não do não
Sábado faz parte da minha existência
Símbolo da alegria e da salvação”

A letra mostra tanto a alegria de guardar o sábado quanto o contraste entre o sábado e os outros dias. A interpretação vocal de Daniel Salles e Dirley Menegusso estampa felicidade. E toda essa demonstração de alegria e leveza encontra correspondência na escolha do estilo musical: o samba.

Evidentemente, é uma escolha musical pouco ortodoxa. Mas o arranjo musical não soa agressivo nem borra a mensagem doutrinária. A percussão é suave, sem batida forte de bumbo ou surdo, e a melodia em nada lembra rodas de samba ou desfiles de carnaval. O estilo musical pouco usual para falar do sábado funciona como indício de alegria e leveza e símbolo de musicalidade brasileira.

Seria como se o disco perguntasse: Por que é aceitável falar da volta de Cristo com marchas militares norte-americanas e não se poderia falar de sábado com a música de caráter mais brasileiro?

Uma resposta possível está no modo de evangelização protestante no Brasil, o qual trouxe consigo uma larga cultura musical popular norte-americana e descartou as expressões de musicalidade brasileira. Mas isso é assunto para outra postagem. O que se deduz dessa canção é que a doutrina é teologicamente preservada enquanto a forma de transmiti-la é musicalmente renovada.


CD Renascido: a solidez da doutrina na voz da fluidez musical - parte 2

*pequeno estudo sobre o CD Renascido, de Daniel Salles (parte 1 aqui).

No CD Renascido, ainda há outros vestígios de suavidade no tratamento de temas mais sérios. Na música “Cardiomegalia”, por exemplo:

no meio da noite veio uma vontade de acordar
 volume no peito que crescia feito bolo de maracujá,
sintomas de uma alegria que não cabia em mim [...]

Por que usar nessa canção um estilo rítmico mais animogênico/movimentado? Segundo a letra dessa canção,

“Na bíblia eu li que um homem coxo foi curado e se pôs a dançar
E quase explodindo de alegria sua cura teve de contar
Um tipo de cardiomegalia santa inflando o coração”

No cristianismo, não somente a cura física, mas também o aceitar das boas novas da salvação estimula a alegria que não se pode conter:

Não fica parado nem calado quem foi salvo da condenação
[...]”
“Quem recebeu a graça só consegue amar
Pois sente o calor da chama viva a queimar
O coração que cresce agora quer compartilhar
Pois sente que é nascido em Deus pra doar amor”


Na música “Pronto pra Amar”, o cantor diz que “só estarei pronto para amar alguém” quando deixar de olhar para si e mirar o exemplo de Cristo:

“Apenas quando eu esquecer de mim”, “me diminuir”, quando “eu olhar pra cruz”, “imitar Jesus”. Só então será possível “viver para espalhar a benção da graça”.

Estas duas últimas canções têm estilo e performance vocal que tendem ao black gospel norte-americano. Mas na verdade, ambas as canções têm um pé na rica herança do gospel negro estrangeiro e outro pé na rica musicalidade afro-brasileira.

Quando ouvem a expressão “afro-brasileira”, muitos cristãos já visualizam imagens de rituais de possessão e sons de tambores. No artigo "Música, religião e cor", a antropóloga Márcia Pinheiro percebeu que essa noção é muito presente no meio evangélico e que, por essa razão, os compositores evangélicos tendem a utilizar as expressões da música popular afro-norte-americana, como o soul e o rap.

Mas ao inserir, de forma bastante atenuada, as expressões musicais afro-brasileiras, como em “Sábado”, e afro-norte-americanas, como em “Cardiomegalia”, Daniel Salles mostra que é possível manifestar sem recalques e com tato a identidade musical negra, vista por alguns setores cristãos ainda como algo musicalmente inferior e teologicamente incorreto.

Entretanto, essa aparente subversão da forma tradicional de cantar os temas cristãos está somente nesses exemplos musicais citados acima. No restante do repertório, volta-se à musicalidade sem sobressaltos (para alguns ouvintes, claro).

Na canção “O efeito da graça”, a letra sofisticada de Mário Jorge Lima descreve o contraste entre a compreensão correta da graça divina e os pensamentos obtusos humanos sobre a graça:

“A graça e a sensação de culpa, a graça e a estúpida arrogância, a graça e a falta de transformação: são coisas mutuamente exclusivas”. A letra acrescenta: “A graça e o medo da condenação, a graça e o espaço dado ao erro, a graça e a alma sem submissão são coisas mutuamente exclusivas”.

A solução apresentada é:

“Mas quando a graça invade a nossa vida
Expulsa as trevas [...]
Traz liberdade e paz [...]”

O CD Renascido tem um forte componente autobiográfico. Poucos meses antes de produzir o CD, Daniel havia passado pelo tênue fio que separa a vida da morte. Após sua recuperação de uma doença gravíssima, cuja repercussão mobilizou seus irmãos de fé Brasil afora, ele só poderia incluir no repertório do CD uma experiência tão aguda. Daí várias canções repassarem o sentimento de dor, perda, cura, gratidão e recomeço.

Esse olhar em retrospecto para aqueles momentos não resultou em simples relato de cura física e agradecimento. Daniel Salles reconta sua experiência individual e a associa à vivência espiritual coletiva de sua igreja e dos cristãos de forma geral.

“Quem saiu de um leito frio, em quarto triste, de sons distantes,
saberá amar a vida tão resumida, abençoada e tão sofrida
Lágrimas a romper em dia de alegria, quando vier o sol”
[Renascido]

“Quanto mais escura for a noite
Mais e mais eu ponho a fé em Cristo
Quanto mais a dor aumentar
Mais e mais eu creio na promessa, o meu Senhor virá
Vou sorrir quando o sol chegar”
[Quando o sol chegar]

Para quem enumera relatos de dificuldade de sobrevivência e sociabilidade (em bom português, fome e preconceito racial), o componente autobiográfico mais dolorido comparece nas canções “Só eu sei” e “Se acostume comigo”. Mais uma vez, o autorretrato repassa a dor pelo filtro da superação alegre.

Por fim, três canções que, ouvidas consecutivamente, são um painel de três tempos de uma relação amorosa.

Na primeira, “Você me surpreendeu”, o começo de tudo, quando o amor desperta inesperadamente ou bate à porta quando se desdenha sua existência:

“Você reacendeu uma chama dormida,
outrora apagada por outros planos da vida”
ou
“Você me surpreendeu quando ao telefone
Percebeu que seu sonho era exatamente o meu”

Das coincidências e sonhos comuns dos estágios iniciais de uma relação, chega-se ao tempo em que se olha retrospectivamente. A canção seguinte se chama “Primeiro Amor” (ouça aqui), mas poderia intitular-se “o meio do amor”. Alguns trechos de sua letra podem ser interpretados assim:

“Não sei como caminhar sem ouvir o som da sua voz”: isso é a relação na perspectiva do agora.

“Eu não cruzei muitos caminhos pra te encontrar,
Eu não vivi outras história de amor assim”: isso é a retrospectiva.

“Você estava no começo e também vai estar no fim”: isso é a expectativa.

Por último, na canção “Vows Renewal” (renovação dos votos) estão as promessas de manutenção do amor nos momentos futuros. Não está aqui o fim, mas o sem-fim do amor. O amor que se renova, que se pereniza, o entendimento de que o amor não é só uma comédia romântica.

No dueto, Daniel e Rosane, esposa do compositor, cantam o amor na maturidade, na velhice. A canção diz que nas dificuldades da velhice “eu estarei lá”. E em outros versos, reaparece o estilo de Daniel de dizer as coisas mais sérias com tons de leveza:

“Quando o baby à noite acordar” e “quando a louça se acumular, eu estarei lá”.

Ao escutar o CD com outros ouvidos, menos dado a purismos teimosos, tem-se um trabalho musical que não fala apenas dos princípios da fé, da esperança, da salvação, da lei e da graça. Renascido fala das miudezas do cotidiano, das relações amorosas, da alegria de viver ou de reviver.


É assim que o mandamento do sábado é visto na perspectiva da graça, e por isso não é um peso para o compositor. É assim que a relação amorosa (o cotidiano) é vislumbrada na perspectiva do plano de Deus (o transcendente). É assim que quem esteve às portas da morte compartilha musicalmente a graça do renascimento.

08 maio, 2015

II Guerra Mundial: 8 filmes, 70 anos depois


8 de maio de 1945: há 70 anos, os combates da II Guerra terminavam na Europa, enquanto no Extremo Oriente a guerra ainda prosseguia. Para lembrar o Dia da Vitória (conhecido como o Dia V), deixe um pouco de lado de lado a fantasia da vingança de Bastardos Inglórios, o chororô de O Menino do Pijama Listrado ou qualquer filme de guerra com o Nicholas Cage e veja essa lista de 8 filmes sobre a II Guerra que provavelmente você ainda não assistiu.

[Antes da lista, quero lembrar que há 30 anos eu e o Kelvin Ferreira, dois pré-adolescentes filhos de professores num internato no Amazonas (IAAI), fomos sabatinados sobre a II Guerra pelo colégio inteiro numa tal de capela cultural. Mesmo sendo dois devoradores de bibliotecas, não tínhamos respostas para todas as questões, mas as que tínhamos teriam nos levado longe num Show do Milhão.rs]


Patton – O controverso general Patton foi até suspenso pelo alto comando por afligir seus soldados, mas era um estrategista tão genial e temido pelo inimigo que foi deslocado para uma missão fake com o único objetivo de despistar os alemães antes do desembarque das tropas aliadas (este evento passou para a história como o Dia D, não vamos confundir as letras). 


Quando voam as cegonhas - Jovem casal separado pela guerra. Se a premissa é comum, sua filmagem é incomum. Uma atriz incrível e uma fotografia fantástica, com ângulos inusitados e expressivos. Emocionante relato sobre as angústias e a força das mulheres que ficaram para trás na guerra.


A ponte da desilusão – No fim da II Guerra, um grupo de adolescentes alemães é subitamente recrutado para proteger uma ponte. A convocação deles acentua a insensatez de todas as guerras. Belo e trágico.


O Barco – E o ponto de vista dos alemães? Este filme se passa quase que inteiramente dentro de um submarino alemão, cuja tripulação não é constituída por demônios enlouquecidos, mas por seres humanos obedecendo a ordens e tomando decisões que envolvem riscos mortais inclusive para si mesmos. Ação e reflexão da loucura da guerra sem nenhum minuto entediante.

Roma Cidade Aberta – Uma cidade italiana lutando contra o exército inimigo com as únicas armas que lhe restam: a solidariedade e a abnegação em prol da liberdade. Representada por uma mãe coragem, um padre defensor dos direitos e um jovem grupo de resistentes, o filme é um milagre de técnica e emoção rodado com parcos recursos no calor da guerra.


Fugindo do Inferno – Irônico e épico ao mesmo tempo, narra com extremo vigor o plano de fuga de soldados confinados por nazistas num campo de prisioneiros. Atuações, montagem e trilha sonora primorosas.


A infância de IvanUm órfão de 12 anos serve de espião russo na II Guerra e vemos como a infância e a inocência são destruídas pela maldade da guerra dos adultos. Extraordinariamente bem filmado, tem um final sublime.
 



Noite e Neblina – O documentário francês Noite e Neblina (1955) foi o primeiro filme a enfocar o Holocausto. Utilizando imagens de arquivo que registraram as atrocidades nazistas contra os judeus, o diretor Alain Resnais alterna essas cenas absurdamente cruéis com imagens dos crematórios e campos de concentração, alterna o preto-e-branco de corpos jogados em covas coletivas com imagens coloridas das câmaras de gás vazias. O diretor procura os oficiais nazistas que perpetraram tamanho horror e ouve a mesma resposta deles: “Não sou o responsável”. Mas então, de quem é a culpa? Com apenas 32 minutos de duração, sem fotografia glamourosa, sem música lacrimogênea, esse filme deixa na mente a indignação e, principalmente, a avaliação de que um grupo social pode ser vitimado por meio do poder político e com a cumplicidade da maioria da população. 

22 abril, 2015

a lei musical da selva depois de 22 abril de 1500

Quando alguém gritou “Terra à vista” naquele de abril de 1500, os tripulantes de Pedro Álvares Cabral não faziam ideia de como seria a música dos nativos da terra de Santa Cruz. A primeira música que os exploradores ouviram quando chegaram aqui pode não ter sido a música da primeira missa rezada por esses lados do Atlântico. Pode ter sido um canto indígena.

O escrivão Pero Vaz de Caminha anotou isto em carta a El Rey: “Eles [os índios] folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita ... dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso...”

A epístola de Pero Vaz aos portugueses já adianta que o processo de submissão cultural dos nativos os levaria a praticar obrigatoriamente a música “dos nossos”, a música luso-europeia.

Os padres jesuítas, desde sua chegada em 1549, empregavam o canto como instrumento de catequese nas aldeias indígenas e seus aprendizes participavam das atividades musicais em missas e ofícios.

Imbuídos da missão de salvar as almas indígenas, eles utilizaram o canto e a prática instrumental para ensinar os princípios e valores cristãos, fazendo uma substituição de temas e melodias na prática musical dos nativos. Era assim que trabalhava o padre Aspilcueta Navarro, que, segundo o relato do padre Manuel da Nóbrega, “faz[ia] cantar aos meninos certas orações que lhes ensinou em sua língua”.

Mas já havia quem se queixasse da prática de colocar letra cristã em melodia da terra. Em carta de 1552 ao padre Manuel da Nóbrega, o bispo Pedro Sardinha reclamou que os meninos entoavam “cantares de Nossa Senhora em tom gentílico” [gentílico ainda era uma expressão usada para diferenciar cristãos e gentios ou não cristãos].

O padre Manuel da Nóbrega respondeu que uma forma de atrair os índios era “cantar cantigas de Nosso Senhor em sua língua e pelo seu tom”.

No fim, venceu o modelo de evangelização que recrutava as almas dos índios ao mesmo tempo em que descartava sua cultura musical. Assim, três anos após a chegada dos jesuítas, o método de catequese em que um texto cristão em língua indígena, como o tupi, era cantado com uma melodia também indígena foi proibido, passando a ser permitido apenas o método que utilizava um texto cristão em tupi cantado com melodia europeia, a música “dos nossos”.

Nesse sentido, as seguintes linhas da saudação angélica em tupi só poderiam ser cantadas com melodia europeia:
Sancta Maria Toupan su eieruré demembouira supé
tigburon oreue, ore memoan angat paua supé.
Emona ne toico Iesus.

Ao atribuir caráter pagão às sonoridades indígenas, exploradores e evangelizadores tiveram um bom motivo para promover a iniciação dos nativos em lições de instrumentos e melodias mais associadas à música sacra europeia. Ao mesmo tempo em que os índios ganhavam machados e violas do colonizador, eles se distanciavam de sua prática musical de origem.

Se a história se repete, ela se repete com variações, tendo em vista as interdições musicais modernas e o caso da proibição colonial de se cantar texto cristão com música nativa. Na nova lei da selva brasileira, prevaleceu a música do mais forte.




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Extraí as citações dos livros:
CASTAGNA, Paulo. Música na América Portuguesa. In: Moraes; Saliba. História e Música no Brasil. São Paulo: Alameda, 2010.
HOLLER, Marcos. Os jesuítas e a música no Brasil Colonial. Campinas: Editora Unicamp, 2010.