28 abril, 2011

música, sim. músicos, não

Todo mundo gosta de música. Já dos músicos... Nos tempos em que eu tocava em casamento, formatura e congêneres, por diversas vezes eu tive que explicar que eu não era da legião da boa-vontade, que eu não tocava por caridade. E o povo: "como assim ele cobra pra tocar em casamento?" O vestido, o bufê, as alianças, as flores, os convites, tudo isso é coisa que se paga. Mas pagar músicos?

Isso não é de hoje. Na Florença dos tempos medievais, o compositor Josquin des Prez, aclamado "príncipe dos compositores", perdeu emprego por saber quanto valia seu enorme talento. Em 1502, o duque de Ferrara contratou Heinrich Isaac em vez de Josquin graças a um relatório econômico bem conveniente: 

"Para mim [Isaac} parece mais adequado a servir Vossa senhoria, mais do que Josquin, porque é mais afável e amigável, e comporá obras novas com mais frequência. É verdade que Josquin compõe melhor, mas só compõe quando quer e não quando os outros querem, e está pedindo um salário de 200 ducados enquanto Isaac se contenta com 120".

A carta de Claudio Monteverdi (1567-1643) recusando uma proposta de emprego diz muito sobre as pretensões e desejos de um músico. Ele foi despedido pelo duque de Mântua em 1612, mas logo foi contratado como diretor musical da Basílica de São Marcos, em Veneza. Em 1619, a corte de Mântua tentou recontratá-lo, e é onde entra a carta de Monteverdi recusando o convite e explicando suas razões.

Primeira: dinheiro. Em Veneza, ele recebia 400 ducados, fora a autonomia que tinha para fazer outros trabalhos. Monteverdi expunha na carta a experiência de ter que implorar para receber o salário em Mântua ("Nunca em minha vida sofri maior humilhação do espírito").

Segunda: estabilidade. Ele não perdia seu cargo em Veneza se um mandatário do governo fosse substituído.

Terceira: controle. Como diretor musical (maestro di capella), Monteverdi decidia contratações e demissões e controlava as atividades de músicos e cantores.

Quarta: respeito. Diz a carta: "Não existe nenhum cavalheiro que não me estime e respeite, e quando vou tocar, seja música de igreja ou música de câmara, juro a Vossa Excelência que a cidade inteira vem correndo me ouvir".

A corte de Mântua engoliu calada. Já Johann Sebastian Bach não teve o mesmo respaldo. Quando tentou deixar o emprego na corte de Weimar por outra oferta mais interessante, Bach simplesmente foi preso, "confinado no local de detenção do juiz municipal por insistir obstinadamente na questão de sua demissão, sendo afinal libertado da prisão em 2 de dezembro [de 1717] com seu pedido indeferido".

Eu ainda não conhecia essa passagem infeliz da vida de Bach aos meus 16 anos. Se soubesse, talvez eu nem tivesse me queixado de ter sido esquecido na igreja após ter tocado numa cerimônia de casamento e ter que caminhar mais de cinco quilômetros por uma rodovia até o local da festa. Ah, sim, os noivos eram meus tios. O que me diz que essa história de geniozinho musical da família era uma embromação.

A imagem "Lego-Piano-Player" tirei daqui.
Citações dos livros "O triunfo da música" e "História social da música"

13 abril, 2011

12 filmes e uma sentença

O cineasta Sidney Lumet, falecido há uma semana, não fazia o tipo cool queridinho dos críticos nem inventava batalhas no espaço para estourar nas bilheterias terráqueas. Diretor de dramas morais, Lumet acordava consciências adormecidas para os perigos nucleares (Limite de Segurança), a intolerância (O Homem do Prego), a ética solitária contra sistemas corrompidos (Serpico, O Veredito), os bastidores escusos da TV (Rede de Intrigas), a notoriedade midiática do crime (Um Dia de Cão).

Tribunais são a arena onde a justiça nem sempre é a vencedora. Filmes de tribunal montam cenários onde a intolerância e a justiça, os valores monetários e os valores morais digladiam. O espectador só tem a ganhar assistindo filmes como esses:


Doze Homens e uma Sentença (1957): alguém disse que júri é um grupo que se reúne para decidir quem tem o melhor advogado. Nesse filme, a estréia de Sidney Lumet no cinema, um membro do júri se manifesta contrariamente a uma decisão e tenta convencer os outros de que mesmo vereditos unânimes podem ser falhos. Pena de morte, preconceito, honra, tudo filmado com atores excepcionais na sala do júri. Magnífico.

Testemunha de acusação (1957): Billy Wilder dirige a adaptação de uma peça de Agatha Christie. A união desses dois gênios não tinha como dar errado.

Julgamento em Nuremberg (1961): durante o julgamento por crimes de guerra, o advogado de líderes nazistas se põe a repetir as arengas do próprio Hitler. Até onde vai a responsabilidade do cumprimento do dever?

Anatomia de um crime (1959): o grande James Stewart vai defender um homem da acusação de assassinato. Um filme que testa o limite das noções de culpa e inocência. Um tanto longo, mas seja brasileiro, não desista e assista até o fim.

O Sol é para Todos (1962): um soberbo libelo antirracismo, com destaque para a integridade do advogado Atticus Finch e seu casal de filhos pequenos às voltas com a atmosfera de ameaça e preconceito que ronda sua casa. Inspirador.

Justiça para todos (1979): um advogado incorruptível tenta reforma o sistema judiciário de sua cidade. Só o baixinho Al Pacino para atuar como um gigante cutucando as onças corruptas com vara curta.

Kramer vs. Kramer (1979): o que poderia descambar para o mais descarado debulhador de lágrimas, resultou num bem temperado drama familiar sobre divórcio, infância e amor paterno. Mesmo assim, pais sensíveis, não esqueçam o lenço.

O veredito (1982): Paul Newman vive um advogado decadente que tenta dar volta por cima em um processo contra um grande hospital. Não vai ser fácil. Nem pra ele nem pro espectador. Mais um petardo de Sidney Lumet.

Questão de honra (1992): tribunais militares às vezes têm um senso muito peculiar de fazer justiça com as altas patentes. Tem Tom Cruise e Demi Moore na acusação, e por incrível que pareça, não força um romancezinho barato. E ainda tem Jack Nicholson. 

Em nome do pai (1993): pai e filho irlandeses são presos por ligações com um ataque do IRA. Mas a  confissão foi obtida sob tortura e uma advogada inglesa defende sua inocência. Emma Thompson desafiando o tribunal inglês é de arrepiar.

Amistad (1997): Steven Spielberg filma a história de escravos que se amotinaram, mas que acabam presos. Em uma nação dividida entre o Norte progressista e o Sul escravista, o tribunal vê entrar em cena o ex-presidente John Quincy Adams, que retorna da aposentadoria para encampar a luta dos escravos na corte.

O informante (1999): a luta desigual de dois homens contra a poderosa indústria tabagista. Um exame por dentro da coragem e do medo, da denúncia social e da proteção à própria família, da ética individual e das motivações dos executivos da TV e do mercado.

Jogada de gênio (2008): a história real de Bob Kearns, criador do temporizador do limpador de pára-brisas, que moveu ação contra a Ford Motors e a Chrysler por copiarem sua invenção, a chamada infração de patente. Hollywood adora encenar Davi contra Golias num tribunal.

Sentiu falta de filmes não-americanos? Tem o italiano Sacco e Vanzetti (1971) sobre dois imigrantes condenados à morte nos EUA, e O Processo de Joana d'Arc (1962), cujos diálogos vêm diretamente dos autos do famoso processo. Mas, convenhamos, os filmes de Roliúdi podem não passar na prova da OAB, mas de encenação de justiça (com trocadilho, por favor) eles entendem como ninguém.

10 abril, 2011

o elefante do terror na sala do brasileiro

Quando uma tragédia violentíssima acontece, como essa ocorrida numa escola municipal do Rio de Janeiro, nós queremos encontrar um sentido, uma explicação. Nessa hora, sempre aparecem maus jornalistas tecendo conexões apressadas.
No início da semana, a revista Veja fez matéria de capa sobre a presença da organização terrorista Al-Qaeda no Brasil. Estaríamos sediando prováveis homens-bomba?
Nessa quinta-feira, dia 7/04, Wellington Menezes de Oliveira invade uma escola municipal na Zona Oeste do Rio de Janeiro e mata 12 crianças. A partir da revelação do conteúdo de uma carta deixada por Wellington, a cobertura midiática encontrou pano pra manga fundamentalista.
A lógica conspiratória é: se a Al-Qaeda está no Brasil e se há uma chacina incomum nessas plagas, logo o atirador só pode ser um terrorista islâmico, certo? Errado. Por isso, jornalista apressado só entrega informação crua.
A única relação, ao menos por enquanto, entre uma ramificação do terrorismo islâmico e um massacre de crianças por um jovem ensandecido é que ambas as notícias revelam um fato: o terror está globalizado. Não apenas o terror de caracteres geopolíticos, mas o terror causado por um indivíduo sem motivações claras. Chacinas cometidas em colégios são algo que, para os brasileiros, só aconteciam nos Estados Unidos (ver os casos Columbine - 1999; Virginia Tech - 2007; e Chicago - 2008). Vê-las de perto nos deixa absolutamente perplexos.
Mídia que dá notoriedade a criminosos, como as reportagens vespertinas que entrevistam presos; facilidade no acesso a armas (como Wellington sabia manejá-las?); quadro aparente de patologia mental; adolescência marcada por extremismo religioso (isso explicaria sua obsessão por "pureza"?); ele se distanciava das pessoas ou as pessoas é que se distanciavam dele (ou as duas coisas)? Variáveis que criamos para dar sentido a essa tragédia.
Há uma corrente de estudos que classifica atos como esse do jovem Wellington de "violência pós-moderna". Segundo o antropólogo Roberto Albergaria, ela tem duas características: "a confusão entre o real e o imaginário (cada vez mais é o imaginário que vem da televisão) e a ausência de sentido". Uns matam por causa de dinheiro, outros matam para virar celebridades, e outros matam pela simples destruição. Este último caso é o mais complexo, porque não envolveria uma motivação clara.
Wellington queria virar celebridade? Ele queria vingar-se por ter sido rejeitado por um grupo social? Ele era um fanático religioso? Especialistas procurarão agora encaixar o assassino nos rótulos de psicótico, demente religioso, fanático, o que é natural em nossa busca de dar sentido aos fatos. Por outro lado, pessoas que o conheciam dizem que ele era alguém calado, vidrado em internet, sem amigos, mas também sem inimigos, enfim, um pacato cidadão.
Embora tenha ocorrido em lugares distintos, o ato hediondo de Wellington se parece com o dos garotos de Columbine. Jovens, bons estudantes, quietos, que conseguiram armamento facilmente, cuja soma do isolamento social com o gosto por games violentos resultou em um quadro de baixa autoestima, o que os levou a um surto de vingança contra a sociedade. É uma explicação que virou clichê, não?
Em 2003, o cineasta Gus van Sant dirigiu o filme Elefante, que retratava a tragédia de Columbine. O filme não é uma sucessão de cenas velozes de ação, nem tem mocinhos e bandidos com cada um em seu quadrado. Sendo um filme mais reflexivo, o filme não nos dá uma explicação fácil, mas nos leva a observar um conjunto de fatores que podem ter influenciado o terrível ato dos garotos. Eles não sobreviveram para dar explicações ao mundo de seus atos.
Por que "Elefante"? Aparentemente, devido ao ditado que diz que "há um elefante na sala de estar", ou seja, há um problemão em casa que todo mundo vê, mas ninguém se dá ao trabalho de entender como ele foi parar lá, nem acha que é seu trabalho tirá-lo da sala. Há problemas que dizem respeito à educação, à espécie de cultura midiática que temos, à falta de amizade verdadeira. Mas muita gente prefere dizer que o problema é de ordem religiosa, ressaltando sempre os extremismos e excessos de religiosos.
Os fatos, quaisquer fatos, mandam mensagens. Umas mais claras, outras menos. Cabe a sociedade saber interpretá-las e querer modificar-se. E até que Cristo venha para renovar este mundo, por Sua própria e gloriosa Pessoa e não pelos atos insanos de jovens armados, teremos de conviver com o incontrolável e com o que ainda não se pode conhecer.